Felicidade para Aristóteles: da Virtude à Política

O que te faz Feliz? Se uma boa nota no Enem te ajuda a buscar a felicidade, então vem comigo entender o que é a Felicidade para Filosofia. Vamos voltar à magna Grécia sob a orientação de Aristóteles e descobrir qual a relação entre Ética, Política e Felicidade.

O que faz a vida valer a pena ser vivida? Em seu livro “Ética a Nicômaco”, meu camarada Aristóteles refletiu a respeito da vida e de como deveríamos vivê-la. Com a intenção de encontrar algo que seja comum a todas as pessoas, ele empreendeu sua investigação sobre o cosmos. Saiba mais sobre como a Felicidade em Aristóteles nesta aula de Filosofia para o Enem.

felicidade em aristóteles
Figura 1. Aristóteles nasceu em Estagira, na Macedônia, em 384 a.C. Com 17 anos, partiu para Atenas e começou a frequentar a Academia de Platão. Lá se indagou a respeito do que nos faz feliz.

 

Ao ponderar sobre os debates entre Heráclito e Parmênides, o filosofo grego Aristóteles conclui que o universo é algo ordenado. Para Aristóteles, cada coisa tem um lugar certo, tudo está organizado. Portanto as paradas do cosmo, não estão aí flutuando de bobeira, ao contrário, as coisas no universo têm uma finalidade a cumprir.

Assim, nós enquanto seres pensantes (alguns nem tanto) temos um lugar nesse circo cósmico ao qual estamos inseridos. Agora, eu não sei você, mas eu tenho uma grande dificuldade em achar meu lugar em meio a esse caos. Isso é algo angustiante do ponto de vista aristotélico. Quer ver só?

A felicidade para Aristóteles

Para Aristóteles se você não encontrar seu lugar nesse mundão, você certamente vivera mal. Isto é, Aristóteles acreditava que se não cumprir sua finalidade, você jamais se sentirá realizado na vida. Como o Thanos (vilão carismático da Marvel) sem as Joias do Infinito, entende?

cena de vingadores
Figura 2: Gif mostrando o famosos “estalo” do vilão Thanos.

Então, do ponto de visto lógico, uma vida ruim para Aristóteles é aquela em que você não encontra o seu lugar no mundo, ou seja, uma vida sem finalidade.

Como você pode ver, nesta linha de pensamento, a condição da vida boa é achar seu lugar ao sol. É um acordo da vida com o universo, na qual você tem uma finalidade dentro de toda essa engenhoca cósmica que é nossa existência.

A finalidade das coisas

Agora você talvez esteja pensando: “Pois bem, segundo Aristóteles, o universo é todo cheio das finalidades e tudo existe por uma razão. Então, se cada pedacinho do universo cumprir sua finalidade, o todo (o universo) também irá cumprir sua finalidade. Sendo assim, qual é a resposta? Qual é a finalidade do universo, da vida e tudo mais?”

E aí? Pensou nas possíveis respostas para essas perguntas que acompanham a humanidade há tanto tempo? Cara, posso até adivinhar o que você pensou.

Isso porque é provável que qualquer coisa que você consiga pensar está escrava do cumprimento da sua função, da sua finalidade. Segundo a ideia Aristotélica, é por isso que o sol nos ilumina, por isso a Terra gira, por isso os gatos miam. Em geral, as coisas (irracionais) vivem de boa, já que não há outra função para elas além da sua finalidade natural.

Agora, o mesmo não pode se dizer de nós. Ao contrário das demais coisas no universo, nós fomos agraciados (ou não) com a liberdade e a capacidade de raciocínio. O que faz da tarefa de achar nossa função neste mundo, algo árduo e muitas vezes bem “treta”. Tanto que, alguns de nós são levados à depressão, loucura ou ao suicídio nessa busca por uma finalidade (telos em grego).

o grito modificado
Figura 3. O Grito é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch, 1893. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial.

 

A busca pela felicidade

Como Aristóteles é um camarada “humildão” e não se julga superior a nós, você não encontrará em suas obras menções ao caminho correto a seguir na busca pela Felicidade. Mesmo porque não há motivo para ele dizer qual é a sua finalidade, pois ela é só sua! Quem tem que descobrir a sua finalidade é você. Isto faz parte do processo de encontrar sua função no mundo, sua tarefa é procurá-la.

Assim sendo, se você quer um manual de como viver bem, ou seja, de encontrar no mundo sua finalidade, a razão da sua existência, não será em Aristóteles que você encontrará. Tampouco será na filosofia que você deve buscar esse manual.

A ética e a Virtude

Ao invés de um manual de como viver, o que Aristóteles nos propõe é uma teoria moral bem peculiar baseada na Virtude. Tal teoria compõe um estudo maior acerca da ética que acaba por analisar o caráter dos indivíduos ao invés de pregar um manual comportamental.

Para entender o que Aristóteles queria dizer, vamos pensar em um exemplo. Você provavelmente conhece alguém “sagaz”, que sempre sabe o que dizer nos momentos difíceis, certo? Em geral, a gente sempre tem aquele amigo ou amiga com quem pode contar.

Seja aquela pessoa confiante que está sempre nos motivando, ou aquela “miga louca” que está sempre no rolê te livrando dos embustes da vida noturna. Fato é que sempre há alguém que se destaca por conta de suas características.

A essas habilidades, Aristóteles deu o nome de Virtude. Ele se baseia naquela ideia ancestral de que nós (humanos) temos algo inato que nos faz buscar ser melhor. Isto é, a natureza nos “moldou” com um certo instinto para buscarmos a Virtude.

Na realidade, a palavra utilizada por Aristóteles é Arete, às vezes traduzida como Virtude, outras vezes como Excelência. Fato é que Aristóteles herda o conceito de Virtude dos seus antecessores, Sócrates e Platão, para os quais um homem deve ser senhor de si.

De qualquer maneira, virtuoso é aquele que, segundo Aristóteles, tem suas qualidades dispostas não em extremos, mas na justa medida. Por exemplo, entre a covardia e a imprudência temos a coragem; entre o “vacilão” e o “puxa saco” está a amizade.

Não enxergar o meio termo, ou mesotês como Aristóteles gostava de chamar, é algo muito comum em nossa sociedade. Na política moderna, a polarização é justamente a consequência de não se enxergar o meio termo. Quando agimos de maneira radical frente a um adversário não estamos sendo virtuosos.

Os virtuosos

Agora, imagine alguém que consiga reunir diversas dessas características (corajoso, gente fina, sangue bom, inteligente etc.). Difícil não? Esse seria o tipo de pessoa que todo mundo quer ser, ou ter por perto. Alguém que parece ter dominado a arte de ser. Parece impossível não? Mas Aristóteles colocava fé nisso aí. É isso que ele dizia que a gente deveria ser, virtuosos!

virtudes e felicidade para aristóteles
Figura 4. A Virtude não vem do que você tem, mas do que você é. Tony Stark sem armadura ainda é virtuoso, não é o homem de ferro que faz dele um grande homem, é justamente o contrário.

 

Mas, por que devemos ser virtuosos? Segundo Aristóteles ser virtuoso nos permite alcançar a Felicidade. Na verdade Aristóteles nunca falou em Felicidade, afinal de contas essa é uma palavra do nosso vernáculo (português). Ele falava em Eudaimonia, um termo grego que significa o estado de ser habitado por um bom gênio. O que em geral é traduzido como Felicidade.

Então, como você já viu, Aristóteles argumenta que a natureza colocou em nós o desejo de sermos virtuosos. Nós somos, enquanto espécie, potencialmente virtuosos. Isso porque, embora no momento podemos não ter a Virtude, podemos (e devemos) alcançá-la.

Sendo assim, para Aristóteles, nós nascemos para sermos felizes! Basta dominarmos a Virtude e então conquistaremos a Felicidade. Todavia, o que é ser virtuoso? Segundo o próprio Aristóteles nos ensina, basta fazer a coisa certa, na hora certa, do jeito certo, na quantidade certa para as pessoas certas.

Ok, isso não ajudou muito, né? Mas é como lhe disse, se você busca um manual de como ser feliz, não é Aristóteles nem tampouco a Filosofia que irá lhe fornecer isso. Contudo, nesse caso não há necessidade de ser especifico. Se você é virtuoso saberá o que fazer. Saberá o que é justo, o que é certo e por que é certo.

Talvez agora você deva estar se perguntando, como é que você saberá o que é justo ou certo. Bom, a Virtude só se aprende por meio da experiência. Para Aristóteles ela é uma sabedoria prática. Você tem que ter a manha da coisa, ser sagaz.

Aprendemos a Virtude pelo hábito. Isto é, aprendemos a Virtude levando uma vida digna por meio da prática contínua da Virtude a partir do uso da razão em nossas escolhas e atividades.

felicidade para aristóteles
Figura 5. Seguindo o famoso lema grego: Nada em excesso, Aristóteles formula a ética da virtude baseada na busca pela Felicidade. A definição pode até nos pareça tautológica, mas Felicidade é algo que vale por si.

 

Vale ressaltar que para conduta de quem ocupa uma função política a Virtude é ainda mais necessária. Pois, para Aristóteles, não é possível tratar de assuntos de Estado quando não se possui Virtude.

Assim sendo, apesar de ser “da hora” alcançar a Virtude, é muito mais “da hora” atingir esse estado virtuoso para uma nação. Como diz Aristóteles, o objetivo da vida política é o melhor dos fins, e cabe a Filosofia dedicar o melhor de seus esforços para fazer com que os cidadãos sejam virtuosos. Então veja: está tudo relacionado, Virtude, Ética, Política e Felicidade.

Resumindo, temos como finalidade última (Telos) buscar a Felicidade, para isso, precisamos agir eticamente. Embora tal finalidade seja a mesmo tanto para nós (indivíduos) quanto para o Estado, é mais importante, atingirmos essa finalidade no âmbito do Estado. Assim, a Política é algo muito maior a alcançar do que a Ética. Todavia, uma é dependente da outra!

arte sobre felicidade em aristóteles
Figura 6. A vida que vale a pena? Só pode ser uma. A sua. Segundo Aristóteles, a Felicidade não está no futuro, mas no presente. Estudar aproximadamente 16 anos para conseguir um emprego e trabalhar mais de 35 anos nele só por dinheiro é o oposto da Felicidade aristotélica.

 

Por fim, Felicidade significa viver na eudaimonia, significa lutar contra os fracassos e desapontamentos do cotidiano, buscando sempre a superação. É reconhecer que a vida não é feita de arco-íris, deuses e messias. Sejam eles fantasiosos ou reais. Viver na eudaimonia é provar do gosto amargo da realidade e fazer o seu melhor para mudar o mundo. É assim que a gente alcança a Felicidade. (Ou não).

Bom, agora é contigo!. Teste seus conhecimentos aristotélicos a respeito da Felicidade e me conta depois!

1) (ENEM 2013)

A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.

ARISTOTELES. A Política. São Paulo: Cia das Letras, 2010.

Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristoteles a identifica como

a) busca por bens materiais e títulos de nobreza.

b) plenitude espiritual e ascese pessoal.

c) finalidade das ações e condutas humanas.

d) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.

e) expressão do sucesso individual e reconhecimento público.

 

2) Qual é a obra na qual Aristóteles dedica-se a pensar sobre a felicidade?

a) Política

b) Poética

c) Ética a Nicômaco

d) Metafísica

 

3) O que significa dizer que a filosofia aristotélica é teleológica?

a) Uma filosofia voltada para preocupações existenciais e religiosas;

b) Uma filosofia orientada pela busca do prazer;

c) Uma filosofia orientada pela comprovação científica;

d) Uma filosofia que está orientada pela busca por uma finalidade.

4) (UEL) Ora, nós chamamos aquilo que deve ser buscado por si mesmo mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado com vistas em outra coisa, e aquilo que nunca é desejável no interesse de outra coisa mais absoluto do que as coisas desejáveis tanto em si mesmas como no interesse de uma terceira; por isso chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa”.
Fonte: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1987, 1097b, p. 15.De acordo com o texto e os conhecimentos sobre a ética de Aristóteles, assinale a alternativa correta:

a) Segundo Aristóteles, para sermos felizes é suficiente sermos virtuosos.
b) Para Aristóteles, o prazer não é um bem desejado por si mesmo, tampouco é um bem desejado no interesse de outra coisa.
c) Para Aristóteles, as virtudes não contam entre os bens desejados por si mesmos.
d) A felicidade é, para Aristóteles, sempre desejável em si mesma e nunca no interesse de outra coisa.
e) De acordo com Aristóteles, para sermos felizes não é necessário sermos virtuosos.

Gabarito

1.C; 2.C; 3.D; 4. D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva