Hebreus, diásporas e o pioneirismo monoteísta

Conheça um pouco sobre a religião hebraica e os processos históricos que circundaram a primeira religião monoteísta da história.

A fonte principal de estudo dos hebreus é o Velho Testamento, uma das escrituras que compõe a Bíblia Sagrada. No livro, o povo hebreu é mostrado como descendentes de Abraão, líder da cidade-Estado mesopotâmica de Ur.

Segundo a mitologia, Abraão teria recebido um desígnio divino de guiar seu povo até a Terra Prometida, conhecida como Canaã ou Palestina. Nas escrituras ainda é mencionado o período em que foram escravizados pelos faraós egípcios e o êxodo, guiado por Moisés, em retorno à Canaã após quarenta anos de peregrinação no deserto.

moises e os hebreus
Figura 1: Representação de Moisés guiando o povo Hebreu de volta à Terra Prometida, na animação o Príncipe do Egito, de 1998. Retirado de: https://goo.gl/11Yw84 Marcadores: Príncipe do Egito, Hebreus, Êxodo.

Apesar da Bíblia ser utilizada como fonte para os estudos hebraicos, é necessário muito cuidado, já que o livro é recheado de parábolas e metáforas, além de ter sido escrito em diversos períodos diferentes por várias mãos.

Tal como outros povos, os hebreus fazem uso da mitologia como uma forma de legitimar suas ações geopolíticas e se estabelecer como um povo merecedor de pertencer a uma região ou de usufruir alguns direitos.

Segundo a historiografia, o povo hebreu pode ser caracterizado como nômade, pastor, tendo se organizado em várias tribos que por milhares de anos circulavam pelo atual oriente médio, pleiteando as fontes de água e locais de pastoril com outros povos da região.

Os primeiros registros históricos (além dos encontrados na Bíblia) deste povo datam aproximadamente do século XIII a.C, nos quais aparecem relatos do faraó Mineptah sobre uma conquista dos hebreus. Além disso, existem vestígios arqueológicos que comprovam que os hebreus só povoaram a Palestina após este século.

Neste período, onde os hebreus não possuíam uma organização institucional, baseavam-se em um sistema comunal, no qual os líderes eram escolhidos em um momento de grande necessidade, como em guerras ou períodos de seca e escassez de alimentos.

Sem uma organização centralizada, as responsabilidades de gerir as tribos recaiam sobre um conselho de anciões que conduziam a população para algumas decisões importantes.

Os anciões eram liderados por um juiz, que também exercia o cargo de líder militar e religioso quando necessário. Os juízes, por vezes, utilizavam a religião como ferramenta na tentativa de unificação destas tribos, como a ligação, segundo a Bíblia, entre Abraão e Iavé, o deus hebraico.

Um importante passo para a construção da identidade judaica foi justamente o abandono das práticas politeístas para a adoção de um único deus, Iavé. Uma das justificativas para esta mudança, reforçada pelos juízes anciões, era de que o povo hebraico havia sido escolhido por deus para ocupar a região da Palestina.

A unificação, as doze tribos e o monoteísmo ético

Por volta de 1010 a.C. o reino de Israel foi fundado, Saul, primeiro rei de Israel, unificou as tribos sob uma liderança. Seu sucessor, Davi, foi além e tratou de expulsar povos rivais, como os filisteus, da região palestina, determinando a antiga cidade de Jerusalém como capital do reino.

O rei também determinou a divisão de Israel em doze províncias, ou tribos como eram denominadas. O apogeu de Israel veio com o filho de Davi, Salomão entre 966 e 926 a.C.

Neste período, o Templo de Jerusalém, conhecido como Templo de Salomão, foi construído. O falecimento de Salomão dividiu o reino em dois, consequência dos diversos conflitos que sucederam o fim de seu reinado. Dez tribos localizaram-se ao sul, mantendo o nome de Israel, e as duas ao sul passaram a chamar-se Reino de Judá.

mapa do reino de israel hebreus
Figura 2: Mapa do Reino de Israel e Reino de Judá. Retirado de: https://goo.gl/4p1U5X Marcadores: Judá, Israel, Doze Tribos.

O falecimento de Salomão não só provocou um cisma na geopolítica de Israel, mas também em seu comportamento social.

Durante o século VIII a.C. os profetas ganharam preponderância entre os hebreus. Os profetas eram sacerdotes reconhecidos entre a população. Eram atribuídos a eles o dom de conexão com Iavé, como porta-vozes, e de prever o futuro.

Estas figuras costumavam criticar os membros mais ricos e influentes da sociedade, contestando oferendas, afirmando que os desígnios religiosos eram muito mais próximos de bondade e justiça social do que ostentação de riqueza e poder.

Estas características garantiram ao judaísmo o título de primeira religião monoteísta e ética da história, ou seja, a primeira religião apoiada na crença de um único deus que também estimulava um comportamento moral e ético específico.

Esta característica mostrou-se presente em diversas religiões que surgiram posteriormente, como por exemplo o islamismo e o cristianismo.

As diásporas dos hebreus, Palestina e Israel

Determina-se como diáspora qualquer dispersão ou fuga de uma região, causada por algum tipo de perseguição cultural, em aspecto religioso ou étnico. Porém, o termo geralmente é ligado ao povo hebreu.

A primeira diáspora judaica é datada de 586 a.C., quando o Imperador da Babilônia, Nabucodonosor II invadiu Jerusalém forçando os hebreus a migrarem para a região da Mesopotâmia após a destruição da cidade.

A segunda diáspora veio aproximadamente em 70 d.C. durante a expansão do Império Romano. Jerusalém foi novamente destruída e os judeus espalharam-se pelo norte da África, em comunidades chamadas Sefardins, e no leste europeu, os Asquenazi.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a dizimação de milhões de pessoas por conta da política genocida e antissemita da Alemanha Nazista, os judeus da região espalharam-se novamente por outros países.

Embora a migração de judeus para outras localidades do planeta ocorresse em vários momentos da história, ao início do século XX teve uma leve concentração na região da Palestina.

Este número aumentou consideravelmente entre 1939 e 1945, por conta da Segunda Guerra e ainda mais após 1948, com a criação do Estado de Israel pela Organização das Nações Unidas.

A criação do Estado de Israel poderia ser uma boa ideia, entretanto foi uma ação extremamente malsucedida, pois na região já viviam milhares de árabes, desde o século anterior, oriundos do antigo Império Otomano. O conflito antes focado na geografia, pouco a pouco, adentrava o campo político e agravou-se ainda mais após as decisões da ONU.

israelitas x hebreus
Figura 3: Mapa mostrando a evolução do avanço israelita, agravado após o plano de partilha proposto pela ONU. Retirado de: https://goo.gl/6vFGVw Marcadores: Palestina, Israel, Conflito.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula do canal MundoEdu:

https://www.youtube.com/watch?v=OC3y-UjYLeg

Questões para fixar

(UFPE) Entre os povos do oriente médio, os hebreus foram os que mais influenciaram a cultura da civilização ocidental, uma vez que o cristianismo é considerado como uma continuação das tradições religiosas hebraicas.

A partir do texto anterior, assinale a alternativa incorreta:

a) Originários da Arábia, os hebreus constituíram dois reinos: o de Judá e o de Israel na Palestina.

b) As guerras geraram a unidade política dos hebreus. Essa unidade se firmou primeiro em torno de juízes e, depois, em volta dos reis.

c) Os profetas surgiram na Palestina por volta dos séculos VIII e VII a.C., quando ocorreu uma onda de protestos dos trabalhadores contra os comerciantes.

d) A religião hebraica passou por diversas fases, evoluindo do politeísmo ao monoteísmo difundido pelos profetas.

e) Os hebreus organizaram-se social e economicamente com base na propriedade da terra, o que deu início à Diáspora.

Resposta: E

(UFRN) Entre os hebreus da Antiguidade, os profetas eram considerados mensageiros de Deus, lembrando ao povo as demandas da justiça e da Lei dadas por Javé. Isaías, um dos profetas dessa época, em nome de Javé proclamou:

Ai dos que decretam leis injustas; dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos! (Isaías 10:1-2)

Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! (Isaías 5:8)

Esses pronunciamentos do profeta Isaías estão ligados a uma época da história hebraica em que ocorreu:

a) a saída dos hebreus do Egito, sob o comando de Moisés, e o estabelecimento em Canaã, conquistando as terras dos povos que ali habitavam.

b) a imigração para o Egito, quando os hebreus receberam terras férteis no delta do rio Nilo, por influência de José, que exercia ali o cargo de governador.

c) a formação de uma aristocracia, que enriquecera com o comércio e com a apropriação das terras dos camponeses endividados.

d) a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor, quando os judeus foram despojados de suas terras e deportados para a Babilônia.

e) ao domínio persa, como Ciro, o Grande, que massacrou milhares de camponeses hebreus.

Resposta: C

(PUC-SP) Diáspora é o termo que designa a dispersão dos hebreus por várias regiões do mundo, após serem expulsos de seu território no século II. Somente depois de 1948, com a criação do Estado de Israel, esse povo pôde voltar a se reunir num mesmo país. Entretanto, essa reconquista vem sendo, há quase meio século, motivo de contendas entre os israelenses e o povo ocupante daquela região. O ano de 1995, talvez, seja o marco do apaziguamento desses conflitos, uma vez que acordos têm sido realizados pelos seus líderes, sob a chancela da diplomacia internacional – o que, infelizmente, não impediu o assassinato do primeiro-ministro de Israel. O povo que provocou a dispersão dos hebreus no século II e o povo que manteve o confronto com os israelenses desde 1948 são, respectivamente:

a ) os egípcios e os iranianos.

b) os romanos e os palestinos.

c) os palestinos e os egípcios

d) os romanos e os iranianos

e) os egípcios e os palestinos.

Resposta: B)

 

 

 

Sobre o(a) autor(a):

Guilherme Silva é formado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina. Dá aulas de História em escolas da Grande Florianópolis desde 2016.