Realismo Mágico na América Latina

Conheça um pouco mais sobre essa importante vertente literária da modernidade: o realismo mágico. Revise Literatura com o Curso Enem Gratuito!

O realismo mágico também é conhecido como realismo fantástico ou realismo maravilhoso é uma importante vertente literária da modernidade.

Veja nesta aula os principais escritores deste movimento e leia também alguns trechos de suas obras. Por ser uma vertente moderna, é presença certa no Enem e nos maiores vestibulares do país. Vamos revisar?

A presença do Realismo Mágico na América Latina

Também conhecido como realismo fantastico ou realismo maravilhoso, o realismo mágico é uma escola literária que surge no início do século XX, e encontra o seu ápice na década de 60, especialmente na América Latina.

O termo costuma ser citado tamém como uma reação à literatura fantásfico surgida na Europa no início do século XX. Contudo, as distinções entre os termos ainda é algo que divide a crítica, e é muito comum encontrar um autor associado a um ou outro.

Apesar disso, é notável nesse estilo o elemento comum na presença da cultura tecnológica lado a lado com o misticismo, superstições, tradições e crenças populares. Também é muito marcante a sua visão crítica em relação aos regimes ditatoriais que surgiram nesse período. De modo que a narrativa incorpora o “mistério” e procura corrigir os limites da realidade por meio de soluções e eventos mágicos.

O realismo mágico, portanto, insere o sobrenatural no cotidiano, absorvido como parte da normalidade. Uma das obras mais representativas desse estilo é “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), publicada em 1967.

A sua história se passa numa remota aldeia fictícia da América Latina chamada Macondo. Fundada pela família Buendía, a ação se desenrola em torno das mudanças na cidade e das sucessivas gerações da família. A passagem dos anos mostrará como a família lidará com os novos e antigos símbolos no decorrer dos anos, prestando contas à suas tradições e aos novos movimentos da época.

A repetição dos nomes e até das características da família inserem a noção, muito comum no realismo mágico do tempo cíclico, que re-significa elementos do passado no presente. Confira um trecho das primeiras páginas do livro:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.

O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos.”

Outras obras importante de Márquez dignas de nota são “Relato de um Náufrago (1985), “O Amor nos tempos do Cólera”(1985), “Crônica de uma morte anunciada” (1981), “Doze contos peregrinos” (1982), dentre muitos outros.

Realismo Mágico - autor

Outros autores e obras do Realismo Mágico

Outra figura importante do Realismo Mágico é a autora Isabel Allende. Isabel nasceu no Peru, em 1942, mas possui ascendência e cidadania chilena, país onde viveu e acomapanhou o golpe militar e a ditadura, iniciada em 1973. A sua obra é marcada pela crítica ao regime, e seu livro mais aclamado é “A casa dos espíritos”, de 1983. Veja um trecho dessa obra:

“A censura, que a princípio só atingiu os meios de comunicação, logo se estendeu aos textos escolares, às letras das canções, aos roteiros dos filmes e às conversas privadas. Havia palavras proibidas por decreto militar, como “companheiro”, e outras que não se diziam por precaução, apesar de nenhum decreto tê-las eliminado do dicionário, como liberdade, justiça e sindicato. Alba perguntava-se de onde teriam saído tantos fascistas de um dia para o outro, porque, na longa trajetória democrática de seu país, nunca os havia notado, exceto alguns exaltados durante a guerra, que, por macaquice, vestiam camisas negras e desfilavam com o braço para o alto, em meio às gargalhadas e às vaias dos transeuntes, sem que tivessem qualquer papel relevante na vida nacional. Tampouco se explicava a atitude das Forças Armadas, cujos membros em sua maioria provinham das classes média e operária, e que, historicamente, tinham estado mais perto da esquerda do que da extrema direita. Não compreendeu o estado de sítio nem percebeu que a guerra é a obra de arte dos militares, o ponto culminante de seus treinamentos, o broche dourado de sua profissão. Não são feitos para brilhar na paz. O golpe deu-lhes a oportunidade de pôr em prática o que tinham aprendido nos quartéis, a obediência cega, o manejo das armas e outras artes que os soldados podem dominar quando aplacam os escrúpulos do coração.”

(A casa dos espíritos, Isabel Allende, p. 398 e 399. Editora Bertrand Brasil, 2013.)

Além dessa obra, Allende publicou textos como “A Lagoa Azul” (1984), “De amor e de sombra” (1987), “Eva Luna” (1991), “O plano infinito”,(1995), Paula (1998), “O reino do dragão de ouro” (2004), e outras.

O argentino Julio Cortázar (1914-1984) também faz parte desta vertente literária. Foi professor e tradutor, sendo seu livro mais conhecido “Rayuela” (O Jogo da Amarelinha, no Brasil), de 1976. O livro permite várias leituras possíveis, orientadas pelo próprio autor no seu “Tabuleiro de Direção” que vem antes da história, “à sua maneira, este livro é muitos livros, mas é, sobretudo, dois livros”.

Um que se pode ler da forma convencional, do início ao fim, e outro que pode ser lido saltando capítulos em diferentes sentidos, conforme o autor explica. Com o uso desse artifício, Cortázar buscou romper com a linearidade da novela e ainda permitir a interação do leitor.

Além de sua novela experimental, Cortázar publicou muitas traduções e livros de poemas como “Prensencia” (1938); muito citados também os contos de “Historias de Cronopios y Famas” (1962), “As Armas Secretas” (1959), “Todos os Fogos o Fogo” (1966), “Bestiário” (1951) e tantos outros.

Outro argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986) assina uma extensa e diversificada obra, onde o caos é um elemento paradoxalmente norteador, sua narrativa é rica em referências e símbolos da história e cultura universais.

Suas obras de maior reconhecimento literário são os contos de Ficciones (1944) e O Aleph (1949), que interligam histórias intrigantes, labirintos oníricos, ficção, religião, mitologia, filosofia, lógica, teoria da literatura, história, arqueologia e teologia. Contudo, a riqueza e as especificidades de sua produção tornaram Jorge Luís Borges um autor de grande fortuna crítica.

Possui muitos contos famosos como “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, texto que trata de uma enciclopédia forjada por uma sociedade secreta secular, que pretende criar um planeta imaginário completo: seus idiomas, ciências, estrutura social, política, culturas, etc. Identifica-se assim um tema característico em Borges, que é a criação de documentos, autores, objetos, dados e tradições que surgem intercalados a métodos, conhecimentos e fatos reais. Em “O Jardim das Veredas que se Bifurcam”, temos outro exemplo desse recurso:

“ – Antes de exumar esta carta, eu tinha me perguntado de que maneira um livro pode ser infinito. Não conjeturei outro processo que o de um volume cíclico, circular. Um volume cuja última página fosse idêntica à primeira, com possibilidade de continuar indefinidamente. Recordei também aquela noite que está no centro das Mil e Uma Noites, quando a Rainha Scheherazade (por uma mágica distração do copista) põe-se a referi textualmente a história das ‘1001 Noites’, com risco de chegar outra vez à noite na qual está fazendo o relato, e assim até o infinito. Imaginei também uma obra platônica, hereditária, transmitida de pai para filho, na qual cada novo indivíduo aditasse um capítulo ou corrigisse com piedoso cuidado a página dos antepassados.”

Além de prosa, Borges também produziu uma expressiva obra poética, publicadas em livros como “O Fazedor” (1960), “O Ouro dos Tigres” (1972), “A cifra” (1981), “Atlas” (um esboço de geografia fantástica, 1984) e “Os conjurados” (1985), a sua última obra. Além de poesia e contos, Borges publicou Ensaios e traduções.

Outros autores latinos conhecidos pelo estilo são: o peruano Manuel Scorza (“As maldições”,1955), os também peruanos José Maria Arguedas (“Todas las sangres”,1964); Mario Vargas Llosa (“Conversa na catedral”, 1969); o venezuelano Arturo Uslar Pietri (“Las lanzas coloradas.”, 1931); o cubano Alejo Carpendier (O reino deste mundo”, 1949) ; o uruguaio Juan Carlos Onetti, (“O Estaleiro”, 1961), os mexicanos Agustín Yáñez (“La tierra pródiga”,1960), José Revueltas (“Los errores”, 1964), Carlos Fuentes (“O Velho Gringo”, 1985), e outros mais.

Realismo Mágico no Brasil

No Realismo Mágico do Brasil, há Murilo Rubião (1916-1991), escritor mais conhecido por sua obra “O Pirotécnico de Zacarias” (1974). Nos textos de Rubião fica evidente o uso do absurdo como alegoria da realidade, de modo a questioná-la e colocá-la ao nível de eventos caóticos, buscando revelar a imagem desequilibrada do real.

“A ideia inicial, logo rejeitada, consistia em me transportar para a cidade, onde me deixariam no necrotério. Após breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu a opinião de que meu corpo poderia sujar o carro. E havia ainda o inconveniente das moças não se conformarem em viajar ao lado de um defunto. (Nesse ponto eles estavam redondamente enganados, como explicarei mais tarde.)”

(“O Pirotécnico de Zacarias”, Murilo Rubião, obra completa. São Paulo : Companhia das Letras, 2010. P. 16)

Rubião publicou também textos como “O ex-mágico” (1947), “A Armadilha” (1984), “Os dragões e outros contos” (1965), “A casa do girassol vermelhol” (1978), “O convidado” (1974), e outros.

Dias Gomes (1922-1999) autor também de dramas e telenovelas, soube transportar para a tv a sua verve crítica e irreverente, repleta de metáforas, como mostrou em “Saramandaia” (1976) ou “Roque Santeiro” (1975). Nessas obras, transformou o microcosmo de uma cidadezinha de interior numa alegoria através da qual se pode entrever a sociedade brasileira da época, em que vivia em meio ao regime ditatorial. Gomes escreveu também romances como “Dama da Noite” (1947), “Quando é Amanhã” (1948), e “Sucupira: Ame-a ou Deixe-a” (1982).

José J. Veiga (1915-1999), natural de Goiânia, foi comentarista na BBC de Londres e trabalhou como jornalista em veículos como O Globo e a Tribuna da Imprensa. Iniciou sua produção literária em 1959, com “Os Cavalinhos de Platiplanto”. Os seus livros abordam a condição humana no contato com as diversas faces da violência e da opressão:

“Mas quando a gente é menino parece que as coisas nunca saem como a gente quer. Por isso é que acho que a gente nunca devia querer as coisas de frente por mais que quisesse, e fazer de conta que só queria mais ou menos. Foi de tanto querer o cavalinho, e querer com força, que eu nunca cheguei a tê-lo”
(Os Cavalinhos de Platipalno, 1959. 20 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. P. 44)

Veiga é autor tambem de ”A Hora dos Ruminantes”, (1966); “A Estranha Máquina Extraviada” (1967), “Aquele Mundo de Vasabarros” (1982), “O Trono no Morro” (1988), A Casca da Serpente (1989), e outros.

Realismo Mágico - livros
Livros de Murilo Rubião. Fonte: https://bit.ly/2rn76Tl

 

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Exercícios:

1. Considere as afirmativas:

I. Resposta à literatura fantástica europeia.

II. Forma de reação contra os regimes ditatoriais.

III. Interesse em mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum.

IV. Diálogos entre personagens inexistentes.

V. Coexistência de fantasia e realidade.

Assinale as afirmativas VERDADEIRAS sobre o realismo mágico:

a) Apenas a I e a II são falsas.

b) Apenas a I, II, III, e V são verdadeiras.

c) Apenas a II, IV e V são verdadeiras.

d) Apenas I, III e V são verdadeiras.

e) Apenas III, IV e V são verdadeiras.

2. A respeito de “A Hora dos Ruminantes”, de José J. Veiga, é correto afirmar:

01) A partir de trechos como “A ocupação foi rápida e sem atropelo e quando o povo percebeu o que estava acontecendo já não era possível fazer nada”, pode-se interpretar “A Hora dos Ruminantes” como a metáfora da instalação de uma ditadura.

02) Os habitantes de Manarairema derrotaram os invasores porque se uniram e elaboraram uma engenhosa estratégia de resistência.

04) A obra de José J. Veiga aproxima-se da obra de Guimarães Rosa por valorizar o homem do interior, sua forte ligação com a terra, seus costumes e formas peculiares de expressão.

08) A obra de José J. Veiga afasta-se da obra de Guimarães Rosa por contrapor ao sertanejo personagens estranhas ao meio, que vêm alterar completamente a vida das personagens centrais.

16) São características das narrativas fantásticas, presentes neste obra: a multiplicação inexplicável (de cachorros e de bois), o desconhecimento das causas das ações (chegada e partida dos homens da tapera, por exemplo) e o final feliz (chuva e comemoração).

32) Menos freqüente que no realismo, ainda assim a literatura de linhagem fantástica tem importantes representantes na ficção brasileira contemporânea, como é o caso de José J. Veiga.

Soma = ( )

Fonte: https://bit.ly/2QgcxSY

Gabarito
1. c
2. 41

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.