Patrística, a Filosofia dos padres

Já ouviu falar sobre a Patrística, a Filosofia dos padres? Não? Então nos acompanhe nesta aula de Filosofia para o Enem e saiba o que rolou com a Filosofia durante a Idade Média. Bora lá conhecer essa corrente filosófica e gabaritar as questões de Ciências Humanas do Enem!

O que foi a Patrística?

A Patrística foi uma doutrina filosófica criada por alguns padres que também exerceram a função de filósofos durante um período da história. A missão desses caras era proporcionar uma argumentação Lógica e ontológica com a finalidade de afirmar e defender a existência de um Deus (Católico, uno, onipotente, onipresente e onisciente).

Figura 1. Filosofia cristã formulada pelos padres da Igreja nos primeiros cinco séculos de nossa era, buscando combater a descrença e o paganismo e que fundamentou-se em conceitos procedentes da filosofia grega.

 

Além disso, era tarefa da Patrística, isto é, dos padres, a compreensão profunda da Fé cristão e sua eventual transcrição para um formato mais racional. Ora, Fé e Razão nem sempre andam lado a lado, muito pelo contrário, antes disso esses dois conceitos eram antagônicos.

Sendo assim, a Patrística foi uma corrente filosófica que se passou durante a Idade Média, quando os padres produziram textos para defender o Cristianismo, buscando uma conciliação entre Fé e razão, que nem sempre se deram bem.

Essa corrente filosófica (Patrística) ocorreu numa uma época marcada pela forte presença da religião, onde epidemias que mataram um terço da população. Para entender melhor este período, vamos contextualizá-lo historicamente:

Idade Média

A Idade Média foi um período bastante longo. Estendeu-se desde o século V (quando Teodósio I instituiu o Cristianismo como a única religião permitida no Império Romano) até o século XV (pouco antes do Brasil ser invadido).

O seu início foi marcado pela queda do Império Romano do Ocidente no ano de 476. Já seu fim tem como marco histórico a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453, pouco antes das grandes navegações.

ilustração idade media
Figura 2. Durante a Idade Média houveram diversos movimentos militares de inspiração cristã (guerras santas) que partiram da Europa em direção à Terra Santa e à cidade de Jerusalém com o intuito de conquistá-las e mantê-las sob domínio cristão.

 

Há quem chame a Idade Média de Idade das Trevas. Visto que, muito dos avanços científicos ocorridos na Europa, sofreram uma grande oposição. Essa oposição é por vezes interpretada como retrocesso se comparamos à produção cultural e científica da Antiguidade Clássica.

Durante esse período, a humanidade foi assolada pela Peste Negra, uma das mais devastadoras pandemias da nossa História. Essa peste matou cerca de 200 milhões de pessoas na Europa e Ásia. Dizem que só na Europa, houve a morte de pelo menos um terço da sua população total.

Figura 3. Os médicos da peste em suas máscaras sinistras, eram quase tão (ou mais) assustadores que a própria Peste Negra, doença que foi causada pela bactéria Yersinia pestis e transmitida ao ser humano através das pulgas (Xenopsylla cheopis) dos ratos-pretos (Rattus rattus).

Ora, nem tudo foram pulgas e pânico na Idade Média, muita coisa boa surgiu nessa época também. Na produção agrícola por exemplo, foi inventado o moinho, a charrua e várias técnicas de adubamento e rodízio de terras.

Agora, a herança que mais nos interessa aqui nos foi deixada por influentes filósofos, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. Esses dois padres, posteriormente canonizados, juntamente com o trabalho de vários de seus monges, corroboraram para preservar a cultura grega e romana. Isso vai ser essencial para o surto de revalorização da Antiguidade Clássica ocorrido durante o Renascimento.

A Filosofia Cristã

A Filosofia Cristã da Idade Média, isto é, a Patrística, procurava interpretar o cristianismo a partir de conceitos da filosofia grega. Ora, como não havia uma Lógica na narrativa cristã, muitos questionamentos eram levantados e pouco consenso havia dentro da religião. A Lógica, inspirada na Lógica aristotélica, foi uma peça fundamental que a Patrística se valeu para a construção da doutrina cristã.

A sacada da Patrística foi unificar as ideias cristãs. Tal acontecimento levou a igreja a abandonar os ideais da doutrina cristã primitiva e incorporar várias ideias gregas. Isso tornou possível o combate das heresias e a justificativa da fé para converter a todos para a fé cristã.

filosofia patristica e as igrejas
Figura 5. A filosofia Patrística está diretamente ligada à evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos.

Dentre as principais ideias que a Patrística trouxe à tona estão: a teologia e o teocentrismo, bem como, o tal do pecado original, a criação do mundo a partir do nada, além é claro daquelas confusas ideias de um Deus como trindade una.

Teologia e Teocentrismo

O Teocentrismo é uma doutrina religiosa que acredita que Deus é o centro de todo o Universo. Ele é responsável pela criação de todas as coisas, inclusive do próprio universo. Vale lembrar que qualquer tipo de ideia que contrariava essa noção era rechaçada pela igreja, fazendo com que a mentalidade teocêntrica permanecesse forte na população por séculos.

Teocentrismo vem do grego Theos, que significa Deus, e do sufixo Kentron que significa centro. Embora não tenha gênero (assim como anjos) é comum tratamos Deus sempre no masculino, além de representa-lo como um velho branco barbudo.

Outro ponto importante da Patrística é a Teologia. Ela consiste no estudo da natureza de Deus, desde os seus atributos até sua relação conosco. Em sentido estrito, limita-se ao Cristianismo, mas em sentido amplo, aplica-se a qualquer religião. É ensinada como uma disciplina acadêmica, tipicamente em universidades, seminários e escolas de teologia.

O papel fundamental da Patrística tendo a Teologia como sua ferramenta foi a revolução e, em certo sentido, a modernização dos dogmas da Igreja. É importante ressaltar que foi nesse período que as Universidades foram criadas. As primeiras escolas medievais se instalavam e eram regidas pelas igrejas e mosteiros, a partir daí vai surgir outra parada importante para época que foi a Escolástica.

Os Santo Padres

Os grandes responsáveis por toda essa Filosofia Medieval foram os padres. Estudiosos da Filosofia e grandes teólogos esses padres foram, em sua grande maioria, consagrados santos devido a sua imensa contribuição para a Fé cristã.

Uma das coisas mais desafiadoras e importantes que foi teorizado pelos padres, mais especificamente por Santo Agostinho, diz respeito a forma como o mal pode existir no mundo. uma vez que, tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade.

Meu camarada Aurelius Augustinus Hipponensis, Santo Agostinho para os íntimos, foi um cara influenciado pelo maniqueísmo. Essa parada aí dizia que o mundo seria regido pelas forças do bem e do mal, uma concepção platônica de mundo.

santo agostinho
Figura 7. Aurelius Augustinus Hipponensis, conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do cristianismo, cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e da Filosofia Medieval. Ele era o bispo de Hipona. Vivenciou a era Patrística e foi considerado um dos mais importante Padres da Igreja Ocidental.

Na pegada de combater esse maniqueísmo, Agostinho aprimorou o conceito de pecado original e desenvolveu o conceito de Igreja como a cidade espiritual de Deus. Tudo isso culminou na mais famosa teoria de Agostinho a respeito da origem do mal.

Vamos lá, se Deus é perfeito, criador de tudo, ele também seria criador do mal? Ora, se Deus criou o mal, como é possível que ele possua uma bondade infinita? E digo mais, se ele é onipotente, como “diacho” existe tanta miséria e desgraça no mundo? Seria ele o mano responsável por toda essa infelicidade?

Para Santo Agostinho, não! Segundo o filósofo, o mal não é mais que a ausência do bem, a ausência da obra divina. Ou, para ser mais preciso, o mal não é algo que foi criado. A origem do mal estaria no livre-arbítrio, concedido por Deus. Ora, todo mal seria o resultado do livre afastamento do bem. Isto é, resultado do afastamento das pessoas em relação a Deus.

Além dessa, existe outra teoria famosa postulada por Agostinho, essa teoria parte do fato de sermos criados à imagem e semelhança de Deus. Por isso, possuímos uma centelha divina que nos dá a condição para alcançar as verdades eternas.

Todas as pessoas têm essa parada aí (centelha divina). Essa é a Teoria da Iluminação de Santo Agostinho. Essa ideia de Agostinho é inspirada numa outra teoria mais antiga, a reminiscência de Platão, segundo a qual as ideias já residiriam em nossa alma e caberia ao filósofo despertá-las.

Por fim, Agostinho defendia a ideia de que, embora a verdade estava na Fé, o melhor caminho para alcança-la seria a razão. Com isso Santo Agostinho consegue conciliar Fé e Razão. Essa genialidade serviu para inspirar outros filósofos como Tomás de Aquino.

Para tirar suas dúvidas sobre a Patrística, veja esta aula do CEG, nosso canal no youtube:

Bom, se liga nos exercícios a seguir e teste aí seus conhecimentos a respeito da Patrística e da Filosofia Medieval.

1 (Uncisal 2011) Uma das preocupações de certa escola filosófica consistiu em provar que as ideias platônicas ou os gêneros e espécies aristotélicos são substâncias reais, criadas pelo intelecto e vontade de Deus, existindo na mente divina. Reflexões dessa natureza foram realizadas majoritariamente no período da história da filosofia:

(A) Pré-socrático.

(B) Antigo.

(C) Medieval.

(D) Moderno.

(E) Contemporâneo.

2 (Ufu 2010) A filosofia de Agostinho (354 – 430) é estreitamente devedora do platonismo cristão milanês: foi nas traduções de Mário Vitorino que leu os textos de Plotino e de Porfírio, cujo espiritualismo devia aproximá-lo do cristianismo. Ouvindo sermões de Ambrósio, influenciados por Plotino, que Agostinho venceu suas últimas resistências (de tornar-se cristão).

(PEPIN, Jean. Santo Agostinho e a patrística ocidental. In: CHÂTELET, François (org.) A Filosofia medieval. Rio de Janeiro Zahar Editores: 1983, p.77.)

Apesar de ter sido influenciado pela filosofia de Platão, por meio dos escritos de Plotino, o pensamento de Agostinho apresenta muitas diferenças se comparado ao pensamento de Platão.

Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, uma dessas diferenças:

(A) Para Agostinho, é possível ao ser humano obter o conhecimento verdadeiro, enquanto, para Platão, a verdade a respeito do mundo é inacessível ao ser humano.

(B) Para Platão, a verdadeira realidade encontra-se no mundo das Ideias, enquanto para Agostinho não existe nenhuma realidade além do mundo natural em que vivemos.

(C) Para Agostinho, a alma é imortal, enquanto para Platão a alma não é imortal, já que é apenas a forma do corpo.

(D) Para Platão, o conhecimento é, na verdade, reminiscência, a alma reconhece as Ideias que ela contemplou antes de nascer; Agostinho diz que o conhecimento é resultado da Iluminação divina, a centelha de Deus que existe em cada um.

3 (Ufu 2003) A teoria da iluminação divina, contribuição original de Agostinho à filosofia da cristandade, foi influenciada pela filosofia de Platão, porém, diferencia-se dela em seu aspecto central.

Assinale a alternativa abaixo que explicita esta diferença.

(A) A filosofia agostiniana compartilha com a filosofia platônica do dualismo, tal como este foi definido por Agostinho na Cidade de Deus. Assim, a luz da teoria da iluminação está situada no plano suprassensível e só é alcançada na transcendência da existência terrena para a vida eterna.

(B) A teoria da Iluminação, tal como sugere o nome, está fundamentada na luz de Deus, luz interior dada ao homem interior na busca da verdade das coisas que não são conhecidas pelos sentidos; esta luz é Cristo, que ensina e habita no homem interior.

(C) Agostinho foi contemporâneo da Terceira Academia, recebendo os ensinamentos de Arcesilau e Carnéades, o que resultou na posição dogmática do filósofo cristão quanto à impossibilidade do conhecimento da verdade, sendo o conhecimento humano apenas verossímil.

(D) A alma é a morada da verdade, todo conhecimento nela repousa. Assim, a posição de Agostinho afasta-se da filosofia platônica, ao admitir que a alma possui uma existência anterior, na qual ela contemplou as ideias, de modo que o conhecimento de Deus é anterior à existência.

Gabarito 1. C, 2. D, 3. B.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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