Revoltas da Primeira República

Revolta da Vacina, Revolta da Chibata e Tenentismo foram as principais revoltas da Primeira República que aconteceram nas cidades. Saiba como ocorreu cada uma delas!

Assim como Canudos e Contestado foram revoltas no campo, também ocorreram no Brasil revoltas populares nas grandes cidades durante a República Oligárquica. Nesta aula do Curso Enem Gratuito você entenderá quais outras revoltas da Primeira República reverberaram na história do Brasil.

O povo durante a Primeira República

A proclamação da República foi definida na época por Aristides Lobo como um evento em que o povo, “bestializado”, teria assistido tudo àquilo sem entender o que significava. A percepção do jurista revelava o caráter elitista da proclamação da nova forma de governo, que posteriormente passou a ser conhecida como República Oligárquica (uma república das elites).

É certo que os governantes passaram a ser eleitos por voto não censitário, mas isso não significava que se tratava de um processo eleitoral democrático. Isso porque analfabetos, mulheres, mendigos, menores de 21 anos, alguns religiosos e militares eram impedidos de votar.

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Além disso, não existia voto secreto, o que possibilitava a prática do voto de cabresto. O voto também não era obrigatório e somente uma parcela mínima da população acabava comparecendo ao pleito. Saiba mais sobre as eleições da Primeira República nesta videoaula sobre a Constituição de 1891:

Junto a todas essas condições, somava-se um enorme descaso com a qualidade de vida das massas. A população pobre não contava com proteção social, segurança, direitos trabalhistas, educação e saúde públicas de acesso para todos.

Essas pessoas acabaram sendo expulsas dos cortiços que viviam e impedidas de circularem livremente nos centros das cidades devido a uma série de leis segregacionistas. Soma-se a esse contexto a abolição da escravidão, que não contou com nenhuma medida compensatória à população negra explorada há gerações. Tal cenário era extremamente propício para o surgimento das revoltas da Primeira República.

Urbanização excludente

No fim do século XIX e início do século XX, período da República Oligárquica, as cidades brasileiras, principalmente as portuárias, não eram exatamente conhecidas por serem muito higiênicas. Na verdade, tratava-se de uma época em que muitas doenças, que hoje são consideradas controladas, eram epidêmicas. Este era o caso da peste bubônica, da febre amarela e da varíola.

O governo brasileiro passa a adotar uma série de políticas sanitaristas com o objetivo de “europeizar” as principais cidades brasileiras, tendo a capital Rio de Janeiro, como a principal delas.

Cortiços passam a serem demolidos para dar lugar a largas avenidas, pessoas são proibidas de circular sem sapatos pelas ruas e a vacinação contra a varíola passa a ser obrigatória. Esta última medida foi muito defendida por Oswaldo Cruz, um importante cientista brasileiro da época. Por isso, a Revolta da Vacina é a primeira da nossa lista de revoltas da Primeira República.

Bonde virado na Revolta da Vacina - Revoltas da Primeira RepúblicaFotografia em preto e branco mostrando um bonde virado por revoltosos no contexto da Revolta da Vacina. Fonte: https://cutt.ly/xhfymxl

Revoltas da Primeira República

Revolta da vacina

Ficou conhecida como Revolta da Vacina uma série de motins iniciados pela população do Rio de Janeiro em 1904 como reação às novas medidas sanitárias. Além da perda de moradias e das leis segregacionistas, as autoridades públicas invadiam as casas das pessoas e as obrigavam a se vacinarem.

Por questões histórico-culturais, não era bem visto o ato das mulheres mostrarem os braços aos homens, o que era necessário para o ato da vacinação. Rodrigues Alves, presidente da época, quase foi deposto em virtude do estado de calamidade que estava instaurado. A vacinação deixou de ser obrigatória, mas para se realizar diversos processos era necessário ser vacinado(a).

Após uma grave epidemia de varíola ocorrida na antiga capital brasileira em 1908, a procura pela vacina aumentou, o que contribuiu para a diminuição dos casos.

Para saber mais sobre a Revolta da Vacina, veja este vídeo produzido pela TV Senado:

Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata é a segunda da nossa lista de revoltas da Primeira República. Ele ficou conhecida por esse nome por ser a mais famosa e organizada revolta de marinheiros do Rio de Janeiro contra a prática de castigos físicos realizada por oficiais.

Liderados pelos marinheiros João Cândido Felisberto e Francisco Dias Martins, os militares de baixa patente tomaram os encouraçados São Paulo e Minas Gerais, apontando seus canhões para a cidade do Rio de Janeiro e ameaçando bombardear a capital caso suas exigências não fossem atendidas.

Os revoltosos se rebelaram contra os castigos corporais aplicados pelos seus superiores e as péssimas condições de trabalho.

Revolta da Chibata - Revoltas da Primeira RepúblicaFotografia mostrando João Cândido à esquerda de um homem de terno e cercado por marinheiros trajando seus claros uniformes. Fonte: https://cutt.ly/lhfy5K8

Hermes da Fonseca era o presidente do Brasil na época, e havia sido empossado uma semana antes. Apesar de ter concedido anistia aos revoltosos e acatado as exigências, imediatamente no dia seguinte começaram as perseguições aos envolvidos. Dessa forma, João Cândido foi preso e levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.

De 18 prisioneiros ,apenas João Cândido e outro sobreviveram à terrível detenção. Além disso, outros tantos foram desligados da marinha.

É importante entender a Revolta da Chibata no contexto do Brasil naquele período. Isso porque a escravidão havia sido abolida menos de 25 anos antes, e a maioria dos marujos era composta por homens negros que eram recrutados à força. A revolta liderada por João Cândido e Francisco Dias Martins era apenas uma de tantos outros motins que foram deflagrados na época.

Tenentismo

Tenentismo é um termo atribuído a um movimento militar de caráter político que deu origem a diversos motins durante a Primeira República. A origem do termo remete aos tenentes, militares de baixa patente que se revoltavam contra os baixos soldos, o sucateamento das forças armadas e com a corrupção na política.

Por causa de sua posição na hierarquia militar, havia muitos tenentes nos motins que eclodiram em diversas partes do país. Por isso o Tenentismo também está na nossa lista de principais revoltas da Primeira República.

Tenentismo - Revoltas da Primeira RepúblicaFotografia mostrando membros da Revolta dos 18 de Copacabana. Em primeiro plano, da esquerda para a direita, estão os tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Nílton Prado e o civil Otávio Correia. Fonte: https://cutt.ly/chfuk2u

Talvez a principal revolta tenentista tenha sido a dos 18 do Forte de Copacabana. Ela ocorreu entre os dias 5 e 6 de julho de 1922, quando estavam programadas para ocorrer uma série de levantes militares. Contudo, as insurreições foram controladas.

No entanto, um grupo de 18 homens armados, em sua maioria tenentes, não se renderam e estavam dispostos a dar suas vidas pela causa que defendiam. Saindo pela avenida Atlântica, na praia de Copacabana, após bombardearem redutos do exército a partir do forte que ali perto se localizava, os tenentes acabaram morrendo de armas na mão.

Exercícios sobre as revoltas da Primeira República

1- (FGV/2020)

Leia os dois trechos abaixo, acerca da Revolta da Vacina (1904) e da Gripe Espanhola (1918), respectivamente, e depois assinale a alternativa correta.

E foi na intersecção sufocante dessa malha densa e perversa que a população humilde da cidade viu reduzirem-se a sua condição humana e sua capacidade de sobrevivência ao mais baixo nível. A equação dessas injunções, vistas pelo seu ângulo, traduzia-se em opressão, privação, aviltamento e indignidade ilimitadas. Sua reação, portanto, não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceulhes intolerável e que eles lutaram para mudar.

SEVCENKO, N. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 88

O “povo da cidade” aprendeu a conviver intimamente com a desgraça coletiva, despontando com isto um senso de solidariedade em escala nunca vista anteriormente. O abatimento e a luta contra a peste provocaram mais que a reação coletiva, a reorganização do cotidiano, o repensar da vida individual e coletiva, a liberação dos medos e fantasias.

BERTOLLI FILHO, C. A Gripe Espanhola em São Paulo, 1918: epidemia e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 365.

a) A Revolta da Vacina representou também uma luta contra a segregação social e a política de remoções forçadas no Rio de Janeiro, e a Gripe Espanhola evidenciou a fragilidade da estrutura de saúde em São Paulo.

b) As duas situações provocaram revoltas e movimentos políticos socialistas no Rio de Janeiro e em São Paulo devido à falta de infraestrutura hospitalar.

c) Apesar dos boatos e dos medos coletivos, nas duas situações, campanhas de esclarecimento voltadas às populações subalternizadas permitiram o imediato engajamento desses setores no combate às enfermidades.

d) Nos dois casos, formou-se um amplo consenso social que teceu uma rede de solidariedade capitaneada pelos sindicatos de trabalhadores, partidos políticos e entidades da sociedade civil.

e) A gravidade da situação vivida no Rio de Janeiro e em São Paulo desencadeou uma série de reformas políticas e a criação de um sistema de saúde universal, voltado ao atendimento da população mais carente.

2- (UECE/2019)

Relacione, corretamente, os movimentos sociais da Primeira República com suas respectivas descrições, numerando os parênteses abaixo de acordo com a seguinte indicação:

  1. Cangaço
  2. Canudos
  3. Contestado
  4. Revolta da Chibata

(   ) Ocorrido no sertão da Bahia, sob liderança de um beato cearense, a comunidade por ele organizada foi destruída após ser atacada pela quarta expedição militar que contava com cerca de 7 mil soldados.

(   ) Iniciado no século XIX, esse movimento que durou até a década de 1940 era formado por homens armados que agiam principalmente no nordeste brasileiro; alguns grupos atuavam sob mando dos poderosos e outros eram independentes.

(   ) Rebelião dos marinheiros, em sua maioria negros e mestiços, contra os castigos corporais a que eram submetidos pelos oficiais, também reivindicavam melhores salários e folgas semanais.

(   ) Movimento liderado por beatos, ocorrido na região Sul do Brasil, e que teve como pano de fundo a disputa por território entre dois estados, o interesse de grandes companhias e o fanatismo religioso.

A sequência correta, de cima para baixo, é:

a) 3, 1, 2, 4.

b) 1, 3, 4, 2.

c) 2, 1, 4, 3.

d) 4, 3, 1, 2.

3- (ACAFE SC/2019)

“No dia seguinte, centenas deles se entregaram, atendendo a um apelo do governo. Um grupo se dispôs, porém, a resistir. O forte voltou a ser bombardeado por mar e por aviões. Dezessete militares, com a adesão ocasional de um civil, decidiram sair pela praia de Copacabana, ao encontro das forças governamentais. Na troca de tiros, morreram dezesseis, ficando feridos os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Os Dezoito do Forte começavam a criar a legenda do tenentismo. ”

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 5ª edição. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997. Página 308.

O texto evidencia uma revolta do movimento tenentista brasileiro. Acerca desse movimento, assinale a alternativa correta.

a) A Revolta do Forte de Copacabana foi uma tentativa de impedir a posse de Humberto Castelo Branco após a efetivação do regime militar no Brasil.

b) Combateram principalmente o governo provisório de Getúlio Vargas e exigiam a criação de uma nova constituição.

c) As principais revoltas tenentistas ocorreram após a implantação do Estado Novo por Getúlio Vargas, com o apoio de militares de alta patente.

d) Ocorreu na chamada República Velha ou Oligárquica. Buscavam mudanças no cenário político, administrativo e eleitoral do Brasil.

Gabarito:

  1. A
  2. C
  3. D

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.

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