Vozes verbais

Ativa, passiva e reflexiva. Você conhece as vozes verbais? Sabe como utilizá-las corretamente em um texto? Então estude Português com esta aula do Curso Enem Gratuito!

Quando você lê um texto, logo percebe quem ou o que está praticando ou sofrendo uma ação. Isso porque a combinação do sujeito com o verbo e suas devidas flexões deixam isso explícito. Chamamos essa combinação de vozes verbais. Nesta aula, você vai aprender como identificar as vozes verbais para mandar bem na interpretação de textos e na redação do Enem. Vem com a gente!

Vozes verbais

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, ‘olhos de cigana oblíqua e dissimulada.’ Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.”

Dom Casmurro, Machado de Assis.

No trecho acima podemos notar que na narrativa de Bentinho, personagem de Dom Casmurro, aparecem diferentes vozes verbais. Quando lemos:

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, ‘olhos de cigana oblíqua e dissimulada.’

Logo percebemos que Bentinho ativamente lembrou da fala de outro personagem. Agora, observe a frase a seguir:

Capitu deixou-se fitar e examinar.

Nesta frase, claramente podemos perceber que Capitu está passivamente recebendo uma ação, a de ser observada e examinada. Mas, está ativamente deixando-se examinar.

Dessa maneira, você pode ver que há diferentes vozes verbais acontecendo neste texto. Elas indicam diferentes estados e ações. Para definirmos melhor, teoricamente chama-se “voz” a forma em que o verbo adquire para indicar se o sujeito da oração pratica ou sofre a ação expressa pelo verbo.

Classificação

Existem quatro tipos de vozes verbais: ativa, passiva, reflexiva e reflexiva recíproca. Vamos estudar cada uma delas.

Voz ativa

Na voz verbal ativa, o sujeito é o agente da ação expressa pelo verbo. Ou seja, é o sujeito quem executa a ação. Veja o exemplo a seguir:

Um candidato gabaritou a prova do Enem.

Quem gabaritou a questão do Enem? Um candidato. Sendo assim, esse “um candidato” praticou uma ação ativamente. Temos, então, uma voz ativa.

Voz passiva

Na voz verbal passiva, o sujeito sofre a ação expressa pelo verbo. Veja o exemplo:

A prova do Enem foi gabaritada por um candidato.

Quem foi gabaritada? A prova do Enem. Sendo assim, podemos observar que a prova do Enem sofreu uma ação (foi gabaritada). Temos, então, uma voz verbal passiva.

A voz passiva pode ser classificada de duas formas:

a) Voz passiva analítica: A voz verbal passiva analítica forma-se com o verbo ser seguido de um verbo transitivo direto ou um verbo transitivo direto e indireto no particípio. Ficou difícil? Então veja o resumo da forma:

Sujeito paciente + verbo auxiliar (ser, estar, ficar, entre outros) + verbo principal da ação conjugado no particípio + agente da passiva

Para entender melhor, veja os exemplos:

vozes verbais

 

b)   Voz passiva sintética: A voz passiva sintética também é chamada de voz passiva pronominal, pois há o uso do pronome se. Ela é formada por:

Verbo conjugado na 3.ª pessoa (no singular ou no plural) + pronome apassivador “se” + sujeito paciente.

Observe os exemplos:

vozes verbais

Voz reflexiva

Nesta voz verbal o sujeito é agente e paciente ao mesmo tempo, uma vez que o sujeito pratica e recebe a ação.

A voz reflexiva pode ser formada por:

Verbo na voz ativa + pronome oblíquo (me, te, se, nos, vos).

O pronome oblíquo serve de objeto direto ou, por vezes, de objeto indireto, e representa a mesma pessoa que o sujeito. Observe os exemplos:

vozes verbais

A voz reflexiva também pode se apresentar como voz reflexiva recíproca. Essa voz verbal aparece quando o verbo reflexivo indica reciprocidade, ou seja, quando dois ou mais sujeitos praticam a ação ao mesmo tempo que também são pacientes. Veja os exemplos:

Eu, minha amiga e minha prima damo-nos bastante bem.

Os dias e as noites passam-se rápido em época de prova de vestibular.

Ana e Pedro amam-se.

Conversão das vozes verbais

As vozes verbais podem ser convertidas. A voz ativa pode passar a ser passiva e vice-versa por uma questão de estilo. E é importante observar que, ao fazer a transposição, o sujeito da voz ativa torna-se o agente da passiva e o objeto direto da voz ativa torna-se o sujeito da voz passiva.

Exemplo na voz ativa:

Gabaritamos a prova toda.

Sujeito da ativa: Nós (oculto)
Verbo: Gabaritamos (transitivo direto)
Objeto direto: a prova toda.

Exemplo na voz passiva:

A prova toda foi gabaritada por nós.

Sujeito: A prova toda
Verbo auxiliar: foi
Verbo principal: gabaritada
Agente da passiva: por nós.

Observe que o verbo auxiliar foi está no mesmo tempo verbal que o verbo gabaritamos estava na oração cuja voz é ativa. O verbo gabaritamos na oração cuja voz é passiva está no particípio.

Assim, a oração transposta para a voz passiva é formada da seguinte forma:

Sujeito + verbo auxiliar (ser, estar, ficar, entre outros) conjugado no mesmo tempo verbal que o verbo principal da oração na voz ativa+ verbo principal da ação conjugado no particípio + agente da passiva.

É importante lembrar que somente os verbos transitivos admitem transposição de voz. Isso porque uma vez que os verbos intransitivos não necessitam de complemento, não têm objeto que seja transposto em sujeito.

Quer mais uma revisão sobre vozes verbais? É só ver a aula do professor Noslen!

Exercícios:

Questão 01 – (FAMEMA SP/2017)

Leia o texto de Claudia Wallin.

Vossas excelências, ilustríssimos senhores e senhoras, trago notícias urgentes de um reino distante. É mister vos alertar, Vossas Excelências, que nesta estranha terra os habitantes criaram um país onde os mui digníssimos e respeitáveis representantes do povo são tratados, imaginem Vossas Senhorias, como o próprio povo. Insânia! Dirão que as histórias que aqui relato são meras alucinações de contos de fada, pois há neste rico reino, que chamam de Suécia, rei, rainha e princesas. Mas não se iludam! Os habitantes desta terra já tiraram todos os poderes do rei, em nome de uma democracia que proclama uma tal igualdade entre todos, e o que digo são coisas que tenho visto com os olhos que esta mesma terra um dia há de comer.

Nestas longínquas comarcas, os mui distintos parlamentares, ministros e prefeitos viajam de trem ou de ônibus para o trabalho, em sua labuta para adoçar as mazelas do povo. De ônibus, Eminências! E muitos castelos há pelos quatro cantos deste próspero reino, mas aos egrégios representantes do povo é oferecido abrigo apenas em pífias habitações de um cômodo, indignas dos ilustríssimos defensores dos direitos dos cidadãos e da democracia.

Este reino está cercado por outros ricos reinos, numa península chamada Escandinávia, onde também há príncipes e reis, e onde os representantes do povo vivem como sobrevive um súdito qualquer. E isto eu também vi, com os olhos que esta terra há de comer: em um dos povos vizinhos, conhecido como o reino dos noruegueses, os nobres representantes do povo chegam a almoçar sanduíches que trazem de casa, e que tiram dos bolsos dos paletós quando a fome aperta.

É preciso cautela, Vossas Excelências. Deste reino, que chamam de Suécia ainda pouco se ouve falar. Mas as notícias sobre o igualitário reino dos suecos se espalham.

Estocolmo, 6 de janeiro de 2013.
(Um país sem excelências e mordomias, 2014. Adaptado.)

“Os habitantes desta terra já tiraram todos os poderes do rei”.

Assinale a alternativa que expressa, na voz passiva, o conteúdo dessa oração.

a) Todos os poderes do rei já tiraram os habitantes desta terra.

b) Os habitantes desta terra já tiram todos os poderes do rei.

c) Os habitantes desta terra já foram tirados por todos os poderes do rei.

d) Todos os poderes do rei já foram tirados pelos habitantes desta terra.

e) Todos os poderes do rei já são tirados pelos habitantes desta terra.

 

Questão 02 – (UFRGS/2015)

01 À porta do Grande Hotel, pelas duas da 02 tarde, Chagas e Silva postava-se de palito à 03 boca, como se tivesse descido do restaurante 04 lá de cima. Poderia parecer, pela estampa, 05 que somente ali se comesse bem em Porto 06 Alegre. Longe disso! A Rua da Praia que o 07 diga, ou melhor, que o dissesse. O faz de 08 conta do inefável personagem ligava-se mais 09 à importância, à moldura que aquele portal 10 lhe conferia. Ele, que tanto marcou a rua, 11 tinha franco acesso às poltronas do saguão 12 em que se refestelavam os importantes. 13 Andava dentro de um velho fraque, usava 14 gravata, chapéu, bengala sob o braço, barba 15 curta, polainas e uns olhinhos apertados na 16 …….. bronzeada. O charuto apagado na boca, 17 para durar bastante, era o toque final dessa 18 composição de pardavasco vindo das Alagoas.

19 Chagas e Silva chegou a Porto Alegre em 20 1928. Fixou-se na Rua da Praia, que percorria 21 com passos lentos, carregando um ar de 22 indecifrável importância, tão ao jeito dos 23 grandes de então. Os estudantes tomaram 24 conta dele. Improvisaram comícios na praça, 25 carregando-o nos braços e fazendo-o 26 discursar. Dava discretas mordidas e 27 consentia em que lhe pagassem o cafezinho. 28 Mandava imprimir sonetos, que “trocava” por 29 dinheiro.

30 Não era de meu propósito ocupar-me do 31 “doutor” Chagas e, sim, de como se comia 32 bem na Rua da Praia de antigamente. Mas ele 33 como que me puxou pela manga e levou-me 34 a visitar casas por onde sua imaginação de 35 longe esvoaçava.

36 Porto Alegre, sortida por tradicionais 37 armazéns de especialidades, dispunha da 38 melhor matéria-prima para as casas de pasto. 39 Essas casas punham ao alcance dos gourmets 40 virtuosíssimos “secos e molhados” vindos de 41 Portugal, da Itália, da França e da Alemanha. 42 Daí um longo e …….. período de boa comida, 43 para regalo dos homens de espírito e dos que 44 eram mais estômago que outra coisa.

45 Na arte de comer bem, talvez a dificuldade 46 fosse a da escolha. Para qualquer lado que o 47 passante se virasse, encontraria salões 48 ornamentados, …….. maiores ou menores, 49 tabernas ou simples tascas. A Cidade divertiase 50 também pela barriga.

Adaptado de: RUSCHEL, Nilo. Rua da Praia.
Porto Alegre: Editora da Cidade, 2009. p. 110-111.

 

Assinale a alternativa que apresenta a correta passagem de segmento do texto da voz ativa para a voz passiva.

a) Chagas e Silva postava-se de palito à boca (Refs. 02-03) – Chagas e Silva era postado de palito à boca

b) Ele, que tanto marcou a rua (Ref. 10) – A rua, que tanto foi marcada por ele

c) Fixou-se na Rua da Praia (Ref. 20) – Foi fixado na Rua da Praia

d) Os estudantes tomaram conta dele (Refs. 23-24) – Ele foi tomado conta pelos estudantes

e) Essas casas punham ao alcance dos gourmets virtuosíssimos “secos e molhados” (Refs. 39-40) – Os gourmets eram postos ao alcance de virtuosíssimos “secos e molhados” por essas casas

 

1 Gab: D 2 Gab: B

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pela professora Andressa da Costa Farias para o Blog do Enem. Andressa é formada em Letras Português e Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Maria. E atualmente cursa Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Colabora eventualmente escrevendo crônicas para o jornal Diário de Santa Maria (RS) das quais posta no blog pessoal: www.andressacf.blogspot.com Facebook: https://www.facebook.com/andressa.dacostafarias