Metalinguagem

Você sabe reconhecer a função metalinguística em um texto literário? Nesta aula, você vai aprender tudo sobre metalinguagem e arrasar na interpretação de textos da prova do Enem e demais vestibulares!

Para começar a falar de metalinguagem, talvez seja interessante saber a origem do prefixo “meta”. Vem de “metá”, que em grego significa “no meio de”, “entre”, “com”. Assim, estamos falando da linguagem “com” a linguagem. Ou melhor, da linguagem através da linguagem, frase que nos aproxima de uma definição de metalinguagem. Trata-se do fenômeno que acontece quando determinada linguagem volta-se para ela mesma. 

Se eu escrevo, por exemplo, uma crônica que fale das dificuldades de se escrever uma crônica, estou utilizando a metalinguagem. Outro exemplo é quando um poema reflete sobre o ato de fazer poesia. Ou ainda, chamaríamos de metalinguagem se este post discutisse a respeito de como se deve fazer um post.

Assim, a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas também pode ser chamada de metalinguagem. São situações em que a linguagem serve para explicar ela própria, é centrada no código. O linguista Roman Jakobson, ao falar das funções da linguagem, diz que uma delas é a função metalinguística. Essa função tem como foco o sistema de comunicação, o código que precisamos para nos comunicar.

Os primeiros exemplos que trouxemos de metalinguagem eram envolvendo a literatura (crônica, poesia). Isto porque é difícil encontrar entre os escritores modernos quem não tenha refletido, no próprio texto, acerca do fazer poético. Até porque a linguagem converteu-se em tema de debate no modernismo e depois dele.

A seguir, alguns exemplos de poesia voltada à poesia:

Onde está

a poesia? indaga-se

por toda parte. E a poesia

vai à esquina comprar jornal.

(Ferreira Gullar)

 

Procura da poesia

Não faça versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.

Diante dela, a vida é um sol estático,

não aquece nem ilumina.

(…)

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Poema matemático

Me somo
E fico um
Me multiplico
E permaneço um.
Me divido.
E continuo um.

Me diminuo.
E resto um.

Me escrevo
E sou nenhum.

(Lindolf Bell)

poesia

não

compra

sapato

mas

como

andar

sem

poesia

(Emmanuel Marinho)

Caso voltemos um pouco no tempo e lembrarmos de Machado de Assis, veremos que ele já usava constantemente esse recurso. Ele fazia isso interpelando o leitor (ou a leitora) e tornando descontínua a leitura. Sendo assim, essa descontinuidade nos impede de misturar realidade com ficção. No caso machadiano, as digressões (divagações) também produzem esse efeito.

Aliás, esse jeito de afastar o leitor do enredo proporciona a compreensão de outro nível da narrativa, mais simbólica. Esta proposta é bem diferente das narrativas românticas, através das quais o leitor não se descolava do drama das personagens.

No exemplo abaixo, retirado de Esaú e Jacó, acontece uma interessante metalinguagem, ironizando, justamente, os romances românticos:

“O que a senhora deseja, amiga minha, é chegar já ao capítulo do amor, ou dos amores, que é o seu interesse particular nos livros. (…) Francamente, eu não gosto de gente que venha adivinhando e compondo um livro que está sendo escrito com método”.

Veja exemplos de metalinguagem na música e no cinema

A metalinguagem, entretanto, pode ser associada a vários tipos de manifestações artísticas. Uma música cujo tema seja o próprio fazer musical terá empregado esse recurso. É o que vemos na canção “Palavras”, integrante do disco  Õ Blésq Blom, da banda Titãs, de 1989: 

Palavras não são más
Palavras não são quentes
Palavras são iguais,
Sendo diferentes
Palavras não são boas
Os números pros dias
E os nomes pras pessoas
Palavras eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se use
Em casos de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença
Palavras que se diz
Se diz e não se pensa
Palavras não tem cor
Palavras não tem culpa
Palavras de amor
Pra pedir desculpas
Palavras doentias
Páginas rasgadas
Palavras não se curam
Certas ou erradas
Palavras são sombras
As sombras virão jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo
Palavras pra esquecer
Versos que repito
Palavras pra dizer
De novo o que foi dito
Todas as folhas em branco
Todos os dedos fechados
Tudo com todas as letras
Nada de novo
Debaixo do Sol

No cinema, a prática não é incomum. A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, é um dos exemplos de uso da metalinguagem. O título se refere ao título do filme visto repetidas vezes pela personagem, Cecília.

Cecília era uma jovem entediada com a vida que levava em plena Grande Depressão. Encantada com a trama do arqueólogo Tom Baxter, ia ao cinema diariamente para assistir ao mesmo filme. Em um desses momentos, o personagem do filme sai da telona e interagir com Cecília, que se mostra bastante assustada.

rosa purpura do cairo - metalinguagem
Capa do DVD. Disponível em adorocinema.com. Acesso em: 11 mar. 2020.
Alguns exemplos da função metalinguística nas histórias em quadrinhos e nas artes plásticas

O discurso metalinguístico também está na publicidade, na busca de uma organização lúdica do pensamento ou de um trocadilho bem-humorado. Nas histórias em quadrinhos, metalinguagem e humor são igualmente comuns:

metalinguagem
Tirinha do Garfield, de Jim Davis. Disponível em https://www.portugues.com.br. Acesso em: 12 mar. 2020.

Ainda no campo das imagens, não poderíamos deixar de fora as artes plásticas. Uma obra notória na linha da metalinguagem é As meninas (1656), de Diego Velásquez.

metalinguagem
Pintura As meninas de Diego Velásquez. Disponível em bbc.com. Acesso em: 11 mar. 2020.

Velásquez aparece na imagem: ele está à esquerda, em frente a uma tela, segurando o pincel e a paleta de cores. Ou seja, temos, aqui pintura que fala de pintura. O que é mostrado é do cotidiano da família real espanhola, do século XVIII. Acredita-se que, na cena, Velásquez pintava os reis Filipe IV e Mariana, quando a filha do casal, Margarida, apareceu. E chegou acompanhada de suas damas.

Como dá para saber que os reis seriam pintados? É que eles estão refletidos no espelho do fundo.

Outro ótimo exemplo de metalinguagem nas artes é a obra “Drawing hands” (“Desenhando mãos”), de Maurits Cornelis Escher. 

metalinguagem
Disponível em http://www.arteeblog.com. Acesso em: 12 mar. 2020.

A técnica usada é a litografia, processo de reprodução que consiste em imprimir sobre papel, por meio de prensa. Dizem que o artista usou a sua própria mão direita como modelo para ambas as mãos representadas na gravura. A impressão foi feita pela primeira vez em Janeiro de 1948. 

É retratada uma folha de papel a partir da qual, de pulsos que permanecem planos na página. Além disso, duas mãos se sobressaem, de frente uma para a outra, em ação contraditória de desenhar uma à outra. O efeito é bastante curioso.

Para finalizar sua revisão, veja a videoaula a seguir:

Veja agora alguns exercícios sobre Metalinguagem:
1- (EFOA MG/2006)

Assinale abaixo a alternativa em que a metalinguagem aparece como recurso discursivo nos sermões do Padre Antônio Vieira:

a) O estilo era que o Pregador explicasse o Evangelho: hoje o Evangelho há de ser a explicação do Pregador. Não sou eu o que hei de comentar o Texto; o Texto é o que me há de comentar a mim. Nenhuma palavra direi que não seja sua, porque nenhuma cláusula tem que não seja minha. (“Sermão da Epifania”)

b) Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. (“Sermão de Santo Antônio”)

c) Dizei-me, Cristão, se vos víreis em poder de um tirano que vos quisesse tirar a vida pela Fé de Cristo; que havíeis de fazer? Dar a vida, e mil vidas. Pois o mesmo é dar a vida pela Fé de Deus, que dar a vida pelo serviço de Deus. (“Sermão da Primeira Dominga da Quaresma”)

d) Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara que fica por parte do pregador. (“Sermão da Sexagésima”)

e) Este Sermão, que hoje se prega na Misericórdia de Lisboa, e não se prega na Capela Real, parecia-me a mim, que lá se havia de pregar e não aqui. Porque o Texto em que se funda o mesmo sermão, todo pertence à Majestade daquele lugar e nada à piedade deste. (“Sermão do Bom Ladrão”)

2- (UERJ/2013)

Recordações do escrivão Isaías Caminha

1 Eu não sou literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. O que observei neles, no 2 tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não os amar, nem os imitar. São em 3 geral de uma lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher 4 fatos detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às ideias vencedoras, e 5 antigas, adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril 6 e errôneo critério de beleza. Se me esforço por fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois 7 quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral e no seu interesse, com 8 a linguagem acessível a ele. É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego que para 9 isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance 10 das mãos, tenho os autores que mais amo. (…) Confesso que os leio, que os estudo, que procuro11 descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a ambição literária que me 12 move ao procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações13 Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, 14 a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como 15 eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não 17 merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença.

17 Entretanto, quantas dores, quantas angústias! Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de 18 qualquer ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um médico mezinheiro, repletos 19 de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. (…) Entretanto, se eu amanhã lhes fosse 20 falar neste livro – que espanto! que sarcasmo! que crítica desanimadora não fariam. Depois que 21 se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples e esquecido de sua carta apergaminhada, 22 nada digo das minhas leituras, não falo das minhas lucubrações intelectuais a ninguém, e minha 23 mulher, quando me demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:

24 – Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para amanhã!

25 De forma que não tenho por onde aferir se as minhas Recordações preenchem o fim a que as 26 destino; se a minha inabilidade literária está prejudicando completamente o seu pensamento. 27 Que tortura! E não é só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em que me acho, em 28 que me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública… Sofro assim de tantos 29 modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, 30 unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso absolutamente. De manhã, ao almoço, na 31 coletoria, na botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite, quando todos em casa se 32 vão recolhendo, insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo furiosamente. Estou no sexto 33 capítulo e ainda não me preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom recebimento 34 dos detentores da opinião nacional. Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, 35 amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil que a refaça e que diga o que não 36 pude nem soube dizer.

37 (…) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri 38 e pensei não o sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a página, achei-a 39 incolor, comum, e, sobretudo, pouco expressiva do que eu de fato tinha sentido.

(LIMA BARRETO Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.)

O texto de Lima Barreto explora o recurso da metalinguagem, ao comentar, na sua ficção, o próprio ato de compor uma ficção. Esse recurso está exemplificado principalmente em:

a) Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a página, achei-a incolor, comum, (Refs. 38-39)

b) — Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para amanhã! (Ref. 24)

c) Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de qualquer ordem. (Refs. 17-18)

d) São em geral de uma lastimável limitação de ideias, (Refs. 2-3)

3- (PUC GO/2012)

O poema do semelhante

O Deus da parecença

que nos costura em igualdade

que nos papel-carboniza

em sentimento

que nos pluraliza

que nos banaliza

por baixo e por dentro,

foi este Deus que deu

destino aos meus versos,

 

Foi Ele quem arrancou deles

a roupa de indivíduo

e deu-lhes outra de indivíduo

ainda maior, embora mais justa.

 

Me assusta e acalma

ser portadora de várias almas

de um só som comum eco

ser reverberante

espelho, semelhante

ser a boca

ser a dona da palavra sem dono

de tanto dono que tem.

 

Esse Deus sabe que a palavra “alguém”

é apenas o singular da palavra “multidão”.

Eh mundão:

todo mundo beija

todo mundo almeja

todo mundo deseja

todo mundo chora

alguns por dentro

alguns por fora

alguém sempre chega

alguém sempre demora.

 

O Deus que cuida do

não-desperdício dos poetas

deu-me essa festa

de similitude

bateu-me no peito do meu amigo

encostou-me a ele

em atitude de verso beijo e umbigos,

extirpou de mim o exclusivo:

a solidão da bravura

a solidão do medo

a solidão da usura

a solidão da coragem

a solidão da bobagem

a solidão da virtude

a solidão da viagem

a solidão do erro

a solidão do sexo

a solidão do zelo

a solidão do nexo.

 

O Deus soprador de carmas

deu de me fazer parecida

Aparecida

santa

puta

criança

deu de me fazer

diferente

pra que eu provasse

da alegria

de ser igual a toda gente

 

Esse Deus deu coletivo

ao meu particular

sem eu nem reclamar

Foi Ele, o Deus da par-essência

O Deus da essência-par.

 

Não fosse a inteligência

da semelhança

seria só o meu amor

seria só a minha dor

bobinha e sem bonança

seria sozinha minha esperança

(LUCINDA, Elisa. O poema do semelhante. In: _______. O semelhante. 7. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 17-19.)

Metalinguagem é a linguagem utilizada para descrever algo sobre outra(s) linguagem(ns), denominada(s) linguagem(ns)-objeto. Ela pode se referir a qualquer terminologia ou linguagem usada para descrever uma linguagem em si mesma ou apresentar uma discussão acerca do seu uso. Analise as alternativas seguintes e indique a correta, em relação ao texto:

a) Há metalinguagem, quando o eu poético utiliza o hipérbato, como em “todo mundo chora/alguns por dentro/alguns por fora”.

b) Há metalinguagem, quando o eu poético refere-se à ideia de concepção e de semelhança, como em “O Deus que cuida do/não-desperdício dos poetas/ deu-me essa festa/de similitude”.

c) Há metalinguagem, quando o eu poético utiliza a hipérbole, como em “Eh mundão:/todo mundo beija/todo mundo almeja/todo mundo deseja/todo mundo chora.

d) Há metalinguagem, quando o eu poético ironiza a existência de Deus, como em “Foi Ele, o Deus da par-essência/O Deus da essência-par”.

Gabarito: 01) A; 02) A; 03) B.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.

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