Razão e Fé: um embate milenar

Você acredita em Deus? E na Ciência? É possível acreditar em ambos? Desde os tempos mais primórdios essa treta está aí, intrigando as pessoas e as questões do Enem.

Razão e Fé são formas (às vezes antagônicas) de entendermos o mundo que nos cerca. Há alguns milênios, os gregos cansados de serem ludibriados pelos deuses e deusas de outrora, decidiram tomar seu destino de volta a suas mãos. Em resumo, é assim que nasceu a Filosofia: uma alternativa à religião. Para tanto, a “arma” que a Filosofia usou para libertar as pessoas dos grilhões da religião foi a Razão.

razão e fé na filosofia
Figura 1. A partir do surgimento da Filosofia, deu-se início o embate entre a Razão e a Fé. O que gerou incontáveis debates. Alguns culminaram em uma conciliação entre Fé e Razão, já outros deixaram claro que não seria possível conciliá-los.

 

A Filosofia surgiu em um momento épico de batalhas travadas na Grécia Antiga. Pois bem, falamos que a arma da Filosofia para derrotar os mitos na Grécia foi a Razão, mas afinal que “diacho” é isso?

A Razão

A palavra Razão pode ter diversos significados. Desde aquilo que você nunca terá numa discussão com seu/sua cônjuge, até aquilo que podemos utilizar na matemática.

Mas como o foco aqui são as questões de Ciências Humanas do Enem, ficaremos com o conceito de Razão utilizado pela Filosofia. Os filósofos veem a Razão como uma característica humana única.

A Razão nos permite identificar e operar conceitos em abstração, resolver problemas, encontrar coerência ou contradição entre eles e, assim, descartar ou formar novos conceitos de uma forma Lógica.

A Fé

A Fé se dá quando a pessoa passa a acreditar de maneira incondicional numa explicação de mundo e a considera como sendo uma verdade absoluta, ainda que haja qualquer tipo de prova objetiva (racional) a contrariando. Portanto, é impossível duvidar e ter Fé ao mesmo tempo.

Agora que você já está por dentro dos conceitos, vamos contrapor os dois para entender como essa “treta” faz parte da história da humanidade.

meme sobre razão e fé
Figura 2. Na Filosofia define-se que um argumento é uma tautologia quando a proposição analítica permanece sempre verdadeira, uma vez que, o atributo é uma repetição do sujeito. A ideia de usar um texto sagrado (inquestionável) para afirmar a existência de um deus (inquestionável) que afirma a existência de um texto sagrado é uma tautologia.

 

A Razão e a Fé na história da humanidade

A Fé veio primeiro. Os primeiros textos sagrados do Hinduísmo, os Vedas, foram escritos há mais de 3.500 anos. As origens das religiões, porém, têm raízes na Pré-História!

Já a Razão surgiu junto com a Filosofia em contraposição a religião. Isso aconteceu em meados do século VI antes de Jesus nascer. Sendo assim, a Filosofia é consideravelmente mais nova que a religião. E, desde o surgimento da Filosofia, a Razão e a Fé se tornaram conceitos antagônicos.

Todavia, foi só durante a Idade Média que o conflito se acirrou (principalmente no Ocidente) por conta do surgimento do Cristianismo. Religião que, como você sabe, surge inspirada num mano “gente boa” chamado Jesus.

Causas do antagonismo Razão e Fé

Tanto a Filosofia quanto a religião estão tentando explicar o mundo segundo seus próprios princípios e metodologias. Apesar de sua intenção ser a mesma, suas conclusões e a maneira que elas são obtidas diferem muito.

A galera adepta da Razão entendia que o cosmos era algo regido por leis naturais e compreensíveis. Embora houvesse (e ainda há) desacordo a respeito das explicações de como o mundo foi criado, como ele funciona, qual é o nosso papel nele, tudo isso é explicável racionalmente para os adeptos da Razão.

deus e adão
Figura 3. Na seção intitulada a criação de adão, Deus e Adão quase tocam os dedos. Existem teorias a respeito do formato inconfundível de um cérebro humano envolvendo Deus. Seria uma maneira de inserir um “easteregg” numa das mais famosas obras religiosas já feitas.

 

Ora, a Filosofia formula que para entendermos o mundo não basta ter Fé, “au contrarie”, sua característica fundante é suspeitar de tudo. Partindo daí (da duvida) para que realmente possamos entender algo como verdadeiro, são necessárias comprovações, sejam elas por meio das ciências humanas, exatas, biológicas ou qualquer que seja o artificio. O importante é que seja Racional.

obra de da vinci razão
Figura 4. As ciências foram derivando da Filosofia. Foi aí que ocorreu a Revolução Científica, ou revolução do saber.

 

Assim sendo, é unicamente por meio da Razão que conseguimos entender o cosmos, pois, somos seres dotados de Razão. Tendo em vista que o cosmos é ele próprio racional, é através da Razão (logos) que nós conhecemos o mundo e reconhecemo-nos como elemento do cosmos.

Já quem prima pela Fé acredita no modelo teocêntrico, isto é, a compreensão do mundo se dá a partir da compreensão da entidade (Zeus, Alá, Deus, Jeová, Javé, Odin, Heka, Olodumare, Brahma, Nhanderuvuçú ou seja lá quem for) criadora do cosmos.

Dessa forma, a origem das coisas será bastante diferente dependo da Fé que as pessoas adotarem. Por exemplo, a origem dos macacos, segundo a Fé Asteca, dá-se quando os humanos, que foram assomados por um grande vento feito por Quetzalcóatl, precisaram agarrar-se em árvores.

Dessa forma, transformaram-se em macacos. Algo parecido explica a origem dos peixes nessa civilização. Para os astecas, os humanos viraram peixe para não morrerem no dilúvio causado pela deusa Chalchiuhtlicue.

terra planismo
Figura 5. Na era moderna, teorias pseudocientíficas da Terra plana foram adotadas por grupos e, cada vez mais, por indivíduos não-afiliados, usando as mídias sociais. As teorias atuais que defendem modelos de Terra plana são totalmente rejeitadas pela Filosofia.

 

Outra explicação um tanto quanto curiosa para a origem do mundo é a apresentada pela mitologia nórdica. Nela Odin e seus irmãos carregaram o corpo do pai (o gigante Ymir) e assim fizeram a Terra de sua carne e as rochas de seus ossos. Seu sangue deu origem aos lagos e mares, a abóbada celeste foi formada de seu crânio esfacelado. Peculiar né?

Pegando, então, essas explicações como modelo, você consegue notar como não há um critério racional para explicar as coisas. Tampouco evidências que sustentem essas teorias. O que há é o que chamamos de Teocentrismo.

Por Teocentrismo entendemos a teoria que considera uma entidade divina como centro do cosmos e responsável pela criação de tudo o que há no universo. Esta ideia era fortemente defendida na Idade Média (e ainda hoje), o que gerava conflito. Pois, há na explicação pela fé apenas uma narrativa fantasiosa sobre a origem das coisas e não provas racionais. Confirmando assim o antagonismo entre Razão e Fé.

Patrística

Da tentativa de transformar as explicações religiosas em algo mais acreditável, em algo mais plausível, vai aparecer em cena uma galera que tentou aproximar Fé e Razão. A essa tentativa a gente deu o nome de Patrística.

Bom, mas como nem tudo no mundo são flores, em 17 de fevereiro de 1600, na cidade de Roma, aconteceu uma “parada sinistra”. Centenas de pessoas lotaram uma praça no centro da cidade, para assistir à morte na fogueira de Giordano Bruno, por ordem da Santa Inquisição.

Giordano Bruno que era padre, filósofo, místico, poeta e várias outras coisas, defendia uma hipótese polêmica a respeito do universo ser infinito e repleto de astros como o Sol e os planetas.

Ele acabou falando que Deus não existe fora do universo, mas é a soma de tudo o que existe. Por isso, foi condenado pela Igreja Católica e morreu queimado na fogueira da Inquisição.

charge sobre intolerância
Figura 6. É comum ainda hoje que radicais tentem expurgar a razão em detrimento de ideias fantasiosas acerca do mundo.

 

Quer saber mais sobre meu camarada Giordano? Se liga no vídeo:

Além do Giordano, existiram diversos outros casos de gente sendo morta, das maneiras mais bizarras e brutais possíveis, por conta dessa “treta” entre Razão e Fé. Talvez o caso mais famoso seja o de Galileu Galilei.

Esse “camarada” de nome engraçado defendia uma tese postulada por um outro cara chamado Nicolau Copérnico. Tal tese dizia que o Sol era o centro do nosso Sistema Solar e não a Terra.

Em 1616, a galera pautada pela Fé afirmava que o centro do universo era a Terra. O problema é que Galileu defendia que o Sol era o centro do universo publicamente. Assim, a igreja proibiu que Galileu divulgasse ou ensinasse suas ideias.

Todavia, o cara era teimoso (deveria ser capricorniano) e publicou seu Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Universo. A igreja ficou então “pistola” com ele e o condenou a viver em uma prisão domiciliar.

charge sobre galileu
Figura 7. Galileu morreu em 8 de janeiro de 1642. Estava quase cego por observar as manchas solares sem uma proteção nos olhos. Trezentos e cinquenta anos mais tarde – em 31 de outubro de 1992 –, suas teorias foram reconhecidas formalmente pelo papa João Paulo II.

 

Enfim, como você pode ver, o cosmos é algo complexo e dificílimo de ser entendido. Embora a Razão não tenha grandes certezas a respeito do cosmos, ela permanece fiel aos filósofos de outrora que contrariam toda a explicação fantasiosa, muitos dos quais deram suas vidas em prol do conhecimento.

Falando em conhecimento, é hora de testar os seus com as questões a seguir.

1) (Puccamp). Preparando seu livro sobre o imperador Adriano, Marguerite Yourcenar encontrou numa carta de Flaubert esta frase: “Quando os deuses tinham deixado de existir e o Cristo ainda não viera, houve um momento único na história, entre Cícero e Marco Aurélio, em que o homem ficou sozinho”. Os deuses pagãos nunca deixaram de existir, mesmo com o triunfo cristão, e Roma não era o mundo, mas no breve momento de solidão flagrado por Flaubert o homem ocidental se viu livre da metafísica – e não gostou, claro. Quem quer ficar sozinho num mundo que não domina e mal compreende, sem o apoio e o consolo de uma teologia, qualquer teologia? (Luiz Fernando Veríssimo. Banquete com os deuses)

A compreensão do mundo por meio da religião é uma disposição que traduz o pensamento medieval, cujo pressuposto é

(A) o antropocentrismo: a valorização do homem como centro do Universo e a crença no caráter divino da natureza humana.

(B) a escolástica: a busca da salvação através do conhecimento da filosofia clássica e da assimilação do paganismo.

(C) o panteísmo: a defesa da convivência harmônica de fé e razão, uma vez que o Universo, infinito, é parte da substância divina.

(D) o positivismo: submissão do homem aos dogmas instituídos pela Igreja e não questionamento das leis divinas.

(E) o teocentrismo: concepção predominante na produção intelectual e artística medieval, que considera Deus o centro do Universo.

2) (Ufu 2012). Na medida em que o Cristianismo se consolidava, a partir do século II, vários pensadores, convertidos à nova fé e, aproveitando-se de elementos da filosofia greco-romana que eles conheciam bem, começaram a elaborar textos sobre a fé e a revelação cristãs, tentando uma síntese com elementos da filosofia grega ou utilizando-se de técnicas e conceitos da filosofia grega para melhor expor as verdades reveladas do Cristianismo. Esses pensadores ficaram conhecidos como os Padres da Igreja, dos quais o mais importante a escrever na língua latina foi santo Agostinho.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos de Filosofia: Ser, Saber e Fazer. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 128. (Adaptado)
Esse primeiro período da filosofia medieval, que durou do século II ao século X, ficou conhecido como

(A) Escolástica.

(B) Neoplatonismo.

(C) Antiguidade tardia.

(D) Patrística.

(E) Hinduísmo.

3) (UNITAU SP/2015). Aceitar que o sol ocupava o centro do cosmo era entrar em contradição com várias passagens da Bíblia: a Terra tinha sido criada por Deus antes do sol; Deus criou duas grandes luminárias, uma para iluminar a Terra durante o dia e outra, durante a noite. A Bíblia afirmava ainda que enquanto a Terra existisse existiriam o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite […]. Para esse novo universo era necessária uma nova física, que começou a ser escrita por Galileu […]. Mas a história pessoal de Galileu é triste. A Igreja o acusou de heresia, pois se o Universo era como ele descrevia, a Bíblia estava errada […]. O desacordo entre Galileu e as autoridades eclesiásticas tornara-se irreconciliável […]. Padres, bispos, cardeais e o próprio Papa defendiam exclusivamente o domínio da fé […].

SANTOS, Maria das Graças V. P. dos. O Renascimento. São Paulo: Ática, 2002. pp.26 e 28.

Em relação ao desenvolvimento da ciência durante o Renascimento, é CORRETO afirmar:

(A)   A ciência avançava de modo expressivo e sem limites nesse período, de maneira a apontar descobertas fascinantes e revolucionárias.

(B)   A produção científica foi direcionada pela razão (entendida como valor acima da fé), o que permitiu aos cientistas produzirem seus conhecimentos de forma autônoma à Igreja, assegurando-se a liberdade de pensamento.

(C)   O conhecimento produzido por pessoas como Galileu revelava uma nova mentalidade, que entrava em choque com antigas explicações de mundo, de forma a evidenciar os conflitos desse período.

(D)   A partir do avanço do conhecimento científico e, principalmente, das descobertas de Galileu, os cléricos, apesar de discordarem das ideias desse cientista, começaram a discutir o domínio exclusivo da fé.

(E)    A ciência, com Galileu, ganhou novos rumos. Paralelamente, a Igreja, mesmo em desacordo com suas ideias, saiu fortalecida, pois pôde agregar os conhecimentos produzidos por esse cientista ao domínio da fé.

4) (UNCISAL AL/2012). As expressões artísticas renascentistas, fundadas no estudo do homem, da natureza e do espírito crítico, desdobraram-se no desenvolvimento científico, notadamente na área da física, astronomia, matemática e biologia. Contrariando as antigas concepções geocêntricas defendidas pela Igreja, ganhou aceitação definitiva, na época, a teoria heliocêntrica.

Na divulgação da nova concepção, destacaram-se

(A)   Nicolau Copérnico, Montaine e Thomas Morus.

B) Albrecht Dürer, Rabelais e Giordane Bruno.

(C)   Giordane Bruno, Galileu Galilei e Leonardo Da Vinci.

(D)   Nicolau Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei.

(E)    Galileu Galilei, Rafael Sânzio e Thomas Morus.

Gabarito

1.E,2.D,3.C,4.D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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