Teoria do Conhecimento na Modernidade

Como é possível ter certeza daquilo que se sabe? Está é uma das perguntas da série de problemáticas levantadas pela Teoria do Conhecimento. Fique por dentro desse campo que é conteúdo do Enem.

A Teoria do Conhecimento é um campo relativamente recente na Filosofia. Isso porque ela se estruturou enquanto campo de estudos somente durante a Modernidade. Todavia, é possível ver sua aplicação prática ainda na Grécia Antiga e em outros momentos anteriores à Modernidade.

Em outras palavras, quando Sócrates proferia a icônica máxima “Só sei que nada sei” ele estava fazendo aquilo que a Teoria do Conhecimento propõe. Ou seja, ele propunha investigar os limites e a validade do conhecimento humano.

Ainda assim, esse tipo de investigação filosófica só ganhou uma repercussão maior durante a Modernidade. Além disso, foi nesse período que ela passou a ser encarada como um campo de análise de conhecimento da Filosofia. Isso ocorreu quando filósofos, como René Descartes, debateram exaustivamente os assuntos englobados pela Teoria do Conhecimento.

teoria do conhecimento frase de sócrates
Figura 1. Busto do filósofo Sócrates com a frase “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”. * Esse filósofo remeteu a discussão central do que veio a se tornar a Teoria do Conhecimento. Isso porque ele indagou sobre quais são os limites do conhecimento.

Teoria do conhecimento

Em primeiro lugar, tentamos entender e explicar os acontecimentos à nossa volta desde os primórdios da humanidade. De lá para cá, várias foram as maneiras que utilizamos para explicar a realidade. Lá na Antiguidade, por exemplo, entendíamos o mundo através da mitologia, de maneira a explicar os fenômenos que nos cercavam com auxílio dos mitos e das fábulas.

Para além do Mito, é possível ver o mundo através de outras óticas, como a Ciência, a religião, o Senso Comum e a própria Filosofia. Essas maneiras de enxergar a realidade fazem parte da discussão central da Teoria do Conhecimento.

Sendo assim, as várias maneiras de conhecer esse mundo é o que dá corpo às investigações acerca daquilo que podemos conhecer. Além disso, fica a cargo da Teoria do Conhecimento investigar como podemos conhecer as coisas.

interpretação da realidade
Figura 2. Três potes preenchidos com liquido amarelo até a metade, cada um com uma interpretação acerca da maneira que se concebe a realidade. * Ao mudar a maneira que você conhece as coisas as coisas, as coisas que você conhece mudam.

A Teoria do Conhecimento pode ser concebida como campo da Filosofia que procura entender como é que conhecemos as coisas. Assim, podemos centralizar a problemática em torno da origem, da natureza e da compreensão daquilo que pode ser conhecido por nós.

O que é conhecimento?

Antes de tudo, é justo começar pela mais elementar das perguntas: o que é Conhecimento? Ora, parece sensato dizer que o Conhecimento é o resultado da interação entre a gente e o mundo que nos cerca. Isto é, Conhecimento é o produto gerado pela relação entre indivíduo e objeto, suscitando uma outra coisa.

Dessa maneira, a Teoria do Conhecimento busca entender as origens dessa interação. Por volta do século XVII, o filosofo francês René Descartes foi um dos pioneiros nessa discussão. Esse filósofo tentou provar o que poderíamos entender como Conhecimento verdadeiro. Para isso, ele elaborou uma complexa teoria acerca da validade daquilo que sabemos partindo da negação das suas certezas.

Juntamente com as ideias cartesianas que embasaram o que veio a ser conhecido como Racionalismo, surgiram também as teorias Empiristas, tendo como expoente filósofos como Francis Bacon e John Locke.

A Teoria do Conhecimento na Modernidade

A discussão que deu o que falar dentro da Teoria do Conhecimento foi o embate entre o Racionalismo e o Empirismo. A grosso modo, o Racionalismo diz que a realidade percebida através dos nossos sentidos (tato, olfato, audição, visão e paladar) é enganosa. Assim, é somente por uso do nosso intelecto que podemos alcançar o Conhecimento.

Por outro lado, o Empirismo dita que o Conhecimento vem das nossas experiências. Isto é, trata-se do conjunto das experiências vivenciadas pelos nossos sentidos. Um bom exemplo de explicação para esse discurso empirista é a metáfora da tábula rasa, a princípio usada por Aristóteles.

Essa discussão se estendeu até o século XVIII gerando diversas novas teorias. Entre as emergentes linhas de raciocínio da época, uma em particular ganhou bastante repercussão: o Criticismo de Immanuel Kant.

criticismo de kant - teoria do conhecimento
Figura 3. Dois botões, Racionalismo e Empirismo, representando cada um uma vertente da Teoria do Conhecimento, com o filósofo Immanuel Kant abaixo escolhendo os dois. * A Teoria de Kant foi fundamental para o avanço da discussão acerca da origem do Conhecimento.

Kant conseguiu propor uma terceira via ao antagonismo entre Racionalismo e Empirismo. Essa via ficou conhecida como Teoria Crítica. De uma maneira bem geral, ela tende a unificar ambos os raciocínios (Racionalismo e Empirismo) para encontrar um terreno comum em ambas as concepções.

Teoria do Conhecimento e a Ciência

Com o surgimento de uma área dedicada a estudar e validar o Conhecimento, os discursos de caráter mais racional se sobrepuseram àqueles discursos devaneadores pregados pela religião. Assim, o discurso científico ganhou força. Isso porque ele se fundamentava nesse campo da Filosofia para produzir seus enunciados acerca do mundo.

galileu - conhecimento
Figura 4. Galileu vestido de astronauta * O filósofo e cientista Galileu Galilei estabeleceu uma importante relação entre a Filosofia e a Ciência ao inaugurar o método hipotético dedutivo que combina hipóteses com experimentos.

Atualmente, com o rápido avanço da tecnologia, o acesso à informação e a produção de Conhecimento deu um salto revolucionário. Todavia, existe uma diferença importante a ser destacada entre os conceitos de Conhecimento e Informação, uma vez que nem toda a informação é Conhecimento.

Assim, pode-se perceber a importância da Teoria do Conhecimento. Ela é responsável por validar tudo aquilo que entendemos como verdadeiro. Por exemplo: a eficácia dos medicamentos, a veracidade de um acontecimento histórico ou mesmo a quantidade de carboidratos do nosso café da manhã.

Essa validação se dá a partir de uma metodologia. Ou seja, dá-se à partir de uma série de estruturas criadas para validar algum enunciado a respeito de algo. Essa ideia de estruturar o Conhecimento é um dos pontos de destaque na Teoria do Conhecimento.

Importância dessa teoria na atualidade

Isto tudo para não sermos enganados pelos discursos falaciosos que nos cercam, uma vez que a quantidade de informação produzida com a chegada da internet é algo colossal. Assim, não é porque você tem alguma informação sobre algo que você conhece algo, ainda que essa informação seja verdadeira.

Por exemplo, eu sei que motor a combustão foi uma invenção criada durante o século XIX que utiliza a força de uma explosão para gerar movimento. Contudo, se supormos que por qualquer razão infeliz eu esteja em um veículo que venha apresentar defeito no motor, eu ainda não conseguirei consertá-lo.

Por fim, a Teoria do Conhecimento é o que nos auxilia nas descobertas e pesquisas científicas. Além disso, auxilia na garantia do Conhecimento produzido por elas e que, por meio da informação disseminada, chega a nós. Dessa forma, garantir a veracidade das coisas é de extrema importância para evitar acontecimentos potencialmente desastrosos.

Por fim, para finalizar sua revisão, veja este vídeo do canal “Parabólica”:

Em seguida, resolva os exercícios sobre esta aula:
01. (Unioeste 2013)

“… esta palavra, Filosofia, significa o estudo da sabedoria, e por sabedoria não se deve entender apenas a prudência nos negócios, mas um conhecimento perfeito de todas as coisas que o homem pode saber, tanto para a conduta da sua vida como para a conservação da saúde e invenção de todas as artes. E para que este conhecimento assim possa ser, é necessário deduzi-lo das primeiras causas, de tal modo que, para se conseguir obtê-lo – e a isto se chama filosofar –, há que começar pela investigação dessas primeiras causas, ou seja, dos princípios. Estes devem obedecer a duas condições: uma, é que sejam tão claros e evidentes que o espírito humano não possa duvidar da sua verdade, desde que se aplique a considerá-los com atenção; a outra, é que o conhecimento das outras coisas dependa deles, de maneira que possam ser conhecidos sem elas, mas não o inverso. Depois disto, é indispensável que, a partir desses princípios, se possa deduzir o conhecimento das coisas que dependem deles, de tal modo que, no encadeamento das deduções realizadas, não haja nada que não seja perfeitamente conhecido.”

Descartes.

“À medida que Descartes vai desenvolvendo sua ideia de um sistema reconstruído de conhecimento, vemos surgir dois componentes específicos da visão cartesiana. O primeiro é um individualismo radical: a ciência tradicional, ‘composta e acumulada a partir das opiniões de inúmeras e variadas pessoas, jamais logra acercar-se tanto da verdade quanto os raciocínios simples de um indivíduo de bom senso’. O segundo componente é uma ênfase na unidade e no sistema: ‘Todas as coisas que se incluem no alcance do conhecimento humano são interligadas’”.

Cottingham.

Considerando os textos acima, que tratam da teoria cartesiana do conhecimento, é INCORRETO afirmar que

a) a teoria cartesiana do conhecimento implica um sistema em que todos os conteúdos encontram-se intimamente relacionados.

b) a teoria do conhecimento cartesiana pretende, a partir da elaboração de um método preciso, reconstruir o conhecimento em bases sólidas.

c) a teoria do conhecimento cartesiana, que tem como objetivo a elaboração de uma ciência universal, serve-se, em certa medida, do modelo indutivista para alcançar seu objetivo.

d) o conhecimento que se tem de cada coisa deriva de um processo no qual cada etapa pode ser conhecida sem o concurso de etapas posteriores, mas não o inverso.

e) quando determinada noção se apresenta com clareza e com distinção, o sujeito pensante entende que se encontra frente a um conhecimento verdadeiro pela própria natureza da concepção cartesiana do conhecimento.

02. (Uem 2011) Entre os problemas principais da Filosofia, destaca-se a teoria do conhecimento, que tem por objetivo investigar as fontes do conhecimento, as formas de juízos verdadeiros e as regras para a obtenção do conhecimento seguro. Sobre a teoria do conhecimento, assinale o que for correto.

01) O problema do conhecimento, em suas diferentes formas de fundamentação, seja racional (através da razão) ou empírica (através da experiência), não diz respeito ao nascimento da Filosofia, na Grécia antiga, nem à filosofia da Idade Média. Ele se deve apenas à filosofia moderna.

02) O sofista Protágoras, com a afirmação de que “o homem é a medida de todas as coisas”, pode ser considerado um precursor do relativismo contemporâneo, do ponto de vista da teoria do conhecimento.

04) O que diferencia, segundo Platão, opinião e conhecimento, é que a opinião fornece apenas um quadro provisório do mundo, ao passo que o conhecimento é o estudo do imutável e permanente.

08) Para René Descartes, o desejo de verdade não é suficiente para fundar o conhecimento, mas, sim, regras para a direção do espírito, estabelecidas pelo rigor de um método lógico e metafísico.

16) Em se tratando das formas do conhecimento, para Platão, no mito da caverna, abordado em A República, o conhecimento sensível é idêntico ao conhecimento inteligível.

03. (Uem 2009)

“Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? (…) De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento?
A isso respondo, numa palavra, da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento.”

(LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 165).

Assinale o que for correto.
01) Para John Locke, embora nosso conhecimento se origine na experiência, nem todo ele deriva da experiência. No entendimento, existem ideias inatas abstraídas das coisas pela reflexão.

02) Como seguidor de Descartes, John Locke assume a diferença entre conhecimento verdadeiro, que é puramente intelectual e infalível, e conhecimento sensível, que, por depender da sensação, é suscetível de erro.

04) John Locke é o iniciador da teoria do conhecimento em sentido estrito, pois se propôs, no Ensaio acerca do entendimento humano, a investigar explicitamente a natureza, a origem e o alcance do conhecimento humano.

08) Para John Locke, todo nosso conhecimento provém e se fundamenta na experiência. As impressões formam as ideias simples; a reflexão sobre as ideias simples, ao combiná-las, formam ideias complexas, como substância, Deus, alma etc.

16) John Locke distingue as qualidades do objeto em qualidades primárias (solidez, extensão, movimento etc.) e qualidades secundárias (cor, odor, sabor etc.); as primeiras existem realmente nas coisas, as segundas são relativas e subjetivas.

Gabarito: 1. C; 2. 14 (02+04+08); 3. 28 (04 + 08 + 16).

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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