Saiba quem é Kierkegaard e o que é existencialismo cristão

Søren Kierkegaard (1813–1855) foi um filósofo dinamarquês que dedicou-se ao estudo da ética, da religião, da moral cristã e da investigação de nossa existência.

O existencialismo é uma corrente filosófica que consiste na reflexão metafísica da existência humana sob a luz da liberdade das nossas escolhas. Essa corrente se tornou conhecida após ser adotada por alguns intelectuais franceses, como Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Já o chamado existencialismo cristão, estudado por Kierkegaard, é uma variação do existencialismo.

Como o nome sugere, ele integra a teleologia cristã – uma vez que possui uma série de pressupostos e teorias que fazem parte do cristianismo – para fundamentar sua reflexão acerca da existência humana.

O responsável pelo desenvolvimento dessa variação do existencialismo foi o dinamarquês Søren Kierkegaard (1813 – 1855), um filósofo que dedicou sua vida ao estudo da ética, da religião, da moral cristã e da investigação de nossa existência.

Quem foi Søren Kierkegaard

Kierkegaard, assim como boa parte dos filósofos que se tornaram famosos, vinha de uma família rica. Por conta disso, foi possível que ele estudasse na Universidade de Copenhague durante a chamada era de ouro da cultura dinamarquesa.

Através de sua rica formação, ele teve contato com diversos pensadores. Um exemplo é Immanuel Kant, que escreveu a “Crítica da Razão Prática”, obra que discute a importância da liberdade nas nossas escolhas morais.

Além de Kant, o jovem Kierkegaard também estudou outros filósofos importantes da época, incluindo os autores do idealismo alemão, um movimento filosófico que tinha Georg Hegel como um de seus principais expoentes. Foi justamente o modelo apresentado por Hegel que deixou o jovem Søren inquieto.

soren kierkegaardFigura 1: Søren Aabye Kierkegaard foi um filósofo, teólogo, poeta e crítico social dinamarquês.

“Saca só”, Helgel propôs, em seu complexo sistema filosófico, a existência de uma consciência histórica – Geist – que influencia a maneira que vivemos. Essa consciência histórica é a responsável pela relação entre a consciência do indivíduo e o mundo onde ele se encontra.

De acordo com Hegel, o ser humano seria parte de um desenvolvimento histórico irrevogável, no qual as pessoas são parte de um processo histórico dialético. Essa “parada” deixava Kierkegaard “pistola”, pois ele não curtia muita a ideia de sermos determinados por algo externo. Tampouco ele concordava com as explicações hegelianas a respeito do ser humano enquanto parte de um sistema filosófico maior.

Kierkegaard e a liberdade do ser

Em vez dessa visão que ignorava a existência concreta do indivíduo, Kierkegaard começou a se aventurar na busca acerca do que é ser um ser humano sob um viés mais subjetivo. Isto é, ele rompeu com o pensamento sistemático hegeliano e lançou uma investigação do ser humano como indivíduo autônomo.

Dessas investigações ele concluiu que somos seres providos de liberdade, algo que é particular de nossa espécie. Portanto, na visão de Kierkegaard, a característica que define um ser humano é a liberdade. Assim sendo, cada ser humano é algo exclusivo, não cabendo dentro de uma análise sistemática.

Em outras palavras, é por conta dessa liberdade que nós agimos sendo que nossas vidas são, por consequência, fruto dessas ações. Ora, diferente de Hegel, que dizia que essas ações eram deliberadas pelas condições históricas em que os indivíduos se encontravam, Kierkegaard dizia que nossas escolhas são livres e individuais.

Georg HegelFigura 2: Georg Wilhelm Friedrich Hegel foi um filósofo alemão cujo sistema filosófico se tornou um marco na filosofia e inspirou diversos pensadores.

A influência do cristianismo

A família de Kierkegaard era cristã e, por isso, ele recebeu desde cedo uma educação religiosa. Entretanto, o dinamarquês não enxergava que o cristianismo era praticado de maneira satisfatória pela Europa.

O cara viveu em uma época de incertezas sobre a fé cristã e passou a estudar com mais afinco o tema. Então, juntando sua crítica aos grandes sistemas filosóficos de outrora com uma análise do cristianismo, Kierkegaard deu origem ao chamado existencialismo cristão.

Os existencialistas, de maneira geral, entendem o mundo como algo sem sentido. Meu “camarada” Camus, inclusive, criou até uma denominação para essa “parada”, ele chamou de “o absurdo”. Esse conceito define a “treta” entre a nossa propensão de buscar um significado inerente à vida e a nossa incapacidade de encontrar esse significado.

O conceito de Camus não é exatamente o que Kierkegaard entendia por existencialismo. Mas, de maneira geral, ambas as vertentes compartilham de muitas coisas. Para Kierkegaard, essa nossa incapacidade de compreender as “paradas” se aplicava (principalmente) no que diz respeito à religião.

O exemplo maior disso, segundo o dinamarquês, é a figura do meu “parceiro” Jesus Cristo. Segundo a teologia cristã, J.C. é o filho de Deus, mas mais do que isso, o cara é a união entre Deus e o homem. Ora, essa união está além da compreensão humana e, portanto, é algo paradoxal.

O que é existencialismo cristão

O existencialismo cristão consiste em termos consciência de nossas escolhas. Isso se dá quando os seres humanos deixam de ser sujeitos óbvios para eles mesmos e passariam a questionar sua existência perante a criação.

Essa ideia foi desenvolvida por Kierkegaard. Para ele, nós deveríamos ser responsáveis por nossas escolhas, visto que somos sujeitos livres. Ora, enquanto seres humanos buscamos agradar ao nosso criador e nada pode interferir com essa responsabilidade. Portanto, cada indivíduo deveria agradar a Deus de maneira livre, pois estaria liberto das imposições estruturais da sociedade.

Todavia, é uma “parada” complicada essa tal de liberdade, já que podemos escolher fazer ou não fazer as coisas, sejam elas o que forem. “Rola”, então, uma certa vertigem perante essa liberdade, isto é, um sentimento de angústia que nos acompanha após nos depararmos com a liberdade absoluta.

Embora essa denominada “vertigem da liberdade” seja algo que cause certo desespero, ela não é completamente negativa, uma que vez que nos proporciona uma maior compreensão das nossas escolhas. Isso porque o leque de possibilidades é quase infinito, o que aumenta nossa consciência acerca da responsabilidade pessoal das nossas escolhas.

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As esferas da existência

Com base nisso, Kierkegaard elaborou uma teoria que separava a existência em três esferas. São elas: a estética, a ética e a religiosa.  Essa distinção se dava de acordo com o comportamento humano, isto é, de acordo com nossas escolhas frente ao amplo leque que a liberdade nos proporcionou.

Na esfera estética ele enquadrou as pessoas mais simples, que buscam apenas a satisfação dos seus desejos. Já na esfera ética, o filósofo delimitou aquelas pessoas que agem conforme o bem estar social, sempre procurando fazer a coisa certa.

A última esfera, a religiosa, seria aquela onde seus integrantes se caracterizariam por uma busca da existência através da fé. As pessoas deveriam se entregar a Deus e na totalidade do seu ser contemplar a existência perante o suposto criador.

Frase de KierkegaardFigura 3: Embora não tenha perdido a fé em Deus, Kierkegaard era um dos maiores críticos da Igreja. Em 1855, o filósofo caiu inconsciente na rua e veio a falecer um mês depois.

Por fim, ainda que ele tenha permanecido cristão e não abandonado sua fé, suas ideias foram muito além. Isso porque filósofos como Martin Heidegger, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e muitos outros se inspiraram nessa “parada” da percepção da autoconsciência para desenvolver uma reflexão não religiosa sobre a existência humana.

Exercícios:

Agora é contigo, tente responder as questões a seguir:

Questão 1

Leia as afirmações abaixo: a respeito da obra do filósofo Søren Aabye Kierkegaard.

I) O dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard é considerado o pai do racionalismo. Sua frase mais conhecida é “Penso, logo existo”.

II) O pensamento de Søren Aabye Kierkegaard é marcado pelo objetivismo. Para ele, a filosofia deveria ser demonstrada por argumentos lógicos.

III) A filosofia de Søren Aabye Kierkegaard é sistemática e pretende incluir em um sistema integrado todas as grandes questões da filosofia.

IV) A problemática central de Søren Aabye Kierkegaard consiste na irracionalidade de nossa experiência do real; tinha uma preocupação filosófica com o “tornar-se cristão”.

V) A filosofia de Søren Aabye Kierkegaard apresenta um vocabulário técnico que possui um sentido próprio no interior de sua obra. Para compreender o que um conceito significa é preciso entender toda a sua obra.

Com base nas afirmações acima, estão corretas:

a) Apenas I e IV;

b) Apenas II e IV;

c) Apenas IV;

d) Apenas II, III e V;

e) Apenas I, II, III e V.

Questão 2

O filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard identificou três estádios distintos ou modos de existência. São eles:

a) Empírico, racionalista, existencialista;

b) Científico, religioso, jurídico;

c) Estético, ético, religioso.

d) Ético, jurídico, existencialista;

e) Estético, técnico, filosófico;

Questão 3

A religiosidade tinha uma grande relevância para o filósofo Søren Aabye Kierkegaard, e isso está relacionado ao seguinte fato da sua vida:

a) O filósofo, ateu na juventude, teve uma enfermidade física. Depois de uma cura milagrosa, converteu-se ao cristianismo.

b) O filósofo recebeu, na infância, uma educação religiosa rigorosa por parte de seu pai, Michael Pedersen. O pai de Kierkegaard nasceu e viveu seus primeiros anos de vida na Jutlândia e a expressão religiosa jutlandesa era marcada por um pietismo triste e ancorada na culpa e no medo da punição.

c) O filósofo, após a morte do pai, Michael Pedersen, ficou muito pobre e precisou trabalhar como pastor para terminar seus estudos de filosofia e teologia, como também para garantir sua subsistência. Mesmo assim, não se converteu ao cristianismo e, por isso, dissemos que seu existencialismo é ateu.

d) O filósofo, abandonado pela noiva Régine Olsen, encontrou na religião uma forma de se recuperar da decepção amorosa. Depois de se converter, tornou-se pastor, casou-se com uma mulher que trabalhava como doméstica em sua casa e foi pai de sete filhos.

Gabarito

  1. C
  2. C
  3. B

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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