Economia açucareira

Entenda como funcionou o que é considerado o segundo ciclo da economia brasileira: a economia açucareira. Vem estudar História com a gente no Curso Enem Gratuito!

O açúcar brasileiro foi um produto muito forte economicamente, já que não podia ser produzido na Europa por fatores climáticos. Apesar disso, era consumido pela nobreza e pela rica burguesia em forma de doces, remédios e utilizado para conservação de alimentos. Por conta desta alta procura e baixa oferta, a economia açucareira tornou-se um setor muito lucrativo para produtores e investidores.

A cana-de-açúcar foi tão explorada que se tornou responsável por movimentar outra grande economia: o tráfico de milhões de africanos através do Atlântico. Explicaremos com mais detalhes essa amarga parte da colonização portuguesa no texto a seguir.

Uma breve história econômica do Brasil

Podemos compreender a história do Brasil através de várias lentes: da cultura, da religião, da raça, dos costumes, dos conflitos, entre tantas outras. A perspectiva que considera o trabalho e a economia merece um grande destaque porque todas as outras mencionadas anteriormente perpassam por ela.

Você deve ter aprendido na escola que o Brasil viveu diferentes ciclos econômicos: primeiro com a extração de pau-brasil, depois com os engenhos de açúcar, com o ciclo do ouro, do café e da borracha. Estes ciclos também nos revelam como a vida da população era alterada de acordo com os diferentes processos de produção de cada mercadoria.

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Figura 1: Doces produzidos com açúcar e algumas canas sobre a mesa. Uma curiosidade é que o produto fez surgir a profissão de confeiteiro. Tela de Tomás Hiepes, Budegón de dulces. Acesso em: https://arte-historia.com/bodegones-de-tomas-yepes/

 

Após os portugueses perceberem que o Brasil não contava com metais preciosos em seu litoral, a atenção destes europeus voltou-se novamente para o comércio com o oriente, pela rota estabelecida por Vasco da Gama.

Até 1530, a única atividade econômica praticada pelos portugueses na colônia foi o escambo com os indígenas para obtenção do pau-brasil. Porém, quando as relações comerciais com o oriente esfriaram e o Brasil passou a ser alvo de piratas, corsários e de outras nações, a coroa portuguesa tratou de ocupar o novo território. Uma forma encontrada para isso foi o cultivo e ocupação da terra, que era uma das obrigações dos capitães donatários e dos sesmeiros (beneficiados com a concessão de terras, sesmarias).

O clima tropical abria a possibilidade para a plantação de gêneros agrícolas impossíveis de serem cultivados na Europa. Além disso, o solo de massapê do nordeste era muito fértil. Essa combinação de fatores fez o português Martim Afonso de Souza trazer para cá a cana-de-açúcar, um produto de origem asiática.

O funcionamento da economia açucareira

Antes da expansão da economia açucareira na América, o açúcar já era consumido na Europa, mas em uma proporção muito menor. Ele proveniente de outros vegetais, como a beterraba, por exemplo. Por isso, o açúcar brasileiro se tornou um produto muito lucrativo e competitivo, o que combinava perfeitamente com a mentalidade mercantilista.

Vida na colônia e nos engenhos

A vida no Brasil colônia se orientou, em boa parte, pela economia açucareira de plantation (tipo de cultivo onde vigora a produção de um único gênero agrícola destinado à exportação). Os latifúndios eram compostos pelo engenho e suas instalações; pela casa-grande, onde moravam os proprietários e agregados; pela senzala, onde habitavam os escravizados; pela capela; e pela lavoura, mais distante.

No engenho, existiam partes específicas para a produção: a moenda ou o moinho (onde a cana era esmagada), as caldeiras (onde o caldo era cozido) e a casa de purgar (onde o açúcar era colado em formas e descansava por quase um mês). O resultado de todo esse processo era um açúcar marrom, que conhecemos como açúcar mascavo.

Além dele, também era possível obter água ardente (cachaça) e a rapadura, ambos consumidos pelos negros escravizados. O papel da água ardente foi importante no cotidiano da escravidão, pois funcionava como um entorpecente.

O açúcar era levado daqui para Portugal e para os Países Baixos, onde era refinado e negociado com o resto da Europa. Esta economia acabou beneficiando ainda mais os holandeses, ao ponto de que eles também passaram a investir na escravização e no tráfico de pessoas para abastecer essa economia.

O Brasil foi o país que mais recebeu africanos escravizados, somando aproximadamente 4,8 milhões de pessoas. Também foi o último país do nosso continente a abolir a escravidão: em 1888, apenas 131 anos atrás – o que é muito recente em termos históricos. Para cá foram trazidas pessoas da Guiné, do Congo, da Angola e de Moçambique.

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Figura 2 – “Engenho manual que faz caldo de cana”, aquarela sobre papel, J.B. Debret. Rio de Janeiro, 1822. Disponível em: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/stj/wp-content/uploads/2016/02/03__Moenda-Debret_original.jpg

 

União Ibérica

O lucro proveniente do açúcar fez os holandeses investirem grandes somas de dinheiro na instalação de engenhos e também no tráfico negreiro. Porém, quando a Espanha declarou guerra às Províncias Unidas dos Países Baixos, açúcar americano que era enviado para aquela região foi embargado. Os holandeses viram sua economia ser diretamente afetada, mas não tinham condições de enfrentar um adversário tão poderoso.

Neste momento, todos os domínios portugueses, incluindo o Brasil, estavam sob posse espanhola.  Este período ficou conhecido como União Ibérica. Isso ocorreu porque quando Dom Sebastião, rei de Portugal, morreu em batalha contra os muçulmanos na África, não havia deixado herdeiros. Como consequência, seu tio-avô, Dom Henrique, acabou assumindo o trono.

Porém, Dom Henrique governou por pouco tempo. Em meio à crise sucessória, Filipe II reclamou o reino de Portugal alegando parentesco com o falecido Dom Sebastião. Assim, Filipe II da Espanha se consolida como o monarca que detém o maior número de domínios no planeta, desde a América até a Oceania. O fenômeno ficou conhecido como o “império onde o sol nunca se põe”.

Entretanto, a União Ibérica também representou um momento de enfraquecimento dos domínios que antes eram de Portugal. Então, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais planejaram executar uma invasão no atual território de Pernambuco, aliando-se aos donos de engenho locais.

Merece destaque neste momento Maurício de Nassau, nobre holandês que administrou a região dominada naquele período. Lá ele construiu prédios, estradas e revitalizou engenhos abandonados, além de garantir uma convivência pacífica através da tolerância religiosa e do livre comércio para os produtores de açúcar.

No entanto, os holandeses foram expulsos em 1654 após terem problemas com os donos de engenho em virtude de uma crise da economia açucareira. Portugal, que tolerava a presença holandesa no Brasil por conta de um pacto com aquela nação, se aliou aos proprietários revoltosos.

Mesmo com a febre do ouro no século XVII e o abandono de muitos engenhos, o cultivo da cana e a produção do açúcar nunca cessaram, sendo parte indissociável da história do Brasil. Porém, é importante lembrar que todos estes ciclos sempre conviveram com outras economias, como a escravidão, a pecuária e o cultivo de outros gêneros agrícolas, principalmente a mandioca e o tabaco.

Depois de estudar sobre a economia açucareira, o que você acha de assistir essa videoaula do professor Felipe sobre a invasão holandesa?

Outra sugestão é esse filme produzido pela ONU que explica a escravidão por meio da economia açucareira:

Exercícios

Questão 01 – (ESPM – SP) A primeira vez que se mencionou o açúcar e a intenção de implantar uma produção desse gênero no Brasil foi em 1516, quando o rei D. Manuel ordenou que se distribuíssem machados, enxadas e demais ferramentas às pessoas que fossem povoar o Brasil e que se procurasse um homem prático e capaz de ali dar princípio a um engenho de açúcar.

Os primeiros engenhos começaram a funcionar em Pernambuco no ano de 1535, sob a direção de Duarte Coelho. A partir daí os registros não parariam de crescer: quatro estabelecimentos em 1550; trinta em 1570, e 140 no fim do século XVI. A produção de cana alastrava-se não só numericamente como espacialmente, chegando à Paraíba, ao Rio Grande do Norte, à Bahia e até mesmo ao Pará. Mas foi em Pernambuco e na Bahia, sobretudo na região do recôncavo baiano, que a economia açucareira de fato prosperou. Tiveram início, então, os anos dourados do Brasil da cana, a produção alcançando 350 mil arrobas no final do século XVI.

(Lilia M. Schwarcz. Brasil: uma Biografia)

A partir do texto e considerando a economia açucareira e a civilização do açúcar, é correto assinalar:

a) a cana de açúcar era um produto autóc¬tone, ou seja, nativo do Brasil e gradativa-mente foi caindo no gosto dos portugueses e dos europeus, a partir do século XVI;

b) a produção e comercialização do açúcar ocorreram sob a influência do livre-cam-bismo em que se baseou o empreendi¬mento colonial português;

c) a metrópole estabeleceu o monopólio real, porém a comercialização do açúcar pas-sou para os porões dos navios holandeses, que acabaram por assumir parte substan¬cial do tráfego entre Brasil e Europa;

d) os portugueses mantiveram um rigoroso monopólio sobre o processo de produ¬ção e refinação do açúcar, só permitindo a participação de estrangeiros na comer-cialização do produto;

e) para implantação da indústria canavieira no Brasil, o projeto colonizador luso pre-cisava contar com mão de obra compul¬sória e abundante, dada a extensão do território e por isso sempre privilegiou a utilização dos nativos, cuja captura pro-porcionava grandes lucros para a coroa.

 

Gab: C

 

Questão 02 – (PUC – GO) Eu tinha sido criado num primeiro andar. Todo o meu conhecimento do campo fizera nuns passeios de bonde a Dois Irmãos.

E era com olhos de deslumbrado que olhava então aqueles sítios, aquelas mangueiras e os meninos que via brincando por ali. As divergências de meu pai com meu avô nunca permitiram à minha mãe fazer uma temporada no engenho. Minha imaginação vivia assim a criar esse mundo maravilhoso que eu não conhecia. Sempre que perguntava a minha mãe por que não me levava para o engenho, ela se desculpava com o emprego de meu pai. Daí a impressão extraordinária que me iam causando os mais insignificantes aspectos de tudo o que estava vendo.

Depois do café mandaram-me para o engenho, que estava nos fins da moagem. Eram uns restos de cana que aproveitavam.

— Quase que você não pega o engenho safrejando – me disse o tio Juca.

Ficava a fábrica bem perto da casa-grande. Um enorme edifício de telhado baixo, com quatro biqueiras e um bueiro branco, a boca cortada em diagonal. Não sei por que os meninos gostam tanto das máquinas. Minha atenção inteira foi para o mecanismo do engenho. Não reparei mais em nada. Voltei-me inteiro para a máquina, para as duas bolas giratórias do regulador. Depois comecei a ver os picadeiros atulhados de feixes de cana, o pessoal da casa de caldeiras. Tio Juca começou a me mostrar como se fazia o açúcar. O mestre Cândido com uma cuia de água de cal deitando nas tachas e as tachas fervendo, o cocho com o caldo frio e uma fumaça cheirosa entrando pela boca da gente.

— É aqui onde se cozinha o açúcar. Vamos agora para a casa de purgar.

Dois homens levavam caçambas com mel batido para as formas estendidas em andaimes com furos. Ali mandava o purgador, um preto, com as mãos metidas na lama suja que cobria a boca das formas. Meu tio explicava como aquele barro preto fazia o açúcar branco. E os tanques de mel de furo, com sapos ressequidos por cima de uma borra amarela, me deixaram uma impressão de nojo.

Andamos depois pela boca da fornalha, pela bagaceira coberta de um bagaço ainda úmido. Mas o que mais me interessava ali era o maquinismo, o movimento ronceiro da roda grande, e a agitação febril das duas bolas do regulador.

[…]

(REGO, José Lins do. Menino de engenho. 102. ed. Rio de Janeiro:  José Olympio, 2010. p. 33-34.)

A personagem do texto vai a um engenho e observa a fabricação de açúcar. Os engenhos açucareiros foram essenciais no projeto colonial português para o Brasil. Em torno dessa unidade produtiva, surgiu uma forma específica de organização social cuja base era a mão de obra escrava. Acerca desse tema, assinale a alternativa correta:

a) O poder dos senhores de engenho era ilimitado na administração de suas terras, podendo utilizar os escravos como bem entendessem e comercializá- los livremente com outras regiões do império lusitano.

b) O direito de escravizar e comercializar povos conquistados, a exemplo das etnias africanas, já advinha do direito romano e foi reforçado pela noção cristã de que esses povos eram infiéis a serem incorporados na cristandade ocidental.

c) Apesar de a Igreja católica combater insistentemente a escravização dos africanos, os interesses dos comerciantes prevaleceram, e o tráfico realizado nos tumbeiros prosseguiu por séculos, sem que os padres tivessem sequer a chance de batizar os infelizes escravos.

d) Devido ao monopólio comercial, princípio básico da doutrina mercantilista, era proibido aos engenhos açucareiros utilizar os escravos para plantarem outros produtos que não fosse a cana-de-açúcar, devendo os demais produtos necessários à sobrevivência serem adquiridos diretamente da metrópole.

 

Gab: B

 

Questão 03 – (ACAFE – SC) “É verdade que antes da união das monarquias ibéricas, em 1580,ao manter uma boa relação com os portugueses, os flamengos frequentavam os portos brasileiros e a cidade de Lisboa carregando açúcar em suas urcas, levando-o a refinar em Flandres e distribuindo-o por via terrestre e fluvial por toda a Europa central. De sua embarcação tão características, ficou a lembrança na toponímia carioca, através do morro que evoca a sua forma.”

(PRIORI, Mary del. Histórias da gente brasileira: volume 1: colônia. São Paulo: Editora LeYa, 2016. Página 69).

Com base no texto e nos conhecimentos sobre o período colonial da história do Brasil é correto afirmar, exceto:

a) Durante a União Ibérica, holandeses e espanhóis formaram a Companhia das Índias Ocidentais e dividiram os lucros da comercialização do açúcar produzido no Brasil e levado para a Europa.

b) Com a União Ibérica acirraram-se os conflitos entre a Espanha e a Holanda. Com a proibição espanhola da parceria comercial entre holandeses e produtores de açúcar no Brasil, os flamengos invadiram o nordeste.

c) Maurício de Nassau, administrador holandês em Pernambuco, promoveu reformas urbanas e manteve uma boa relação com os senhores de engenho.

d) A revolta conhecida como Insurreição Pernambucana acabou determinando a saída dos holandeses do nordeste brasileiro e teve como consequência uma crise na empresa açucareira brasileira.

 

Gab: A

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.