Theodor Adorno, a Escola de Frankfurt e a dialética negativa

Theodor Adorno (1903 – 1969) foi um filósofo alemão e um dos fundadores da Escola de Frankfurt. Possui estudos sobre indústria cultural, dialética negativa e filosofia moral.

O filósofo alemão Theodor Adorno (1903 – 1969) foi um integrante do Instituto para Pesquisa Social – Institut für Sozialforschung – popularmente chamado de Escola de Frankfurt. Adorno, ao lado de Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas, Wilhelm Reich e outros mais, foi um dos neomarxistas que fundaram o instituto em 1924.

Theodor AdornoTheodor Ludwig Wiesengrund Adorno foi um filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor. Nasceu em Frankfurt, Alemanha, no dia 11 de setembro de 1903.

A Escola de Frankfurt e a Alemanha nazista

Em conjunto com seu grande amigo Marx Horkheimer, Adorno deu um viés mais filosófico e sociológico ao pensamento da Escola de Frankfurt, já que esta tinha uma abordagem mais econômica do mundo.

As primeiras obras de Adorno tinham como objeto de estudo as artes de maneira geral. Ele foi um grande crítico da produção artística da época, ao lado de seu conterrâneo Walter Benjamin, o qual teve obras publicadas pelo próprio Adorno após sua trágica morte.

A escola de Frankfurt foi uma das várias instituições afrontadas pela ascensão do regime nazista na Alemanha. Esse acontecimento fez com que a maioria de seus intelectuais (que tinham uma orientação marxista) deixassem a Alemanha, pois temiam uma perseguição por parte do regime de Hitler.

Inclusive, a própria Escola de Frankfurt se mudou da Alemanha. O instituto foi inicialmente deslocado para Genebra e Paris, mas em 1935 foi transferido para Nova Iorque. Foi a Universidade de Colúmbia quem concedeu asilo aos frankfurtianos até 1953, quando finalmente a Escola de Frankfurt retornou para sua cidade natal.

Adorno se mudou para Nova Iorque em 1938. Desimpedido do regime totalitário de Hitler e novamente reunido com a maioria de seus colegas acadêmicos, ele retomou suas investigações filosóficas.

A dialética de Adorno

O pensamento de Adorno era contrário à ideia de total compreensão do mundo por meio da razão. Esse apego ao racional se tornou muito popular durante o século XVIII, principalmente com o florescimento dos ideais defendidos pelo movimento Iluminista.

Contrário a essa abordagem cosmopolita, o alemão difundia a ideia de que é impossível captar a plenitude da realidade a partir do exercício do pensamento, como fizeram seus antecessores.

Antagonizando essa ideia, ele propôs uma parada que até então tinha sido ignorada, em sua maior parte, pelos seus antecessores: a peculiaridade daquilo que é individual. Assim, resgatando a discussão feita por Georg Hegel em sua famosa “Fenomenologia do Espírito”, Adorno trouxe à tona uma abordagem distinta do que era pregado nos séculos XVIII e XIX.

Essa abordagem foi desenvolvida pelo filósofo na obra “A Dialética Negativa”, publicada em 1966.

O que é dialética

De maneira geral, dialética se refere à oposição, ao conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos. Essa noção é vista na filosofia desde seus primórdios nas obras de Platão, Aristóteles e até mesmo em filósofos pré-socráticos.

A dialética é uma parada contraditória do real. Isto é, por conta da dialética é possível entender que os fenômenos do mundo, sejam eles manifestações da natureza ou relações entre as pessoas, acontecem sempre de maneira recíproca e nunca por acaso. Assim sendo, não podemos entender nada de maneira isolada, ou seja, tudo que existe é compreendido dentro de uma infinita estrutura de relações.

A dialética negativa

Retomando o sistema de Hegel, na qual a dialética se faz presente, Adorno tentou refutar a vertente conciliadora, positivista e até fenomenológica apresentada por Hegel. Em sua obra, o processo dialético é redesenhado partindo dessa abordagem hegeliana. Você pode conferir com mais detalhes as ideias de Hegel aqui mesmo em nosso blog, no texto Dialética de Hegel.

HegelGeorg Wilhelm Friedrich Hegel foi o autor da Fenomenologia do Espírito. Esta obra é considerada um marco na Filosofia mundial.

Em oposição a Hegel, meu camarada Adorno rejeitava essa ideia de síntese conciliadora. Para ele, ao invés dessa vertente positiva, deve haver justamente uma perspectiva negativa da dialética.

Ora, é somente através de uma dialética assim que se faz possível reconquistarmos a experiência particular sem que esta seja obliterada pelos conceitos universais. Portanto, a ideia de uma dialética negativa recusa a formação de conceitos para apreender a experiência e traz consigo mais materialidade à metafísica.

Os chamados conceitos abstratos são o reverbério do mundo dissimulado, visto que a totalidade é algo falso. Com isso, Adorno defendeu a necessidade de se pensar os particulares em detrimento dos grandes sistemas filosóficos que tentavam englobar tudo que lhes era passível de existência.

Em suma, podemos entender a dialética negativa como a incapacidade de compreender o todo por meio do pensamento. Ao contrário, Adorno buscou um conhecimento da não identidade entre sujeito e objeto em vez de respaldá-lo meramente na relação entre o indivíduo e o objeto a ser conhecido.

Indústria Cultural, Teoria Crítica e Filosofia Moral

Para além de uma dialética negativa, Theodor Adorno escreveu sobre variados temas. A sua mais famosa obra foi escrita em conjunto com seu camarada Max Horkheimer, a “Dialética do Esclarecimento”, que tratava das mazelas que então nos afligiram com o surgimento do que eles chamaram de Indústria Cultural.

Tirinha da Mafalda - Theodor AdornoPara Adorno, “O homem é tão bem manipulado e ideologizado que até mesmo o seu lazer se torna uma extensão do trabalho.”

Em outras palavras, a Indústria Cultural era, para os filósofos de Frankfurt, um empreendimento que tinha como desígnio a manipulação das consciências através dos meios de comunicação.

Outro ponto importante do pensamento adorniano foi a sua concepção estética. Na obra ‘Teoria Estética’ – Ästhetische Theorie – publicada nos anos 1970, ele discorreu sobre a recusa de todo o tipo de fetichismos, além de algumas elucidações sobre a beleza e as artes.

Tais obras dever-se-iam estabelecer a fundamentação para o pensamento adorniano, tornando-se os pilares que sustentariam suas ideias. Todavia, o seu projeto acerca de uma filosofia moral ficara incompleto. Por conta disso, os três pilares do pensamento de Adorno nunca se concretizaram enquanto ele era vivo.

Por fim, Theodor Adorno foi um dos mais celebres pensadores da Escola de Frankfurt. Foi um crítico ferrenho do holocausto e um escritor sem igual. Suas ideias servem até hoje de base para o desenvolvimento de uma educação mais humanizada, bem como um alerta para a dominação das massas que o capitalismo faz através do condicionamento cultural.

Videoaula sobre Theodor Adorno

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Exercícios sobre Theodor Adorno

1- (ENEM 2016)

Hoje, a indústria cultural assumiu a herança civilizatória da democracia de pioneiros e empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para dançar e para se divertir, do mesmo modo que, desde a neutralização histórica da religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa.

ADORNO, T HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

A liberdade de escolha na civilização ocidental, de acordo com a análise do texto, é um(a)

a) legado social.

b) Patrimônio político

c) Produto da Moralidade

d) Conquista da Humanidade

e) Ilusão da Contemporaneidade

2- (Ufu 2013)

A dialética de Hegel

a) envolve duas etapas, formadas por opostos encontrados na natureza (dia-noite, claro-escuro, frio-calor).

b) é incapaz de explicar o movimento e a mudança verificados tanto no mundo quanto no pensamento.

c) é interna nas coisas objetivas, que só podem crescer e perecer em virtude de contradições presentes nelas.

d) é um método (procedimento) a ser aplicado ao objeto de estudo do pesquisador.

3- (UEL/2008)

Leia o texto a seguir.
O saber que é poder não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo. Do mesmo modo que está a serviço de todos os fins da economia burguesa na fábrica e no campo de batalha, assim também está à disposição dos empresários, não importa sua origem.

(ADORNO, T. W. & HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. p. 20.)

Com base no texto e no conhecimento dos conceitos de esclarecimento e racionalidade instrumental em Adorno e Horkheimer sobre o referido saber, é correto afirmar:

a) Seu conteúdo é racional por si mesmo e de natureza crítico-reflexiva.

b) É principalmente técnico e carente de conteúdo racional por si mesmo.

c) Tem uma dimensão reflexiva e seus objetivos são racionais por si mesmos.

d) É caracterizado por forças sobrenaturais indomáveis que animam tudo.

e) Estabelece limites para o domínio nas relações sócio-econômicas.

Gabarito:

  1. E
  2. C
  3. B

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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