Terceira Geração Modernista: o Romance no Modernismo – Literatura Enem

Neste post você conhecerá um pouco sobre o romance da terceira geração modernista, matéria comum no Enem. O romance psicológico e o regionalista serão duas das vertentes mais importantes dessa geração de prosadores.

A terceira geração modernista no Brasil inicia-se após o término do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1945, e se desenvolve ate meados da década de 1950, quando as denominadas “tendências literárias contemporâneas” começam a aparecer, como o Concretismo, a Poesia-Práxis, e a poesia Marginal. Esse período ficou marcado mundialmente pelo fim da segunda guerra mundial e pela guerra fria.

Conhecida também como a “Geração de 45”, a prosa dessa geração está composta por autores importantes como João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Ariano Suassuna. A pesquisa estética e experimentalismo modernista continuaram a ser amplamente praticados nessa geração.

Características Gerais da Terceira Geração Modernista

A terceira Geração Modernista, de início, é conservadora e até pode ser interpretada como uma espécie de retrocesso, se comparada à primeira. Convivem, nessa época, variantes bem distintas, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles, por meio de romances e contos, enveredam pela sondagem interior, psicológica, iniciada por Graciliano Ramos. A ela interessam a observação do ser no mundo, as suas angústias, o tempo que vai e não retorna, os sentimentos absolutos: a raiva, a inveja, os ciúmes, a dor, a solidão, a perda, a esperança, a liberdade, etc.

Existem, ainda, outros enfoques da prosa na terceira geração modernista: o regionalismo universal de João Guimarães Rosa, uma realidade de sentimentos, ações e humanidade; não apenas o lugar de gente rude, o sertão real, mas o daquelas criaturas que poderiam habitar quaisquer lugares do mundo, feitas de carne, osso, sangue e agudezas da vida. Além disso, leve-se em consideração o ritmo claramente poético de sua prosa. Veja mais sobre os autores dessa geração:

João Guimarães Rosa (1908-1967)

Nascido na pequena cidade mineira de Cordisburgo, o escritor João Guimarães Rosa foi médico, diplomata concursado, e representou o Brasil em vários lugares do mundo. A experiência de ter sido médico no interior de Minas Gerais foi fundamental para a construção do seu universo literário.

A obre da Guimarães Rosa é composta por narrativas curtas, como novelas e contos, e apenas um romance. “Grande Sertão: Veredas” (1956). Possui também um livro de poemas, “Magma” (1936). Suas personagens são tipo humano que poderiam ser classificados como caboclos: caipiras do norte de Minas, com seus falares enviesados, sobre suas mulas e cavalos, vivendo o cotidiano das coisas simples, da violência e da ignorância.  As criaturas que ele inventa pertencem ao que podemos classificar como regionalismo universal ou realismo mágico. O sertão é um pretexto para discutir experiências humanas que se mostram em quaisquer lugares deste planeta(universais). Exemplos: na inocência do coração das crianças, como em “Manuelzão e Miguelim”, na novela “Campo Geral”. Na transformação pela dor, como em “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de “Sagarana”. Ou então a aventura na qual o conhecimento livra-nos do perigo, em “O burrinho pedrês” (outro conto de “Sagarana”).

A prosa de Guimarães Rosa está repleta de invenções, palavras raras e neologismos, e tem sido bastante estudada e admirada nos meios acadêmicos, e por isso é tão presente em exames de vestibular.

“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular idéia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso…” (ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. p.26. 19. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)

Rosa, não satisfeito em criar um universo singular, utilizando como mote as histórias do sertão brasileiro, precisou criar também a sua própria linguagem. Tornando-o um dos autores mais ricos e criativos da literatura brasileira.

Clarice Lispector (1920-1977)

Nascida na Ucrânia, durante uma viagem dos pais, Clarice Lispector chegou ao Brasil com dois meses, passando a infância no Nordeste do país. Deixou o Recife na adolescência e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhava como secretária, de dia, e cursava Direito, à noite. O seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem (1943), foi lançado quando a autora tinha 19 anos.

Em suas obras, e desde o início de sua produção, rompeu com os paradigmas narrativos tradicionais, criando um contexto existencialista, que se preocupava com a essência dos seres, sondando-lhes as alegrias, angústias, dúvidas, decepções, contentamentos e esperanças. É o que encontramos em “A Hora da Estrela”(1977), “A Paixão Segundo GH”(1964), “O Lustre”(1946), “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”(1969), Em seus contos e romances.

“A Hora da Estrela”,(1977) transformado em filme, seria a sua obra mais conhecida. Narra a vida da imigrante nordestina Macabéa, que vem para o Rio de Janeiro e leva uma vida difícil e sem sentido, trabalhando como secretária; comendo mal; tendo como divertimento uma estação de rádio monótona e convencional; sendo humilhada por quase todos, incluindo a amiga e o namorado; morando em uma pensão com pessoas em condições parecidas com as dela.

Em meio à precariedade e falta de propósito de sua existência, que vai sendo explorada ao longo do texto, a narradora é capaz de nos fazer observar momentos de grandeza e iluminação de seus personagens, ainda que possam ocorrer num contexto, por vezes, trágico. É o se chama de Epifania, entendimento súbito de uma verdade superior. São ápices assim que constituem os momentos clímax das obras de Clarice.

Outras características da obra de Clarice que devem ser apontadas são: O Fluxo de Consciência, que é o monólogo interior dos personagens, a abordagem do mistério metafísico da existência; a ruptura com o tempo cronológico; a atmosfera e enredo cotidiano, visando o universalismo. Estilo e técnicas que pertencem à tendência dos romances com narrativa psicológica, comum entre os autores da terceira geração do modernismo.

Para reforçar esse conteúdo, veja as videoaulas do prof. Rolo:
Veja agora alguns exercícios sobre os romancistas da Terceira Geração Modernista:

(Enem – 2013)

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
[…]
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. […] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

a) observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens.
b) relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem.
c) revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.
d) admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras exatas.
e) propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.

Resposta: Alternativa “c”.

(Enem- 2011)

Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: — Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d‘angola, como todo o mundo faz? — Quero criar nada não… — me deu resposta: — Eu gosto muito de mudar… […] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. […] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. […] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.

ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).

Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador

a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho.
b) descreve o processo de transformação de um meeiro — espécie de agregado — em proprietário de terra.
c) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.
d) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao mesmo tempo, dependente.
e) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras.
Resposta: Alternativa “d”.

(Enem-2016)

A partida de trem
Marcava seis horas da manhã, Angela Prain pagou o táxi e pegou sua pequena valise, Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.
Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:
-A senhora deseja trocar de lugar comigo?
Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo, Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filligranado de ouro espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:
– É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?

LISPECTOR, C. Onde estiveste de noite. Rio de Janeiro. Nova Fronteira.

A descoberta de experiências emocionais com base no Cotidiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No fragmento, o narrador enfatiza o(a)
comportamento vaidoso de mulheres de condição social privilegiada
anulação das diferenças sociais no espaço público de uma estação.
incompatibilidade psicológica entre mulheres de gerações diferentes.
constrangimento da aproximação formal de pessoas desconhecidas.
sentimento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.

Resposta: Letra “e”.