Controle social

Se você já se sentiu controlado, veja esta revisão. Nela você entenderá como funcionam os dispositivos de controle social e as instituições sociais.

Não se preocupe, você não está sozinho(a). É muito comum termos esses questionamentos e dúvidas. Principalmente quando nos deparamos com situações nas quais somos obrigados a seguir determinadas regras, normas, costumes ou até mesmo tradições.

A esse conjunto de normativas sociais que nos fazem ter determinados comportamentos, chamamos de controle social. A ideia de controle social aparece no período de consolidação da sociologia e tem em Émile Durkheim, que definiu a sociedade como imperante sobre os indivíduos, um de seus expoentes.

Em síntese o controle social refere-se a um conjunto bastante heterogêneo de dispositivos que nos levam a seguir leis, valores e padrões comportamentais vigentes e dominantes. Ou seja, que nos incuta modos de ser, pensar e expressar socialmente que devem ser partilhados por todas as pessoas de um grupo, coletividade ou sociedade.

O controle social

Mas como somos levados a agir e pensar segundo regras pré-definidas sem questionar? Seguimos esses parâmetros de comportamento porque existem diferentes modos e dispositivos que asseguram o controle social e disciplinam os indivíduos fazendo com que eles sigam um conjunto de regras sociais e morais e ajam de modo previsível.

Existe todo um aparato social que controla nosso comportamento e nos faz “andar na linha”. Então, mesmo quando nós não estamos pensando, estamos sendo controlados.

Os dispositivos de controle social existem em diferentes formatos. Podem ser formais ou informais. Os dispositivos formais são aqueles dados pelas leis e normas que são institucionalizadas. Já os dispositivos informais são aqueles dados por regras que regem a conduta de cada um, mas que não tem o peso de leis. São exemplos, as crenças, os valores morais, as tradições e costumes. Aqui a família, a escola e a igreja ocupam os principais lugares de produção e difusão dos valores sociais a serem seguidos e do controle estreito dos comportamentos e atitudes.

O filósofo político Norberto Bobbio define e divide o controle social em duas diferentes esferas: as formas externas e as formas internas de controle.

As formas externas de controle social são aquelas que vigiam as leis e normas sociais vigentes e que garantem que todas as pessoas irão se comportar do mesmo modo. Quem foge dessas normas sofre as sanções, penalidades e punições diretas que buscam restabelecer a ordem ou lei que foi quebrada.

A polícia é um exemplo de dispositivo de controle social externo e formal que é acionado toda vez que alguém contraria as leis. Ela garante o cumprimento das normas e tem o poder (garantido e legitimado pelo Estado) para controlar e assegurar o cumprimento das normas.

controle social - polícia
Nós temos a polícia.
Disponível em: <<http://jopbj.blogspot.com/2015/09/o-povo-tem-razao.html>>

Os dispositivos de controle interno são aqueles mecanismos de controle que nos são inculcados socialmente, ou seja, que nós interiorizamos. O processo de interiorização nada mais é que tornar uma ideia ou qualquer outra característica parte da consciência de um indivíduo, ou seja, a pessoa não mais consegue desvencilhar-se dessa ideia ou pensamento com facilidade por que ela é constitutiva de seu modo de pensar e ver o mundo.

Normas, valores, costumes, tradições sociais são calcadas no processo formativo da identidade dos indivíduos e, deste modo, compõem a consciência da pessoa. Essa interiorização é dependente de um processo de socialização, que torna o indivíduo vigia de si e de seus próprios comportamentos e atitudes. Em síntese, os indivíduos, através do aprendizado e internalização das normas sociais, exercem o controle social através de um auto controle. O medo da exclusão social é um dos principais meios de manutenção das normais sociais e de controle e autocontrole dos comportamentos e atitudes.

Segundo o filósofo Michel Foucault, as sociedades são sociedades disciplinares nas quais as instituições disciplinam os indivíduos desde o nascimento: a família, a escola, os quartéis, os hospitais, as prisões. Todos esses são espaços de disciplina, socialização e internalização de normas sociais, onde aprendemos como agir, pensar e nos comportar de acordo com as regulações sociais vigentes.

Aqui podemos pensar que essas instâncias e instituições funcionam como um cabresto, tal como aquele que colocamos nos cavalos e que cerceiam a visão, freiam e servem para governar as ações dos animais.
Ainda que esses mecanismos de adestramentos e cabresto institucional e das instituições sociais sejam perceptíveis, existem dimensões do controle social que permanecem menos visíveis. É o que a expressão do sociólogo alemão Theodor Adorno indica quando ele define a sociedade de controle como uma “prisão ao ar livre”. Ou seja, estamos sendo controlados quando percebemos, mas também quando não percebemos.

Por exemplo, quando atravessamos a rua por uma faixa de pedestre pintada no chão, obedecemos a regras de trânsito. Quando comemos mais salada por que faz bem à saúde, obedecemos a regras nutricionais. Ou ainda, quando cruzamos por igrejas e templos no cenário das cidades e nos percursos que fazemos cotidianamente, sofremos uma tentativa simbólica de coação social na qual a religião e suas prescrições são lembradas de serem seguidas.

A mídia é um dos grandes exemplos de controle social não formal da atualidade. Ela exerce o controle social através das indicações de comportamento, conselhos e modelos de atitudes a serem seguidos, a custas de exclusão social para quem não partilha dos comportamentos divulgados como padrão.

controle social - TV
A TV como cabresto

Os processos de exclusão social são meios de controle. Afinal ninguém quer ser o excluído, o diferente, o sozinho. Assim, acabamos partilhando os códigos normativos e vamos nos encaixando nos moldes sociais assegurados por todos esses dispositivos de controle que nos cercam cotidianamente.

Por outro lado, para o filósofo Thomas Hobbes, o controle social é fundamental para a existência mesma da sociedade. Para ele é apenas através da instituição de leis e contratos sociais que os homens podem conviver. Segundo este autor, o homem é mau por natureza e sem o controle social o conflito seria imperativo e a confusão, as brigas e disputas seriam os únicos modos de resolver os problemas e a existência da sociedade estaria comprometida.

Por fim, vale lembrar que existem mudanças nos valores sociais e em decorrência nas leis e normativas de controle social em voga. Padrões morais e sociais que eram aceitos antigamente, hoje não são mais e essas transformações convidam para revisões das normas de comportamentos, das instituições sociais, dos valores sociais ou tradições e também das legislações.

Para finalizar sua revisão, veja esta aula da prof. Anna:
Agora é a sua vez! Teste seus conhecimentos com os exercícios que selecionamos pra você:

1. (UEM, 2011) Toda sociedade desenvolve mecanismos de controle social com o objetivo de fazer com que cada indivíduo adote comportamentos esperados. Sobre esse assunto, assinale a(s) alternativa(s) correta(s).

A) A família, como esfera privada da vida regida por sentimentos e laços de sangue, não participa dos processos de controle social.

B) A polícia e o judiciário são instituições que exercem controle social de tipo formal e são próprias de sociedades complexas.

C) A religião é uma importante instituição de controle social, devido a sua alta eficiência na definição de comportamentos socialmente aceitos.

D) O controle social para ser eficiente deve combinar a transmissão de valores com estratégias de coerção.

E) Nas sociedades complexas, ocorre uma tendência de substituição de estratégias difusas de controle pela sua institucionalização formal, o que pode ser observado pelo incremento do aparato jurídico e policial.

2. (ENEM 2015) A natureza fez os homens tão iguais, quanto às faculdades do corpo e do espírito, que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente mais forte de corpo, ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando se considera tudo isto em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que um deles possa com base nela reclamar algum benefício a que outro não possa igualmente aspirar.

HOBBES, T. Leviatã. São Paulo Martins Fontes, 2003.

Para Hobbes, antes da constituição da sociedade civil, quando dois homens desejavam o mesmo objeto, eles

A) entravam em conflito.

B) recorriam aos clérigos.

C) consultavam os anciãos.

D) apelavam aos governantes.

E) exerciam a solidariedade.

3. (UEMA- 2016) Um dos fenômenos sociais de destaque nos estudos sociológicos são as instituições sociais.

Conceituadas como “toda forma ou estrutura social estabelecida, constituída, sedimentada na sociedade e com caráter normativo – ou seja, ela define regras e exerce formas de controle social”. Por isso, mudanças nas instituições sociais geralmente envolvem disputas entre conservadores e progressistas.

OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo: Ática, 2008.

A situação que tem gerado disputa ideológica na sociedade brasileira tanto no discurso de senso comum como nas instâncias de poder, em virtude do processo de mudança na formatação da instituição social denominada de família, é:

A) A comemoração do divórcio

B) O casamento religioso entre viúvos

C) A união estável para os casais idosos

D) A adoção de crianças por casais do mesmo sexo

E) A perda da guarda dos filhos por abandono de incapaz.

Gabarito:

1. F, V, V, V, V
2. A
3. D

Sobre o(a) autor(a):

Anna Carolina Horstmann Amorim é cientista social formada pela Universidade Federal do Paraná, é mestra e doutora em Antropologia pela Universidade Federal de Santa Catarina.