Análise da prova de Ciências da Natureza do Enem 2019

Veja as tendências da prova de Ciências da Natureza do Enem 2019 e confira a opinião dos professores acerca da dificuldade da prova.

Após o segundo dia de prova do Enem, os principais comentários eram acerca da dificuldade da prova, principalmente de Ciências da Natureza. Diferente dos últimos anos, a prova apresentou um número alto de cálculos, com questões bem complexas como algumas de Biologia (respiração celular e Lei de Mendel), questões com pegadinhas em Química, além de problemas de Física com muitos textos e conteúdos que jamais haviam caído no Enem!

Análise da prova de Ciências da Natureza do Enem 2019

Prova de Química

Convidamos o professor Sobis para fazer a análise da prova de Química do Enem 2019. De modo geral, segundo o professor, os textos estavam bem difíceis de entender, tornando necessária uma leitura mais atenta. Essa leitura, infelizmente, acabava tomando um bom tempo do aluno, o que no Enem pode prejudicar os estudantes já que o tempo de prova é bem curto para resolver tantas questões.

Em contrapartida, em algumas questões era possível responder sem consultar o texto, apenas vendo a pergunta levantada pelo Enem. No geral, para Sobis, a prova cobrou conceitos básicos da Química, mas de maneira bastante inteligente.

O veredito do professor: a prova pode ser considera de dificuldade de média para difícil. No Enem 2019 de Química não teve nenhuma questão boba que poderia ser respondida com uma leitura rápida do texto. Apesar disso, o professor acredita que não foi a prova de Química mais difícil dos últimos anos. Porém, ela exigia muito raciocínio e cuidado nas interações com as outras áreas (Biologia e Física).

As funções orgânicas, que vinham aparecendo com frequência nas últimas provas, não apareceram dessa vez. Segundo Sobis, o conteúdo costuma ser difícil, mais aprofundado, causando mais dificuldades aos alunos. Na parte de orgânica do Enem 2019 foram cobradas mais questões envolvendo interações. Apesar de teoricamente ser mais “fácil”, o aluno precisava lembrar pontos específicos do conteúdo, o que poderia dificultar na hora da resolução.

Outro conteúdo que pouco apareceu foi a Estequiometria. Bastante cotada para essa prova, ela ficou restrita à questão que misturava Química com Física. “Senti falta de Estequiometria na prova porque é um conteúdo de Química que os alunos vão muito atrás”, comentou o professor.

Já a eletroquímica foi contemplada em três questões no Enem 2019: duas questões sobre pilha e uma sobre oxirredução.

Sentiu falta de Estequiometria em Química já que muitos alunos não atrás. Foi cobrada muito a parte de pilhas, no mínimo duas questões de pilha mais uma de oxirredução. A questão que abordava o desentupimento da tubulação de esgoto bastava analisar os dados fornecidos na tabela sobre o potencial de redução (o Alumínio apresentava o menor de todos: resposta A na prova azul).

Já a questão sobre a nova pilha, era necessário saber quem reduzia e quem oxidava na reação. Ou seja, por mais simples que as questões fossem, elas exigiam que o aluno tivesse conhecimento prévio do assunto. A resposta correta é Zn(OH)42-.

Uma das surpresas da prova foi a questão envolvendo o Modelo de Dalton, já que há alguns anos não caíam questões com esse tipo de conteúdo. O problema era bem mais específico, o que torna a questão conteudista e podia dificultar para os alunos. Era necessário lembrar dos conceitos de isótopo e isóbaros para eliminar as proposições 2 e 3. Também era necessário lembrar que os átomos são destrutíveis. Assim, chegamos a proposição 5 (a correta).

E uma das pegadinhas comentadas pelo professor Sobis foi a questão da Glicólise, que mesclava Biologia e Química. O aluno precisava estar bem atento na leitura do texto para reparar (e lembrar durante a resolução) que eram duas moléculas de ácido lático e não uma como o desenho apresentava. Assim, realizando os cálculos, o aluno chegaria no ΔH = – 2 . 1344, que daria a diferença de 112kJ. Com certeza essa questão derrubou muitos estudantes!

Prova de Física

O professor Rossetto foi enfático ao dizer que a prova foi mais difícil que os últimos anos, principalmente por exigir muitos conceitos e cálculos demorados. Seguindo a tendência de Química, a prova de Física foi menos interpretativa. Assim, o aluno precisava ter na memória as principais fórmulas da matéria e saber aplicá-las. Para Rossetto, a prova foi cruel com os alunos.

Apesar da dificuldade, alguns conteúdos bem tradicionais marcaram presença na prova. Foi o caso da questão das lâmpadas e resistores (o Enem adora cobrar elétrica), a questão de ondulatória e as questões envolvendo calor e energia térmica. Vamos ver algumas questões destacadas pelo professor?

Uma das surpresas da prova foi a questão sobre dinâmica impulsiva, conceito que nunca tinha sido cobrado no Enem (e, por isso, muitas vezes esquecido pelos alunos). A questão falava sobre um tijolo que caia. Para resolver era necessário calcular a velocidade de impacto do tijolo no capacete. A equação de Torricelli poderia ser usado para chegar ao resultado de velocidade = 10 m/s. Depois seria necessário lembrar da fórmula do impulso (Impulso = força x tempo).

O aluno chegaria ao resultado de 50N. Porém, o enunciado cobrava a força em relação aos pesos do tijolo. Ou seja, a resposta seria duas vezes o peso do tijolo. Essas pegadinhas também foram vistas na prova de Química e podiam confundir em muito os alunos.

A questão das lâmpadas, uma das mais comentadas nas redes sociais após a prova, exigia um pouco mais de calma na hora de realizar os cálculos. Segundo Rossetto, era possível resolver a questão na tentativa e erro, forçando os cálculos com um número x de lâmpadas por vez. Mas, para isso, era preciso calcular a corrente elétrica do circuito utilizando o resistor de 10 ohm e o de 50 ohm.

Após descobrir a corrente elétrica do sistema, você poderia descobrir a ddp com a fórmula V = r . i. A partir disso, ir testando colocando lâmpada por lâmpada, chegando na resposta: máximo de 2 lâmpadas.

Uma das questões mais simples, mas que exigia saber conceitos, foi a do jingle. Era preciso que o aluno lembrasse que não se perde ou se ganha frio. Quando se tem uma sensação de frio é devido à perda de energia térmica. Ou seja, o cobertor tem a função de impedir a nossa perda de energia e não criar calor para nós. Assim, a resposta seria: minimizar a perda de calor pela casa e pelos corpos.

Já uma questão bem complicada envolvia movimento circular uniforme (imprescindível lembrar as fórmulas). Era a questão do satélite que acompanhava o sentido de rotação da Terra. Portanto, era necessário saber que o seu período de rotação também seria de 24 horas). Para que o acidente ocorresse, a velocidade angular não poderia ser igual o da Terra para que caísse no oceano e não no Rio de Janeiro.

Para Rossetto, essa questão ficava ainda mais difícil pois não havia muitas informações sobre o satélite, o que podia confundir o aluno e dificultar na hora da aplicação das fórmulas.

Prova de Biologia

Seguindo uma tendência comentada por professores de outras disciplinas que analisaram o Enem 2019, a professora Juliana dos Santos afirmou que as questões de Biologia deste ano estavam mais difíceis do que nos anos anteriores. Era preciso conhecer bem os conteúdos para ter um bom desempenho, não bastava se valer apenas da habilidade de interpretação.  Além disso, houve a relação da Biologia com outras disciplinas em várias questões.

Já nos conteúdos abordados, não houve grandes surpresas. Era esperado que aparecessem questões envolvendo ecologia, e ela esteve presente na questão sobre as cutias e seu comportamento de enterrar sementes para comê-las mais tarde. A professora Juliana dos Santos comparou a questão com o caso da gralha azul, que enterra pinhões e acaba esquecendo, o que contribui com a proliferação das araucárias. A diferença para as cutias é que elas acabam roubando sementes umas das outras. Como estão disputando um recurso, os candidatos deveriam assinalar a opção que elucidava que essa é uma relação ecológica de competição.

Genética é outro conteúdo que, de alguma forma, sempre cai na prova de Ciências da Natureza. Neste ano, apareceu na questão que associava as leis de Mendel com descobertas recentes. A lei da segregação, elaborada por Mendel, afirma que em casos em que há um par de genes diferentes eles são segregados na meiose. No entanto, hoje se sabe que, em alguns casos, os genes estão localizados muito próximos fisicamente nos cromossomos e por isso acabam sendo herdados juntos. Quem soubesse dessa atualização no conhecimento genético conseguiria acertar a alternativa correta.

Vermes também é um conteúdo de Biologia que se espera que caia no Enem por relacionar facilmente conhecimentos acadêmicos com o cotidiano da população. Neste ano, apareceram na questão sobre esquistossomose, que também cobrava conhecimentos sobre vacinas. O enunciado questionava qual seria a vantagem da vacina em relação aos medicamentos contra a doença. Acertou quem assinalou a alternativa que a vantagem seria a de eliminar o esquistossomo do organismo antes dos sintomas se manifestarem.

No nosso canal tem um vídeo sobre vacinas e a crise da vacinação no Brasil. Assista para entender melhor!

Outra questão que Santos chamou a atenção foi para aquela que tratava sobre tratamento de doenças causadas por retrovírus. O enunciado questionava quais avanços científicos contribuíram para o tratamento das infecções virais. Para responder, os candidatos deveriam saber que, diferentemente dos humanos, os retrovírus produzem DNA a partir do RNA. Por isso, a alternativa correta era aquela que citava os medicamentos que atuam impedindo a reprodução dos vírus, pois evitam que eles produzam o DNA a partir do RNA.

Um último destaque vai para a questão sobre agrotóxicos, que também foram tematizados na prova de Ciências Humanas do Enem deste ano. Ambas as questões tratavam sobre alternativas ao uso de pesticidas. No caso da questão de Biologia, se questionava como é feito o manejamento de insetos em alimentos com o selo de orgânicos. A alternativa correta era “utilização de predadores naturais”, que é justamente o controle biológico citado na questão de Ciências Humanas.