Movimentos messiânicos: As revoltas populares no campo

No início do século XX ocorreram revoltas em diferentes regiões do Brasil que ficaram conhecidas como “Movimentos Messiânicos”. Descubra quais foram os motivos destes conflitos e porquê eles não se resumiam somente à religião.

Os movimentos messiânicos no Brasil foi o nome dado às revoltas populares no campo que aconteceram no Brasil no final do século XIX. O período está entre a república oligárquica da política do café com leite. As revoltas marcaram grandes mudanças no cenário político e social do país na época e até hoje é lembrada.

Importante lembrar que no final do século a proclamação da República foi no dia 15 de novembro de 1889. A nova forma de governo sucedeu a monarquia imperial de Bragança. Sendo assim, o projeto político para o novo país era disputado por duas doutrinas:

  1. A positivista, popular nas faculdades de direito e difundida no meio militar por figuras como Benjamin Constant;
  2. A liberal oligárquica, defendida pela elite de coronéis e baseada no individualismo e sem preocupação com o bem estar coletivo.

Vamos ver agora como os movimentos messiânicos aconteceram no Brasil e quais foram os seus impactos.

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O contexto dos movimentos messiânicos no Brasil

Em meio ao fim da república, o projeto liberal acaba tendo maior proeminência, apesar de traços positivistas poderem ser identificados tanto na bandeira como na primeira constituição republicana de 1891. Em suma, esse período que vai de 1889 até 1930 é conhecido como República Velha ou República Oligárquica. Este nome tem relação com a preocupação política de manter os privilégios das elites agrárias, principalmente aquelas
ligadas à economia cafeeira e localizadas no sudeste no Brasil.

Dessa maneira, podemos dizer que não havia uma preocupação com instituições públicas voltadas para a melhoria de vida da população. O voto era restrito aos homens alfabetizados e não era secreto, o que possibilitava a prática do voto de cabresto, onde jagunços acompanhavam os eleitores para favorecer seus patrões.

Tal cenário provocou uma série de fenômenos, como a Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata e os Movimentos Messiânicos. A seguir falaremos um pouco sobre os três movimentos messiânicos mais conhecidos deste período que, para além do caráter religioso, estavam profundamente associados aos problemas sociais da República Velha.

Movimentos messiânicos: Canudos

fotografia do corpo de Antônio Conselheiro, em 1897. Líder de um dos movimentos messiânicos mais famosos do BrasilFotografia do corpo de Antônio Conselheiro, em 1897. A autoria da fotografia é atribuída à Flávio de Barros.

Ainda no século XIX, formou-se no interior do norte da Bahia uma cidade, cujos princípios e forma de organização, iam contra a lógica liberal vigente no país. A cidade foi fundada em 1893 no Arraial de Canudos por Antônio Conselheiro, um peregrino que vagava pelo sertão nordestino.

Conselheiro já havia sido comerciante, professor e caixeiro-viajante, mas só assumiu a vida de andarilho após ser liberado pela justiça por falta de provas em relação à acusação de ter matado a própria mulher e a própria mãe. Reunindo seguidores por onde passava, Conselheiro construiu uma igreja na antiga fazenda Belo Monte, dando início ao povoado.

O início e fim de Canudos

Em Canudos vigorava a divisão de bens e tarefas, incluindo a terra. Conselheiro era crítico da República, mas não tinha como objetivo restaurar a monarquia no país, como depois o governo o acusou. Dessa maneira, em 1896 ocorreram conflitos entre os sertanejos, também chamados de jagunços, e forças policiais da Bahia.

Após a resistência dos moradores, o exército foi convocado. Na imprensa foi promovida uma grande campanha difamatória contra o povoado, para assim justificar a intervenção militar. É importante ressaltar que o presidente nessa época era Prudente de Moraes que não era um militar como Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

Por conseguinte, em março de 1897 é enviada uma expedição com 6.500 soldados para destruir canudos. O exército usa a tática de cerco, e após instalar uma metralhadora no alto de uma colina, sitia a cidade, que é alvejada com tiros e disparos de canhões.

Ao final do conflito, o que sobrou da população, um bando de crianças, mulheres e idosos famintos, acabou se rendendo. Ainda assim, muitos foram degolados pelos militares. Tamanha barbárie impactou o jornalista Euclides da
Cunha, que após o conflito publicou o livro Os Sertões, baseado em sua experiência como correspondente.

Dica: Revise este conteúdo com o sobre Canudos do canal Nerdologia, apresentado pelo historiador e professor de história, Filipe Figueiredo:

Movimentos messiânicos: Contestado

Grupo de rebeldes do reduto Antônio Tavares aprisionado pela Coluna de Leste, destacando-se a presença de mulheres e crianças. Fonte: Arquivo Histórico do Exército. Líderes e soldados de um dos movimentos messiânicos mais proeminentes, o ContestadoGrupo de rebeldes do reduto Antônio Tavares aprisionado pela Coluna de Leste, destacando-se a presença de mulheres e crianças. Fonte: Arquivo Histórico do Exército.

Já na segunda década do século XX, no sul do Brasil, inicia-se em outubro de 1912 um conflito que fez parte dos movimentos messiânicos na época. Localizado na divisa entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, a região das agitações é conhecida como Contestado. O nome foi atribuído em virtude da disputa jurídica entre as autoridades dos dois estados devido a produção madeireira e de erva-mate.

Porém, o início das tensões residia na expropriação da terra de pequenos posseiros conhecidos como caboclos ou sertanejos. A construção da Ferrovia Rio São Paulo pela empresa Brazil Railway, ligada a Percival Farquhar (leia-se Farcuar), um conhecido empresário estadunidense, atenuou os problemas envolvendo a terra. O governo teria concedido a empresa o direito de exploração de até 15km de cada margem da ferrovia.

Acontece que nessa área morava uma grande população de posseiros, que acabaram expulsos para dar lugar à extração madeireira e para a colonização da terra por parte de imigrantes europeus. Os caboclos, por sua vez, compunham uma população muito religiosa e eram devotos de monges que circularam pela região no passado, que também pregavam princípios de solidariedade e coletividade.

O último desses monges, um homem chamado José Maria, reuniu seguidores assim como Antônio Conselheiro fez em Canudos, mas diferentemente do nordestino, ele acabou morrendo no primeiro conflito.

A Guerra do Contestado

A partir da morte de José Maria, os caboclos passaram a formar redutos que consistiam em cidades santas. Ali, seus novos líderes afirmavam ser guiados por mensagens espirituais dos falecidos monges. Inicialmente as forças policiais de Santa Catarina e do Paraná junto com a força de segurança das empresas que atuavam na região e dos jagunços dos coronéis locais, combateram os caboclos. Esses mantiveram postura defensiva até 1914, quando começaram a contra-atacar.

Sendo assim, duas expedições do exército foram convocadas para dar fim ao conflito. A última delas, em setembro de 1914 foi comandada pelo General Setembrino de Carvalho, que organizou um cerco controlando o fluxo de pessoas e restringindo a entrada de suprimentos. Com o passar do tempo os redutos passaram a se render, o que também não evitou a degolação de muitos sertanejos, assim como aconteceu em Canudos.

Dica: Sobre a Guerra do Contestado ouça o episódio 007 do podcast História FM, apresentado pelo historiador e professor de história Icles Rodrigues. No episódio, Icles entrevista dois dos principais pesquisadores sobre o conflito do Contestado, Paulo Pinheiro Machado e Rogério Rosa Rodrigues.

A Sedição de Juazeiro

Fotografia colorida de 28 de setembro de 2006, de autoria de Lourenço Torres, mostrando a grande estátua do Padre Cícero em Juazeiro do Norte, no Estado do Ceará.Fotografia colorida de 28 de setembro de 2006, de autoria de Lourenço Torres, mostrando a grande estátua do Padre Cícero em Juazeiro do Norte, no Estado do Ceará.

Próximo à região de Canudos, surge na cidade de Juazeiro, uma outra liderança religiosa, desta vez integrante da igreja católica. Trata-se do Padre Cícero Romão Baptista. Cícero ganha notoriedade após afirmar que recebeu de Jesus, por meio de sonho, a missão de salvar o mundo e os homens dos pecados que afligem seu coração.

O padre então fixa-se em Juazeiro, onde passa a abrigar fiéis de diversas regiões, mas principalmente do nordeste. A cidade então ganha proeminência, tornando-se conhecida como Nova Jerusalém e passando a ser afetada pela disputa política de coronéis do Ceará.

Fiéis ao governo cearense de Antônio Nogueira Acióli, os moradores de Juazeiro são pressionados por Franco Rabelo, seu oposicionista eleito em 1912. A pressão do presidente do Estado aumenta no final de 1913, quando é realizada em Juazeiro uma assembleia de oposição ao seu governo.

Consequentemente, ele envia tropas para dar fim ao encontro. Floro Bartolomeu, figura ligada ao padre Cícero, foi indicado como presidente provisório pela assembleia de deputados dissidentes de Rabelo. Após resistirem ao ataque, os revoltosos chegaram à Fortaleza, onde foram apoiados pelo Senador gaúcho Pinheiro Machado, que enviou uma tropa federal. Setembrino de Carvalho, o general do Contestado foi nomeado interventor do Ceará.

Diferentemente dos movimentos messiânicos que aconteceram em Canudos e no Contestado, que lutavam por melhorias na qualidade de vida e por uma sociedade igualitária, a Sedição de Juazeiro não foi destruída e nem derrotada.

Video-aula

Aprenda mais sobre a Sedição de Juazeiro com este documentário produzido pela TV Assembleia do Ceará:

Exercícios

Questão 01 – (UECE/2019)
Sobre o episódio conhecido como A Sedição de Juazeiro, é correto afirmar que:

a) apesar de a motivação política ter-se originado na capital do estado, Fortaleza, os eventos da Sedição de Juazeiro ocorreram apenas na região do Cariri cearense, principalmente nas cidades de Juazeiro do Norte, Crato e
Barbalha.
b) a luta dos Sediciosos contra os Rabelistas ultrapassou os limites do Cariri, os revoltosos marcharam sobre Fortaleza, derrubaram o governo de Franco Rabelo e reestabeleceram os interesses das oligarquias cearenses.
c) a participação de Pe. Cícero Romão Batista neste episódio foi bastante limitada, pois Floro Bartolomeu, político amigo do padre, apoiava Franco Rabelo e se opôs à participação do líder religioso no conflito contra o governo.
d) mesmo tendo uma importância simbólica, a Sedição de Juazeiro não influiu na política local, uma vez que a imposição de um governo ligado à Política das Salvações não alteraria o controle do poder no estado do Ceará.

Questão 02 – (UNESP SP/2018)
Entre as manifestações místicas presentes no Nordeste brasileiro no final do Império e nas primeiras décadas da República, identificam-se

a) as pregações do Padre Ibiapina, relacionadas à defesa do protestantismo calvinista, e a literatura de cordel, que cantava os mitos e as lendas da região.
b) o cangaço, que realizava saques a armazéns para roubar alimentos e distribuí-los aos famintos, e o coronelismo, com suas práticas assistencialistas.
c) a liderança do Padre Cícero, vinculada à dinâmica política tradicional da região, e o movimento de Canudos, com características de contestação social.
d) a peregrinação de multidões a Juazeiro do Norte, para pedir graças aos padres milagreiros, e a liderança messiânica do fazendeiro pernambucano Delmiro Gouveia.
e) a ação catequizadora de padres e bispos ligados à Igreja católica e a atuação do líder José Maria, que comandou a resistência na região do Contestado.

Questão 03 – (IFPR/2020)
A Guerra do Contestado (1912-1916) foi um conflito que ocorreu durante a Primeira República e é considerado a maior guerra interna da história do Brasil. Tal conflito ocorreu na região sul do Paraná, fronteira com Santa Catarina,
chamada de Contestado, pois estava sendo disputada pelos dois estados. Entre os principais motivos desse confronto, podemos citar:

a) a presença de empresas estrangeiras que, junto aos grandes latifundiários, expulsavam os trabalhadores de suas terras.
b) a mudança na política do governo, que valorizava a mão de obra local e os pequenos proprietários.
c) a presença constante do governo federal, que mediava a relação entre os posseiros e os representantes das empresas estrangeiras.
d) o impacto da presença dos colonos alemães e italianos na cultura local e a reação dos posseiros a eles.

GABARITO

1 – B
2 – C
3 – A

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.

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