O senso comum e a filosofia

Vamos analisar a diferença entre o ordinário e o incomum ao falarmos do conceito de senso comum, conteúdo presente no Enem. Prepare-se com a gente!

A filosofia é frequentemente antagonizada por vários argumentos. Tem quem diga que a religião é seu antônimo, quem ache que ela é oposta a mitologia, já ouvi até mesmo dizerem que filosofia e ciência não se misturam. No entanto, talvez a mais corriqueira dessas comparações seja entre a filosofia e o senso comum.

O que é senso comum?

Mas, o que é senso comum? Podemos defini-lo como um modo genérico que a maior parte das pessoas utiliza para ponderar as coisas – daí a ideia de comum – que acontecem em seus respectivos cotidianos. Valendo-se de noções muitas vezes rústicas e superficiais, o senso comum é o conhecimento que adquirimos ao observar e experimentar esse mundão em que vivemos.

horóscopo - senso comum
Imagem 1: Muitas das coisas que acreditamos não possuem quaisquer comprovações, sejam elas filosóficas ou científicas

Tem um outro campo de conhecimento que também se apoia na experiência para entender o mundo, a ciência. Chamamos isso de empirismo. Aliás, empirismo é uma “parada” bem comum na Filosofia.

Ora, então o que difere então o senso comum da ciência ou da filosofia? É a questão do método. O senso comum acumula conhecimento através da vivência das pessoas, sendo o conhecimento passado entre as gerações. Já a ciência utiliza algo chamado método científico.

O senso comum e a filosofia

Note que o senso comum também não pode ser filosofia, pois ele é composto por um conhecimento não refletido, isto é, livre de um senso crítico. E, se você já entende bem sobre o que é filosofia, sabe que ela está fortemente baseada na ideia de reflexão crítica acerca do mundo.

senso comum
Imagem 2: Agir de acordo com a maré é algo que vai contra a filosofia, pois não é porque todo mundo faz algo que deveríamos faze-lo também. Como diz minha mãe, você não é todo mundo.

Dessa maneira, os filósofos acabam utilizando o termo senso comum para procurar explicar as interpretações que a galera tem sobre a realidade à sua volta. Ele serve, principalmente, para orientar as pessoas e não as deixar malograr como no passado.

Com o fim da filosofia do renascimento, o senso comum, enquanto fonte válida de conhecimento, entrou em declínio. Lá nos meados do século VII, a filosofia racionalista começou a ganhar muito destaque. Nesse âmbito, uma obra corroborou enormemente com o declínio do senso comum, o Discurso do Método de René Descartes.

Concomitantemente, a ciência e seus métodos científicos também ganharam bastante espaço no campo do conhecimento. Essas novas abordagens fizeram com que o senso comum parecesse algo arcaico e caracterizado como carente de rigor metodológico.

Por que é importante separar senso comum de filosofia?

A importância dessa distinção vem de uma época há muito passada, quando as pessoas acreditavam nas coisas sem uma base argumentativa e racional sólida. Isso gerou, por exemplo, uma crença em diversos deuses e outros engôdos que foram se proliferando geração após geração.

Imagine que na Antiguidade, ou até mesmo antes disso, as explicações de mundo careciam de metodologias ou quaisquer tipos de formalização do pensamento. Assim, afirmar algo como verdadeiro era demasiadamente simples. Grandes oradores possivelmente se dariam muito bem, bastando-lhes apenas o carisma para edificar o conhecimento!

É fácil entender como as explicações de mundo de outrora, apesar de simples e muitas vezes equivocadas, ganharam tanto respaldo. Ao que parece, nós temos a tendência de colocar a vida no piloto automático depois de um tempo.

A gente fica tão exausto de nossas rotinas de trabalho, estudo, e outras atividades que acaba não ponderando sobre vários acontecimentos à nossa volta. Afinal, tudo está funcionando, está tudo tão rotineiro, não há uma necessidade emergente de mudança.

Charge - senso comum
Imagem 3: É algo potencialmente desastroso levar a vida no piloto automático.
A importância da reflexão

Mas olha só, conforme o tempo vai passando e a barba vai crescendo, algumas situações tendem a mudar. Isso porque as pessoas acabam, ocasionalmente, se chocando com a realidade. Isto é, há um espanto que tende a acontecer ao nos confrontarmos com algo que rompa com a normalidade das nossas vidas, algo que geralmente quebra nossa rotina.

Assim, num dia qualquer, começou a nascer a necessidade de um outro olhar sobre a realidade. Fenômenos antes facilmente explicáveis tendem a não se encaixar mais nos moldes das nossas explicações, abrindo caminho então para novas possibilidades de explicação. Aqui, então, podemos pontuar a cisão do que era senso comum para algo novo, incomum. Cara, e a Filosofia é bem isso aí, o incomum.

Analisada pelo viés da filosofia, essa cisão pode ser encarada como a revolução que pôs fim ao mito, originando a própria Filosofia. Assim sendo, nós, pessoas ordinárias, acabamos por sair do piloto automático e, desestabilizados, procuramos edificar novas bases para solidificar a realidade à nossa volta. Isso porque a normalidade passa a nos incomodar e a quebra de rotina nos causa angustia.

Os perigos do senso comum

Dentre os vários tipos de informação que vem do senso comum e circulam em nosso cotidiano, algumas são tão absurdas que demoramos a acreditar que há quem as considere verdadeiras. Essas informações, em sua maioria, são consideradas superstições. Por exemplo: gato preto dá azar, cortar o cabelo na lua crescente para crescer mais rápido, e o número 13 dá sorte ou azar.

Todavia, existem aquelas que insistem em assumir-se como algo além das superstições e tendem a galgar um status de conhecimento legitimo. Um exemplo muito bom disso é a crescente ascensão dos autointitulados “coachs”, principalmente, daqueles com discursos quânticos e outras trends que flutuam no mainstream da internet.

A maioria dessas informações apresentadas por essa galera não possuem nenhum tipo de embasamento filosófico, quiçá científico, e se mascara como se fosse filosofia ou ciência. Mas, não se engane, é a boa e velha charlatanice em uma nova roupagem, mas ainda movida pelo que os romanos chamavam de auri sacra fames, a fome de dinheiro!

Informações falsas

Talvez hoje a maior preocupação em relação à não reflexão da realidade à nossa volta seja o fenômeno mundial chamado fake news. Nada define tão bem o malogro do senso comum na atualidade como a desinformação que tomou conta das redes sociais.

Imagem 4: As mídias sociais se tornaram uma importante ferramenta de dominação das massas.

A não reflexão e a fácil aceitação dos discursos carismáticos que dialogam com o sujeito comum tem gerado um nível alarmante de pessoas alheias à realidade. Elas vão de analfabetos políticos a terraplanistas que teimam em serem detentores da verdade, mesmo sem um método ou qualquer rigor nos discursos.

Por fim, embora dotado de uma utilidade prática e carregado de conhecimentos válidos a respeito do mundo, o senso comum, enquanto forma de conhecimento do mundo, pode ter desdobramentos nefastos. Isso porque diferente da filosofia e da ciência, não lhe é necessário qualquer crivo metodológico para afirmar algo. Por conta disso tudo, o senso comum passou a não satisfazer mais a galera. Carecíamos de descobrir outra maneira de abordar os problemas causados pela realidade e então fomos levados a refletir.

Para finalizar sua revisão e resumir o que você leu aqui, veja esta videoaula:

Exercícios:

1- FGV – 2013

Analise os fragmentos a seguir.
Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações (??). [Achamos] óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos (?).

(CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1999, p. 9, 111)

O que se costuma solicitar à Filosofia é que ilumine o sentido teórico e prático daquilo que pensamos e fazemos, (?) que nos diga alguma coisa sobre nós mesmos, que nos ajude a compreender como, por que, para quem, por quem, contra quem ou contra o que as ideias e e os valores forram elaborados e o que fazer deles.

(CHAUÍ, Marilena. A Reforma do ensino. Refazendo a Memória. 1987, p. 1559.)

Com base nos fragmentos acima, assinale a alternativa que distingue corretamente o ” filosofar” espontâneo, próprio do senso comum, do ” filosofar” propriamente dito.

a) A filosofia e o senso comum consideram o conhecimento como crença verdadeira justificada.

b) A filosofia é uma experiência do pensamento que supera os limites da experiência imediata.

c) A filosofia e o senso comum são sistemas teóricos que demonstram o que é a realidade ou o mundo.

d) O senso comum estabelece juízos e raciocínios a respeito do mundo que têm validade necessária e universal.

e) A filosofia e o senso comum produzem inferências que desnaturalizam a realidade.

2- Unicamp 2017

“Muitos políticos veem facilitado seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão somente usam de uma inteligência de rebanho. É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante. ”

Karl Jaspers, Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1976, p.140.

Assinale a alternativa correta.

a) O filósofo lembra que a filosofia tem um potencial crítico que pode desagradar a políticos, poderosos e ao senso comum, tal como ocorreu na Grécia em relação a Sócrates.

b) A filosofia precisa ser entediante para estimular o pensamento crítico, rigoroso e formar pessoas sensatas, a partir do ensino de lógica, retórica e ética.

c) A ditadura militar no Brasil retirou a disciplina de filosofia das escolas por considerá-la subversiva, mas atenuou a medida estimulando os Centros Populares de Cultura (CPC), ligados a entidades estudantis.

d) Os políticos e a estrutura escolar não são o verdadeiro obstáculo ao ensino de filosofia, mas a concepção de que ela é difícil e tediosa, considerando-se que existem mecanismos para aproximá-la do senso comum.

3- Enem PPL 2012

Pode-se viver sem ciência, pode-se adotar crenças sem querer justificá-las racionalmente, pode-se desprezar as evidências empíricas. No entanto, depois de Platão e Aristóteles, nenhum homem honesto pode ignorar que uma outra atitude intelectual foi experimentada, a de adotar crenças com base em razões e evidências e questionar tudo o mais a fim de descobrir seu sentido último.

ZINGANO, M. Platão e Aristóteles: o fascínio da filosofia. São Paulo: Odysseus, 2002.

Platão e Aristóteles marcaram profundamente a formação do pensamento Ocidental. No texto, é ressaltado importante aspecto filosófico de ambos os autores que, em linhas gerais, refere-se à

a) adoção da experiência do senso comum como critério de verdade.

b) incapacidade de a razão confirmar o conhecimento resultante de evidências empíricas.

c) pretensão de a experiência legitimar por si mesma a verdade.

d) defesa de que a honestidade condiciona a possibilidade de se pensar a verdade.

e) compreensão de que a verdade deve ser justificada racionalmente.

GABARITO

1- B

2- D

3- E

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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