Ciências Humanas do Enem 2019: análise da prova

Veja as tendências da prova de Ciências Humanas do Enem 2019, as questões mais polêmicas e o que foi mais difícil em cada disciplina!

A prova de Ciências Humanas do Enem desse ano manteve o tom dos anos anteriores: questões sobre movimentos populares, sobre mecanismos de exercício da cidadania, gênero, grupos indígenas, quilombolas e globalização, tudo com muita interpretação. A dificuldade também se manteve, com poucas questões fáceis a ponto de acertar apenas com uma leitura inicial,  e com a presença de algumas questões que exigiram um nível elevado de reflexão dos candidatos.

Para ter um bom desempenho, os estudantes precisaram aliar seus conhecimento sobre os assuntos enfocados em cada questão e muita atenção aos enunciados. Em alguns casos, numa primeira leitura dos textos, mais de uma alternativa parecia estar correta. Era necessário perceber qual o direcionamento do enunciado para não se confundir e identificar qual a proposição mais adequada.

Além disso, a prova de Ciências Humanas do Enem 2019 teve muitas questões interdisciplinares com assuntos ou abordagens que atravessam mais de uma disciplina. Ao mesmo tempo em que apresentavam dificuldades por não tratarem de assuntos ou conceitos facilmente identificáveis, contavam com a vantagem da possibilidade de utilizar conhecimentos e ferramentas de diferentes áreas do conhecimento.

História

As questões de História deste ano foram bastante diversificadas, abrangendo períodos históricos desde a Antiguidade até a contemporaneidade. Quanto ao Brasil, como já é comum no Enem, caíram questões sobre a época colonial, o Império, o início da república e o período democrático entre 1945 e 1964. Apesar disso, houve uma ausência muito importante na prova de Ciências Humanas: a ditadura militar.

Desde 2009, todos anos caía pelo menos uma questão sobre o tema. A Era Vargas, também muito frequente nos últimos dez anos, ficou de fora desta edição. É provável que essas omissões tenham sido resultado da comissão criada no Inep para fazer uma “triagem ideológica” da prova.

Apesar disso, temas como a participação popular em revoltas e processos políticos foram predominantes nas questões de História. É possível identificar essa tendência em questões que abordaram as regras para as eleições na Constituição de 1824, critérios para participação política nas cidades-estado da Antiguidade, a Revolta da Vacina e a participação de Maria Quitéria de Jesus nos combates pela independência do Brasil.

Uma questão que gerou bastante dúvida foi aquela que questionava qual o processo histórico em que a produção de farinha de mandioca estava envolvido. O enunciado trazia as informações de que o alimento foi processado primeiramente por povos indígenas para depois ser difundido pelo território colonial e, finalmente, alcançar os mercados africanos. Muitos estudantes ficaram em dúvida se a alternativa correta era “difusão de hábitos alimentares” ou “ampliação dos saberes autóctones”. Como o enunciado pedia para que se considerasse a formação do espaço atlântico, a primeira alternativa era a correta.

Geografia

De acordo com o professor Raphael Carrieri, as questões de 2019 foram menos técnicas do que as de 2018 e, diferentemente do que estava sendo especulado, o Enem não desviou de questões polêmicas e com críticas sociais. Um exemplo foi a questão envolvendo a intoxicação de abelhas por agrotóxicos. Como neste ano houve um pacote de liberação de pesticidas no Brasil, o tema foi amplamente discutido pela sociedade.

Tem um vídeo no nosso canal sobre agrotóxicos! Confira:

E se no ano passado as questões envolvendo geografia física foram as que deram mais trabalho, em 2019 foram aquelas que agregaram conteúdos de diferentes áreas do conhecimento. Uma das questões que mais assustou os estudantes foi aquela que tratava da geração de imagens envolvendo o uso de satélites. Para acertar a alternativa correta, era necessário analisar com cuidado a ilustração da questão e conhecer o conceito de “albedo”, que é a capacidade de reflexão dos corpos. Essa propriedade que permite os equipamentos como placas solares captem as imagens foi a chave para acertar a alternativa correta.

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Sociologia

A Sociologia foi uma disciplina que permeou grande parte da prova de Ciências Humanas do Enem 2019 e foi de grande contribuição para compreender as questões interdisciplinares. Esse foi o caso da questão que tratava do conceito de hospitalidade associado ao contexto migratório. Ao mesmo tempo em que o tema migração é estudado pela História e pela Geografia, as alternativas utilizaram ideias como supressão da comunicação, a importância da origem dos indivíduos, construção de identidade, e a incorporação da alteridade, que também são estudados pela Sociologia.

A professora Heloisa Domingos também chamou a atenção para questões que trataram de políticas públicas como um meio para garantir a igualdade social. Um exemplo foi a questão envolvendo o Sistema Único de Saúde (SUS). O enunciado defendia a ideia de que o SUS é um mecanismo de fortalecimento da cidadania e que assegura o exercício de direitos. Dessa forma, para escolher a alternativa correta o candidato deveria escolher em quais concepções a criação desta política pública foi baseada. A resposta correta era “universalismo e igualitarismo”, temas estudados pela Sociologia.

Filosofia

As questões de Filosofia do Enem 2019 exigiram dos candidatos conhecimentos de autores clássicos. O professor Ernani Silva apontou que quem foi fazer a prova esperando se apoiar apenas na interpretação dos textos encontrou dificuldades. Um exemplo de assunto bastante tradicional que caiu na prova foi as diferentes concepções sobre a relação entre Estado e economia, com a utilização de autores como Perry Anderson e Adam Smith.

Uma questão muito debatida foi aquela que citou a obra “Origens do totalitarismo”, da filósofa Hannah Arendt. Por meio dela, o exame propôs que os candidatos pensassem nas justificativas inventadas para a realização da segregação de certos grupos populacionais no contexto do nazismo e em como elas serviram para naturalizar a crueldade e o extermínio. As alternativas trouxeram conceitos complexos, como alienação ideológica e projetos biopolíticos.

A resolução da questão se fundamentou na ideia adotada pelos nazistas de que existiam diferenças biológicas que tornavam a raça ariana superior. Portanto, como o holocausto foi um projeto político que partiu de preceitos supostamente biológicos, a alternativa que melhor explicava a crítica de Arendt era aquela que falava sobre a segregação humana fundamentada por projetos biopolíticos.

Se você quiser saber mais sobre as questões de Ciências Humanas do Enem 2019 é só ver a transmissão que nossos professores fizeram logo depois da prova!

https://youtu.be/6x6QpiRxVJ8