Simbolismo no Brasil: características, autores e obras

Revise os principais aspectos da escola literária representada por Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens para ir bem na prova de Literatura do Enem.

Nesta aula você vai revisar as principais características do Simbolismo no Brasil. Trata-se de um movimento artístico que também se manifestou no teatro e nas artes plásticas. Entretanto, foi na literatura que ele conquistou sua principal expressividade. Também será apresentado um breve panorama acerca da vida e da obra dos dois principais poetas simbolistas brasileiros: Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens.

O que é o Simbolismo

O Simbolismo é um movimento artístico que se manifestou na literatura e em outras artes. Essa tendência artística surgiu na França, no final do século XIX como uma reação contrária às estéticas realista, naturalista e parnasiana.

Trata-se de um movimento que retoma os ideais românticos, o qual se expressou na literatura, no teatro e nas artes plásticas. Enquanto escola literária, a obra que o inaugura é As flores do Mal, do poeta francês Charles Baudelaire. O misticismo, a subjetividade e a sinestesia, isto é, a valorização dos sentidos, são algumas de suas principais características.

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pintura do simbolismo
A aparição (1875), do artista francês Gustave Moreau, é uma das pinturas simbolistas mais famosas do mundo

Simbolismo literário

A literatura simbolista é uma das manifestações literárias mais ricas dentre todas. A poesia foi a forma privilegiada nessa escola literária, sendo o soneto a composição poética preferida entre os poetas simbolistas.

Os temas se opõem àquilo que o Realismo, Naturalismo e Parnasianismo utilizavam em suas obras literárias. Assim, o Simbolismo terá uma certa relação com o Romantismo, ressignificando-o, ao ponto que pode ser considerado uma espécie de neorromantismo.

Os poemas simbolistas valorizam os temas místicos, ocultos e espirituais. Ao contrário do Parnasianismo, a descrição e a objetividade cedem espaço à sugestão e a subjetividade na estética simbolista.

A sinestesia, sensação produzida pela interpenetração de órgãos sensoriais ou pelo cruzamento entre dois ou mais dos cinco sentidos, será recorrente. “Voz aveludada” (audição+tato), “brisa negra” (tato+visão), “ápero aroma” (tato+olfato) e “mel escarlate” (paladar+visão) são alguns exemplos de sinestesias.

Outras duas características são a aliteração e a assonância, duas figuras de linguagem referentes à sonoridade. A aliteração consiste na repetição de uma consoante ao longo dos versos. Já a assonância é a repetição de uma determinada vogal. Exemplificando uma aliteração, em

Vozes veladas, veludosas vozes, / Volúpias dos violões, vozes veladas”

De Cruz e Sousa, temos a repetição da consoante v. E uma assonância pode ser encontrada neste outro verso do autor:

“Ó Formas alvas, brancas, Formas claras / De luares, de neves, de neblinas!”

Aqui constatamos a repetição da vogal a. Tais recursos sonoros tornam os poemas simbolistas profundamente musicais.

Simbolismo no Brasil

O Simbolismo no Brasil tem início em 1893 com a publicação de dois livros: Missal (prosa) e Broquéis (poesia), ambos de Cruz e Sousa. Além desse poeta, destaca-se também a obra de Alphonsus de Guimaraens.

Quanto à sua duração, o Simbolismo brasileiro estendeu-se até o ano de 1922, quando da realização da Semana de Arte Moderna. Agora veremos um pouco a respeito da vida e da obra dos dois principais poetas simbolistas de nossa literatura.

Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis-SC. É filho de escravos alforriados, Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição.

No entanto, o poeta desde pequeno recebeu a tutela e uma educação refinada de seu ex-senhor, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, e sua esposa, Dona Clarinda Fagundes Xavier de Sousa.

Dona Clarinda não tinha filhos e passou a proteger e cuidar da educação de João. Dessa forma, o casal concedeu ao garoto o sobrenome e lhe forneceu condições ideais para a sua educação. Logo surgia um adolescente brilhante e intelectual interessado pelas letras: João aprendeu francês, latim e grego.

Além disso, foi discípulo do alemão Fritz Müller (amigo de Charles Darwin), com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.

Conhecedor da língua francesa e tendo completo domínio da língua portuguesa, o poeta atuou em diversos jornais e revistas da época. Em 1883, foi vitimado por uma explícita manifestação de preconceito racial: não foi aceito como promotor de Laguna-SC devido ao fato de ser negro.

Isso abalou profundamente o poeta, provocando grande desalento. Por outro lado, tal acontecimento impulsionou sua vontade de engajar-se na luta pelos ideais abolicionistas.

Também é possível constatar a temática do preconceito racial, direta ou indiretamente, como assunto recorrente em sua poesia. Decepcionado com o episódio de Laguna, partiu para a cidade do Rio de Janeiro. Em terras fluminenses, trabalhou na estrada de ferro Central Brasil e colaborou com o jornal Folha Popular. Também no Rio, em 1890, fundou o primeiro grupo simbolista brasileiro, juntamente com Oscar Rosas e B. Lopes.

simbolismo brasileiro cruz e sousa
Uma das imagens mais conhecidas do poeta catarinense Cruz e Sousa

Em 1893, o poeta simbolista casou com Gavita Gonçalves, com quem teve quatro filhos. A família do poeta, entretanto, desfez-se de maneira trágica: todos os seus filhos foram acometidos de tuberculose e faleceram. A esposa Gavita, diante de tais fatalidades, enlouqueceu. Debilitado emocional e fisicamente, o poeta também contraiu tuberculose. Em busca de um clima mais favorável à sua recuperação, mudou-se para a cidade de Sítio-MG, onde faleceu no ano de 1898.

A obra de Cruz e Sousa

Esteticamente falando, a poesia de Cruz e Sousa possui uma rigorosa metrificação decassílaba, uso de sonetos e rimas ricas. Além disso, o poeta vale-se de aliterações e assonâncias, o que torna seus poemas repletos de musicalidade.

A obra de Cruz e Sousa reflete também uma preocupação de caráter social. Esta se torna explícita quando o poeta tematiza a angústia, o pessimismo e o tédio do homem dos fins do século XIX. Assim sendo, diante da realidade opressora, o poeta vê a evasão e o misticismo como únicas alternativas de superação.

Um fato curioso que podemos constatar nos poemas de Cruz e Sousa é o uso ou referência ostensiva à cor branca. O leitor poderá encontrar palavras tais como neve, brilho, espuma, pérola, estrela, nuvem, lua… Segundo alguns críticos literários de sua obra, tal recorrência pode ser entendida como uma manifestação crítica do poeta ao preconceito racial, que era comum no país.

Entretanto tal teoria é refutada por outros, visto que na poesia simbolista de países que não vivenciaram a escravidão também se usava tal vocabulário. Logo, tais estudiosos acreditam que Cruz e Sousa até tenha pensado em uma crítica ao racismo, mas consideram mais provável que ele estivesse utilizando um vocabulário tipicamente simbolista. Nesse sentido, a cor branca pode remeter à ideia de uma atmosfera mística, transcendental, onírica, sugestiva e espiritual.

Devido à elegância e ao artesanato dedicado aos seus versos, o poeta recebeu dois epítetos: Cisne Negro da literatura brasileira (o mais usual) e Dante Negro.

Alphonsus de Guimaraens

Outro poeta que se destaca no Simbolismo brasileiro é Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães. Nascido em Ouro Preto-MG, sua poesia é profundamente religiosa e sensível na medida em que explora o sentido da morte, do amor impossível, da solidão e da inadaptação ao mundo.

Ainda na flor da juventude e vivendo em Minas Gerais, Guimaraens sofreu um episódio traumático em sua vida: sua noiva Constança morreu poucos dias antes do casamento. Tal fato repercutiu por toda sua poesia.

Posteriormente, foi para São Paulo estudar Direito na faculdade do Largo São Francisco (atual Faculdade de Direito da USP). Foi durante seu percurso acadêmico que Alphonsus tomou contato os ideais simbolistas e escreveu a maior parte de sua obra.

Já formado, Alphonsus viajou para o Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Cruz e Sousa. Depois de retornar a Minas Gerais, ele exerceu o cargo de juiz na cidade de Mariana. Devido ao período em que viveu nesse município, ficou conhecido como “O Solitário de Mariana”. O apelido lhe foi dado devido ao isolamento completo em que viveu. Sua vida, nessa época, passou a ser dedicada basicamente às atividades de juiz e à elaboração de sua obra poética.

Foi também nessa cidadezinha interiorana que o poeta constituiu sua família. Ao lado de sua esposa, Zenaide, e seus catorze filhos, Alphonsus levou uma vida tranquila e sem requintes. Lá viveu até o ano de sua morte, em 1921.

simbolismo brasileiro alphonsus
Alphonsus de Guimaraens e sua mulher Zenaide.

A obra de Guimaraens é marcada pela utilização de uma linguagem simples, onde podemos encontrar as já citadas características dos poemas simbolistas. No plano formal, a poesia de Alphonsus é mais clássica que a de Cruz e Sousa.

Videoaula sobre os poetas do Simbolismo no Brasil

Para terminar, assista à videoaula abaixo, em que a professora Camila, de Literatura, apresenta as características da poesia de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens.

Questões sobre o Simbolismo brasileiro

Agora que você já aprendeu tudo sobre o Simbolismo no Brasil, responda às questões abaixo!

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Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.

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