Conheça os conflitos ocorridos durante a Guerra Fria na África

Apesar de a Guerra Fria receber esse nome por EUA e URSS nunca terem se enfrentado diretamente, houve uma série de conflitos em outros lugares do mundo. Saiba quais os desdobramentos da Guerra Fria na África nesta aula de História para o Enem e vestibulares!

Ao pensar em Guerra Fria nos vem à mente corrida espacial, bombas nucleares e espionagem entre EUA e URSS, certo? Mas você sabia que também houve desdobramentos da Guerra Fria na África? É o que vamos ver ao longo desta aula de História para o Enem.

O que foi a Guerra Fria

Após a Segunda Guerra Mundial, a União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA) saíram como as maiores potências do globo. Mas essas cada uma defendia projetos políticos, sociais e econômicos profundamente distintos e conflitantes. Enquanto os EUA defendiam um modelo de sociedade capitalista baseada no individualismo, a URSS procurava estabelecer uma economia planificada com o fim das classes sociais.

A Guerra Fria foi, portanto, uma disputa ideológica que se desdobrou em uma corrida armamentista, espacial e cultural. Não tardou para que a URSS replicasse a bomba atômica estadunidense e logo as duas potências obtiveram arsenais com o potencial real de destruir o planeta.

A corrida então passou para o espaço com o lançamento de satélites, animais e astronautas (ou cosmonautas, como no caso soviético). A disputa propagandística acompanhava a disputa a todo o momento, atacando o inimigo e enaltecendo os feitos de seus projetos.

Blocos de influência na Guerra Fria

Entretanto, a Guerra Fria não significou ausência de conflitos bélicos. Eles ocorreram de maneira indireta, através da constituição de blocos de influência. Assim, tanto a URSS como os EUA criaram alianças (OTAN e Pacto de Varsóvia, respectivamente) com outras nações. Além disso, países do continente africano, asiático e latino-americano também estiveram dentro dessa disputa por influência.

Tanto a URSS como os EUA apoiaram grupos de esquerda e direita, respectivamente, em suas causas específicas em troca de apoio ideológico. As guerras indiretas entre as potências ocorriam através dessas nações e grupos cooptados por ambos os lados. Por isso, é possível dizer que também houve consequências diretas da Guerra Fria na África, na Ásia e na América Latina.

Bandeira de Angola - Guerra Fria na ÁfricaBandeira da Angola, nação africana aliada ao bloco socialista. Perceba as semelhanças com o símbolo soviético da foice e do martelo. Fonte: https://cutt.ly/6fuwO0v.

Guerra Fria na África e na Ásia

No caso dos países dos continentes africano e asiático, a busca por apoio ideológico ocorreu no contexto da luta das por independência política. Tanto a África como a Ásia foram sumariamente invadidas pelas potências europeias do século XIX. Isso porque elas tinham como objetivos explorar recursos naturais, sua mão de obra e criar mercados consumidores para escoarem seus produtos.

No caso africano, o continente chegou a ser dividido pelas nações europeias, que só saíram de lá a partir da segunda metade do século XX. Em seguida veremos como a dinâmica da Guerra Fria esteve envolvida neste contexto de busca por emancipação dos países africanos.

Para se aprofundar no assunto, veja também nossa aula completa sobre Guerra Fria.

Países africanos sob influência soviética

Era o desejo de muitas nações recém independentes desenvolverem sua própria economia para garantir seu lugar na comunidade internacional. Aqueles que obtiveram apoio da URSS, por exemplo, buscaram nacionalizar suas indústrias, indo na contramão do projeto capitalista do Ocidente.

Thomas Sankara - Guerra Fria na ÁfricaThomas Sankara, revolucionário socialista de Burkina Faso que comandou o país entre 1983 e 1984. Fonte:  https://cutt.ly/4fuwl3S.

Entre as principais nações e grupos que se aliaram em algum momento ao bloco comunista estavam: Angola, Moçambique, o Congresso Nacional Africano (um partido sul-africano), Guiné Bissau, Congo, Egito, Somália, Etiópia, Uganda, Benim, Gana e Burkina Faso.

Mas a URSS não foi o único país socialista a apoiar as nações africanas durante a Guerra Fria. Cuba também exerceu um papel de destaque ao enviar centenas de milhares de militares para combater grupos guerrilheiros de direita na Angola.

Tropas cubanas em Angola - Guerra Fria na ÁfricaTropas cubanas em Angola. Fonte: História geral da África, VIII: África desde 1935. Editado por Ali A. Mazrui e Christophe Wondji. Brasília: UNESCO, 2010.

Outros grupos foram apoiados pelos EUA durante a doutrina Reagan, que agiu em diversos países do dito “terceiro mundo”, como no golpe do Congo na década de 60. Os cubanos também estiveram em outros países, como na Etiópia.

Conheça também um pouco sobre a Guerra da Argélia, ex-colônia francesa que se tornou independente bem no meio da Guerra Fria na África:

Países sob influência capitalista

Foi o objetivo de muitas nações africanas, ou de pelo menos suas elites, buscar o sucesso e a independência econômica no modelo capitalista.

Os países que buscaram percorrer este caminho estavam se entregando a um processo de ocidentalização. Eles viram a instituição de universidades, a adoção de regimes intitulados democráticos e a introdução do capital internacional em seus territórios. Enquanto a independência política era formalizada, a dependência institucional, econômica e cultural continuava a existir.

Para as potências capitalistas, não era interessante que os países africanos, mesmo que fossem seus aliados, se industrializassem e fossem economicamente independentes. Eles ainda viam no continente africano a possibilidade de escoar seus produtos e obter matérias-primas a baixo custo.

As nações africanas abertas ao capitalismo passaram a aderir à Organização das Nações Unidas (ONU), ao Fundo Monetário Internacional (FMI), ao Banco Mundial e ao Acordo Geral sobre as Tarifas e o Comércio. Em contrapartida, estiveram em relação desigual com as potências capitalistas, inclusive em relação àquelas que haviam dominado seus territórios.

Os primeiros países africanos a terem partidos comunistas foram Egito e África do Sul, isso já na década de 1920. Entretanto, a África do Sul, que já havia sido ocupada por holandeses, franceses e ingleses, passou a ser um país pró-bloco capitalista.

O país que era conhecido pela política do apartheid continuava sendo governado por uma minoria branca, o que não foi contestado e chegou a ser apoiado pelos EUA. Além da África do Sul a Etiópia, a Nigéria, o Congo (ex-Zaire) e a Libéria também foram cooptados e disputados pelo projeto capitalista.

Dica

Em 2019 veio a público uma gravação do presidente estadunidense Richard Nixon se referindo aos delegados da Tanzânia na ONU como “macacos” após votação que reconheceu a China em vez de Taiwan como Estado. A BBC fez uma matéria sobre o caso.

Exercícios sobre Guerra Fria na África

1- (ESPM SP/2018)

Depois do período de transição, em 11 de novembro de 1975, o MPLA, sob a direção de Agostinho Neto, proclamou a independência, reconhecida pelo governo português. A primeira guerra de independência estava terminada. Mas a continuidade das divisões internas logo transformou-se em uma segunda guerra civil, disputada entre MPLA e UNITA. Esta contou com a participação direta dos EUA e da África do Sul. Quanto ao MPLA, teve apoio logístico e humano da URSS, da China e sobretudo de Cuba. (Leila Hernandez. A África na sala de aula)

O texto faz menção à independência de:

a) Angola;

b) Moçambique;

c) Guiné-Bissau;

d) Cabo Verde;

e) Argélia.

2- (Univag MT/2020)

A globalização e o fim da Guerra Fria desarticularam interna e externamente a política africana, gerando conflitos “desestrategizados” em meio ao alastramento da pobreza, da megaurbanização caótica e do ressurgimento de doenças epidêmicas como o cólera.

Tudo isso era acompanhado pelo colapso econômico, pois a África deixou de ser interessante para a Nova Economia e sua Revolução Tecno-científica. As guerras predatórias e os conflitos pela sobrevivência somaram-se à expansão do cultivo de drogas e à formação de redes locais e mundiais de traficantes.

(Paulo Fagundes Visentini et al. História da África e dos africanos, 2014. Adaptado.)

Esses problemas na África podem ser explicados, entre outros fatores,

a) pelo declínio do tráfico negreiro no século XX, que tirou dos reinos e dos líderes tribais sua principal fonte de renda.

b) pelo processo de descolonização, negociado por intermédio da ONU, que afastou a influência das superpotências.

c) pelas diferenças étnico-culturais dos povos nativos, que impossibilitaram a assimilação das tecnologias industriais.

d) pelo colonialismo mercantilista, que tornou o continente um amplo mercado para os excedentes industriais europeus.

e) pelos interesses imperialistas de países europeus, que partilharam o continente e criaram fronteiras artificiais.

3- (FAMEMA SP/2019)

Os anos de 1945 a 1960 foram marcados pela explosão do sentimento nacional nas dezenas de países da Ásia, da África e do Oriente Médio. É na modificação das relações de força no seio de cada colônia ou em cada grupo de colônias que se devem procurar as causas do enfraquecimento do velho sistema de dominação. Nenhum movimento de libertação nacional podia esperar a vitória se não contasse com o apoio total de sua população.

Uma das consequências da Segunda Guerra Mundial foi o enfraquecimento da Europa e a emergência de duas grandes potências: a União Soviética e os Estados Unidos da América. As duas tomaram posições anticolonialistas.

(Carlos Serrano e Kabengele Munanga. A revolta dos colonizados, 1995. Adaptado.)

De acordo com o excerto, esses movimentos de independência conjugavam

a) o pacifismo nas colônias e o desenvolvimento dos países capitalistas.

b) a unificação política das colônias e a ascensão de partidos comunistas.

c) a conscientização dos povos coloniais e as tensões da Guerra Fria.

d) o nacionalismo dos dominados e a hegemonia das potências europeias.

e) a ação de elites coloniais e os confrontos militares entre as superpotências.

Gabarito:

  1. A
  2. E
  3. C

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.

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