O tráfico negreiro e a escravidão no Brasil colonial

O tráfico negreiro para o Brasil iniciou ainda no século XVI e durou até 1850. Só no século XIX, 1,5 milhão de africanos foram trazidos para cá. Veja mais nesta aula.

Quando falamos em escravidão no Brasil, logo pensamos nos negros escravizados e no tráfico negreiro. No entanto, logo após o “descobrimento do Brasil”, os indígenas é que eram escravizados. Por que, então, os portugueses passaram a optar pela escravidão de negros?

Tráfico negreiro: uma atividade lucrativa

Um dos motivos que você já deve ter ouvido falar é que os indígenas tinham certa vantagem por conhecerem o território. Assim, caso fossem capturados, teriam uma expectativa de fugir e voltar para seu povo.

Também saberiam sobreviver na mata durante a fuga, pois tinham passado a vida inteira ali e contavam com a ajuda do seus. A coletividade era muito importante. Vários povos indígenas resistiram contra as investidas dos europeus e atacaram colonos que queriam usurpar suas terras.

Além disso, como o contato dos indígenas com os europeus era recente, eles não possuíam imunidade contra as doenças europeias. Por isso, a mortalidade entre os indígenas era muito alta. Por outro lado, vários povos da África tinham contato de longa data com os europeus e, por isso, não passavam por esse flagelo.

Entretanto, a principal justificativa a escravidão de negros é econômica. O tráfico negreiro foi extremamente lucrativo para a Coroa, pois os escravos eram uma das “mercadorias” mais caras que a metrópole vendia para as colônias.

Assim, os traficantes portugueses enriqueciam e o lucro permanecia em Portugal. Enquanto isso, o comércio de indígenas era realizado somente internamente na colônia e não gerava nenhum lucro para a metrópole.

Outra prova da lucratividade do tráfico negreiro é que, embora Portugal tenha iniciado a atividade, potências como Holanda, França e Inglaterra seguiram os seus passos. Enquanto utilizavam a desculpa de que salvariam as almas dessas pessoas por meio de sua cristianização, os europeus enriqueciam com o tráfico.

Apesar disso, é importante pontuar que a escravidão indígena permaneceu durante todo o período de colonização. A escravidão de negros não substituiu totalmente a de indígenas. Você pode ver mais sobre o assunto na aula sobre os bandeirantes.

O tráfico negreiro para o Brasil

O tráfico negreiro para o Brasil começou ainda no século XVI. Os africanos escravizados eram utilizados como mão-de-obra nos engenhos de açúcar que começavam a ser instalados em Pernambuco e na Bahia.

No início do século seguinte, cerca de 8 mil africanos eram traficados anualmente para o Brasil. A partir de então, o tráfico negreiro aumentou rapidamente. No século XVIII, apogeu da exploração de ouro, diamantes e açúcar na colônia, chegavam aqui cerca de 80 mil africanos por ano.

bantos e sudaneses - tráfico negreiro
Principais destinos de bantos e sudaneses na América.

Esses homens e mulheres pertenciam a dois grandes grupos linguísticos e culturais: os bantos e os sudaneses. Os primeiros eram provenientes de uma região ao sul da linha do Equador, principalmente dos reinos do Congo e de Angola.

Os bantos eram subdivididos em várias etnias, como cabindas, benguelas, congos e angolas. Foram traficados durante os séculos XVI e XVII, e eram destinados para Pernambuco, Maranhão e para o Rio de Janeiro.

Os sudaneses eram originários da região conhecida como Sudão ocidental. Também pertenciam a diferentes etnias, como hauçás, mandingas e iorubás. Eles saíam do Golfo do Benin, na África, e eram levados principalmente para a Bahia. O tráfico negreiro dessa população ocorreu, principalmente, do século XVII ao XIX.

Historiadores apontam que só na metade do século XIX, 1,5 milhão de africanos foram trazidos para serem escravos no Brasil. Nosso país foi o que mais recebeu escravos em toda a América. Mas como os portugueses foram capazes de trazer tantos africanos para serem escravizados?

Portugal e a escravidão na África

A partir de agora, deslocaremos a nossa aula para a África para entender como Portugal realizava o tráfico negreiro. Primeiramente veremos como essa era uma prática que existia desde antes da colonização. Em seguida, abordaremos os motivos pelos quais os principais locais de fornecimento de escravizados foram Congo e Angola (origem dos bantos), e depois o Golfo de Benin (origem dos sudaneses). Por fim, também abordaremos como era o transporte dos africanos para a América.

Os portugueses se inseriram na dinâmica de tráfico de pessoas escravizadas muito antes de colonizarem o Brasil. Quando chegaram ao Sudão ocidental, por volta de 1430, existia uma rota comercial que ligava a região ao deserto do Saara.

Essa rota era dominada pelos berberes, que faziam comércio de produtos e de escravos com o Mediterrâneo. Esse é um assunto que já tratamos na aula sobre os reinos africanos.

Assim, Portugal entrou em contato com povos que já faziam comércio de prisioneiros de guerra que eram feitos escravos. Os navegadores europeus se aproveitaram dessa prática e começaram a negociar com os africanos.

Inicialmente, estavam interessados em comprar escravos para destiná-los à produção de cana-de-açúcar no Mediterrâneo, na Ilha da Madeira e em Cabo Verde, ou para realizarem trabalhos domésticos.

Além disso, também utilizavam os cativos como moeda de troca. Compravam-nos no chamado Sudão ocidental e os trocavam por ouro na região conhecida como Costa do Ouro (atual Gana).

Uma das primeiras e principais feitorias portuguesas foi construída na região. Era uma fortificação denominada “São Jorge da Mina”. O nome foi escolhido porque a feitoria estava localizada numa região chamada Costa da Mina, que faz parte do Golfo de Benin.

Dessa maneira, os portugueses passaram a participar do comércio que transferia escravos de uma região para outra na África.

O sistema de feitorias

Ainda na metade do século XV, Portugal começou a construir fortalezas ao longo da costa do continente africano. Eram as chamadas feitorias. Seu objetivo era servir de ponto de negociação de escravos com chefes locais e armazenar os escravizados e mercadorias. Assim, os navios não precisavam permanecer muito tempo na costa e as viagens seriam mais rápidas.

feitorias e possessões portuguesas na áfricaEsse sistema foi possível porque os europeus faziam acordos com os líderes de reinos e povoados africanos. Esses últimos também se beneficiavam do comércio de escravos, pois recebiam taxas e tributos pelas vendas.

Além disso, o comércio dessas regiões passou a crescer e se tornar mais dinâmico. Dessa forma, os reinos do litoral foram ganhando mais poder em comparação com aqueles localizados no interior do continente.

Por isso, esses reinos também passaram a ser os mais cobiçados. Disputas internas faziam com que o poder fosse frequentemente alternado. Os povos que vendiam escravos estavam sempre vulneráveis.

Se perdessem batalhas, poderiam passar da condição de comerciantes para povos escravizados e vendidos. Assim, as feitorias alimentavam dissidências internas e o próprio abastecimento do mercado escravista.

O tráfico negreiro para a América

Com o aumento das conquistas de novos territórios pelos europeus, incluindo o continente americano, o comércio de escravos começou a ser desviado pelo Atlântico. Não só os portugueses começaram a investir cada vez mais no tráfico negreiro para suas colônias.

Países como Inglaterra, Holanda, França, Espanha e Dinamarca também fizeram o mesmo. Portanto, as pessoas escravizadas na África começaram a ser vendidas e transportadas, cada vez mais, para outras regiões do planeta.

Congo e Angola

Apesar de Portugal ter iniciado o comércio de negros escravizados no Sudão ocidental, logo começou a negociar com povos mais ao sul. Ainda no fim do século XV, navegadores portugueses chegaram ao reino do Congo. Lá, se empenharam num grande processo de cristianização da população.

Primeiramente, os escravos comprados no território eram destinados à Costa do Ouro, de onde seguiam para a escravidão em terras muçulmanas. No entanto, a partir do século XVI, começaram a ser trazidos para o Brasil. A aliança de Portugal com o Congo duraria até meados do século XVII.

Ainda no século XVI, uma série de conflitos sucessórios acabou fragilizando o Reino do Congo. Foi então que o reino Ndongo, que era tributário do Congo, aproveitou a oportunidade para se rebelar e tornar-se independente. Como o rei da região era chamado de ngola, os portugueses passaram a chamar o território de Angola.

Desde o início do século XVI que os portugueses negociavam com o reino, mas a partir de sua independência, sua presença foi intensificada. Além de obterem escravos, os portugueses acreditavam que havia ouro em Ndongo. Por isso, implantaram um sistema semelhante ao de capitanias hereditárias que haviam construído no Brasil.

Contudo, houve forte resistência por parte da população local. Uma série de conflitos ocorreu até o século XVII. Mesmo assim, os portugueses permaneceram capturando escravos e realizando tráfico negreiro para o Brasil durante todo esse tempo.

No mapa abaixo você pode ver como África centro-ocidental, onde estavam localizados os reinos do Congo e de Angola, foi responsável por mais de metade do tráfico negreiro para o Brasil. Em segundo lugar vem a África ocidental, onde fica localizado o Golfo de Benin.

Origem dos africanos - tráfico negreiroGolfo de Benim

No século XVII, os portugueses tiveram que buscar outra região para realizar o tráfico negreiro. Apesar de as relações estarem desgastadas com o Congo e com Angola, o motivo decisivo para a troca foi a ocupação de Angola pelos holandeses.

A Holanda proibiu o comércio dos portugueses na região do Congo e da Angola. A partir de então, Portugal poderia aportar seus navios somente em quatro feitorias africanas que ficavam no Golfo de Benin, onde estava localizada a Costa da Mina. Além disso, não poderiam trocar africanos escravizados por mercadorias vindas da Europa.

Tabaco, açúcar e aguardente produzidos no Brasil foram os únicos produtos que a Holanda permitiu que fossem utilizados como moeda de troca na região. Assim, o centro do tráfico negreiro feito por Portugal se deslocou para o Golfo de Benin, mesma região em que eles comerciavam ouro no século XV. A região forneceu tantos negros escravizados que ficou conhecida como “costa dos escravos”.

O papel do tabaco no tráfico negreiro

Embora o Brasil estivesse em meio à economia açucareira, outros produtos de grande importância eram produzidos na colônia. Um deles era o tabaco, que mesmo sendo considerado de menor importância que o açúcar, foi fundamental no abastecimento de mão-de-obra na colônia.

O tabaco produzido no Brasil era muito apreciado na Europa, na América do Norte e na Ásia. Mas ele não era somente vendido diretamente para essas regiões. O produto era levado para a África e trocado por escravos. Os africanos, por sua vez, revendiam o tabaco para os europeus.

Além disso, havia um tipo de tabaco considerado de menor qualidade. Ele era recusado por europeus e até mesmo pela maioria dos povos africanos. Mas fazia sucesso no Golfo de Benin.

Era um tabaco de folhas pequenas, envolvido em melado para que as folhas não murchassem ou apodrecessem. Por ter um sabor mais adocicado, era preferido pela população local e, portanto, era utilizado como moeda de troca.

Os navios negreiros

O transporte dos africanos escravizados era feito nos chamados navios negreiros, onde, você deve imaginar, as condições eram sub-humanas. Veja no trecho abaixo a descrição feita pelo historiador Jaime Pinsky:

“O número de escravos por navio era o máximo possível. Uns 500 numa caravela, 700 num navio maior (…). Iniciavam a viagem que demorava de 35 a 50 dias a partir de Angola até Recife, Bahia ou Rio de Janeiro numa viagem normal. Calmarias ou correntes adversas podiam prolongar a travessia até cinco ou seis meses, tornando mais dantescas as cenas de homens, mulheres e crianças espremidos uns contra os outros, vomitando e defecando frequentemente em seus lugares, numa atmosfera de horror que o calor e o mau cheiro se encarregavam de extremar (…)”.

PINSKY, Jaime. A escravidão no Brasil. São Paulo: Contexto, 2000, p. 37.

Além disso, os navios eram pequenos e, por isso, era construído um pavimento dividindo o porão do navio. Por isso, não havia espaço para ficar em pé. Os africanos iam sentados, com as cabeças inclinadas e acorrentados uns nos outros.

Maquete de um navio negreiro. O modelo está exposto no Museu Nacional de História Americana, em Washington.

Obviamente, grande parte das pessoas adoecia. Doenças como tifo, sarampo, febre amarela e varíola se propagavam rapidamente. Estima-se que cerca de 15% a 20% dos africanos embarcados morreram nessas viagens. Por causa disso, as embarcações ficaram conhecidas como “tumbeiros”, pois eram como tumbas em alto-mar.

Também houve perdas para aqueles que ficaram. Calcula-se que para cada pessoa exportada para a América, outra morria na própria África por causa dos maus tratos das guerras de captura. Dessa forma, como estima-se que 12 milhões de africanos foram levados para o “Novo Mundo”, o número de vítimas do tráfico negreiro é elevado para, pelo menos, 24 milhões.

Antes de resolver os exercícios, não deixe de ver esta videoaula do canal Revisão sobre o tráfico de escravos:

Exercícios sobre o tráfico negreiro:
1 – (Mackenzie SP/2020)    

“Com a longa depressão dos preços do açúcar brasileiro que persistiu na maior parte do século XVIII, o tráfico baiano com a Costa da Mina tornou-se a principal fonte de escravos na economia colonial em um sistema assemelhado ao uso da geritiba (cachaça) pelos comerciantes do Rio na compra de escravos em Benguela e Luanda. Os baianos compravam escravos no ocidente da África com tabaco de rolo feito com a parte não vendida da colheita e resultante de um processamento inferior que o tornava um produto agrícola de baixo custo em relação à indústria do fumo orientada para mercados metropolitanos.”

(PANTOJA, Selma e SARAIVA, José Flávio. Angola e Brasil nas rotas do Atlântico.
Rio de Janeiro: Bertrand, 1998. p.27)

É possível inferir que o trecho acima indica que

a) A lucratividade do tráfico negreiro está relacionada com o baixo custo na aquisição dos escravos em território africano e o alto valor desses vendidos no litoral brasileiro.

b) A crise do açúcar brasileiro acarretada pela concorrência com o açúcar antilhano dinamizou o tráfico de escravos para o sudeste da colônia.

c) A geritiba e a tabaco eram os únicos produtos aceitos nas trocas entre traficantes de escravos africanos e baianos.

d) O preço do escravo africano caiu vertiginosamente no litoral brasileiro, durante o século XVIII, devido às crises econômicas coloniais.

e) A economia brasileira foi menos dependente da mão de obra escrava, durante o século XVIII, devido à mineração e a uma nova dinâmica econômica.

2 – (UniCESUMAR PR/2017)    

“O tráfico negreiro, isto é, o abastecimento das colônias com escravos, abria um novo e importante setor do comércio colonial, enquanto o apresamento dos indígenas era um negócio interno da colônia.”

Fernando Novais. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema
Colonial. São Paulo: Hucitec, 1979, p. 105. Adaptado.

A diferença exposta pelo texto pode ser utilizada para explicar

a) as ações da metrópole portuguesa em favor da escravização de africanos e contra a escravização de indígenas.

b) as relações próximas dos bandeirantes com as áreas de colonização espanhola, onde havia grande quantidade de nativos.

c) as ações das expedições dos bandeirantes em apoio às comunidades indígenas e contra os quilombos.

d) as relações conflituosas entre Portugal e Espanha, que disputavam o controle do tráfico de africanos e do apresamento de nativos.

e) as ações desenvolvidas pelos bandeirantes e pelos jesuítas, que buscavam controlar o tráfico de africanos escravizados.

3 – (ETEC SP /2019)    

Segunda maior floresta tropical do mundo, a floresta do Congo se estende pelo território de sete países africanos: República Democrática do Congo, República do Congo, Gabão, Camarões, República Centro-Africana, Guiné Equatorial e Angola. O ambiente propicia a biodiversidade, sendo habitat de milhares de espécies de animais e plantas. Essa região também concentra uma grande diversidade cultural, formada pelos vários povos de línguas banto que ali vivem há séculos.

Sobre a região, é correto afirmar que ela

a) foi colonizada por britânicos, espanhóis e portugueses no século XIII.

b) conquistou a sua independência política na segunda metade do século XVI.

c) era o principal destino das correntes migratórias islâmicas do final do século II.

d) foi um grande entreposto comercial de ouro e diamantes dos povos do alto rio Nilo.

e) era a origem da maior parte dos africanos escravizados aportados na América do Sul.

GABARITO: 
  1. A
  2. A
  3. E

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.