Barroco no Brasil: Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira

No Brasil, o Barroco se desenvolveu na região nordeste. Isso porque as manifestações culturais daquela época refletiam a estrutura socioeconômica da colônia. Dessa forma, como a cana-de-açúcar prosperava na Bahia, foi nesse local que a produção literária barroca ganhou força. Dois nomes são importantes nesse contexto: Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira, os principais autores do Barroco no Brasil. Vamos revisar as principais características e suas obras?

Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira são os principais nomes do Barroco no Brasil, no âmbito literário. Ambos devem ser associados à região nordeste, mais especificamente, à Bahia. Vamos conhecer as obras desses autores importantes para a literatura barroca?

Gregório de Matos

Primeiramente, vamos falar sobre Gregório de Matos Guerra, nascido em Salvador (BA), em 1636. Filho de família rica, plantadores de cana-de-açúcar, teve a oportunidade de estudar, um privilégio para poucos no Brasil daquele tempo. Primeiro estudou em colégio de jesuítas, depois, foi fazer o curso de direito em Coimbra, Portugal.

Tentou estabelecer-se em Lisboa, mas por causa da irreverência de suas sátiras, foi obrigado a retornar ao Brasil. De volta a Salvador, colocou em prática os estudos de advocacia. Além disso, atuou na área religiosa, como sacristão de igreja. Em determinado ponto de sua vida, todavia, deixou de lado essas atividades para ser boêmio.

Com essa nova postura, seu espírito crítico se intensificou. Ele andava pelas ruas declamando ou cantando críticas diversas, em relação à coroa portuguesa (segundo ele, exploradora). Ou ainda, à elite dominante que o circundava. Por isso, foi exilado para Angola, podendo voltar ao Brasil só depois de muitos anos. Detalhe: não pôde nunca mais pisar em solo baiano. Morreu em Recife, em 1636.

Gregório de Matos e o Barroco

Gregório de Matos demonstrou, na vida e na arte, a aura conflituosa barroca. Essa áurea era marcada pelos embates religiosos entre a Reforma Luterana e Contrarreforma católica. Assim, seus poemas vão facilmente do sacro ao profano. De um eu poético arrependido pelos pecados cometidos a um sátiro que dispara críticas para todos os lados. Às vezes usava, inclusive, palavrões, que conferiram ao poeta o apelido de “Boca do Inferno”.

Seu estilo de escrita é o Cultismo, que tem a ver com linguagem culta. Trata-se do jogo de palavras, a forte utilização de figuras de estilo. Por exemplo: antítese (a cara do Barroco, por ter ideias opostas em um mesmo pensamento), paradoxo, metáfora, hipérbole e inversão. A produção poética de Gregório de Matos pode ser dividida em três seções: poesia religiosa, poesia lírico-amorosa e poesia satírica.

Suas sátiras são voltadas para questões sociais, políticas e econômicas de Salvador, importante polo comercial brasileiro do século XVII. Na verdade, é principalmente essa categoria de poesia que aproxima o escritor de aspectos próprios locais. Assim, ele não é visto apenas como um eco do Barroco europeu.

salvador na época do barroco no brasil
Imagem de Salvador, no século XVII. Fonte: http://www.bahia-turismo.com. Acesso 12 mai. 2020.

Um texto que expressa o que estamos falando, por exemplo, é o soneto “Triste Bahia”. Aqui, Gregório “se identifica com a sua terra espoliada pelo negociante de fora, ‘o sagaz Brichote’, e impreca a Deus que faça tornar o velho tempo da austeridade e da contensão”, como diz Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira. Segue o texto:

Triste Bahia

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti tocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

A espoliação a que se refere a voz lírica do poema é em relação aos recursos naturais. Esses recursos, no período açucareiro, foram fortemente explorados pelos estrangeiros.

Para saber mais sobre Gregório de Matos, o Boca do inferno, veja esta excelente aula da professora Camila para o nosso canal no YouTube:

Padre Antônio Vieira

Assim como Gregório de Matos, padre Antônio Vieira (1608-97), é um importante nome do Barroco no Brasil. Apesar de ter nascido em Lisboa, veio para a Bahia, com a família, aos sete anos. Mais tarde, ingressa na Companhia de Jesus, criada no século anterior, no contexto da Contrarreforma.

Depois de 1640, quando Portugal já havia se libertado do domínio espanhol, Vieira volta à sua terra natal, ocupando o cargo de confessor do rei. Retorna ao Brasil em 1652, após ter sido admoestado pela Inquisição, pelo fato de haver defendido judeus.

Aliás, uma das posturas que mais se destacam na biografia do padre é justamente o posicionamento que tinha a favor dos marginalizados. Foi o motivo pelo qual acabou sendo expulso do Maranhão, onde estava atuando. À época, combatia a escravidão do indígena.

Segue mais uma vez para seu país de origem, onde teve o direito de pregar cassado pela Inquisição. Instala-se definitivamente no Brasil, sem jamais deixar de defender negros e índios.

A produção de Padre Antônio Vieira para o Barroco

Em sua produção literária constam profecias (Histórias do Futuro e As Esperanças de Portugal). Também constam cartas (em torno de 500, que tratam de assuntos diversos, cotidianos e históricos) e sermões (cerca de 200). Esta última modalidade consiste no ponto alto da obra de Vieira.

Entre os mais famosos está o Sermão da sexagésima (sobre a arte de pregar). Podemos citar, também, o Sermão de Santo Antônio ou Sermão aos peixes (sobre o indígena escravizado pelos colonos europeus). Outro sermão importante: o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (sobre a invasão holandesa de 1640).

O Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1665, é, talvez, o texto em prosa mais comentado do autor. O sermão tem a intenção de discutir sobre o próprio ato de pregar. Ou seja, trata-se de metalinguagem, que é quando uma manifestação artística se volta ela mesma. A seguir, um trecho que demonstra o que estamos dizendo:

sermão-padre-antonio-vieira-barroco

Neste fragmento, observa-se o estilo de Vieira, denominado Conceptismo, que consiste no jogo de ideias. A organização da frase obedece a uma ordem rigorosa com o intuito de convencer e ensinar. Ocorre especialmente na prosa.

Francisco de Quevedo, político e poeta espanhol do século XVII, é considerado o precursor do Conceptismo.

Para saber mais sobre Padre Antônio Vieira, veja esta excelente aula da professora Camila para o nosso canal no YouTube:

Por fim, faça os exercícios que selecionei para você para testar seus conhecimentos sobre Barroco no Brasil:

01) (UFViçosa-MG) Assinale a alternativa que não apresenta uma correta definição do estilo Barroco:

a) A produção poética seiscentista expressou a tensão e a irregularidade de uma época conturbada por valores opostos.

b) Uma das temáticas determinantes da poesia do século XVII foi a efemeridade do mundo terreno.

c) A dialética da culpa e do arrependimento refletiu a inconstância da alma barroca.

d) O Barroco brasileiro adotou o racionalismo como um dos principais norteadores da vida e da arte.

e) O jogo de ideias e de palavras confirmou-se como um dos aspectos preponderantes da estética barroca.

02) (UFV) Considere as afirmações que se seguem. Todas elas vinculam a poesia de Gregório de Matos aos princípios estéticos e ideológicos do Barroco brasileiro, exceto:

a) A vertente lírica da poética de Gregório de Matos cultuou o amor feito de pequenos afetos, da meiga ternura e dos torneios gentis, tendo como cenário o ambiente campestre e pastoril.

b) O “Boca do Inferno” insurgiu-se não só contra os desmandos administrativos e políticos da Bahia do século XVII, mas contra o próprio ser humano, que, na concepção do poeta, é por natureza corrupto e mau.

c) Os poemas religiosos de Gregório de Matos fundiram a contemplação da divindade, o complexo de culpa, o desejo de arrependimento e o horror de ser pó, sensações, enfim, frequentes no atormentado espírito barroco.

d) O significado social do Barroco brasileiro foi marcante, uma vez que a poesia de Gregório de Matos revestiu-se de alto sentido crítico aos vícios e violências da sociedade colonial.

e) A produção literária de Gregório de Matos dividiu-se entre a temática lírico-religiosa e uma visão crítica das mazelas sociais oriundas do processo de colonização no Brasil.

03) (UEL-PR) Nos sermões do Padre Vieira, o estilo barroco sustenta:

a) os ideais abolicionistas e republicanos.

b) denúncias contra movimentos emancipacionistas.

c) a propagação dos ideais da Reforma.

d) o entrelaçamento dos assuntos de fé aos históricos.

e) um lirismo atormentado pela culpa.

Gabarito: 1. D; 2. A; 3. D.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.