Renascimento – Valores antigos em uma nova história

Entenda como o Renascimento cultural, surgido na Itália no século XIV, construiu uma parte única da história buscando inspiração nos pensadores e artistas da Antiguidade. Revise História para o Enem!

Em termos históricos, é equivocado dizermos que a história se repete. Cada tempo histórico tem suas singularidades, conflitos e conceitos próprios. Apesar do termo Renascimento nos remeter a ideia de uma recuperação de algo que se passou, é necessário perceber que as bases e os interesses do seu contexto pertencem ao seu próprio tempo. Demonstrar isso será o objetivo da aula de hoje. Vem comigo revisar História para mandar bem no Enem e nos vestibulares!

Uma breve história do saber ocidental

Na antiguidade clássica (civilização greco-romana) muitas foram as formas de se entender e explicar o mundo. A primeira delas foi através da mitologia, que não só explicava os fenômenos naturais, mas também dizia qual o lugar de cada um na sociedade.

Na Grécia Antiga no século VII a.C., Tales de Mileto “inaugurava” uma outra percepção de mundo: a filosófica, onde os fenômenos naturais eram explicados pela observação dos movimentos da natureza com base na racionalidade humana. Em seguida, muitos outros pensadores utilizariam estes mesmos princípios (observação e racionalidade) para elaborar suas explicações sobre o mundo físico e o mundo dos homens.

Esta percepção racionalista sobre o mundo irá sofrer sua mais profunda ruptura com o misticismo e o cristianismo, que passarão a explicar a realidade a partir da interpretação de sinais do Deus cristão. Essa nova ordem (teocêntrica) dominará o pensamento ocidental e não encontrará barreiras durante toda a Idade Média, até o Renascimento.

Por uma combinação de fatores naquele contexto, surgirá uma corrente de pensamento que buscará nos filósofos da Antiguidade os valores de observação, racionalização e representação (antropocêntrica) da realidade.

Contextualizando o Renascimento cultural

Vamos imaginar a Europa mediterrânea no final da Idade Média: Constantinopla é conquistada pelos turcos otomanos (muçulmanos), que passam a bloquear as rotas de comércio dos reinos cristãos. Tal bloqueio prejudica a acumulação de riquezas pela burguesia e, consequentemente, pelos nobres que vinha a todo vapor desde as cruzadas.

As únicas cidades da Europa que continuaram comercializando com o oriente através do porto de Constantinopla foram as da península italiana. Com este monopólio comercial, devido a aliança com os turcos, a burguesia de cidades italianas como Gênova, Veneza, Roma, Pisa e Florença multiplicaram suas riquezas.

Tanto poder econômico trouxe novas possibilidades de investimento. Ao mesmo tempo, muitos intelectuais do antigo Império Bizantino, fugindo dos turcos, procuraram abrigo nesta e em outras regiões da Europa. Esta dispersão de sábios também distribuiu o conhecimento do antigo Império e a leitura de obras gregas (o grego era, talvez, o idioma mais popular do Império).

Mecenato

A burguesia italiana, vendo o vertiginoso aumento de suas riquezas, passou a morar em palacetes e a financiar artistas e intelectuais para produzir obras para eles. Este financiamento ganhou o nome de mecenato, e os financiadores ficaram conhecidos como mecenas.

É importante lembrar que a busca por prestígio e aproximação da nobreza ainda era uma aspiração da burguesia e se aproximar da produção intelectual era um caminho para este objetivo.

Estes artistas por estarem, ao mesmo tempo, próximos do que havia sobrado do antigo Império Romano e em contato com os sábios bizantinos, passaram a olhar com interesse as obras dos filósofos da antiguidade. Tais obras artísticas e filosóficas, ressaltavam o homem como o ser que, através da racionalidade, entendia e explicava o mundo. Essa perspectiva é denominada antropocêntrica.

Dica: Para saber mais sobre o Renascimento, veja esta aula do nosso Canal:

artistas do renascimento
Figura 1: Foto de Peter Knox retratando o grafite de Owen Dippie, em Bushwick, Brooklyn, que representou, respectivamente, os artistas renascentistas Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo e Donatello, com as máscaras das tartarugas ninjas que levam os mesmos nomes que os artistas. Retirado de: https://popfantasma.com.br/tartarugas-ninja-da-renascenca/ Marcadores: Renascimento, Artistas, Leonardo da Vinci.

 

Contrastes da arte antiga e medieval

Na antiguidade clássica o homem, suas potencialidades e a realidade eram considerados belos. Isto explica a preocupação em esculpir com tantos detalhes as estátuas de figuras com corpos fortes e sadios. Também explica porque não era abominável a representação da nudez.

Porém, tais perspectivas foram censuradas nas obras medievais, onde a luxuria era considerada pecado capital. Além disso, as obras medievais tinham papel crucial na catequese da população analfabeta (muitos aprendiam a história religiosa através dos vitrais das igrejas, por exemplo). A representação realista, harmônica e o hedonismo (valorização do nu), foram aos poucos sendo retomados pelos artistas renascentistas.

Contudo a Igreja Católica ainda era soberana no controle da arte e do pensamento. Para poder produzir obras como a estátua de Davi (imagem a baixo), de Michelangelo, muitos artistas tinham de examinar corpos na clandestinidade e alegar que tais obras serviam para melhor representar a criação de Deus.

Exemplo dessa influência da igreja é o fato de muitas obras renascentistas ainda serem de temas cristãos. Esse é um fator importantíssimo para se destacar o Renascimento como um movimento de seu tempo.

estatua de davi obra renascimento
Figura 2: Estátua de Davi, por Michelangelo Buonarroti, localizada na Galleria Dell’Academia em Florença, Itália.

 

Os artistas de maior destaque no Renascimento italiano, assim como suas obras, foram: Michelangelo (escultura e pintura), Leonardo da Vinci (escultura, pintura e ciência), Rafael Sânzio (pintura), Donatello (escultura), Giotto di Bondone (pintura e arquitetura), Caravaggio (pintura), Sandro Botticelli (pintura), entre muitos outros.

Entre tantos expoentes, damos destaque a Leonardo da Vinci, que talvez tenha sido o mais articulado entre todos. Além de se destacar por obras como a Monalisa (que ganhou maior reconhecimento muito tempo depois) e a Última Ceia, ele desenvolveu muitos estudos sobre o corpo humano (O homem Vitruviano), sobre plantas e esboço de invenções (escafandro, máquinas voadoras e até máquinas de guerra).

Porém o Renascimento não se reteve somente à Itália, ganhando espaço em outras regiões da Europa, em territórios das atuais Alemanha (Albrecht Dürer, 1471-1528), Bélgica (Jan Van Eyck, 1390-1441), Espanha (Miguel de Cervantes, 1547-1616), Portugal (Luís de Camões, 1524-1580), Inglaterra (William Shakespeare, 1564-1616) e muitas outras.

Também é equivocado pensar que o Renascimento só se manifestou nas artes plásticas (visuais). Contribuições em outras áreas como literatura, filosofia e ciência foram muito expressivas.

Literatura

Luís de Camões, escritor português, representou em sua obra Os Lusíadas as navegações de Vasco da Gama e seus homens a fim de encontrar uma nova rota para as Índias. Nesta obra em forma de poema, Camões dá um tom épico as aventuras dos navegadores.

Miguel de Cervantes, escritor espanhol, ganhou notoriedade por Dom Quixote, obra em que satiriza a cavalaria medieval com um cavaleiro que via dragões no lugar de moinhos e era auxiliado por um escudeiro gordinho e desajeitado (Sancho Pança).

Filosofia

René Descartes, filósofo e matemático, defendia a reestruturação do conhecimento a partir de bases exatas, afim de que nos livremos de incertezas e falácias.

Thomas More, filosofo inglês, foi um dos fundadores do Humanismo. Em sua obra A Utopia, More descrevia uma sociedade que julgava valorizar o ser humano, onde a riqueza não separava as pessoas e as potencialidades humanas eram desenvolvidas.

Ciência

Aqui o destaque vai para Galileu Galilei, físico e matemático italiano, que deu continuidade as ideias de Nicolau Copérnico ao defender que a Terra girava em torno do Sol (teoria heliocêntrica), e não o contrário (teoria geocêntrica). Por esta defesa, quase foi queimado na fogueira pela Inquisição, tendo que renunciar suas ideias.

Ambroise Paré, cirurgião francês, elaborou estudos sobre a anatomia e fisiologia, principalmente em relação a feridas por balas de arcabuzes.

Dica: Veja o vídeo de Thomas More e a Utopia para o Enem, do canal Parabólica.

O Renascimento foi um movimento de importante impacto no meio intelectual europeu que ajudou a construir as bases rumo à ruptura do controle do saber pela Igreja e a possibilitar o caminho para o Iluminismo.

Questões para revisar o Renascimento:

Questão 01 – (UEM PR)

Entre o final da Idade Média e o início da Idade Moderna ocorreu na Europa o movimento cultural denominado “Renascimento”. Sobre esse movimento, assinale o que for correto.

01) Em razão das grandes navegações, Portugal conheceu um grande crescimento da burguesia no século XV e, por conseguinte, teve participação importante no Renascimento, especialmente com as pinturas de Joaquim de Prés e de Doménikos Theotokópoulos, conhecido como “O Grego”.

02) Pensadores humanistas como Erasmo de Roterdã manifestaram seu descontentamento com a Igreja Cristã, propondo uma reforma interna, isto é, sem romper com a instituição.

04) O Renascimento questionou o monopólio da explicação do mundo natural por parte da Igreja. Aos poucos, o método experimental foi se tornando o principal meio de se alcançar o conhecimento científico.

08) Na pintura, o Renascimento é caracterizado pelo abandono de temas religiosos, como santos, anjos e profetas; a partir de então, as imagens do cotidiano e da natureza passaram a predominar.

16) Um dos elementos centrais do Renascimento foi o humanismo, isto é, o antropocentrismo, a valorização da vida terrena e da natureza.

Gab: 22

Questão 02 – (UNITAU SP)

A realidade do Renascimento é absolutamente diferente daquela do Ocidente Medieval. O século XVI viu dissolverem-se, aos poucos, esses países maravilhosos que, como miragens, tinham atraído os europeus para fora da Europa. Era preciso reconhecer a evidência: as regiões longínquas não eram como antes se imaginava. O império do Preste João, onde se acredita, fluía um rio do paraíso, tornou-se, modestamente, a Etiópia, de onde os portugueses, em 1540, mal conseguiram conter a fúria de povos muçulmanos. As Antilhas não eram as Ilhas Afortunadas. Cipango se tinha afundado para sempre no Pacífico de Fernão de Magalhães e Francis Drake.

DELUMEAU, J. A civilização do Renascimento.

Lisboa: Editorial Estampa, 1994. Adaptado.

Entre os séculos XV e XVI, o progresso das técnicas, que é uma das características do Renascimento, provocou novas percepções de mundo, indicando um profundo sintoma de mudança geral.

Assinale a alternativa que apresenta outra característica da cultura do Renascimento.

a) O Homem encontrava-se balizado entre o Pecado Original e o Juízo Final, ideias que atuavam como as fronteiras inicial e derradeira das possibilidades humanas.

b) A concepção de Homem era estática, devido às enormes limitações que as potencialidades sociais e individuais sofriam.

c) A arte era, acima de tudo, religiosa, com destaque para a vida dos santos e para a oposição clara entre o sagrado e o profano.

d) Houve o desenvolvimento da noção de indivíduo, expresso na criação dos retratos e autorretratos, o que indicava a presença de uma autoconsciência ou de uma autoafirmação.

e) Houve o regresso à Antiguidade e à corrente de pensamento humanista, cuja visão teocêntrica colocava a autoridade da Igreja como centro do universo.

Gab: D

Questão 03 – (UFPR)

Considere o excerto abaixo sobre o livro Utopia, do escritor inglês Thomas Morus (1478-1535), lançado entre 1516 e 1518:

[…] Em sua obra Utopia, Morus descreve a vida numa ilha em formato de lua crescente, na qual tudo é dividido de maneira equânime entre as pessoas, onde não existe injustiça e violência e se vive confortavelmente. […] na ilha de Utopia, o problema da exclusão social, tema candente de seu tempo, […] seria resolvido de uma vez por todas. E de que maneira? Pela aplicação de todos ao trabalho […]”.

(LOPES, M. A. Uma História da ideia

de utopia: o real e o imaginário no pen-

samento político de Thomas Morus. His-

tória: Questões & Debates, Curitiba, n.

40, 2004, p. 141-142.)

A partir do trecho acima e dos conhecimentos sobre o início da Idade Moderna (1453-1789), é correto afirmar que a obra de Morus pertenceu ao:

a) Iluminismo europeu e foi publicada no contexto do absolutismo inglês, em que o clero católico possuía privilégios, terras e metais preciosos, ao contrário da maioria da população.

b) Renascimento europeu e foi publicada no contexto do republicanismo inglês, em que os parlamentares possuíam terras, títulos de nobreza e isenção de impostos, ao contrário da maioria da população.

c) Arcadismo europeu e foi publicada no contexto do protecionismo inglês, em que o clero protestante possuía terras, privilégios e perdão de dívidas, ao contrário da maioria da população.

d) Humanismo europeu e foi publicada no contexto do absolutismo inglês, em que a aristocracia possuía privilégios, terras e rendas, ao contrário da maioria da população.

e) Romantismo europeu e foi publicada no contexto de expansionismo inglês, em que a monarquia possuía manufaturas, terras e ouro, ao contrário da maioria da população.

Gab: D

 

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.