Trabalho escravo nas minas durante o ciclo do ouro

O trabalho escravos nas minas ocorreu principalmente no século XVIII, período da história do Brasil que ficou conhecido como ciclo do ouro.

O ouro e os diamantes que trouxeram riqueza para a colônia foram minerados, em sua maioria, por mãos de pessoas escravizadas. Tantos negros trabalharam nas minas que o tráfico negreiro ganhou um novo fôlego. No século XVIII, Minas Gerias se tornou o principal destino dos africanos que eram trazidos para o Brasil. Acompanhe esta aula para saber mais sobre o trabalho escravo nas minas durante o ciclo do ouro.

Como era o trabalho escravo nas minas

A maior parte da do trabalho escravo nas minas ocorria no leito dos rios. Portanto, os cativos trabalhavam com o corpo imerso nas águas frias que vinham das montanhas. Seus principais instrumentos de trabalho eram a bateia e o almocafre.

Bateia e almocafre - trabalho escravo nas minas
A bateia possui o formato de um prato côncavo que, com movimentos circulares, separa o ouro do cascalho. Já o almocafre era uma espécie de enxada que era utilizada para remover o cascalho do leito dos rios. Fonte: https://bit.ly/303hIZy

Além do trabalho duro, os escravizados corriam perigos na mineração. Muitas vezes eram construídas barreiras para represar a água. No entanto, elas se rompiam frequentemente e acabavam afogando vários mineradores. Os riscos também eram grandes na mineração subterrânea, pois eram comuns os desabamentos.

Os cativos também enfrentavam doenças como o reumatismo – causado pelo trabalho nos leitos dos rios –, malária e infecções pulmonares. Estima-se que sua vida útil era apenas de 7 a 12 anos.

Mas isso não quer dizer que os escravizados enfrentavam as situações passivamente. Foi na região das minas que surgiu o maior número de quilombos de toda a colônia. De acordo com o historiador Carlos Magno Guimarães, entre 1710 e 1798, foram descobertos e destruídos 160 quilombos na região.

Mineração de diamantes - Trabalho escravo nas minas
Desenho de Carlos Julião, século XVIII, representando escravos trabalhando na mineração de diamantes.

A chance de liberdade

Embora o trabalho escravo nas minas fosse duro e apresentasse vários riscos, os escravizados tinham mais chance de conseguir a alforria na sociedade mineradora do que nos engenhos de açúcar. Isso porque muitos cativos tinham a licença para minerar no final do expediente e nos dias santos.

Após cumprirem a cota exigida, poderiam ficar com o ouro que encontrassem. Além disso, aproveitavam as chances que encontravam para esconder pequenas quantidades de ouro.

Dessa forma, conseguiam acumular a quantia necessária para comprar sua liberdade. Mas não se engane: o valor a ser pago era altíssimo, e os escravizados poderiam demorar uma vida toda para conseguir comprar a carta de alforria.

Escravos de ganho

O trabalho escravo nas minas não era a única atividade realizada pelos cativos na região. Também trabalhavam na produção de alimentos, no transporte de mercadorias e pessoas, e na construção de estradas, edifícios e chafarizes. Havia casos em que proprietários alugavam seus escravos para terceiros. Eles eram chamados de “escravos de ganho” ou “de aluguel”.

Os trabalhos exercidos por eles dependiam das necessidades de mercado e daquilo que o senhor permitisse. Os que se tornavam vendedores eram bastante numerosos. Entre as mercadorias estavam cestos, aves, milho, capim, leite, angu, pães, doces, frutas, legumes, carnes e peixes, por exemplo.

Também existiam barbeiros ambulantes, serradores, pedreiros e carpinteiros. Além disso, poderiam vender a sua força física trabalhando como carregadores de objetos de qualquer tipo e até mesmo pessoas.

Outro exemplo de escravo de ganho foram as chamadas “negras de tabuleiro”. Eram mulheres andavam pelas ruas vendendo doces e salgados em tabuleiros. Além dos alimentos que vendiam, também eram conhecidas por ajudarem escravos fugidos e por esconderem ouro e diamante entre seus produtos com o objetivo de comprar sua liberdade.

Trabalho escravo nas minas
Pintura de Carlos Julião, feira em Minas Gerais no século XVIII.
Escravos coortados

Os escravos de ganho eram utilizados como forma de ganhar uma renda extra ou até mesmo garantir o sustento dos senhores. Por isso, eles ficavam com a maior parte dos lucros e destinavam uma pequena parcela para os escravizados, que poderiam acumular sob forma de pecúlio.

Nesses casos, era muito comum que se tornassem escravos coortados. Isso significa que eles possuíam uma “carta de corte”, ou seja, um documento que atestava que estavam pagando as prestações referentes à compra de sua carta de alforria.

Todas essas práticas explicam por que na sociedade mineradora havia maior chance para os negros obterem liberdade do que na economia açucareira. Se em 1739 apenas 1,2% do total de escravos de Minas Gerais eram alforriados, em 1808 esse número saltou para 41%.

As irmandades

As irmandades foram espaços importantes para a socialização de negros. Eram organizações que prestavam assistência mútua aos seus integrantes, além de auxiliar em caso de doença, invalidez e morte. Também eram responsáveis por organizar festas e assembleias.

Mas não era qualquer pessoa que poderia participar de qualquer irmandade. A cor e a origem delimitavam os integrantes de cada grupo. Enquanto os mestiços se reuniam na Irmandade das Mercês, por exemplo, os negros integravam a Irmandade do Rosário dos Pretos. Os brancos também possuíam suas próprias organizações, como a Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Apesar de não possuírem vínculo oficial com a Igreja Católica, muitas irmandades tinham grande conexão com a religião. Elas construíam igrejas e possuíam santos protetores. As grandes rivalidades que existiam entre os grupos eram manifestadas, muitas vezes, pela arquitetura e luxo dos templos religiosos.

As irmandades não eram fenômenos exclusivo da região mineradora. Ao contrário, tiveram grande destaque em várias cidades da colônia, deixando igrejas, festas e rituais como patrimônio das vivências compartilhadas por negros e negras.

Chica da Silva

De todos os escravizados e escravizadas que viveram na sociedade mineradora, uma das mais conhecidas é Chica da Silva. Francisca da Silva de Oliveira era filha de uma negra com um português. Nasceu no povoado de Milho Verde, no Arraial do Tijuco, região onde fica a atual cidade de Diamantina.

Ela era escrava de Manuel Pires Sardinha, com quem teve um filho, Simão, que foi liberto no momento do seu batismo. Em 1753, quando tinha 22 anos, Francisca foi comprada e alforriada por João Fernandes de Oliveira, um contratador de diamantes. Eles viveram juntos por 17 anos e tiveram 13 filhos. No entanto, João de Oliveira nunca se casou com ela.

Dessa forma, a mulher que ficaria conhecida como Chica da Silva passou a conviver com a elite de Minas Gerais, adotou seus costumes, aprendeu a ler e escrever e integrou várias irmandades. Além disso, conseguiu que todos os seus filhos recebessem o sobrenome do pai e que fossem educados. Assim, ela conseguiu viver com certa distinção social para si e para seus filhos.

Xica da Silva
Cena do filme Xica da Silva, dirigido por Carlos Diegues em 1976.

A trajetória de Chica da Silva é muito significativa para entendermos o funcionamento da sociedade mineradora elitista do século XVIII. Uma das únicas oportunidades para uma mulher escravizada ascender socialmente era sua união com um homem branco e rico. Em resumo, era a forma que permitia que as mulheres negras pudessem assumir o controle de suas próprias vidas.

Para reforçar os seus estudos sobre o trabalho escravo nas minas, assista a este vídeo sobre a escravidão no Brasil e, em seguida, resolva os exercícios:

Exercícios sobre o trabalho escravo nas minas:
1- (ENEM/2017)    

Na antiga Vila de São José del Rei, a atual cidade de Tiradentes (MG), na primeira metade do século XVIII, mais de cinco mil escravos trabalhavam na mineração aurífera. Construíram sua capela, dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Na fachada, colocaram um oratório com a imagem de São Benedito. A comunidade do século XVIII era organizada mediante a cor, por isso cada grupo tinha sua irmandade: a dos brancos, dos crioulos, dos mulatos, dos pardos. Em cada localidade se construía uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Com a decadência da mineração, a população negra foi levada para arraiais com atividades lucrativas diversas. Eles se foram e ficou a igreja. Mas, hoje, está sendo resgatada a festa do Rosário e o Terno de Congado.

CRUZ, L. Fé e identidade cultural. Disponível
em: www.revistadehistoria.com.
br. Acesso em: 4 jul. 2012.

Na lógica analisada, as duas festividades retomadas recentemente, na cidade mineira de Tiradentes, têm como propósito

a) valorizar a cultura afrodescendente e suas tradições religiosas.

b) retomar a veneração católica aos valores do passado colonial.

c) reunir os elementos constitutivos da história econômica regional.

d) combater o preconceito contra os adeptos do catolicismo popular.

e) produzir eventos turísticos voltados a religiões de origem africana.

2- (ENEM/2016)    

A África Ocidental é conhecida pela dinâmica das suas mulheres comerciantes, caracterizadas pela perícia, autonomia e mobilidade. A sua presença, que fora atestada por viajantes e por missionários portugueses que visitaram a costa a partir do século XV, consta também na ampla documentação sobre a região. A literatura é rica em referências às grandes mulheres como as vendedoras ambulantes, cujo jeito para o negócio, bem como a autonomia e mobilidade, é tão típico da região.

HAVIK, P. Dinâmicas e assimetrias afro-atlânticas: a agência feminina e representações em
mudança na Guiné (séculos XIX e XX). In: PANTOJA, S. (Org.). Identidades, memórias
e
histórias em terras africanas. Brasília: LGE; Luanda: Nzila, 2006.

A abordagem realizada pelo autor sobre a vida social da África Ocidental pode ser relacionada a uma característica marcante das cidades no Brasil escravista nos séculos XVIII e XIX, que se observa pela

a) restrição à realização do comércio ambulante por africanos escravizados e seus descendentes.

b) convivência entre homens e mulheres livres, de diversas origens, no pequeno comércio.

c) presença de mulheres negras no comércio de rua de diversos produtos e alimentos.

d) dissolução dos hábitos culturais trazidos do continente de origem dos escravizados.

e) entrada de imigrantes portugueses nas atividades ligadas ao pequeno comércio urbano.

3- (FGV/2019)    

No dia 16 de fevereiro de 1796, dona Francisca da Silva de Oliveira morria em sua casa, no arraial do Tejuco. Não era mais uma escrava parda sem nada de seu, mas uma senhora de “grossa casa”, como se dizia, possuidora de imóveis e de escravos. O reconhecimento social ficou patente no sepultamento: ela foi enterrada na tumba número 16, no interior da igreja da Irmandade de São Francisco de Assis, que congregava a elite branca local. […] Nesse mesmo ano de 1796, cumprindo-se seu desejo, foram celebradas quarenta missas por sua alma na igreja das Mercês. A reconstrução da história de Chica da Silva com base em novos documentos lança luz sobre o tempo em que viveu e os significados de sua trajetória. Assim como outras ex-escravas, Chica alcançou a liberdade

(Júnia Ferreira Furtado. Chica, a verdadeira. Nossa História, ano I, no 2, dez. 2003)

A história de Chica da Silva revela

a) como as possibilidades de ascensão social no Brasil colonial foram amplas e atingiram todas as regiões, em todas as épocas, porque a escravidão não era um entrave para essa ascensão.

b) um traço importante da sociedade colonial porque aponta para a possibilidade de ascensão social de uma mulher que nasceu escrava e que conquistou a alforria e boa distinção social.

c) uma realidade que se constituiu em rara exceção durante todo período colonial, porque as leis não ofereciam a possibilidade de um proprietário, em vida, libertar os seus escravos.

d) que as alforrias na região mineradora ocorreram durante todo o século XVIII e atingiram menos os homens do que as mulheres, porque estas eram maioria entre as pessoas escravizadas.

e) como as interdições sociais, às quais os escravos estavam submetidos na América portuguesa, não tinham validade em relação ao catolicismo, porque nas irmandades religiosas não prevaleciam as hierarquias sociais.

4- (UECE/2019)    

Atente para o que disse o jesuíta André João Antonil sobre a escravidão no Brasil:

“No Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários três PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que comecem mal, principiando pelo castigo que é o pau, contudo, prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e o vestir como muitas vezes é o castigo, dado por qualquer causa pouco provada, ou levantada; e com instrumentos de muito rigor(…), de que se não usa com os brutos animais, fazendo algum senhor mais caso de um cavalo que de meia dúzia de escravos…”

ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp, 1982, p.37. (Coleção Reconquista do Brasil). Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1737

Com base no trecho acima e no que se sabe sobre o sistema escravista ocorrido no Brasil, é correto dizer que

a) a visão do jesuíta Antonil apresenta uma perspectiva da colonização portuguesa em que a escravidão aparece de uma forma humanizada, pois eram garantidos aos escravos o alimento e as vestimentas.

b) não há, no texto de Antonil, qualquer crítica ao sistema escravista, aos castigos físicos dados aos escravos nem a sua desvalorização como ser humano.

c) o sistema escravista, centrado no trabalho compulsório, no tráfico de africanos para a colônia e em uma rígida estrutura de controle e punição, foi a base da economia colonial e criou uma sociedade desigual.

d) apesar de aparentar opressão e violência, o sistema escravista foi positivo para os africanos trazidos ao Brasil, pois possibilitou a eles acesso a uma cultura superior e a uma religião organizada, já que, na África, viviam primitivamente.

Gabarito:

  1. A
  2. C
  3. B
  4. C
Bibliografia:

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História em movimento. 2ºano. São Paulo: Ática, 2013.

BOULOS, Alfredo. História, sociedade & cidadania: 2º ano. São Paulo: FTD, 2013.

PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira. Vol. 1: Colônia. São Paulo: LeYa, 2016.

VAINFAS, Ronaldo [et al.]. História 2: ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2016.

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.