Padrões de beleza, imagem corporal e distúrbios alimentares

Os padrões de beleza são ideais de aparência corporal impostos socialmente, ligados à estética e imagem corporal. Eles mudam com o tempo e influenciam nossa saúde.

Questões acerca de padrões de beleza influenciam socialmente nossa maneira de ser e viver. É um assunto multidisciplinar e pode cair de várias maneiras no Enem. Então vamos olhá-lo de uma forma mais crítica e reflexiva?

Os padrões de beleza, assunto tão falado atualmente, são ideais de aparência corporal impostos socialmente, ligados inteiramente à estética e imagem corporal. Ou seja, o que seria “certo” em termos de aparência, seja do corpo ou do rosto.

São, em sua maioria, ligados ao gênero feminino. Além disso, os padrões correspondem a um fenômeno social e cultural. Sendo assim, foi criado pelos humanos, e não é considerado algo natural.

Padrões de beleza
Fonte: https://bit.ly/2TGcKyv

Portanto, criticamente falando, não existe uma maneira correta de ser e parecer. Mas, infelizmente, esses padrões de beleza se incorporam nos objetivos de vida de muitas pessoas, podendo até levar ao desenvolvimento de distúrbios alimentares.

Padrões de beleza ao longo do tempo

Os padrões de beleza ganham uma forma diferente a cada virada de século. Desde corpos curvilíneos, até corpos extremamente magros, os padrões se modificam de acordo com a cultura, época ou região.

Atualmente, a maior disseminadora de padrões corporais é a mídia. De acordo com o dicionário Michaelis, mídia é toda estrutura de difusão de informações, utilizando-se de vários meios, entre eles jornais, revistas, televisão, internet, entre outros. Esses padrões acabam por influenciar uma “maneira correta” de ser e aparentar, criando também estereótipos caso o contrário ocorra.

Antiguidade

Lembramos que o corpo é algo não apenas natural, mas cultural. Para entendermos isso, vamos à história, onde encontramos os primeiros registros de padrões de beleza, que se originaram na Grécia Antiga.

Até então, nessa região, o corpo era considerado o abrigo da alma, e estava diretamente conectado ao intelecto, muito valorizado na época. No entanto, fisicamente, ele deveria ter formas proporcionais e harmoniosas. Por exemplo: um lado do rosto devia ser igual ao outro.

Também é nessa época que temos o surgimento do padrão de beleza masculino atlético e com músculos definidos, e o da mulher com gordurinhas aparentes.

Idade Medieval

Já na Idade Medieval, com uma forte influência da Igreja, o culto ao corpo era abominado e foi esquecido, considerado até pecado. Assim, o corpo seria como uma capa que cobria o espírito e logo seria descartado, não sendo digno de cuidados.

Era considerado também a perdição da alma, o responsável pelos pecados. As mulheres da época deviam se vestir semelhantemente à Virgem Maria. Nesse período, portanto, considera-se até que o corpo foi esquecido.

Renascimento

Depois disso, com o surgimento do Renascimento, considerado um movimento cultural (mas também político e econômico), a visão do homem sobre o mundo se modifica.

Assim, o padrão corporal feminino se tornou a gordura, que representava ao mesmo tempo poder e riqueza. Mulheres bonitas eram aquelas com quadris e abdômen proeminentes. Observamos esse padrão fortemente nas pinturas renascentistas.

A famosa pintura de Vênus e Cupido pelo italiano Ticiano, por exemplo, apresenta essa característica:

Vênus - padrões de beleza
Fonte: https://virusdaarte.net/ticiano-venus-e-cupido/ Acesso em 17/05/2020.
Século XVI em diante

Com o passar do tempo, principalmente a partir do século XVI, corpos cada vez mais magros eram considerados o novo padrão de beleza. Marcado pelo uso de espartilhos, as mulheres corriam cada vez mais atrás desse novo objetivo: uma cintura fina e modelada.

Entre idas e vindas, em meados do século XIX, a gordura voltou a ser valorizada, justamente para mostrar riqueza e fartura. Entretanto, isso durou pouco tempo e a magreza volta a ser imposta a partir do século XX.

É esse o padrão que impera até hoje, com o adicional de algumas características: corpos bronzeados e torneados, marcando também o início da onda fitness, apresentando corpos atléticos e saudáveis.

Confira esse vídeo mais detalhado sobre a evolução do ideal de beleza feminino:

A magreza e os distúrbios alimentares

Com a frequente imposição de magreza pela mídia, vivemos em um desafio em meio às redes sociais. Essa é uma questão complexa, e a preocupação depositada em possuir corpos magros desencadeia vários acontecimentos, entre eles os transtornos/distúrbios alimentares.

Considerados doenças mentais, os distúrbios alimentares são cada vez mais frequentes e acarretam comportamentos extremos relacionados à alimentação e atividades físicas. Também podem provocar uma distorção em relação à imagem corporal, em que os portadores não enxergam a sua própria realidade.

Entre os distúrbios alimentares, os mais comuns são a anorexia e a bulimia.

Anorexia

A anorexia é caracterizada por uma grande perda de peso, consequência de um medo por comer e se tornar gordo. Por isso, é comum uma distorção da imagem corporal, no qual a pessoa se vê mais gorda do que a realidade, e geralmente não tem noção de sua magreza.

Há também nesse distúrbio a probabilidade de práticas exageradas e obsessivas de exercícios físicos, com o objetivo de grandes perdas calóricas. Dessa forma, a anorexia leva a complicações metabólicas sérias e grande perda de massa corporal, levando a estados graves e até a óbito.

Bulimia

Já na bulimia o portador passa por episódios de compulsão alimentar, onde tem a sensação de perda de controle e come obsessivamente em grandes quantidades. Depois disso, toma atitudes para compensar o comportamento compulsivo: seja por indução do vômito ou o uso indiscriminado de laxantes.

Tentando criar um “equilíbrio” e não adquirir as calorias que foram ingeridas, o portador da bulimia acaba por tomar atitudes radicais e muito prejudiciais à sua saúde.

Julgamentos e padrões

Observamos, então, uma tendência das pessoas a quererem se encaixar nesses padrões, tomando atitudes que podem ser danosas à saúde. E, logo, tudo que foge do padrão se torna um estereótipo e é rejeitado, abominado.

Exemplo disso é o sobrepeso e a obesidade, que se tornam atualmente condições dispensáveis e alvo de julgamentos e preconceito, considerados não saudáveis. Pessoas cada vez mais magras são exigidas e se tornam o objetivo de muitas pessoas, principalmente mulheres.

Dessa maneira, nas condições de disseminação de informações que possuímos hoje, com as redes sociais, o corpo acaba por se tornar produto e alvo fácil de imposições, movimentando o capitalismo em torno do padrão de beleza vigente.

Como consequência, cresce cada vez mais a insatisfação pelo corpo, sendo principalmente no público feminino, como se a felicidade estivesse diretamente ligada à maneira como seu corpo aparenta.

Por isso o assunto deve ser olhado de maneira crítica. Já sabemos que magreza não é sinônimo de saúde, que é o principal fator a ser levado em consideração. Afinal, gorduras a mais não predizem doenças, e são completamente normais, estando presentes na maioria das pessoas.

Em conclusão, o foco deve ser em manter uma rotina equilibrada e que respeite seu corpo, com atividades física regulares e uma alimentação saudável e natural, e não se ter como objetivo principal se encaixar em um padrão corporal imposto socialmente.

Confira essa pequena videoaula que complementará os assuntos já estudados sobre o tema. Em seguida, responda aos exercícios que caíram na última edição do Enem!

Exercícios sobre padrões de beleza
1) (ENEM 2019)

No Brasil, a disseminação de uma expectativa de corpo com base na estética da magreza é bastante grande e apresenta uma enorme repercussão, especialmente, se considerada do ponto de vista da realização pessoal. Em pesquisa feita na cidade de São Paulo, aparecem os percentuais de 90% entre as mulheres pesquisadas que se dizem preocupadas com seu peso corporal, sendo que 95% se sentem insatisfeitas com “seu próprio corpo”.

SILVA, A. M. Corpo, ciência e mercado: reflexões acerca da gestação de um novo arquétipo da felicidade. Campinas: Autores Associados; Florianópolis, UFSC, 2001.

A preocupação excessiva com o “peso” corporal pode provocar o desenvolvimento de distúrbios associados diretamente à imagem do corpo, tais como

a) Anorexia e bulimia.

b) Ortorexia e vigorexia.

c) Ansiedade e depressão.

d) Sobrepeso e fobia social.

e) Sedentarismo e obesidade.

2) (ENEM 2019)

O convívio com outras pessoas e os padrões sociais estabelecidos moldam a imagem corporal na mente das pessoas. A imagem corporal idealizada pelos pais, pela mídia, pelos grupos sociais e pelas próprias pessoas desencadeia comportamentos estereotipados que podem comprometer a saúde. A busca pela imagem corporal perfeita tem levado muitas pessoas a procurar alternativas ilegais e até mesmo nocivas à saúde.

Revista Corpoconsciência. FEFISA, v. 10, n° 2, Santo Andre, jul./dez. 2006,(adaptado).

A imagem corporal tem recebido grande destaque e valorização na sociedade atual. Como consequência,

A) ênfase na magreza tem levado muitas mulheres a depreciar sua autoimagem, apresentando insatisfação crescente com o corpo.

b) as pessoas adquirem a liberdade para desenvolver seus corpos de acordo com critérios estéticos que elas mesmas criam e que recebem pouca influência do meio em que vivem.

c) a modelagem corporal é um processo em que o indivíduo observa o comportamento de outras, sem, contudo, imitá-los.

d) o culto ao corpo produz uma busca incansável, trilhada por meio de árdua rotina de exercícios, com pouco interesse no aperfeiçoamento estético.

e) o corpo tornou-se um objeto de consumo importante para as pessoas criarem padrões de beleza que valorizam a raça a qual pertencem.

3) ENEM 2019

Em nenhuma outra época o corpo magro adquiriu um sentido de corpo ideal e esteve tão em evidência como nos dias atuais: esse corpo, nu ou vestido, exposto em diversas revistas femininas e masculinas, está na moda: é capa de revistas, matérias de jornais, manchetes publicitárias, e se transformou em sonho de consumo para milhares de pessoas. Partindo dessa concepção, o gordo passa a ter um corpo visivelmente sem comedimento, sem saúde, um corpo estigmatizado pelo desvio, o desvio pelo excesso. Entretanto, como afirma a escritora Marylin Wann, é perfeitamente possível ser gordo e saudável. Frequentemente os gordos adoecem não por causa da gordura, mas sim pelo estresse, pela opressão a que são submetidos.

VASCONCELOS, N.A; SUDO, I; SUDO, N; Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia. Revista Mal-Estar e Subjetividade. N. 1, mar 2004 (adaptado)

No texto, o tratamento predominante na mídia sobre a relação entre saúde e corpo recebe a seguinte crítica:

a) Difusão das estéticas antigas.

b) Exaltação das crendices populares.

c) Propagação das conclusões científicas.

d) Reiteração dos discursos hegemônicos.

e) Contestação dos estereótipos consolidados.

GABARITO
  1. a
  2. a
  3. e

Sobre o(a) autor(a):

O texto foi escrito pela professora Milena Boeng, Bacharela em Educação Física pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).