Reinos africanos

Durante o período europeu que conhecemos como Idade Medieval, vários reinos africanos prosperaram. Acompanhe esta aula para saber mais sobre os reinos de Axum, Gana, Mali, Congo e dos iorubás!

Os reinos europeus que estamos acostumados a imaginar quando alguém fala em Idade Média não foram os únicos que existiram na época. Durante a Antiguidade e o período medieval, várias sociedades ricas e complexas foram formadas na África. Veremos nesta aula as particularidades de cada um dos principais reinos africanos e o que eles têm a ver com a história do Brasil.

Antes de começarmos, é importante lembrar que havia uma pluralidade de povos e de organização das sociedades na África. Existiam desde pequenas aldeias até grandes impérios e cidades-Estados. Para entender melhor as formas de organização, a influência da posição geográfica de cada reino e práticas comuns no continente, recomendamos que você veja a aula sobre a África no período medieval.

Reino de Axum

No território onde hoje fica a Etiópia, no passado existiu um dos reinos africanos mais prósperos e influentes. Era o Reino de Axum. A população que ali vivia era proveniente do sul da Península Arábica, e já no século VII a. C. tinha domínio sobre a agricultura e criação de gado.

reinos africanos
Localização dos reinos africanos. O Reino de Axum está na cor laranja.

A posição às margens do Mar Vermelho possibilitou que cidades do reino, como Adúlis e Axum, tivessem importantes portos. Eles comercializavam produtos como marfim, ouro, sal e pedras preciosas com regiões da Arábia, da Índia, do Mediterrâneo e com outros reinos africanos.

A atividade se tornou tão intensa que o reino passou a controlar todo o comércio da região e suas cidades se tornaram riquíssimas. Além disso, esse poder possibilitou a conquista do Império Kush (que havia tomado o poder do Egito entre 750 a. C. e 653 a. C.) e territórios na Península Arábica.

Esse contato com outros povos provocou alterações na cultura do reino de Axum. Até o século IV, sua população era politeísta – assim como a grande maioria dos povos africanos da época. No entanto, a expansão do cristianismo chegou até a região e vários setores daquela sociedade foram convertidos.

reino africano de axum
Parque das Estelas, em Axum. Os obeliscos eram construídos em homenagem aos soberanos na época antes da cristianização. Fonte: https://bit.ly/3bqDY2o.

Séculos depois, os muçulmanos é que estavam se expandindo e chegaram até a costa da África. Sabendo do poder que o Reino de Axum tinha na região, os muçulmanos promoveram uma série de invasões e destruíram o porto de Adúlis. O reino ficou enfraquecido e não sobreviveu às incursões dos islâmicos.

Gana

Um dos reinos africanos que mais tiveram destaque foi o de Gana. Localizado entre o Sahel e a parte ocidental do Sudão, Gana começou a surgir no século IV. Um povo chamado soninquê começou a se agrupar para defender-se dos berberes, populações do deserto que atacavam e saqueavam aldeias.

Gana - reinos africanos
Localização do Império de Gana.

A união política e militar das aldeias de soninqueses permitiu que eles passassem a controlar o comércio que vinha do norte. No século seguinte, Gana se firmou como um reino. Além de dominar as rotas comerciais da região, extraía uma quantidade enorme de ouro de territórios próximos.

Era tanto ouro que eles se tornaram o principal fornecedor do Mediterrâneo por vários séculos. Viajantes do século XI relataram que a população usava o metal em pulseiras, colares, nas armas e até em enfeites nos cães que ficavam no palácio real. Por tudo isso, Gana ficou conhecido como o reino do ouro.

estatueta de ouro - reinos africanos
Estatueta de um leopardo feita de ouro fabricada pelos habitantes do Reino de Gana.

O Estado era organizado de forma que o soberano tinha funções administrativas, militares e de justiça. Ele era chamado de gana, que significa “senhor da guerra”. Tanto a capital quanto o reino receberam essa mesma denominação.

Esse reino africano prosperou até o século X, quando começou a ser atacado por almorávidas (berberes convertidos ao islamismo). As tentativas de conversão dos soninqueses só provocou ainda mais conflitos. A consequência foi a desarticulação comercial de Gana.

Apesar de ter reconquistado certa autonomia no XII, o reino foi vítima de várias incursões de outros povos que almejavam sua posição e riquezas. Com isso, Gana permaneceu dependente de outros reinos africanos.

Mali

Além dos soninqueses, outro povo habitava a região entre o Sahel e o Sudão Ocidental: os mandingas. No século XIII, quando o reino de Gana já estava desarticulado, vários clãs mandingas se uniram sob a liderança de Sundiata Keita. Ele expandiu os domínios do seu povo e constituiu o que foi chamado de Império do Mali. Sundiata adotou o título de mansa (rei) e tornou-se o soberano desse reino africano.

Mali - reinos africanos
Localização do Império do Mali.

As áreas conquistadas pelo mansa eram ricas em sal e ouro. Além de dominar a venda desses produtos, também passaram a controlar várias rotas comerciais transaarianas que passavam pela região.

Foi justamente por essas rotas que o islamismo chegou até o povo mandinga e passou a se difundir por suas cidades. Durante grande parte da duração do Império do Mali, a região muçulmana conviveu de forma tolerante com os cultos tradicionais da região.

Islamização do Mali

Muitos mansas, inclusive, faziam peregrinações até Meca, mesmo que mantivessem outras formas de culto. Em uma dessas viagens, um mansa chamado Musa levou para Mali sábios e arquitetos do Oriente Próximo para construírem mesquitas e difundirem conhecimento. Assim, a cidade de Tombuctu foi transformada em um centro de referência em estudos islâmicos e atraiu inúmeros estrangeiros por seu desenvolvimento intelectual.

tombuctu
Edificação na cidade Tombuctu. A cidade é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade.

A partir do século XV, no entanto, o Mali passou a sofrer uma série de invasões de povos que queriam assumir o poder. O mais importante deles era o povo songai, que mesmo compondo parte dos domínios de Mali, detinha um importante centro comercial e certa autonomia.

Liderados pelo seu soberano Soni Ali, conquistaram a cidade de Tombuctu e desarticularam o governo do Mali. Dessa forma, formaram o Império Songai, que possuía uma elite muçulmana rigorosa. Eles passaram a impor seu poder e religião nos territórios próximos. Obtiveram sucesso até o século XVI, quando os povos do atual Marrocos atacaram e dominaram a região.

Mandingas

Nessa altura você já deve estar se questionando sobre o que esses mandigas tem a ver com a mandinga que conhecemos no Brasil, não é? Pois não é só uma coincidência! Na época em que a população do Mali já seguia o islamismo, eles utilizavam as bolsas de mandinga.

mandinga
Marabu, chefe religioso, usando amuletos ou mandingas. Gravura de René Claude Geoffrey de Villeneuve, séc. XVIII.

Eram saquinhos que continham versículos do Corão e eram carregados no pescoço como amuletos que forneceriam proteção contra armas e doenças. Com o tempo, a prática se difundiu pela África subsaariana e foi aumentando de tamanho e de ingredientes.

Elementos fetichistas e cristãos passaram a ser guardados como amuletos por diversos povos africanos. Foi essa bolsa que se difundiu no Brasil colonial e acabou agregando, aqui, novos significados ligados a macumbas e feitiços.

Iorubás

Diferentemente dos reinos africanos anteriores que eram formados por um povo predominante, os iorubás eram várias populações do mesmo tronco linguístico. Eram os efãs, ijexás, egbás, entre outros povos que habitavam a atual região da Nigéria e do Benin.

iorubás - reino africano
Mapa da localização dos povos iorubás.

Além do idioma, eles tinham traços culturais e religiosos em comum. Eles estavam organizados em cidades independentes entre si, mas todos acreditavam que elas tinham uma mesma origem divina. As principais cidades eram Benin, Oyo e Ilé Ifê.

Essa última seria o berço de todas as sociedades iorubás. De acordo com suas tradições, o deus Olodumaré havia escolhido Ilé Ifê como local de criação do mundo. Por isso, era considerada o centro espiritual dos iorubás e era governada pelo oni (grande sacerdote).

As outras cidades possuíam chefes que eram eleitos por um conselho e deveriam governar por um tempo determinado.

Assim como os reinos já mencionados, as cidades iorubás também controlavam rotas comerciais. Nesse caso, eram aquelas que iam do litoral para o interior da África. Além disso, eles tinham grandes conhecimentos na metalurgia, que era utilizada na fabricação de armas, instrumentos e obras de arte. As cidades também possuíam importantes centros de artesanato, com presença de tecelões, marceneiros e ferreiros.

escultura iorubá
Representação iorubá de três funcionários do tribunal, em bronze, do século XVI, encontrado no Benin.

Um último aspecto a ser tratado é que esses povos têm sua história ligada à do Brasil, e por isso é ainda mais importante conhecê-la. No século XVIII, após vários conflitos com Portugal, grande parte da população iorubá foi traficada para o Brasil e escravizada.

Essas pessoas trouxeram consigo várias tradições e elementos culturais que resistiram à escravidão. Alguns exemplos são orixás do candomblé, como Xangô e Iemanjá. Pratos como vatapá e acarajé também são de origem iorubá, além de instrumentos musicais como o atabaque e o agogô.

Congo

O último dos reinos africanos que vamos abordar é o do Congo, que ficava localizado na parte equatorial do continente. Ele era formado por vários povos que possuíam o mesmo tronco linguístico, o banto. Mas, da mesma forma que os iorubás, isso não quer dizer que existia uma unicidade entre eles.

congo - reinos africanos
Mapa da localização do Congo.

No início do século XIV, o povo ambundo, do tronco linguístico banto, formou uma cidade que seria chamada de Mbanza Congo. Quem estava em seu comando era um rei que recebia o nome de manicongo (senhor do Congo). A cidade tomou grandes proporções, e chegou a abrigar cerca de 100 mil habitantes.

Com o tempo, o reino do Congo se expandiu militarmente e conquistou um território enorme, que hoje corresponde a países como Congo, Angola e Zaire. A região era dividida em seis províncias e cada uma delas controlava várias aldeias. O poder das famílias fundadoras das aldeias foi preservado para que não houvesse revoltas que prejudicassem o reino.

Os congos viviam da agropecuária, do comércio e do artesanato. No campo, todo o trabalho em torno de cultivos de frutas, verduras, legumes e de criação de gado era realizado por mulheres. Os homens eram responsáveis por derrubar a mata em áreas de cultivo, e auxiliar na colheita se fosse necessário.

No artesanato se destacavam os objetos feitos de ferro forjado, cobre, madeira e ráfia. Já o comércio girava em torno da venda do sal e do ferro extraído de diferentes províncias.

O Congo e os portugueses

No fim do século XV, uma expedição portuguesa chegou ao Congo em busca de metais preciosos e mão de obra escravizada. Para alcançar esse objetivo, os portugueses se valeram de disputas de poder internas e se aliaram a um dos herdeiros do manicongo, Nzinga Mbemba. Eles ofereceram armas de fogo aos seus apoiadores para depois poderem cobrar o favor.

Mbemba conseguiu assumir o trono com a ajuda portuguesa e adotou o nome de Afonso I. Também instituiu o catolicismo como religião oficial e trocou o nome da capital para São Salvador. Ele chegou a trocar cartas com o rei de Portugal, D. João III, e até enviou parentes para estudar em Lisboa.

No entanto, Afonso I logo percebeu que as intenções dos portugueses não eram amistosas. No início, eles levavam para suas colônias apenas prisioneiros de guerra para serem escravizados. Mas, com o tempo, até mesmo nobres do Congo foram capturados e feitos escravos no Brasil.

Apesar de a população congolesa ter organizado uma revolta no século XVII, foram duramente derrotados. O tráfico foi tão intenso que o Congo ficou despovoado. Além disso, a chegada de europeus acabou com o equilíbrio de poderes que existia anteriormente, e conflitos pelo poder fragilizaram ainda mais o reino.

Exercícios sobre os reinos africanos:

1 – (ENEM/2017)

No império africano do Mali, no século XIV, Tombuctu foi centro de um comércio internacional onde tudo era negociado — sal, escravos marfim etc. Havia também um grande comércio de livros de história, medicina, astronomia e matemática, além de grande concentração de estudantes. A importância cultural de Tombuctu pode ser percebida por meio de um velho provérbio: “O sal vem do norte, o ouro vem do sul, mas as palavras de Deus e os tesouros da sabedoria vêm de Tombuctu”.

ASSUMPÇÃO, J. E. África: uma história a ser reescrita.
In: MACEDO, J. R. (Org.). Desvendando a história da
África. Porto Alegre: UFRGS. 2008 (adaptado).

Uma explicação para o dinamismo dessa cidade e sua importância histórica no período mencionado era o(a)

a) isolamento geográfico do Saara ocidental

b) exploração intensiva de recursos naturais.

c) posição relativa nas redes de circulação.

d) tráfico transatlântico de mão de obra servil.

e) competição econômica dos reinos da região.

2 – (FGV/2016)

“Em muitos reinos sudaneses, sobretudo entre os reis e as elites, o islamismo foi bem recebido e conseguiu vários adeptos, tendo chegado à região da savana africana, provavelmente, antes do século XI, trazido pela família árabe-berbere dos Kunta.

(…) O islamismo possuía alguns preceitos atraentes e aceitáveis pelas concepções religiosas africanas, (…) associava as histórias sagradas às genealogias, acreditava na revelação divina, na existência de um criador e no destino. (…) O escritor árabe Ibn Batuta relatou, no século XIV, que o rei do Mali, numa manhã, comemorou a data islâmica do fim do Ramadã e, à tarde, presenciou um ritual da religião tradicional realizado por trovadores com máscaras de aves.”

(Regiane Augusto de Mattos, História e cultura afro-brasileira. 2011)

Considerando o trecho e os conhecimentos sobre a história da África, é correto afirmar que

a) a penetração do islamismo nas regiões subsaarianas mostrou-se superficial porque atingiu poucos setores sociais, especialmente aqueles voltados aos negócios comerciais, além de sofrer forte concorrência do cristianismo.

b) a presença do islamismo no continente africano derivou da impossibilidade dos árabes em ocupar regiões na Península Ibérica, o que os levou à invasão de territórios subsaarianos, onde ocorreu violenta imposição religiosa.

c) o desprezo das sociedades africanas pela tradição árabe gerou transações comerciais marcadas pela desconfiança recíproca, desprezo mudado, posteriormente, com o abandono das religiões primitivas da África e com a hegemonia do islamismo.

d) o comércio transaariano foi uma das portas de entrada do islamismo na África, e essa religião, em algumas regiões do continente, ou incorporou-se às religiões tradicionais ou facilitou uma convivência relativamente harmônica.

e) as correntes islâmicas mais moderadas, caso dos sunitas, influenciaram as principais lideranças da África ocidental, possibilitando a formação de novas denominações religiosas, não islâmicas, desligadas das tradições tribais locais.

3- (UECE/2019)    

A parte da África localizada ao sul do equador foi habitada por povos cuja língua falada pertencia a um tronco linguístico com dezenas de famílias e cerca de 470 línguas, as quais atualmente são faladas por aproximadamente 100 milhões de pessoas em territórios como o Congo, Angola e Moçambique. Por extensão, os povos que falam essas línguas são chamados de

a) mbanza longos.

b) malinezes.

c) bantos.

d) congolezes.

1- Gab: C

2- Gab: D

3- Gab: C

Referência dos mapas:
VAINFAS, Ronaldo [et al.]. História: das sociedades sem Estado às monarquias absolutistas, volume 1. São Paulo: Saraiva, 2010.

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.