Prosa medieval: novelas de cavalaria, cronicões e livros de linhagem

Em tempos de Trovadorismo, durante a Idade Média (476 d.C.-1453), as manifestações literárias mais conhecidas são as cantigas, líricas (“de amor” e “de amigo”) e satíricas (“de escárnio” e “de maldizer”). No entanto, há também importantes modalidades de textos em prosa, como cronicões, livros de linhagem e novelas de cavalaria, que são assunto da aula de hoje!

A prosa medieval engloba modalidades de texto que também foram importantes dentro do que entendemos como Trovadorismo: cronicões, livros de linhagem e novelas de cavalaria.

Novelas de cavalaria

Se houvesse um ranking das produções literárias trovadorescas, talvez as novelas de cavalaria viessem em segundo lugar, atrás da música. Nesses relatos de aventuras, o herói medieval empreende lutas em prol do bem e do cristianismo. Assim, os combates dos cavaleiros eram contra os ladrões e os heréticos muçulmanos.

As novelas de cavalaria são de estrutura simples, porém múltipla. É uma literatura de andanças, de aventuras, de viagens a cavalo. Então, em decorrência dessa simplicidade estrutural, são necessárias repetições, com múltiplas variações.

O resultado é que se acumulam episódios de enfrentamento contra os rivais, contra os muçulmanos, contra os vilões. Além disso, também há histórias amorosas, com a presença, inclusive, de certo erotismo.

Exemplo de novela de cavalaria: A demanda do Santo Graal

A demanda do Santo Graal é uma das mais famosas narrativas do gênero. Originalmente, a obra vem de histórias populares, surgidas nas Ilhas Britânicas. A princípio, foram escritas em versos, mas, no século XIII, aparecem as primeiras versões em prosa, feitos na língua francesa. No nosso idioma, a primeira aparição é no século XV.

A novela conta as aventuras dos Cavaleiros da Távola Redonda, da corte do Rei Arthur. A aventura se desenvolve em torno da busca do Santo Graal, o cálice supostamente usado por Jesus Cristo na Última Ceia. Além disso, nesse mesmo cálice José de Arimateia teria colhido o sangue de Jesus durante a crucificação. No entanto, a conquista do objeto sagrado era restrita a poucos eleitos. Assim, somente homens integralmente bons, puros e éticos poderiam ter êxito na busca.

Os únicos cavaleiros que conseguem são Galaaz, Boorz e Percival. Desses, Galaaz, filho de Lancelote (um dos cavaleiros da Távola Redonda e amigo do rei), é o mais importante. Além de ótimo cavaleiro, ele é o homem visto como perfeito, bondoso, virgem, capaz de vitórias impossíveis. Boorz e Percival, mesmo acompanhando Galaaz em seu êxito, foram pecadores. Portanto, estes últimos não são os homens ideias para empunhar o referido objeto.

A seguir, um trecho em que Galaaz, provando zelar por sua pureza, nega uma donzela. Ela o procura, à noite, por estar apaixonada por ele. Isso ocorre quando, durante a empreitada, os três cavaleiros dormem em um lugar de passagem:

“Ao cabo de algum tempo, despertou-se Galaaz e virou-se para a donzela, e, quando a sentiu, maravilhou-se e abriu os olhos. E quando viu que era donzela, espantou-se e ficou muito sanhudo e afastou-se dela quando lhe o leito permitiu, persignou-se e disse:
– Ai, donzela! Quem vou mandou aqui certamente mau conselho vou deu; e eu cuidava que de outra natureza éreis vós. E rogo-vos, por cortesia e por vossa honra, que nos vades daqui, porque, com certeza, o vosso louco pensar não entenderei eu, se Deus quiser, porque mais deva recear perigo de minha alma do que fazer vossa vontade”.[1]

A sequência da cena é trágica. Isso porque a mulher não aceita a recusa a acaba se matando com a espada de Galaaz.

Falando um pouco de cinema, poderíamos nos lembrar de Indiana Jones e a Última Cruzada, terceiro filme da franquia. Na trama de 1989, o professor de história e arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é chamado para uma busca ao cálice sagrado. Ele vai no lugar do pai, Henry Jones (Sean Connery), que havia estudado por muitos anos sobre o Santo Graal.

O milionário Walter Donovan (Julian Glover), que financiava as pesquisas do pai, pede ao filho que continue a “demanda”. A ação se passa na época da Segunda Guerra Mundial e os nazistas também estão à procura deste item. Caso estes o achassem, os rumos desse importante evento histórico poderiam mudar completamente.

prosa medieval
Cena de Indiana Jones e a Última Cruzada, filme em que o herói empreende “demanda” ao Santo Graal. Disponível em: https://tonocosmos.com.br. Acesso 17 mar. 2020.

Cronicões

Além das novelas de cavalaria, foram feitas crônicas (ou cronicões), que também constituem a prosa medieval. Eram textos feitos, às vezes, em latim, que queriam registrar eventos, sem aprofundamentos. Sendo assim, não havia interesse em falar sobre causas ou buscar interpretações.

Um exemplo desse tipo de texto é Crônicas breves do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, publicadas por Alexandre Herculano em Portugaliae Monumenta Historica. A importância do escrito está mais no fato de ter dado início à historiografia portuguesa do que na qualidade literária.

Talvez seja relevante pensar que o gênero crônica, com o passar dos séculos, foi sendo expandido, tornando mais do que uma simples descrição de fatos. No Brasil, grandes cronistas mostraram que essa modalidade narrativa pode trazer reflexões filosóficas e poéticas sobre o mundo. Dentre eles, podemos citar Machado de Assis, Raquel de Queirós, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino.

Livros de linhagens

Os livros de linhagens também constituem a prosa medieval. Consistiam em listagens de nomes, principalmente de fidalgos. “Estabelecer graus de parentesco que serviam para resolver dúvidas em caso de herança, filiação ou de casamento em pecado”. Esta é a explicação dada por Massaud Moisés, em A literatura portuguesa, sobre sua função.

São quatro os livros de linhagens. Os dois primeiros, do século XIII, são compostos de listas de nomes que forma árvores genealógicas. Já no terceiro e no quarto, organizados a mando de D. Pedro, Conde de Barcelos, pode-se encontrar certas nuances literárias. São textos um pouco mais artísticos.

A genealogia do terceiro é salpicada por narrativas breves, realistas e vivazes, que falam de eventos diversos daqueles tempos. Por fim, a quarta apresenta uma primeira tentativa de traçar uma história de Portugal. Curioso é que o início é pelos personagens bíblicos Adão e Eva e o término, pelos reis da Reconquista.

Podemos dizer que a Reconquista significa a expulsão dos árabes, que, desde o século VIII, dominavam a península Ibérica. A partir do século XI, então, Portugal foi consolidando seu governo, centralizado na pessoa do rei.

Para saber um pouco mais sobre a Prosa Medieval, veja esta videoaula do canal Prof Noslen:

Agora, resolva os seguintes exercícios sobre prosa medieval:

01) (UFMG) Nas mais importantes novelas de cavalaria que circularam na Europa medieval, principalmente como propaganda das Cruzadas, sobressaem-se:

a) as namoradas sofredoras, que fazem bailar para atrair o namorado ausente.

b) os cavaleiros medievais, concebidos segundo os padrões da Igreja Católica (por quem lutam).

c) as namorada castas, fiéis, dedicadas, dispostas a qualquer sacrifício para ir ao encontro do amado.

d) os namorados castos, fiéis, dedicados que, entretanto, são traídos pelas namoradas sedutoras.

e) os cavaleiros sarracenos, eslavos e infiéis, inimigos da fé cristã.

02) Sobre as novelas de cavalaria, assinale a alternativa correta:

a) São narrativas literárias em capítulos que contam os grandes feitos de um herói acompanhado de seus cavaleiros.

b) São narrativas literárias em capítulos que contam a expansão da fé cristã na América.

c) São narrativas literárias em versos que contam lendas heroicas.

d) São narrativas literárias em capítulos que contam sobre a fragilidade do herói e sua vingança aos valores religiosos.

e) São narrativas literárias clássicas, ou seja, narram, apenas, mitos gregos e romanos.

03) Leia a seguinte citação:

As características de um período histórico, assim como os traços de diferentes correntes artísticas, não desaparecem simplesmente quando os aspectos culturais passam por mudanças, ou quando há ruptura de paradigmas em relação à visão de mundo. Isso significa que, mesmo que determinado período da história ou certa escola artística sejam suplantados por uma nova perspectiva, algumas características da forma anterior vão coexistir com os novos modos de fazer arte e pensar a realidade.

Sobre períodos históricos e movimentos artísticos, relacione corretamente os elementos às suas respectivas características:

1-Prosa medieval

2-Humanismo

3-Renascimento

4-Maneirismo

5-Barroco

( ) Caracteriza-se principalmente pela crise em relação às esferas espiritual e física.

( ) Período de crise da Renascença, no qual se adequa a obra Luís de Camões, prenunciando elementos de composição do barroco.

( ) O modelo teocêntrico medieval é substituído por um novo conceito de individualismo.

( ) Nesse período, a prosa de Fernão Lopes constitui a primeira e principal obra em prosa da literatura portuguesa, período que antecipa elementos do Renascimento.

( ) Romances de cavalaria são as obras identificadas nesse período, tais como: Amadis de Gaula e A demanda do Santo Graal.

Agora, selecione a sequência correta:

  1. a) 5-4-3-2-1
  2. b) 5-4-2-3-1
  3. c) 2-4-5-1-3
  4. d) 3-5-4-1-2
  5. e) 5-4-2-1-3

Gabarito: 01) B; 02) A; 03) A.

[1] Fonte: Maria E. T. Ferreira. Poesia e Prosa Medievais.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.