Metalinguagem: o que é e exemplos

Você sabe reconhecer a função metalinguística em um texto literário? Nesta aula, você vai aprender tudo sobre metalinguagem e arrasar na interpretação de textos da prova do Enem e demais vestibulares!

A metalinguagem é um recurso muito utilizado em todas as formas de arte. Nesta aula você vai entender o que é metalinguagem e vai ver diferentes exemplos de metalinguagem na poesia, no cinema e na música. No fim, ainda tem uma videoaula e uma lista de exercícios sobre o tema!

O que é metalinguagem

Para começar a falar de metalinguagem, talvez seja interessante saber a origem do prefixo “meta”. Vem de “metá”, que em grego significa “no meio de”, “entre”, “com”. Assim, estamos falando da linguagem “com” a linguagem. Ou melhor, da linguagem através da linguagem, frase que nos aproxima de uma definição de metalinguagem. Trata-se do fenômeno que acontece quando determinada linguagem volta-se para ela mesma. 

Se eu escrevo, por exemplo, uma crônica que fale das dificuldades de se escrever uma crônica, estou utilizando a metalinguagem. Outro exemplo é quando um poema reflete sobre o ato de fazer poesia. Ou ainda, chamaríamos de metalinguagem se este post discutisse a respeito de como se deve fazer um post.

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Assim, a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas também pode ser chamada de metalinguagem. São situações em que a linguagem serve para explicar ela própria, é centrada no código. O linguista Roman Jakobson, ao falar das funções da linguagem, diz que uma delas é a função metalinguística. Essa função tem como foco o sistema de comunicação, o código que precisamos para nos comunicar.

Os primeiros exemplos que trouxemos de metalinguagem eram envolvendo a literatura (crônica, poesia). Isto porque é difícil encontrar entre os escritores modernos quem não tenha refletido, no próprio texto, acerca do fazer poético. Até porque a linguagem converteu-se em tema de debate no modernismo e depois dele.

Exemplos de metalinguagem

A seguir, alguns exemplos de poesia voltada à poesia:

Onde está

a poesia? indaga-se

por toda parte. E a poesia

vai à esquina comprar jornal.

(Ferreira Gullar)

 

Procura da poesia

Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

(…)

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Poema matemático

Me somo
E fico um
Me multiplico
E permaneço um.
Me divido.
E continuo um.

Me diminuo.
E resto um.

Me escrevo
E sou nenhum.

(Lindolf Bell)

poesia

não

compra

sapato

mas

como

andar

sem

poesia

(Emmanuel Marinho)

Caso voltemos um pouco no tempo e lembrarmos de Machado de Assis, veremos que ele já usava constantemente esse recurso. Ele fazia isso interpelando o leitor (ou a leitora) e tornando descontínua a leitura. Sendo assim, essa descontinuidade nos impede de misturar realidade com ficção. No caso machadiano, as digressões (divagações) também produzem esse efeito.

Aliás, esse jeito de afastar o leitor do enredo proporciona a compreensão de outro nível da narrativa, mais simbólica. Esta proposta é bem diferente das narrativas românticas, através das quais o leitor não se descolava do drama das personagens.

No exemplo abaixo, retirado de Esaú e Jacó, acontece uma interessante metalinguagem, ironizando, justamente, os romances românticos:

“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor, ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. (…) Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método”.

Exemplos de metalinguagem na música e no cinema

A metalinguagem, entretanto, pode ser associada a vários tipos de manifestações artísticas. Uma música cujo tema seja o próprio fazer musical terá empregado esse recurso. É o que vemos na canção “Palavras”, integrante do disco  Õ Blésq Blom, da banda Titãs, de 1989: 

Palavras não são más
Palavras não são quentes
Palavras são iguais,
Sendo diferentes
Palavras não são boas
Os números pros dias
E os nomes pras pessoas
Palavras eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se use
Em casos de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença
Palavras que se diz
Se diz e não se pensa
Palavras não tem cor
Palavras não tem culpa
Palavras de amor
Pra pedir desculpas
Palavras doentias
Páginas rasgadas
Palavras não se curam
Certas ou erradas
Palavras são sombras
As sombras virão jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo
Palavras pra esquecer
Versos que repito
Palavras pra dizer
De novo o que foi dito
Todas as folhas em branco
Todos os dedos fechados
Tudo com todas as letras
Nada de novo
Debaixo do Sol

No cinema, a prática não é incomum. A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, é um dos exemplos de uso da metalinguagem. O título se refere ao título do filme visto repetidas vezes pela personagem, Cecília.

Cecília era uma jovem entediada com a vida que levava em plena Grande Depressão. Encantada com a trama do arqueólogo Tom Baxter, ia ao cinema diariamente para assistir ao mesmo filme. Em um desses momentos, o personagem do filme sai da telona e interagir com Cecília, que se mostra bastante assustada.

rosa purpura do cairo - metalinguagem
Capa do DVD. Disponível em adorocinema.com. Acesso em: 11 mar. 2020.

Função metalinguística nas histórias em quadrinhos e nas artes plásticas

O discurso metalinguístico também está na publicidade, na busca de uma organização lúdica do pensamento ou de um trocadilho bem-humorado. Nas histórias em quadrinhos, metalinguagem e humor são igualmente comuns:

metalinguagem
Tirinha do Garfield, de Jim Davis. Disponível em https://www.portugues.com.br. Acesso em: 12 mar. 2020.

Ainda no campo das imagens, não poderíamos deixar de fora as artes plásticas. Uma obra notória na linha da metalinguagem é As meninas (1656), de Diego Velásquez.

metalinguagem
Pintura As meninas de Diego Velásquez. Disponível em bbc.com. Acesso em: 11 mar. 2020.

Velásquez aparece na imagem: ele está à esquerda, em frente a uma tela, segurando o pincel e a paleta de cores. Ou seja, temos, aqui pintura que fala de pintura. O que é mostrado é do cotidiano da família real espanhola, do século XVIII. Acredita-se que, na cena, Velásquez pintava os reis Filipe IV e Mariana, quando a filha do casal, Margarida, apareceu. E chegou acompanhada de suas damas.

Como dá para saber que os reis seriam pintados? É que eles estão refletidos no espelho do fundo.

Outro ótimo exemplo de metalinguagem nas artes é a obra “Drawing hands” (“Desenhando mãos”), de Maurits Cornelis Escher. 

metalinguagem
Disponível em http://www.arteeblog.com. Acesso em: 12 mar. 2020.

A técnica usada é a litografia, processo de reprodução que consiste em imprimir sobre papel, por meio de prensa. Dizem que o artista usou a sua própria mão direita como modelo para ambas as mãos representadas na gravura. A impressão foi feita pela primeira vez em Janeiro de 1948. 

É retratada uma folha de papel a partir da qual, de pulsos que permanecem planos na página. Além disso, duas mãos se sobressaem, de frente uma para a outra, em ação contraditória de desenhar uma à outra. O efeito é bastante curioso.

Videoaula

Para finalizar sua revisão, veja a videoaula a seguir:

Exercícios sobre metalinguagem

1- (EFOA MG/2006)

Assinale abaixo a alternativa em que a metalinguagem aparece como recurso discursivo nos sermões do Padre Antônio Vieira:

a) O estilo era que o Pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do Pregador. Não sou eu o que hei de comentar o Texto; o Texto é o que me há de comentar a mim. Nenhuma palavra direi que não seja sua, porque nenhuma cláusula tem que não seja minha. (“Sermão da Epifania”)

b) Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. (“Sermão de Santo Antônio”)

c) Dizei-me, Cristão, se vos víreis em poder de um tirano que vos quisesse tirar a vida pela Fé de Cristo; que havíeis de fazer? Dar a vida, e mil vidas. Pois o mesmo é dar a vida pela Fé de Deus, que dar a vida pelo serviço de Deus. (“Sermão da Primeira Dominga da Quaresma”)

d) Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara que fica por parte do pregador. (“Sermão da Sexagésima”)

e) Este Sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim, que lá se havia de pregar e não aqui. Porque o Texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à Majestade daquele lugar e nada à piedade deste. (“Sermão do Bom Ladrão”)

2- (UNIFOR CE/2019)

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer,

a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

ANDRADE, C Drummond. Obra Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 111.

Drummond expressa neste poema aspectos do fazer poético, deixando claras suas intenções e a direção que sua poesia irá tomar. Esse processo de escrever desnudando o ato de escrever constitui uma das principais características da literatura moderna.

Assinale a alternativa que indica essa característica.

a) Intertextualidade.

b) Metalinguagem.

c) Discurso Indireto.

d) Dialogismo.

e) Intencionalidade.

3- (UFMS/2019)

“Quincas Borba”, considerada uma das grandes obras da fase áurea do escritor Machado de Assis, põe em cena a história de Rubião, um modesto professor de Barbacena, cidade no interior de Minas Gerais, que, ao receber uma herança inesperada do amigo Quincas Borba, resolve mudar para o Rio de Janeiro – na época, centro da vida política e econômica brasileira. Ali, encontra dificuldades para adaptar-se ao modo de ser dos que convivem com o poder, tornando-se uma vítima de aproveitadores que se fazem passar por amigos, caso, sobretudo, do casal Cristiano e Sofia Palha.

O capítulo transcrito a seguir é o último do livro. Nele se encontra uma espécie de síntese da narrativa, ao se elencarem personagens centrais da trama a partir da notícia da morte do cão Quincas Borba, cujo nome é o mesmo de seu primeiro dono, que foi herdado por Rubião.

“Queria dizer aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes se ele, se o seu defunto homônimo é que dá título ao livro, e por que antes um que outro, – questão prenhe de questões, que nos levariam longe… Eia! chora os dois recentes mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso, rite. É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.”

(MACHADO DE ASSIS. Quincas Borba. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012. p. 344).

Apesar de Machado de Assis construir parte significativa de sua obra ainda em fins do século XIX, é possível já verificar, em seus textos, o emprego de recursos próprios da literatura moderna. A esse propósito, sobre o trecho em questão, pode-se afirmar que:

a) a projeção de um leitor hipotético no corpo do texto confere traços de indeterminação à narrativa, atualizando uma questão central do enredo, como se este continuasse em aberto.

b) o exercício de reflexão em torno da metalinguagem, convida o leitor a refletir sobre esse ponto.

c) ao tratar, inicialmente, da morte do cão, criatura querida dos personagens, em seus últimos momentos, de um modo repleto de ternura, o narrador chama atenção para a necessidade de humanização de alguns aspectos da vida em sociedade.

d) a identificação de reações contrárias por parte do leitor (chorar/rir), decorrentes de um mesmo acontecimento, aponta para a criação de uma imagem complexa do ser humano em meio às relações sociais.

e) a parte final do capítulo visa a funcionar como uma espécie de ensinamento moral, desdobrado de toda a história que o precedeu, a ser apreendido pelo leitor, em função do valor universal que acompanha esse desfecho.

Gabarito:

  1. A
  2. B
  3. B

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.

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