O que são gírias e como usá-las?

Estude o que são gírias e como elas podem cair na sua prova do Enem e do vestibular!

Orrash! Que cosa linda. Falar sobre gíria e variações linguísticas é sempre muito divertido, tá ligado? Alguns textos que servem de questões para o Enem trazem essa peculiaridade do idioma. Vamos entender mais um pouco sobre Gírias, mô quiridu?

Uma das bandas mais famosas de Santa Catarina chama-se Dazaranha. E, já que o nosso assunto é gíria, podemos trazer alguns fragmentos de letras desta banda catarinense para compreendermos melhor o que vamos estudar nesta aula. Bora?

Veja este exemplo:

Oração varou no maral

E o vento soprou de terral

Oração varou no maral

e o vento virou

Pra cima da nossa praia

tem um tubo que da boca sai vapor

O cacimba do caiçara

Tem um tubo que da boca sai vapor

É o salão de festa a vapor

É o salão de festa

Esse fragmento é da música Salão de festa a vapor, gravada no disco Nossa Barulheira, de 2004. Talvez um leitor do nosso blog que não seja de Santa Catarina não saiba o que quer dizer e o vento soprou de terral.

Podemos até arriscar que mesmo quem mora em Santa Catarina, mas não tem contato com o litoral, não saiba o que os primeiros versos dessa música querem dizer.

Ah!, até o nome da banda, Dazaranha, é resultado de uma gíria. Ficou com vontade de saber o que é? Ao decorrer desta revisão, traremos as explicações.

Por enquanto, se quiser animar um pouco mais essa revisão e ouvir mais gírias, curta um pouco a música do Dazaranha:

Pra início de conversa, língua e idioma

Língua nada mais é um código, um conjunto de sons e sinais dentro de uma convenção, ou seja, um combinado entre um grupo de falantes.

No entanto, como estamos falando de organismos vivos, as línguas são, sim, vivas, e de maneira bem particular. No que tange ao uso coloquial, esse código, representado por palavras e regras combinatórias, não é um sistema cristalizado.

Este código se modifica de algumas maneiras:

Historicamente:

quando incorpora termos – palavras, expressões – de outros idiomas;

Geograficamente:

quando adota termos – palavras, expressões – que servem para, por exemplo, nomear algum fenômeno natural.

Socialmente:

quando um grupo de falantes assume termos – palavras, expressões – que são comuns àqueles falantes que pertencem a um grupo particular. Como por exemplo, a galera do skate ou os craques do futebol amador.

Então, num primeiro momento, podemos concluir que um idioma é resultado das circunstâncias históricas, culturais e sociais do povo que o usa para a comunicação. Fácil, né?

Tá, mas e as gírias?

Se formos correndo aos dicionários, teremos, no mínimo, uma definição em comum: a gíria é um dialeto social. Dentro do campo da Linguística, também é comum encontramos uma definição parecida.

Os linguistas defendem que gíria é um dialeto social mais reduzido ao léxico, usado em uma determinada camada da sociedade. Por ser usada por um grupo menor dentro de um grupo maior, sua finalidade é só ser compreendida por quem faz parte deste grupo menor.

Pense na sua sala de aula, no seu local de trabalho ou no lugar onde você pratica algum esporte. Em todos esses ambientes, todas a pessoas falam o mesmo idioma que você, certo?

Fazendo recorte ainda menor. No seu local de trabalho deve existir algumas expressões que não são usadas em sua sala de aula, porque não seriam completamente compreendidas dentro de um contexto.

Um professor de língua portuguesa que quer elogiar a participação positiva de um aluno em sala de aula pode até dizer “Parabéns, você acaba de desbloquear uma conquista rara”, mas só será entendido por aquelas pessoas que jogam videogame.

Não pense que as gírias só existem em determinadas classes sociais, pois elas ocupam lugar na fala de todo e qualquer grupo social. Ela é tão viva como a língua.

Gírias versus Regionalismo

É sempre bom lembrar que uma galera confunde o conceito global de gíria com regionalismos e coloquialismos. Isso traz uma generalização desse conceito, e cria uma certa confusão nos usuários da língua.

Todavia, caro(a) estudante, conforme observado nos verbetes dos dicionários, as gírias funcionam como uma espécie de “códigos secretos” para um determinado grupo manter suas interações na fala.

Por isso, podemos dizer que, sim, há uma diferença entre gíria e regionalismo porque esse é resultado única e exclusivamente de demarcações linguística-geográfica.

Lembra da música?

Oração varou o maral / e o vento soprou de terral.

Varar é uma gíria que significa “atravessar”, “romper”, algo nesse sentido.

Maral/terral são regionalismos, pois se referem o modo como vento sopra.

O vento maral sopra do mar em direção à terra. Já o terral sopra da terra em direção ao mar. O terral é o preferido pela maioria dos surfistas.

Já o nome da banda, Dazaranha, é uma gíria quem tem a ver com uma das ilhas que formam Floripa, chamada Ilha das Aranhas.

Em uma de suas entrevistas, o músico Moriel Costa explica que “das Aranhas” era o surfista, ou quem quer que fosse, que ficasse na ilha por um ou dois dias para pegar onda e curtir o local.

Agora, ficou fácil! Alguém fez uma oração para que o vento mudasse a direção e fosse mais de boa para os surfistas pegarem suas ondas.

Espalhando as gírias

Quem ajuda muito na divulgação – e até na criação – de várias gírias é a mídia, em especial a televisão.

As novelas, em especial, espalham muitas das gírias usadas por nós, fazendo com que sejam nossas conhecidas. Isso acaba deixando com que pertençam apenas àquele determinado grupo social que os personagens pertencem.

Isso se apresenta como um dos vários motivos da generalização do conceito global de gíria. Uma vez que o grupo fechado, como a telenovela, por exemplo, foi exposto, tornou-se comum e acessível.

Assim, ela deixou de ser um grupo privado, por assim dizer, no qual apenas quem faça parte dele pode interagir e ter contato com aquele vocabulário.

Devemos entender e reconhecer que a gíria já se incorporou a algumas variedades de termos e dialetos sociais. Podemos, hoje, tranquilamente, utilizá-las em alguns ambientes de interação, seja escrita ou falada, mais cultos e conservadores.

Com isso, fica evidente uma outra visão e aceitação do conceito de gírias, de seu uso e de sua aplicabilidade.

Se antes, a gíria era vista como uma linguagem de malfeitores – alguns dicionário ainda trazem essa definição – sua crescente permissão dentro da cultura de massa e sua aceitação na norma linguística da mídia, nos exemplos de vocábulos que já perderam sua significação secreta de grupo, incorporando-se à linguagem comum, favoreceu decisivamente para que o preconceito linguístico tivesse – e esperamos que continue – perdendo espaço entre os falantes.

Para finalizar, veja se você reconhece alguma dessas gírias.

Canhão: quem não é bonito, é muito feio;

Duro: sem dinheiro;

Grana: dinheiro;

Muquirana : quem é avarento ou economiza dinheiro ao extremo;

Nanico: quem tem aparência ou tamanho de anão;

Parasita: quem vive às custas de outro se gerar nenhum benefício;

Pirralho: menino, criança

Porre: pode ser aquele estado de ressaca, depois de exagera na bebida ou uma tarefa tediosa

Boiar: quem não entende do assunto ou quem não acompanha o Curso Enem Gratuito, boia no conteúdo.

Para não boiar em português, veja esta videoaula do canal O Magriço Cibernético:

E, para fechar sua revisão, detone os exercícios que escolhi para você:

TEXTO: 1 – Comum à questão: 1    

Um dia, recebi um telefonema do meu querido amigo Roberto Carlos. Ele queria saber se poderia usar, na mesma quadra de uma de suas composições, pronomes misturados de 2ª e 3ª pessoas. Mesmo sabedor da liberdade literária, que é dada aos poetas, disse ao nosso maior cantor que era preferível acatar a concordância pronominal, empregando em cada quadra um só tratamento. É isso aí, bicho.

(Arnaldo Niskier. Na ponta da língua, 2001.)

Questão 01)

Considerado o registro de linguagem, a citação da frase de Roberto Carlos — “É isso aí, bicho” — tem a função de

a) confirmar a ideia de que é possível misturar pronomes de 2ª e 3ª pessoas, como sugere o cantor.

b) romper com a formalidade da explicação, já que se recupera uma gíria que notabilizou o cantor.

c) mostrar que o cantor é um sabedor da liberdade literária e, por essa razão, pode recorrer a ela.

d) enaltecer o poder de criação do cantor, mas reprovar o uso indistinto de pronomes de 2ª e 3ª pessoas.

e) desqualificar a linguagem coloquial como forma legítima de expressão, mesmo a do cantor.

Gab: B

TEXTO: 2 – Comum à questão: 2

A velha contrabandista

Stanislaw Ponte Preta

232 Diz que era uma velhinha que sabia andar 233 de lambreta. Todo dia ela passava pela 234 fronteira montada na lambreta, com um 235 bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da 236 Alfândega – tudo malandro velho – 237 começou a desconfiar da velhinha.

238 Um dia, quando ela vinha na lambreta com 239 o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou 240 ela parar. A velhinha parou e então o fiscal 241 perguntou assim pra ela:

242 – Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa 243 por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. 244 Que diabo a senhora leva nesse saco? 245 A velhinha sorriu com os poucos dentes que 246 lhe restavam e mais os outros, que ela 247 adquirira no odontólogo e respondeu:

248 – É areia!

249 Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não 250 era areia nenhuma e mandou a velhinha 251 saltar da lambreta para examinar o saco. A 252 velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e 253 dentro só tinha areia. Muito encabulado, 254 ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela 255 montou na lambreta e foi embora, com o 256 saco de areia atrás.

257

Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez 258 a velhinha passasse um dia com areia e no 259 outro com muamba, dentro daquele maldito 260 saco. No dia seguinte, quando ela passou 261 na lambreta com o saco atrás, o fiscal 262 mandou outra vez.

Perguntou o que é que 263 ela levava no saco e ela respondeu que era 264 areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. 265 Durante um mês seguido o fiscal 266 interceptou a velhinha e, todas as vezes, o 267 que ela levava no saco era areia. 268 Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

269 – Olha, vovozinha, eu sou fiscal de 270 alfândega com 40 anos de serviço. Manjo 271 essa coisa de contrabando pra burro. 272 Ninguém me tira da cabeça que a senhora é 273 contrabandista.

274 – Mas no saco só tem areia! – insistiu a 275 velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o 276 fiscal propôs:

277 – Eu prometo à senhora que deixo a 278 senhora passar. Não dou parte, não 279 apreendo, não conto nada a ninguém, mas 280 a senhora vai me dizer: qual é o 281 contrabando que a senhora está passando 282 por aqui todos os dias?

283 – O senhor promete que não “espaia”? – 284 quis saber a velhinha.

285 – Juro – respondeu o fiscal.

286 – É lambreta.

PRETA, Stanislaw Ponte. Primo Altamirando e elas. São Paulo: Agir, Martins Fontes, 2008.

Questão 02)

No texto de Stanislaw Ponte Preta, aparecem com frequência expressões da fala popular, a exemplo de “tudo malandro velho” (Ref. 236), “muamba” (Ref. 259) e “manjo…pra burro” (Refs. 270-271). Sobre esta questão, leia as afirmações que seguem.

I. Este tipo de linguagem revela, no texto, uma escrita marcada por um estilo coloquial através do uso consciente de gírias e expressões tiradas da fala informal.

II. Expressões da fala coloquial, como as usadas no texto A velha contrabandista, são próprias da crônica, que é um gênero que se utiliza de alguns recursos típicos da oralidade para dar maior dinamicidade ao texto.

III.   As expressões coloquiais utilizadas no texto, na verdade, mostram uma escrita desleixada do autor que não domina o registro padrão da língua portuguesa.

IV. O emprego destes coloquialismos podem contribuir para o caráter humorístico da crônica. Está correto o que se afirma em

a) I e III apenas.

b) II, III e IV apenas.

c) I, II e IV apenas.

d) I, II, III e IV.

Gab: C

TEXTO: 3 – Comum à questão: 3

O aniversário

Plínio Marcos

O Zé Mané levava uma vida de lascar. Nem de leve pegava maré mansa. Seu trampo era pesado paca. Das oito da matina às seis da tarde debaixo de sacaria. Uma puxeta de entortar qualquer patuá. E o salário, claro que era o mínimo.

Daí, já viu. Com a vida custando os olhos da cara, o Zé Mané mal podia pegar uma gororoba. Pagava oitenta jiripocas por uma vaga num quarto com mais três parceiros para ter onde encostar o cadáver.

E o que sobrava era pra comer. Mas sobrava tão pouco. Na verdade, o Zé Mané só rangava todos os dias porque o Seu Joaquim Portuga, dono do boteco do pedaço, era um chapa pontafirme e fiava o sortido pra curriola a perigo. E essa era a sorte selada do Zé Mané.

Uma zorra sentida. Apesar de ter nascido com o urubu plantado no seu destino, o Zé Mané, quando fazia aniversário, gostava de se embandeirar, comemorar de se esbaldar e os cambaus. Sempre fora assim. Desde pequeno, considerava o dia do seu aniversário um dia sagrado.

Não trabalhava nesse dia, nem nada. Só enchia a caveira de cachaça. E, quando fez trinta anos, não deu outra coisa. O Zé Mané já amanheceu ligado. […]

(Plínio Marcos. Disponível em: contos brasileiros)

Questão 03)

Considerando a linguagem utilizada por Plínio Marcos no fragmento anterior, é CORRETO afirmar:

a) O autor recorreu a gírias e ao registro informal da Língua Portuguesa.

b) O autor recorreu a gírias e ao registro formal da Língua Portuguesa.

c) O autor recorreu ao regionalismo e à Norma Padrão da Língua Portuguesa.

d) O autor recorreu a expressões próprias do linguajar culto.

e) O autor recorreu aos ditos populares nordestinos a fim de se aproximar do público.

Gab: A

Compartilhe: