Divisão do trabalho doméstico: a responsabilidade é de quem?

Veja como se desenharam os papeis de gênero ao longo dos séculos, a divisão dos espaços públicos e privados na sociedade e como isso se reflete na divisão do trabalho doméstico atualmente.

Durante muito tempo, os papéis sociais de homens e mulheres foram bem marcados na sociedade, cabendo a cada gênero responsabilidades, funções, desejos e comportamentos específicos. Enquanto os homens dominavam o espaço público, lugar do trabalho e da política, as mulheres “reinavam” no espaço privado, sendo responsáveis pelo trabalho doméstico e pelo cuidado dos filhos.

Essa rígida divisão de papéis durou alguns séculos e foi uma realidade na maior parte das sociedades ocidentais. Esta estrutura histórico-social, chamada de patriarcado, ainda reina em muitas sociedades.

Até as primeiras décadas do século XX, as mulheres, de modo geral, encontravam-se limitadas ao espaço privado e excluídas do espaço público. Eram impedidas de votar, de exercer profissões de prestígio e de opinar sobre qualquer assunto que estivesse fora do âmbito de suas funções de esposas, mães e donas do lar.

Guia da boa esposa: seja a esposa que ele sempre sonhou!
Guia da boa esposa: seja a esposa que ele sempre sonhou! Fonte: QG Feminista

As mulheres desenvolviam – e desenvolvem – o que hoje chamamos de trabalho doméstico, um trabalho não remunerado. O trabalho doméstico nunca foi remunerado porque nunca foi visto como um trabalho.

Ele era mais “dom”, uma obrigação ou um “agrado” aos maridos por “trabalharem tão duro e botarem comida na mesa da família”. Dentro deste trabalho está também o que algumas autoras vão chamar de trabalho emocional, que diz respeito ao provimento do afeto e a constante preocupação em agradar e em cuidar de família.

Com as transformações do capitalismo industrial, as mulheres começaram a ser incorporadas ao mercado de trabalho. A globalização e o surgimento dos movimentos sociais, como o movimento feminista, provocaram mudanças que se refletiram nas configurações familiares e na divisão de papéis de homens e mulheres, que hoje são menos fixos no espaço público, já que os dois gêneros passaram a ocupar este espaço. Como se sabe, hoje as mulheres trabalham em todos os setores e, inclusive, já são maioria nas universidades.

No espaço doméstico, contudo, as mudanças ainda são muito pequenas. Embora a maior parte das mulheres, no Brasil, hoje, trabalhe fora de casa, ainda é responsabilidade delas o trabalho doméstico. Na grande maioria dos lares, os homens, no máximo, “ajudam” suas esposas com a casa e com os filhos. Enquanto boa parte dos homens tem uma jornada de trabalho, a maioria das mulheres tem três, já que, além de trabalhar fora, precisam manter em ordem a casa e cuidar dos filhos.

O fato de as mulheres serem responsáveis pelo trabalho doméstico faz com que, ao mesmo tempo, os homens sejam desincumbidos de tais tarefas. Ou seja, enquanto as mulheres trabalham, cuidam da casa e dos filhos, os homens podem se dedicar ao trabalho remunerado e, assim, alcançar melhores salários e colocações no mercado.

Esse cenário faz com que se perpetue a desigualdade existente entre homens e mulheres no mercado de trabalho: mulheres ganham menos, ocupam menos cargos de direção e estão mais sujeitas ao desemprego.

Aí você pode pensar: “ah, mas as mulheres da casa e dos filhos porque querem, porque sabem fazer melhor”. Mas será que essas são realmente escolhas? Ou será que as mulheres são assim pois foram ensinadas desse modo desde crianças e constantemente são estimuladas pela família, pelo trabalho, pela sociedade e pela mídia a serem assim?

Uma coisa é fato: as mulheres estão exaustas. A divisão do trabalho doméstico ainda é pouco igualitária e o cuidado dos filhos, embora em muitos lares seja parcialmente dividido, ainda sobrecarrega as mulheres.

É claro que muitas famílias vivem realidades diferentes desta, onde há uma divisão justa e igualitária das tarefas domésticas e onde os parceiros desejam participar mais ativamente da criação dos filhos.

Existem também casos de mulheres que não trabalham fora ou trabalham em meio período e, por isso, tem mais tempo para dedicar-se ao trabalho doméstico.

Algumas mulheres, talvez, até prefiram estar mais tempo em casa com as crianças e não há problema algum nisso. O importante é que isso seja uma escolha e não o resultado de uma opressão.

Para saber mais sobre a divisão do trabalho doméstico e como argumentar sobre o tema na redação do Enem, assista ao nosso vídeo:

https://youtu.be/y9vX4-9plV0