Método socrático: ironia e maiêutica

Você costuma usar a ironia no seu dia a dia? Sabe quem gostava muito disso? Sócrates. Bora saber como a ironia socrática cai no Enem! 

Nos primórdios da Filosofia, diversos filósofos contribuíram para moldar a nossa civilização. Entretanto, alguns foram muito mais influentes que outros. É o caso do ateniense Sócrates , que ao lado de Platão e Aristóteles, formou os pilares que edificaram as sociedades Ocidentais. Na aula de hoje, vamos conhecer mais sobre o método socrático e entender como ele chegava às suas conclusões.

Figura 1: Estima-se que Sócrates nasceu por volta de 470 a.C. na Grécia. É atribuída a ele a famosa máxima “só sei que nada sei”.

Lamentavelmente, Sócrates não deixou nenhum legado escrito. Isso se deve à maneira como ele praticava a Filosofia. Valendo-se principalmente de dois métodos chamados de maiêutica e ironia, a Filosofia Socrática era algo muito mais executado no plano da ação do que na Literatura. 

Por esse motivo, tudo aquilo que sabemos sobre Sócrates foi escrito por outras pessoas. Ora, em sua grande maioria, os relatos sobre a sua vida aparecem nos diálogos aporéticos de Platão. Assim sendo, é nessa onda aporética que vamos investigar o método socrático. 

aporia - método socrático
Figura 2. Aporia é a incerteza ou hesitação diante do que se pretende dizer. Nos diálogos Socráticos, os interlocutores e Sócrates têm incertezas decorrentes da impossibilidade de responder uma questão filosófica.

Um filosofo irônico 

Diz-se que meu camarada Sócrates era muito mais preocupado com chegar na verdade do que com o convencimento do seu interlocutor. O filósofo ateniense ficou marcado pelos vários embates travados com os sofistas, pessoas que afirmavam serem capazes de falar bem acerca de quaisquer assuntos. 

Antagonizando essa ideia de saber algo sobre tudo, Sócrates dizia não saber nada, afirmava que os sofistas só convenciam as pessoas, mas não sabiam a verdade. Assim começa a “quest” Socrática que pode ser lida na obra de Platão “Apologia a Sócrates”. 

Movido pela busca do saber, Sócrates se propôs a provar que os discursos sofistas eram falaciosos. Isto é, não passavam de uma ilusão da verdade feita para convencer as pessoas.  

A ironia no método socrático

Imagine Sócrates, naquela época, saindo por aí chamando os sofistas para o debate. Eles, diferentemente de certas figuras públicas, não fugiam do debate, e começavam a trocar ideia com Sócrates tentando convencê-lo. Para dar início ao processo dialético, Sócrates fazia uso da ironia ao iniciar sua jornada de rumo à verdade. 

O uso da ironia como método consistia em perguntar sobre algo que seria objeto do debate, negando os pré-conceitos e concepções acerca do assunto em questão. Aliás, ironia vem da palavra eirein. Em uma tradução livre seria algo como perguntar, ou o ato de perguntar fingindo não saber. 

A ironia, enquanto método, se dá pela elaboração de diversas perguntas feitas ao interlocutor visando expor que seu ponto de vista é apenas uma opinião e não uma verdade absoluta e universal. Assim, quando Sócrates começava os seus diálogos, o fazia sempre indagando sobre algo que seu interlocutor tinha como certo para demonstrar que aquilo era somente uma visão parcial do assunto. 

Figura 3: A ironia não tinha o intuito de ridicularizar, mas de fazer irromper da aporia (isto é, do impasse sobre o conceito de alguma coisa) o entendimento.

Maiêutica

Bom, agora que sabemos que os diálogos se iniciavam com a ironia, vamos entender como é que eles se desenvolviam pelo método socrático.

Dando sequência ao debate, Sócrates continuava fazendo perguntas. Todavia, a finalidade agora era outra. Ao invés de livrar o interlocutor dos preconceitos e opiniões infames, Sócrates queria que o interlocutor conseguisse definir algum conceito a respeito de algo.  

Essas novas perguntas tinham por objetivo conduzir o debate até que alguma nova perspectiva se formasse. Chamamos isso de maiêutica. O termo faz referência à mãe de Sócrates, que era parteira. Por conta disso, a Maiêutica é entendida como a arte auxiliar a dar à luz as ideias. 

Você deve ter reparado que foi dito que a maiêutica auxilia no nascimento das ideias e não que ela gera as ideias, certo? Isso porque Sócrates pensava que nós já possuímos as ideias em nosso espírito. Ele pressupunha que as pessoas tinham uma espécie de alma imortal, sendo necessário apenas encontrar o caminho para que essa ideia viesse ao mundo. 

Sacou como na visão de Sócrates perguntar é a maneira de mostrar o caminho da verdade? Para Sócrates, não é possível que uma pessoa ensine algo a outra, visto que nossos espíritos já sabem das coisas, é necessário apenas lembrá-las.  

Entendemos, então, Filosofia como a arte da reflexão, pois só a partir da reflexão conhecemos o mundo. Assim sendo, ao utilizar a Maiêutica partimos de preposições simples e vamos, pergunta após pergunta, aprimorando nosso conhecimento e nos lembrando daquilo que nossos espíritos aparentemente se esqueceram. 

Por fim, os usos da ironia e da maiêutica alicerçam a Dialética de Sócrates. Começa-se por descontruir os conceitos dúbios gerando um estado de aporia e em seguida busca-se sair desse estado com a maiêutica procurando, assim, o caminho para a verdade.  

Para finalizar sua revisão, veja esta aula do canal Evolucional sobre o método socrático:

Exercícios:

1- (FCC)

Sócrates nada deixou escrito. Suas ideias foram divulgadas por seus discípulos Platão e Xenofonte. Nas conversas com seus discípulos, privilegia as questões morais.Aprendemos de Sócrates que o conhecimento resulta de uma busca contínua, enriquecida pelo diálogo, que corresponde ao filosofar. Sócrates é responsável por um método dialógico que se compõe de dois momentos. 

As etapas do método socrático são: 

a) a dialética e a argumentação. 

b) a ironia e a maiêutica. 

c) o juízo e o raciocínio. 

d) a proposição e a discussão. 

e) a tese e a antítese. 

2- (ENEM 2017)

Uma conversação de tal natureza transforma o ouvinte; o contato de Sócrates paralisa e embaraça; leva a refletir sobre si mesmo, a imprimir à atenção uma direção incomum: os temperamentais, como Alcibíades, sabem que encontrarão junto dele todo o bem de que são capazes, mas fogem porque receiam essa influência poderosa, que os leva a se censurarem. É sobretudo a esses jovens, muitos quase crianças, que ele tenta imprimir sua orientação. 

BRÉHIER, E. História da filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977. 

O texto evidencia características do modo de vida socrático, que se baseava na 

a) contemplação da tradição mítica. 

b) sustentação do método dialético. 

c) relativização do saber verdadeiro. 

d) valorização da argumentação retórica. 

e) investigação dos fundamentos da natureza.

3- (UNCISAL 2011)

Na Grécia Antiga, o filósofo Sócrates ficou famoso por interpelar os transeuntes e fazer perguntas aos que se achavam conhecedores de determinado assunto. Mas durante o diálogo, Sócrates colocava o interlocutor em situação delicada, levando-o a reconhecer sua própria ignorância. Em virtude de sua atuação, Sócrates acabou sendo condenado à morte sob a acusação de corromper a juventude, desobedecer às leis da cidade e desrespeitar certos valores religiosos. 

Considerando essas informações sobre a vida de Sócrates, assim como a forma pela qual seu pensamento foi transmitido, pode-se afirmar que sua filosofia 

 a) transmitia conhecimentos exclusivamente sob a forma escrita entre a população ateniense. 

b) transmitia conhecimentos de natureza científica. 

c) baseava-se em uma contemplação passiva da realidade. 

d) ficou consagrada sob a forma de diálogos, posteriormente redigidos pelo filósofo Platão. 

e) procurava transmitir às pessoas conhecimentos de natureza mitológica. 

Gabarito

1- B

2- B

3- D

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva