O Super Homem nietzschiano

Bora descobrir quem é o Clark Kent da Filosofia? O filosofo Friedrich Nietzsche criou o conceito de Super Homem para dar fim a uma vida escravizante, ao fazê-lo acaba por coincidência “matando” Deus! Venha entender essa história direito porque ela é conteúdo do Enem.

Um dos filósofos mais conhecidos da modernidade é Friedrich Wilhelm Nietzsche (cujo nome é sempre uma aventura escrever), talvez isso se deva ao fato de suas obras serem bastante aforismáticas – Já disse que ele era poeta? E, por isso, tiveram trechos destacados e viralizados se tornando muitas vezes até mensagens de autoajuda, o que ironicamente vai na contramão do pensamento nietzschiano.

foto de nietzsche
Figura 1. Muitos dizem que a filosofia nietzschiana embasou o nazismo, todavia não é verdade que ele era a favor de doutrinas nazistas, mas sim que Hitler utilizou seus textos publicados postumamente e manipulados por sua irmã (que foi casada com um membro do exército alemão) para inventar seu apoio.

Nascido na Prússia em 1844, Nietzsche era filho de um pastor luterano, fato curioso pois grande parte da sua obra tem como alvo o estudo de uma moral judaico-cristã. Grande parte de suas obras trabalha com essa temática religiosa, ainda que muitas vezes seja  coadjuvante do intento principal. Assim é o conceito de Übermensch, que numa tradução livre seria algo como além-homem, mas que ficou mais conhecido como: O Super Homem de Nietzsche.

ilustração do super homem de nietzsche

Bom, existe em Nietzsche uma certa busca pelo Critério da Vida, uma ruptura com os valores morais de outrora. Essa ruptura é embasada numa Genealogia que o filósofo faz com algumas ideias de outrora. Nietzsche vai criticar o que ele chama de Filosofia Apolínea em detrimento de uma Filosofia mais Dionisíaca.

Essa jornada genealógica começa a partir de Platão e foca posteriormente no cristianismo, pois ambos defendem que o mundo em que vivemos é apenas uma representação aparente do que realmente existe em um outro mundo muito mais extraordinário do que esse.

Essa teoria de Mundo das Ideias de Platão ou paraíso cristão nos levou, segundo Nietzsche, deixar de curtir os “rolês” desse mundo, pois estamos pilhados em outro mundo que quiçá nem existe! Esta ideia é absurda na concepção do filósofo, daí todo o empenho dele em escrever a respeito do Critério da Vida.

De acordo com o filósofo, só existe um mundo, e ao enxergarmos isso, notaremos também que nossos valores, nossa moral e tudo mais que fundamenta ela está completamente equivocada. Ora, a moral cristã é estruturada na ideia de um ser extra planar, uma entidade desse além-mundo, ou seja, em um Deus.

Portanto, se devemos nos desfazer das coisas que fundamentam uma falsa moral e Deus é o principal desses fundamentos, logo, devemos nos desfazer desse Deus. Deus bateu as botas.

Mas o que é o Super Homem de Nietzsche?

Para entender o que está por trás dessa ideia de Super Homem de Nietzsche, é capital explicar sobre uma das frases mais famosas do filosofo prussiano em questão, aquela que enuncia: Deus está morto! Cara, pensa numa frase incompreendida, muita gente lê e associa este enunciado a uma parada religiosa, quiçá satanista! Mas, assim como boa parte das máximas nietzschianas ela está longe de ser isso.

charge super homem de nietzsche
Figura 3. “Não ouvimos o barulho dos coveiros ao enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – Também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! ” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125

Bom, embora filho de um pastor, Nietzsche era um ateu desses bem osso duro de roer. Ora, se ele era ateu, por que ele diria que algo em que não acreditava estava morto? Ah! Ao invés de uma afirmação religiosa maniqueísta, essa ideia, esse deicídio cometido pelo filósofo é o pano de fundo de sua filosofia. Pois, a ideia da morte de Deus é uma metáfora do fim de uma Filosofia metafísica que vinha se arrastando pelas eras.

Foi em uma obra chamada “A Gaia Ciência” escrita em meados de 1882, que Nietzsche nos concedeu seus famigerados 383 aforismos. De todos estes eu vou destacar o de número 125, no qual aparece, ainda em estado bruto, a ideia do deicídio.

Posteriormente, na obra “Assim Falou Zaratustra” esse mesmo argumento (da morte de Deus) reaparece muito mais lapidado. Essa obra narra de maneira bem tranquila a história de um mano chamado Zaratustra e por meio dele o filósofo alemão introduz a fundamental ideia da morte de Deus.

É importante lembrar que não devemos encarar o deicídio como uma exaltação do ateísmo. Na real, o assassinato de Deus é a metáfora que marca o princípio de uma discussão na nossa sociedade. Pois, antes desse assassinato, vivíamos em função de um sistema de valores e uma moral guiados pela igreja. Após o anúncio da morte de Deus deixamos de viver desta forma.

montagem de nietzsche
Figura 4. Se Deus está morto, Nietzsche tropeçou no cadáver, mas são impressões digitais de Kant que estão na arma.
Para além do ser humano

Seguindo com essa a ideia de que Deus está morto, a intenção de Nietzsche em apontar o niilismo europeu vigente (ou seja, a queda da moral judaico-cristã) fica evidente a diminuição da influência da igreja enquanto instituição política. Perceba que a ideia nietzschiana não é destruir a religião pura e simplesmente. O filosofo foi além, combatendo toda a influência que o pensamento cristão exerceu na vida cotidiana.

Assim como antigamente, Nietzsche pôs a Filosofia a lutar contra os mitos, só que agora, não mais com Zeus, Medusas e Minotauros mas com a Igreja e toda a Teologia e a moral derivada dela. Assim sendo, a religião e sua Moral judaico-cristã passou a minguar e paulatinamente desvanecer-se. Esse é o propósito do deicídio, a morte de Deus serviu para libertar as pessoas da moral de escravo, isto é, serviu para percebermos que o Critério que devemos utilizar para viver a vida é a própria vida.

charge super homem de nietzsche
Figura 5. Quando se separou o conceito de Natureza do conceito de Deus, tudo foi por água abaixo! E então tudo o que é natural passou a ser negado e abominado em nome de Deus, que não está na natureza e nem é natural, mas está além do mundo.

Bom, o arranque se deu com a morte dos valores cristãos e a partir disso, há um certo sentimento de inquietude, pois, não existe mais um guia moral dizendo as pessoas o que fazer. Elas estão demasiadamente livres e isso faz com que fiquemos perdidos a princípio.

Essa liberdade foi descrita por Nietzsche como algo problemático.  A galera trocou Deus por pontos mais mundanos, substituindo aqueles ideais divinos pela ciência ou por outras práticas humanas, como diria o próprio Nietzsche, uma moral demasiadamente humana.

Embora Deus esteja morto seu corpo permanece insepulto a medida em que nós permanecemos a venerar ídolos, disfarçando a velha moral cristã. De nada valeu o deicídio se a humanidade continuou crente! Transformando a Fé em Razão e idolatrando a ordem e o progresso enquanto a moral escrava nos faz dobrar os joelhos e continuar a servir. Trocamos o Deus de outrora pela releitura demasiadamente humana da ordem e progresso.

Como superar isso então? Será que viveremos sempre reféns de uma moral que nos escraviza? E agora Nietzsche o que faremos? Ah! Para sair dessa o filosofo propõe a superação de nós mesmo. Funciona assim, mesmo que esteja tudo um caos ao seu redor, com florestas ardendo e nativos mortos em nome do progresso, é preciso que dancemos. É você não leu errado, Nietzsche propõe que dancemos!

“É verdade: amamos a vida não porque estejamos habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura. E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens. Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.

Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar. E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadelo. Por ele caem todas as coisas. Não é com cólera, mas com riso que se mata. Adiante! matemos o espírito do pesadelo!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a voar; por conseguinte não quero que me empurrem para mudar de sítio. Agora sou leve, agora voo; agora vejo por baixo de mim mesmo, agora salta em mim um Deus” – Assim Falou Zaratustra.”

Na obra “Assim Falou Zaratustra”, é possível encontrar essa metáfora algumas vezes. Com essa ideia de dança, Nietzsche, por meio do protagonista Zaratustra, quis expor a sua ideia de curtir a vida, de Amor Fati, Zaratustra abraçou a vida pois aprendeu a dançar.

A metáfora se trata de ouvir o mundo e todo seu ritmo e com ele dançar. Para ficar mais coeso, nossa própria existência se dá dentro de algo que chamamos de mundo, cabe a nós apreender a sentir e entender esse mundo e depois disso, é só viver – É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz a uma estrela dançante, bora dançar!

Essa ideia do dançarino compõe o conceito do Super Homem de Nietzsche. O Clark Kent nietzschiano é um sujeito dançante cujo ressentimento a respeito das desgraças do mundo ele superou. O além-homem deve deixar tudo para trás e com isso destruir todos os ídolos, martela-los até se tornarem poeira. Somente assim, o ser humano se transforma no artista. Naquele que é dono de si, no sujeito dançante pois, compreendeu o sentido do Eterno Retorno.

O eterno retorno, esse é um dos mais bonitos conceitos apresentados pelo filósofo em suas obras. De maneira sucinta, o conceito que aparece no aforismo 341 de “A Gaia Ciência” e também na obra de Zaratustra, serve para que entendamos o Critério da Vida. Bom, e já que tem toda uma poética envolvida, vale a pena conferir um pedacinho do texto, eis aqui o eterno retorno:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: «Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira! (…)”

Vish! A partir daí Nietzsche faz a reflexãod: dado essa oferta (de reviver sua vida toda igualzinha) você iria temer esse demônio vil e cruel ou diria que és um Deus? Bom, dessa ideia de eterno retorno, o filósofo desejou expressar que devemos viver a vida tal como ela deve ser vivida e deixar de lado o que não importa, pois, repetir infinitas vezes sua vida seria uma dádiva, não um castigo.

Viver essa vida dançante, essa vida em que o Eterno Retorno seria uma dádiva é ir além, é ultrapassar todas as formas de “ismos” que vemos pelo mundo e nos libertar dos moralismos que nos aprisionam. É como Nietzsche um dia me disse, ao invés de perguntar o que pode o homem? Caí na real e perceba que ele não pode mais nada. A mais sensata alternativa seria superá-lo, seria ir além do homem, ser o Super Homem de Nietzsche!

super homem de nietzsche ilustração
Figura 7. “Os mais preocupados perguntam hoje: como conservar o homem? Mas Zaratustra é o primeiro e único a perguntar: Como superar o homem? ” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 272

Em suma, depois de Deus morrer, se deu início ao jogo de poder para definir qual seria as novas regras da moral. Com isso o niilismo trouxe angústia e até desespero pelas incertezas da vida. Todavia, é o Übermensch (o Super Homem de Nietzsche) quem transcende o bem e o mal, Deus e toda as religiões. Com isso também fica para trás a moral judaico-cristã, as leis dos homens e tudo aquilo que nos aprisiona, o Super Homem supera a moral do escravo.

Por fim, embora a morte de Deus tenha sido o estopim, foi somente com o tal do Super Homem nietzschiano que o deicídio se tornou algo decisivo, pois, é com o desvanecer do homem que iria emergir o homem que irá além dele próprio. Superando assim Deus, bem como todos os demais valores apolínios para finalmente pôr fim a angustia e noticiar o que Nietzsche chamou de filosofia do meio-dia.

Zaratustra foi um herói acima de Deus e dos homens, mas o que faz de um herói alguém especial? Confira no videio abaixo:

Agora é contigo, teste seus conhecimentos nas questões a seguir.

1) UEG – No século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche vislumbrou o advento do “super-homem” em reação ao que para ele era a crise cultural da época. Na década de 1930, foi criado nos Estados Unidos o Super-Homem, um dos mais conhecidos personagens das histórias em quadrinhos. A diferença entre os dois “super-homens” está no fato de Nietzsche defender que o super-homem

a) agiria de modo coerente com os valores pacifistas, repudiando o uso da força física e da violência na consecução de seus objetivos

b) expressaria os princípios morais do protestantismo, em contraposição ao materialismo presente no herói dos quadrinhos

c) abdicar-se-ia das regras morais vigentes, desprezando as noções de “bem”, “mal”, “certo” e “errado”, típicas do cristianismo

d) representaria os valores políticos e morais alemães, e não o individualismo pequeno burguês norte-americano

2) (UFSJ 2012) Assinale a alternativa que expressa o pensamento de Nietzsche sobre a origem do bem.

a) “Faça isto e mais isto, não faça aquilo e mais aquilo – e então serás feliz, contrário…” Dessas ações procedem o bem em si.

b) “Todo o bem procede do instinto e é, por conseguinte, leve, necessário, espontâneo”.

c) “O vício e o luxo são a causa do perecimento de povos e raças”. Libertar-se de tais desequilíbrios, eis aí a fórmula do bem original.

d) “O cornarismo resume toda a origem do bem e é prerrogativa cultural da raça humana”.

e) “Deus é o criador do bem”.

3) (UFSJ 2012) Na perspectiva nietzscheana, o livre-arbítrio é um erro porque

a) ao declarar que os homens são livres, as forças coercitivas, como o poder da Igreja, agem com o claro intuito de castigá-los, julgá-los e declará-los culpados.

b) os homens, indignos como são, jamais alcançarão a dimensão da ideia implícita no livre-arbítrio.

c) o cristianismo, apesar de seus esforços candentes, não conseguiu tirar a culpa do ser humano.

d) a fatalidade impressa no ser humano está na sua historicidade, no seu livre-arbítrio, e por isso mesmo o Homem está condenado à culpa.

Gabarito

1.C, 2.B, 3.A.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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