Zonas de transição dos biomas brasileiros

Os desmatamentos e toda a pressão causada pela expansão agropecuária, além da ação de madeireiras e mineradoras, mantêm em evidência a importância do debate sobre conservação ambiental. Para isso, é fundamental conhecermos os biomas e também as zonas de transição dos biomas brasileiros. São áreas com características bem específicas, mas que também sofrem com essas ameaças e merecem a nossa atenção. Vamos conhecê-las?

As zonas de transição dos biomas brasileiros, também conhecidas como ecótonos, são as regiões resultantes do contato entre dois ou mais biomas limítrofes. Dessa forma, nessas áreas de transição ambiental, diferentes comunidades ecológicas ou biomas entram em contato adquirindo características específicas a partir dessa junção entre fauna e flora. 

Sendo assim, as zonas de transição dos biomas brasileiros costumam ser ricas em espécies, sejam elas provenientes dos biomas que o formam ou espécies endêmicas, características dessa região. Isso mesmo! Em outras palavras, essas áreas podem conter espécies que não são provenientes dos biomas vizinhos, mas desse “entre biomas” que está na transição. 

Nesse sentido, por serem ecossistemas formados entre outros ecossistemas, essas regiões têm necessidades de conservação que pressupõem maiores cuidados. Dessa forma, as combinações de espécies, relacionadas aos diversos fatores naturais como clima, altitude, latitude, longitude, tipo de solo, entre outros, exigem uma atenção especial e um estudo das especificidades de cada ecótono, ou zona de transição.

Zonas de transição dos biomas brasileiros: indicadoras das mudanças climáticas

Primeiramente, essas regiões são consideradas por cientistas potenciais indicadores das mudanças climáticas em nosso planeta, já que são dinâmicas e sensíveis às variações de temperatura. Sendo assim, além das respostas observadas nas paisagens, de acordo com o modo como as diferentes espécies se adaptam, também é notável que essas áreas podem aumentar ou diminuir seu tamanho ao longo dos anos, avançando ou retraindo-se mais em relação aos biomas de seu entorno.

Em síntese, no Brasil temos a presença de algumas zonas de transição com características bem específicas, existentes entre alguns dos principais biomas do país. Em 2003, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (IBAMA) desenvolveu uma pesquisa que determinou as três principais zonas de transição (ecótonos) brasileiras, o que veio a facilitar as tarefas e esforços de conservação desses ecossistemas. A princípio, as áreas de transição brasileiras compreendem um território de cerca de 675 mil quilômetros quadrados.

As três principais zonas de transição dos biomas brasileiros
Zona Cerrado-Amazônia

Em primeiro lugar, temos a zona de transição entre o Cerrado e a Amazônia, que envolve as matas secas de Mato Grosso, em uma área de aproximadamente 414 mil quilômetros quadrados. Essa região, chamada de Cerrado-Amazônia, abrange 4,85% do território do país, sendo maior inclusive que os biomas Campos Sulinos e Costeiro juntos.

Em síntese, ela está quase toda localizada dentro do arco do desmatamento da Amazônia Legal e já teve aproximadamente 60% de sua área desmatada. Assim, ali se encontra a maior concentração do país de Mata Seca – vegetação que não possui associação com cursos de água e umidade permanente, caracterizada por diversos níveis de queda das folhas durante a estação seca, vide Figura 1.

figura 1 - zonas de transição dos biomas brasileiros
Figura 1 – Mata Seca, com grande presença na zona de transição Cerrado-Amazônia

Fonte: EMBRAPA. Acesso em: 10/04/2020.

A Mata Seca, também conhecida como floresta mesófila semidecídua, é um tipo florestal com características comuns às do Cerrado, sendo rodeada perifericamente por manchas desse bioma. 

Zona Amazônia-Caatinga

A zona de transição Amazônia-Caatinga, com área aproximada de 144.583 quilômetros quadrados – correspondente a 1,7% do território nacional, é a segunda maior entre as três e é composta principalmente pelas florestas de babaçu do Maranhão.

Primeiramente, lá existe o babaçu (Orbygnia phalerata mart), uma palmeira nativa das regiões norte e nordeste do nosso país, que mede de 17 a 20 metros de altura. Assim, ocupando áreas de desmatamento da floresta primária, as florestas de babaçu se estendem em uma zona de transição entre as florestas úmidas da bacia amazônica e o Semiárido nordestino.

Em primeiro lugar, a vegetação nessa região é progressivamente mais exuberante conforme se avança para o oeste, reflexo do aumento da umidade quando se parte do Semiárido rumo aos domínios da Floresta Pluvial. Sendo assim, essa vegetação natural e a própria zona de transição são bastante conhecidos como Mata dos Cocais. Ali, entre os estados do Maranhão e Piauí, encontramos em grande quantidade o babaçu, do qual se extrai um óleo utilizado em lubrificantes, cosméticos, margarinas e sabões. 

Simultaneamente, essa zona de transição tem uma mescla das características da Floresta Amazônica, do Cerrado e da Caatinga. Sendo assim, seus índices pluviométricos são elevados e, além do babaçu, a flora inclui outras palmeiras com folhas grandes e finas, como a carnaúba e o buriti.

Zona Cerrado-Caatinga

Nessa zona, chamada de Cerrado-Caatinga, a vegetação é mais rica que a da Caatinga, composta por florestas de árvores de folhas secas. Em síntese, o clima local é mais seco do que o identificado na região sob domínio do Cerrado. A maior parte desse, que é o menor entre os três ecótonos brasileiros em destaque, fica na fronteira entre o Cerrado e o Sertão nordestino, no interior de estados que abrigam o Semiárido dessa região brasileira.

Assim, podemos observar a localização dessas três grandes zonas de transição na representação cartográfica presente na Figura 2.

figura 2 - zonas de transição dos biomas brasileiros
Figura 2 – Representação cartográfica com a localização das três grandes zonas de transição do Brasil

Fonte: WWF. Acesso em: 10/04/2020.

Desequilíbrio na conservação das zonas de transição dos biomas brasileiros

O mapeamento feito pelo IBAMA, mencionado acima, também mostrou ainda que há um grande desequilíbrio entre o tamanho relativo dos biomas e das zonas de transição no que se refere à presença de unidades de conservação e de proteção integral (UCs). 

Por exemplo, no panorama dos biomas, temos as seguintes porcentagens de UCs: Costeiro (6,31%); Amazônia (4,83%); Cerrado (1,71%); Mata Atlântica (0,72%); Caatinga (0,69%); Pantanal (0,57%); e, Campos Sulinos (0,30%). Simultaneamente, a representatividade nas três zonas de transição é a seguinte: Cerrado-Caatinga (3.33%); Amazônia-Caatinga (0,05%); e, Cerrado-Amazônia (0,01%).

Em síntese, esses mapeamentos são de extrema importância, pois redefinem os limites dos biomas e das zonas de transição entre um ou mais biomas. Dessa forma, possibilitam um melhor planejamento nacional para a conservação e o manejo sustentável da biodiversidade. 

Dessa forma, com esses estudos, as áreas que sofrem maior pressão de degradação podem ser escolhidas como prioridade para a criação áreas protegidas. Em suma, o Brasil é um dos países com o menor índice de área protegida em relação à média mundial de 6 por cento. Sendo assim, isso significa que ainda temos muito a caminhar no sentido de garantir a manutenção de toda a biodiversidade presente em nosso território.

Por fim, está perdido entre os biomas? Não tem problema! Prepare-se ainda mais estudando os biomas com esta videoaula da professora Juliana: 

Exercícios sobre zonas de transição dos biomas brasileiros
Questão 01 – (UEM PR/2019)

Sobre tipos, características e distribuição da vegetação natural identificada no estado do Paraná, assinale o que for correto.

01. Fragmento expressivo da floresta estacional semidecidual é encontrado no oeste paranaense, no Parque Nacional do Iguaçu.

02. A vegetação do tipo campo limpo é caracterizada por um predomínio de herbáceas que também compõem as matas de galerias nas margens dos rios paranaenses.

04. Espécies da Mata Atlântica são reconhecidas ao longo da Serra do Mar, que exibe árvores de porte alto e vegetação arbustiva.

08. Em áreas do noroeste do estado ainda existem fragmentos preservados da Mata dos Cocais, de onde é extraído o pinhão.

16. O cerrado, constituído somente por vegetação herbácea, ocorre em grandes parcelas no Norte Pioneiro.

Questão 02 – (IFPE/2017)
A DIVERSIDADE DOS BIOMAS BRASILEIROS

Primeiramente, em função de sua grande área territorial, o Brasil apresenta vários biomas, os quais são constituídos de várias formações vegetais. Uma dessas formações é encontrada em áreas baixas, quentes e úmidas. Está presente em trechos litorâneos do país, contando com uma flora caracterizada por espécimes halófilas e com pneumatóforos, isto é, vegetais tolerantes ao sal e com desenvolvimento de raízes aéreas, o que facilita a troca gasosa diretamente com a atmosfera. Contudo, essa mesma formação vegetal está sofrendo intensa devastação provocada, sobretudo, pela ação humana.

A que formação vegetal o texto se refere e de que forma esse ambiente tem sido degradado pelo homem?

a) À Mata dos Cocais, que teve grande parte de sua área desmatada para a prática da pecuária bovina.

b) À Mata Atlântica, que sofreu extremamente com a retirada de madeira e com o desmatamento para aumentar a área de cultivo de lavouras como a canavieira e o cafezal.

c) Aos manguezais, local que tem sofrido com a grande poluição dos mananciais hídricos e com o aterramento para construção de casas e bairros.

d) À mata de várzea, onde as árvores nativas estão perdendo espaço devido à introdução de espécimes novas vindas de outros biomas para aproveitar a grande disponibilidade de água desse ambiente.

e) Às restingas, onde, devido ao aumento da valorização das regiões litorâneas, houve grande retirada da formação vegetal para a construção de casas de veraneio em importantes praias do país.

Questão 03 – (FATEC SP/2017)

Em primeiro lugar, a Mata dos Cocais é um tipo de cobertura vegetal presente no Meio-Norte do Brasil, principalmente nos estados do Maranhão e do Piauí. Sendo assim, é uma zona de transição entre os biomas Floresta Amazônica, Cerrado e Caatinga.

Dessa forma, nessa área de transição são encontrados alguns tipos de vegetais, dentre os quais se destacam

a) as seringueiras e as bananeiras.

b) as laranjeiras e os pinheiros.

c) as carnaúbas e os babaçus.

d) as catuabas e os juazeiros.

e) as perobas e os jatobás.

GABARITO

1) Gabarito: 07

2) Gabarito: C

3) Gabarito: C

Por fim, gostou de aprender mais sobre as zonas de transição dos biomas brasileiros, estudante? Por último, um grande abraço e bons estudos!

Sobre o(a) autor(a):

O texto acima foi preparado pelo professor João Marcelo Vela para o Curso Enem Gratuito. João é licenciado e mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Dá aulas de Geografia e Filosofia em escolas da Grande Florianópolis desde 2015, além de atuar como articulador de Ciências Humanas. E-mail para contato: [email protected]