Tese da redação por ressalva: estratégia para construir um bom texto

A tese da redação é um dos pontos mais importantes da nota do Enem. Por isso, aprender estratégias é sempre interessante. A tese por ressalva pode facilitar a sua argumentação na Redação Enem. Saiba nesta aula como utilizá-la!

Existem algumas maneiras de escrever a tese da redação para o Enem. Nesta aula, você irá aprender sobre a tese por ressalva. A ressalva é uma estratégia que revela um profundo senso crítico, pois parte da crítica a um senso comum definido pelo autor do texto. Por isso, o(a) candidato(a) deve expor esse senso comum em primeiro lugar, para, a partir daí, estruturar uma tese contestatória.

Por exemplo, ao trabalhar um tema hipotético, como “Os meios de comunicação na era moderna”, o comum seria aliar a tecnologia a um polo extremamente positivo, como a sua enorme utilidade no mundo moderno. Contudo, poderíamos ponderar que toda tecnologia, ao ser inserida num meio social, potencializa também as suas desigualdades, não necessariamente as soluciona.

Partindo desse ponto, poderíamos construir um parágrafo que inicialmente faz o elogio à determinada tecnologia para depois, desmistificá-la. Veja um exemplo para iniciar uma redação com este tema e esta estratégia argumentativa:

“Com o surgimento da internet, renasceu a promessa de um espaço democrático e educativo, que possibilitasse a conexão de todos na pólis. Porém, o potencial pedagógico e político dos acontecimentos no ciberespaço ainda depende em muito das políticas públicas e culturais do mundo não virtual”.

Só vale lembrar que nenhuma crítica extremamente positiva ou negativa são interessantes em uma dissertação: posicionamentos moderados, de forma geral, indicam uma crítica mais madura. Ser moderado(a) no seu posicionamento crítico em uma redação também diminui as chances de que sua redação se torne um texto de “folheto de militância”, o que poderia te levar para algo do qual você quer se afastar: as ideias de senso comum.
Então, para entendermos melhor como a estratégia do uso da ressalva pode ser aplicada em uma tese da redação, vamos ver como ela foi utilizada por um estudante:

Exemplo de tese da redação:

O ver, o ler e o ouvir
Thiago Rocha de Araújo

Macabéas ligam seus rádios para ouvirem as notícias. Jacintos, seus televisores. E os poetas com suas revistas “Orpheu” em mãos. Os veículos de informação nasceram para entreter. Certo? Não, errado. Na verdade só mascaram uma tática de ampliação comercial com seus infinitos “patrocinado por …”. As notícias são espetacularizadas, informam o que dá audiência, seja verdade irrefutável ou mesmo, em sua maioria, modificados ao gosto do espectador.
Nas antigas colônias, época em que Iracemas vagavam pelas florestas e Martins habitavam o litoral, existiam jornais, que eram anuais devido às precárias tecnologias de transporte, os quais repassavam apenas notícias referentes à metrópole e à coroa, não existia o conceito de mundo. O que vendiam eram informações “do Rei” e dos que falassem de seu império. Como, atualmente, os jornais passam as notícias que interessam, ou modificam outras para interessarem, ao público. Informação é o que vende, não com o intuito, necessariamente, de informar.
Pobres Macabéas, o mais próximo que chegariam de suas “rádios-relógio” seria o “horário do Brasil”, o qual tem a proposta de ser imparcial, mesmo sabendo que foi criado por Vargas para falar bem do mesmo. “Num oferecimento  de…” a fidelidade com a informação “nua e crua” foi perdida. Tocam-se músicas sem conteúdo, mas que vendem. O ouvinte pensa ser livre, mas é acometido por uma “pop-aculturação”.
Os irmãos Lumiere talvez não inventassem a ideia da “tele visão”, ou visão em um quadro, caso soubessem que o que era para mostrar imagens do exótico, hoje passa informações modificadas para darem audiência e lucro. Todos sabem quem foi Isabella Nardoni, mas não quem ganhou um Nobel da paz. Sabem quem ganhou o “Big Brother” mas não conhecem os problemas do Apartheid. Vêem o McDonald’s, mas não sabem que morre uma criança a cada três segundos em média de fome no mundo. Mostram a corrupção política, mas não lembram do movimento dos “Caras-pintadas”.
A notícia espetacularizada só agrava o problema da insegurança, da alienação, da impunidade e da corrupção. O que era para informar, hoje vende. As “notícias” têm preços. Pagamos, então, não pelo que queremos saber, ver, ler e ouvir, mas por aquilo o qual querem vender. Macabéas ouvem suas músicas “bate-estaca”. Jacintos assistem, atônitos, ao arremesso de Isabellas Nardonis. Os poetas lêem os “quadrinhos” do jornal.

Dica: Outra técnica legal para começar sua redação é a estratégia do questionamento. Saiba mais sobre esta estratégia argumentativa com este post do Professor Renato https://cursoenemgratuito.com.br/questionamento-redacao-enem/

Análise da Redação:

Como você pode ler, o autor introduz seus textos por meio de exemplos literários de modo a vincular a ideia de entretenimento aos meios de comunicação. Esse pressuposto é negado na sequência, apresentando os meios de comunicação como forma de manipulação de massas.

Neste ponto vemos claramente a aplicação da ressalva, pois o autor parte de um conceito de senso comum (o de que os meios de comunicação são excelentes) e logo após o contradiz. É importante observar que conversas com o leitor utilizadas no texto acima, tais como “Certo? Errado” não são aconselhadas em gêneros dissertativos.

No segundo parágrafo, o autor recontextualiza os exemplos literários, relacionando-os com questões históricas, o que valoriza a analogia feita na introdução. Ele fecha o parágrafo trazendo a analogia para a atualidade.

Já no terceiro parágrafo, o autor relaciona Macabéa à Era Vargas, o que novamente alia de forma positiva o literário ao histórico. Ainda assim, como já se trata do meio do desenvolvimento, seria interessante apresentar ao menos consequências da manipulação de massas de forma mais evidente, isto é, pela análise de fatos atuais.

Finalmente, o quarto parágrafo demonstra conhecimento geral e apresenta fatos importantes da atualidade, mas não os analisa de forma adequada, fazendo apenas uma listagem. Seria mais interessante apresentar menos fatos e uma análise coerente relacionada à tese. É sempre importante em uma dissertação, conseguir “destrinchar” de maneira breve e coerente os fatos utilizados para embasar sua tese.

Ao final do texto, o autor cita alienação, impunidade e corrupção – aspectos que não foram analisados de maneira adequada no desenvolvimento e não são diretamente relacionados à tese. Esta conduta deixa o texto em aberto, não abrindo caminho para uma medida de intervenção concreta. Você deve evitar isso na sua redação.

Busque sempre fazer uma conclusão que dê fechamento às suas ideias dispostas nos parágrafos anteriores e que não traga fatos novos que não poderão ser analisados no pequeno espaço da conclusão. Isso pode dar a impressão de que você não sabia o que fazer para organizar suas ideias e considerações finais, demonstrando que sua redação foi mal encaminhada.

Ainda assim, na redação que utilizamos como exemplo, a técnica de ressalva foi aplicada na introdução de forma eficiente e é um bom exemplo de como utilizar essa técnica argumentativa e facilitar a produção de sua Redação Enem.

Para finalizar seus estudos sobre esta técnica de redação, veja agora essa videoaula:

E também essa outra videoaula documentário do canal com o professor:

Agora, que tal tentar escrever uma redação usando a tese por ressalva? Coloque a mão na massa utilizando o tema proposto acima. Treinamento é a chave para tirar de letra a produção de texto no Enem!

 

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.