Iluminismo – O Século das Luzes na Europa

O que acha de viajar para a Europa do século XVIII para conhecer um pouco mais sobre o Iluminismo? Foi um movimento que revolucionou a realidade do mundo ocidental. Vem pra essa aula de História do Curso Enem Gratuito!

Se há algo de permanente na história da humanidade é a mudança. Desde a pré-história até os dias de hoje, incontáveis transformações ocorreram. Mudanças na produção (economia), nos comportamentos (sociedade) e na forma de conceber a relação das pessoas, e entre as pessoas e o mundo (cultura).

O Iluminismo foi um dos momentos em que houve modificações profundas na economia, na sociedade e na cultura da sociedade ocidental. Para começar nossa aula, algumas perguntas se fazem necessárias: o que havia antes do Iluminismo? De onde vem este nome? Que novas ideias passaram a circular na Europa? Como estas ideias, somadas a realidade material, transforaram a vida naquele continente e nas colônias americanas?

Fim da Idade Medieval e início da Modernidade

O processo de superação da Idade Medieval foi marcado por diversas novidades: a chegada dos europeus na América, a invenção da tipografia, a fragmentação do cristianismo, a decadência do feudalismo,  o surgimento do mercantilismo o nascimento do Estado absolutista, a recuperação do olhar antropocêntrico e o fortalecimento gradual das ciências a partir do Renascimento.

Todos estes novos elementos se desenvolveram e se comunicaram intensamente, caracterizando o período conhecido como Modernidade (1453-1789). O Iluminismo enquanto movimento filosófico é, ao mesmo tempo, resultado desta confluência de fatores e chave para o fim da era moderna.

O pensamento humanístico e racionalista, que surgiu e sobreviveu ao domínio cristão do pensamento ainda nos séculos XVI e XVII, passou a ganhar cada vez mais adeptos. Os filósofos e cientistas que pensavam o ser humano enquanto indivíduo central em todos os seus estudos tornaram-se referências no pensamento europeu.

Aquele período em que o pensamento crítico e racional estava subjugado aos dogmas cristãos começava a demonstrar cada vez mais sinais de fraqueza foi posteriormente chamado de Idade das Trevas.

É deste raciocínio que surge o Iluminismo (Idade das Luzes), no qual a racionalidade era enaltecida. É importante entender que os historiadores atuais não hierarquizam estes dois períodos, pois a Idade Média não foi um período de estagnação intelectual e a era moderna não significou liberdade plena para todas as pessoas.

Iluminismo
Figura 1: Leitura da tragédia de Voltaire L’Orphelin de la Chine, no salão de Madame Geoffrin em 1755, pintura de Anicet Charles Gabriel Lemonnier, 1812.
Durante a época do Iluminismo, era comum a prática da leitura em voz alta em salões.

 

Iluminismo na prática

Ainda que a ciência e a racionalidade fossem exaltadas, toda essa efervescência intelectual não conseguia ter a amplitude desejada pelos filósofos iluministas. Eles defendiam a ideia de que todos os homens (excluíam as mulheres) eram dotados naturalmente do pensamento racional, mas a realidade é que ele não era exercitado plenamente.

Isso acontecia porque muitos destes filósofos eram nobres e livres da necessidade de trabalho manual, enquanto a população pobre e trabalhadora era majoritariamente analfabeta. Mas, então, como realizar a divulgação do pensamento científico neste cenário?

É neste contexto que entra o movimento enciclopedista de Diderot e D’Alembert. A enciclopédia foi concebida por eles como uma grande bibliografia que traria conteúdos sobre diversos conhecimentos, desde história até ciências naturais, com o acompanhando ilustrações. Tornou-se comum que uma pessoa alfabetizada realizasse a leitura em voz alta de obras como estas para compartilhar o conhecimento com os iletrados.

Iluminismo
Figura 2: Ilustração de animais presente na Enciclopedia de Diderot e D’Alembert.

 

Iluminismo, política e disputas

É importante lembrar que qualquer tempo histórico nunca rompe definitivamente com o passado. Isso ajuda a entender que por mais que o catolicismo não estivesse tão forte como antes, a Igreja Católica ainda detinha um grande poder e não deixaria os iluministas livres para defender suas ideias.

Para isso, contava com o apoio das monarquias absolutistas. Estas também se viam ameaçadas porque justificavam seu poder perante o povo por meio da religião. Por isso, muitos iluministas foram perseguidos por defenderem a liberdade do homem – muitas vezes atacando a Igreja e o absolutismo.

Pensadores iluministas

Diderot afirmava que o homem só seria livre quando o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre. Montesquieu, apesar de não condenar a monarquia, lutava pela liberdade de expressão e defendia a divisão dos 3 poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) como forma de evitar o despotismo.

A ideia de sociedade tripartida era colocada em xeque a partir da noção construída de que os homens eram naturalmente iguais, racionais e donos de seu próprio destino. Assim é possível entender a fúria com que o clero e a nobreza, que eram beneficiados pelo Antigo Regime, tiveram diante do Iluminismo.

John Locke e Jean-Jacques Rousseau defendiam que a sociedade deveria ser fruto do contrato-social entre os homens (por isso são conhecidos como contratualistas), contrariando a teoria do direito divino dos reis. Enquanto o primeiro priorizava o direito à propriedade, o segundo defendia a bondade natural do indivíduo.

Figura 3: Voltaire

 

Mas talvez um dos principais nomes a ser lembrado deva ser o de Fraçois Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire. Fervoroso defensor da liberdade de expressão (esta que lhe foi tolhida algumas vezes durante sua vida por críticas à monarquia) e do fim do absolutismo, é o autor da conhecida frase: “Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas lutarei até a morte pelo vosso direito de dizê-la”.

O Iluminismo na economia

Se a liberdade era um dos princípios defendidos pelos iluministas, ela passou a ser pensada em diversos sentidos, inclusive na economia. Neste setor, alguns intelectuais passaram a fazer oposição ao mercantilismo, marcado pela grande interferência do Estado na economia.

São doutrinas importantes deste período a fisiocracia (governo da natureza) e o liberalismo econômico. O primeiro tinha como representantes Fraçois Quesnay e o marquês de Gournay, que defendiam a primazia da economia na agricultura e a liberdade de produção e comércio que seriam guiadas por leis naturais do mercado.

No liberalismo econômico, se destaca Adam Smith por sua defesa da ideia de que o trabalho é a origem de toda a riqueza. Para que as riquezas fossem potencializadas, defendia a divisão do trabalho em etapas. Este foi o pensamento que caracterizou a revolução industrial. Ele também acreditava na ideia de que o mercado se regularia por si só, de forma que a interferência do Estado comprometeria a relação entre oferta e procura. O lema pelo qual esta doutrina ficou conhecida é o “Laissez-Faire, Laissez-Passer”, que significa “Deixe fazer, deixe passar”.

Desdobramentos do Iluminismo
Iluminismo
Figura 4: A queda da Bastilha, quadro de Jean Pierre Houël

 

O século XVIII foi central para a transformação da realidade ocidental, tanto na Europa como na América. Os jovens estudantes na Europa eram alimentados com as ideias de liberdade, racionalidade, individualidade e crítica ao absolutismo e à Igreja.

Aqueles que eram filhos de ricos fazendeiros na América levavam consigo suas ideias e as difundiam com seus companheiros nas colônias. Mesmo no Brasil, onde era a indústria era proibida, houve circulação de jornais e livros com ideias iluministas. Elas mobilizaram mentes e provocaram revoltas, como a Conjuração Mineira e a Revolta dos Alfaiates.

A independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa são as maiores e mais influentes revoluções armadas provocadas pelo pensamento iluminista em consonância com a vontade da burguesia de tomar o poder para si. São também conhecidas como revoluções burguesas, pois é através deste movimento que a burguesia resolve usurpar o poder da nobreza através da condução das massas pobres e trabalhadoras enfurecidas com a exploração de sua força.

A Modernidade se encerra então com o pensamento iluminista tomando forma nas lutas contra o Antigo Regime.

Agora que você já estudou com nosso resumo sobre Iluminismo, que tal aprofundar seus conhecimentos com nossa videoaula? 🙂

Você deve ter percebido que para entender o assunto também é preciso saber o que é absolutismo. Que tal relembrar com essa videoaula?

Exercícios

Questão 01 – (Faculdade Cesgranrio RJ) A crise do Antigo Regime foi marcada por profunda transformação da concepção de Estado e do exercício do poder político. Essa transformação foi impulsionada por teóricos como Thomas Hobbes, John Locke, Jean- Jacques Rousseau, entre outros, que consagraram as concepções de que a propriedade privada é direito natural dos indivíduos, de que o indivíduo é a origem e o destinatário do poder político (contrato social) e de que o indivíduo exerce seu poder por meio da representação escolhida em eleições.

Em termos políticos, essa crise e as novas teorias propostas foram fundamentais para o surgimento da concepção de

a) Estado Anarquista

b) Estado Democrático de Direito

c) Estado Liberal

d) Estado Socialista

e) Estado Neoliberal

 

Gab: C

 

Questão 02 – (UEPG PR) O liberalismo econômico é uma corrente de pensamento ou uma doutrina formulada entre os séculos XVII e XIX a partir de teóricos como Adam Smith, Jeremy Bentham, David Ricardo, entre outros. A respeito desse tema, assinale o que for correto.

01. Livre mercado, direito à propriedade privada e liberdade individual são princípios que estão presentes no arcabouço teórico no qual se fundamenta o liberalismo.

02. A defesa do livre mercado foi o principal argumento do liberalismo para conseguir a adesão das classes trabalhadoras. A premissa que garante ao trabalhador escolher onde trabalhar e discutir diretamente com seus patrões o valor dos salários foi decisiva para tanto.

04. A defesa do trabalho livre e assalariado tornou a ideologia liberal um dos grandes adversários do pensamento escravocrata, ainda em voga nos séculos XVIII e XIX.

08. Uma das teses centrais do liberalismo é a divisão parcimoniosa da riqueza produzida. Uma máxima liberal é a de que uma nação somente consegue desenvolvimento pleno na medida em que as distâncias sociais são menores. Nesse sentido, o Estado como agente regulador é aceito pelos liberais.

16. François Quesnay foi um dos teóricos precursores do pensamento liberal. Ele defendia a ideia de que o centro da economia era a atividade agrícola e afirmava que os agricultores deveriam dispor de um capital acumulado para poder iniciar uma produção.

 

Gab: 21

 

Questão 03 – (UEL PR) As reflexões liberais tenderam a acentuar, até o século XIX, a compreensão de que o Estado era a expressão da Razão. Nessa forma de compreensão liberal, é correto afirmar que o Estado

a) deveria intervir na economia, uma vez que a liberdade de negociar reconduziria a sociedade ao princípio do “homem como lobo do homem”, destacado por Rousseau.

b) atingiria seu maior grau de eficiência se comandado pelas classes industriais, em detrimento das demais frações que compõem a burguesia, isto é, proprietários de terra e comerciantes.

c) seria a instância a partir da qual as desigualdades formais entre os indivíduos se transformariam em igualdade real entre os homens.

d) ‘tenderia a desaparecer, na medida em que o sistema produtivo dividisse as riquezas produzidas pelas classes sociais, como expressão da Razão.

e) representaria os interesses do conjunto da sociedade, pairando, portanto, acima das classes sociais e de suas demandas específicas.

 

Gab: E

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.