Sociedade mineradora: o que foi, composição e características

A sociedade mineradora era predominantemente urbana. Sua população pode ser dividida entre os potentados, camadas médias, homens livres pobres e escravizados.

A migração em massa para a região das minas e a centralização da administração em Minas Gerais fizeram nascer ali uma sociedade diferente do restante da colônia. Enquanto as regiões açucareiras faziam parte de um mundo predominantemente rural, a sociedade mineradora era urbana, mais diversificada e com maior mobilidade social.

A formação da sociedade mineradora

Imagine o território de Minas Gerias no final do século XVII. Era coberto por matas e povoado por povos indígenas, sem nenhuma ocupação de colonos europeus. Então, em 1693, jazidas de ouro são descobertas pelos bandeirantes.

A notícia se espalha rápido, e pessoas de todos os cantos da colônia e até de Portugal resolvem partir para a região das minas. Afinal, quem não gostaria de encontrar ouro e enriquecer?

Mas não foi só o ouro que promoveu essa transformação. Em 1729, quando a extração do minério ainda estava em seu auge, foram descobertos diamantes na região do Arraial do Tijuco, onde hoje fica a cidade de Diamantina.

Sem perder tempo, Portugal declarou que a extração de diamantes era monopólio da Coroa e criou a Intendência dos Diamantes. Mas, a partir de 1739, permitiu que particulares participassem da mineração – mesmo que, no fim, os escolhidos eram aqueles que já possuíam um grande número de escravos.

Extração de diamantes - sociedade mineradora
Aquarela de Carlos Julião, século XVIII, representando escravos trabalhando na mineração de diamantes no Distrito Diamantino, atual cidade de Diamantina.

O fato é que tanto o ouro como o diamante fizeram surgir vilas e cidades. Em 1780, menos de um século depois da descoberta do ouro, Minas Gerais já contava com mais de 300 mil habitantes. Além disso, era a região mais rica e populosa da colônia. Era o ciclo do ouro a todo o vapor.

Para que essa transformação ocorresse, foi necessário o estabelecimento de uma série de atividades econômicas. Dessa forma, surgiram novas profissões, como artesãos, médicos, arquitetos, escritores e artistas.

Ao mesmo tempo, cresceu muito o número de pequenos comerciantes, pois era necessário abastecer os novos núcleos populacionais. Assim, foi surgindo um novo grupo social: as camadas médias urbanas. A sociedade mineradora dava uma nova cara para a colônia.

A composição da sociedade mineradora

Apesar do desenvolvimento das atividades urbanas e o consequente surgimento da classe média, a maior parcela da população das minas era de negros escravizados ou libertos. De acordo com dados reunidos pela historiadora Laura de Melo e Souza, em 1776 a população de Minas Gerais era de 319.769 pessoas.

Destes, 22% eram brancos, 26% eram pardos e 56% eram negros. Ou seja, 78% da população mineira era de negros e mestiços, todos em situação de pobreza e grande parte escravizada.

No entanto, vamos fazer uma divisão diferente para podermos estudar melhor cada grupo social que fazia parte da sociedade mineradora. Em seguida, dividiremos entre os potentados, as camadas médias, os homens livres pobres e os escravizados.

Os potentados

No ciclo do ouro, foram poucos aqueles que alcançaram o sonho de enriquecer com a mineração. Mesmo entre aqueles que tinham o direito de explorar as lavras (áreas de mineração delimitadas), a fortuna era menor do que o desejado.

Isso ocorreu porque grande parte do que arrecadavam era destinado para impostos como o quinto e a capitação. Além disso, gastavam enormes quantias com compra de mão de obra e produtos de luxo, como vinhos, trigo, tecidos, queijos e doces.

O que realmente dava dinheiro nas minas era o comércio. Os homens mais ricos não eram aqueles que exploravam minas, mas sim os grandes comerciantes. O custo de vida era altíssimo na sociedade mineradora e os produtos eram negociados em ouro em pó.

Um dos maiores exemplos foi Manuel Nunes Viana, líder no confronto contra os bandeirantes na Guerra dos Emboabas. Ele enriqueceu com o que chamaríamos de comércio de atacado, vendendo carne para açougues e gêneros alimentícios para armazéns.

As camadas médias

Nas minas também havia a chance de mobilidade social, algo muito raro no restante da colônia. Era possível lucrar valores consideráveis em diversas atividades de manutenção das cidades. Alguns exemplos eram os pequenos comerciantes e profissionais liberais, como advogados e médicos.

Também havia os lavradores e roceiros que abasteciam com alimentos as vilas e cidades. Plantavam milho, arroz, feijão, mandioca, frutas e hortaliças. Mais tarde também prosperou a criação de porcos, galinhas e vacas leiteiras que, muitas vezes, faziam parte da paisagem das ruas. Com o leite surgiu a grande produção de queijos, que foi ganhando fama com o passar do tempo.

Além disso, pertenciam às camadas médias carpinteiros, alfaiates, ourives, e garimpeiros que possuíam alguns escravos. Outro grupo que merece destaque é o dos artistas. Pintores, músicos e escultores poderiam alcançar grande prestígio na sociedade mineradora.

A historiadora Mary del Priore lista outras diversas atividades que surgiam nas minas:

“Os ofícios de carpinteiro, ferreiro, ourives, boticário e estalajadeiro permitiam ganhos expressivos, e o setor de serviços era igualmente dinâmico. Ser “vigia de canoas”, ou seja, controlar diretamente o trabalho de quem minerava, impedindo roubos, era outra atividade prestigiada. Até corretor imobiliário existia nas cidades do ouro, assim como a inventiva agiotagem”.

PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira. Vol. 1: Colônia. São Paulo: LeYa, 2016, p. 109.

Além disso, os tropeiros também encontravam chances de obter destaque na sociedade mineradora. Por fim, havia os padres, que encontravam um bom espaço para praticar suas atividades, pois os templos se multiplicavam na região.

Os homens livres pobres

Nem todos aqueles que imigraram para Minas Gerais encontraram a fortuna que almejavam. Além deles, também havia um grande número de negros forros que não tiveram grande melhoria de vida ao conseguir a liberdade. Esse grupo foi chamado pela historiadora Laura de Melo e Souza de “desclassificados do ouro”.

Eles já vinham de famílias pobres, sem nenhum recurso de subsistência e acabavam ficando à margem da sociedade mineradora. Muitos andavam com pouca roupa, descalços e pedindo esmola. Eram pessoas vistas como “inúteis”, “delinquentes” e “vadios”.

No entanto, as autoridades se utilizavam de sua força de trabalho quando era conveniente. Eram procurados para fazer serviços como construção de obras públicas e segurança dos ricos, e para destruir quilombos e perseguir grupos indígenas. Em resumo, nem todas as pessoas livres aproveitaram a prosperidade da sociedade mineradora.

Os escravizados

O ouro e os diamantes que trouxeram riqueza para a colônia foram minerados, em sua maioria, por mãos de pessoas escravizadas. Tantos negros trabalharam nas minas que o tráfico negreiro ganhou um novo fôlego. Dessa maneira, no século XVIII, Minas Gerias se tornou o principal destino dos africanos que eram trazidos para o Brasil.

Devido à sua importância, dedicamos um texto para tratar somente sobre o trabalho escravo nas minas.

Os tropeiros

Além de todos aqueles que habitavam a sociedade mineradora, também havia os homens que transportavam mercadorias para as minas e escoavam o ouro e os diamantes para o litoral. Foi assim que surgiu o tropeirismo.

Os tropeiros eram aqueles que transportavam mercadorias no lombo de muares, os que negociavam os animais em feiras – como a de Sorocaba, em São Paulo –, ou os simples condutores de tropa.

Até aquele momento, a principal produção de gado ocorria ao longo do rio São Francisco, área que havia sido ocupada no século XVII e provocado a interiorização do Brasil. Contudo, o gado da região não dava mais conta de alimentar as necessidades das populações nas áreas mineradoras.

Assim, muitos paulistas que haviam sido expulsos das áreas auríferas, viram a oportunidade de entrar no negócio da pecuária. Eles foram para a região sul da colônia, região ideal para a criação de gado.

Tropeiro - Sociedade mineradora
Tropeiro Paulista num pouso de tropeiros, Charles Landseer, 1827.

Lá havia abundância de equinos e campos que forneciam a alimentação adequada para aos animais. Além disso, o clima frio também favorecia a criação. Dessa forma, as fazendas e currais faziam parte da paisagem desde o atual estado de São Paulo até o sul do Rio Grande do Sul.

O uso de mulas

O animal que mais tinha destaque entre os tropeiros era a mula. Isso porque elas conseguiam se locomover pelo relevo acidentado que ligava o sul ao Rio de Janeiro e à região das minas.

A mula é um animal híbrido, resultado do acasalamento do jumento com a égua. E, graças às condições ambientais, eram mais comuns na região sul da colônia. Assim, o gado da região foi tomando o espaço daquele produzido no vale do rio São Francisco.

Com o tempo, a pecuária se tornou tão lucrativa que vários homens enriqueceram com a atividade. Além disso, também havia o pequeno comércio de gado que garantia o sustento de vaqueiros, homens livres e forros.

A igreja e o Barroco

A religião católica também teve forte presença na sociedade mineradora. Ali as igrejas encontraram um terreno fértil para fazer negócios, pois cada serviço prestado era cobrado em gramas de ouro.

Pagavam-se 4 gramas de ouro para comungar e 2 para não comungar, por exemplo. O batismo também valia 4 gramas, e o casamento era mais caro: 11 gramas. Entretanto, o serviço com o valor mais alto era o fúnebre, que custava 14 gramas de ouro.

Igreja São Franciso de Assis - Sociedade mineradora
Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, Minas Gerais. Fonte:

Não foi à toa que começaram a surgir igrejas suntuosas, no estilo Barroco, todas decoradas com ouro e ocupadas com móveis luxuosos. Dessa maneira, também houve espaço para artesãos e arquitetos se sobressaírem – muitos dos quais eram mulatos. Além disso, também tinham destaque músicos que tocavam nas celebrações.

Um dos mais artistas mais famosos foi Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), filho de uma escrava com um construtor português e que seria conhecido como Aleijadinho. Foi ele quem projetou a Igreja de São Francisco de Assis, em Vila Rica, atual Ouro Preto.

Aleijadinho - Sociedade mineradora
A série de 12 profetas, instalada em frente à igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Fonte: https://bit.ly/2CMGlBg

Mas sua obra mais conhecida é o conjunto de esculturas representando os 12 profetas. Elas foram construídas com pedra-sabão (comum na região) em Congonhas do Campo, Minas Gerais.

Videoaula

Para saber mais sobre a sociedade mineradora, assista à videoaula do professor Felipe no nosso canal do YouTube e, em seguida, resolva os exercícios:

Exercícios:

1- (ENEM/2017)

Todos os anos, multidões de portugueses e de estrangeiros saem nas frotas para ir às minas. Das cidades, vilas, plantações e do interior do Brasil vêm brancos, mestiços e negros juntamente com muitos ameríndios contratados pelos paulistas. A mistura é de pessoas de todos os tipos e condições; homens e mulheres; moços e velhos; pobres e ricos; fidalgos e povo; leigos, clérigos e religiosos de diferentes ordens, muitos dos quais não têm casa nem convento no Brasil.

BOXER, C. O império marítimo português:
1435-1825. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

A qual aspecto da vida no Brasil colonial o autor se refere?

a) À imposição de um credo exclusivo.

b) À alteração dos fluxos populacionais.

c) À fragilização do poder da Metrópole.

d) Ao desregramento da ordem social.

e) Ao antilusitanismo das camadas populares.

2- (UNICAMP SP/2019)    

Tanto que se viu a abundância do ouro que se tirava e a largueza com que se pagava tudo o que lá ia, logo se fizeram estalagens e logo começaram os mercadores a mandar às Minas Gerais o melhor que chega nos navios do Reino e de outras partes. De todas as partes do Brasil, se começou a enviar tudo o que dá a terra, com lucro não somente grande, mas excessivo. Daqui se seguiu, mandarem-se às Minas Gerais as boiadas de Paranaguá, e às do rio das Velhas, as boiadas dos campos da Bahia, e tudo o mais que os moradores imaginaram poderia apetecer-se de qualquer gênero de cousas naturais e industriais, adventícias e próprias.

(Adaptado de André Antonil, Cultura e Opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia-Edusp, 1982, p. 169-171.)

Sobre os efeitos da descoberta das grandes jazidas de metais e pedras preciosas no interior da América portuguesa na formação histórica do centro-sul do Brasil, é correto afirmar que:

a) A demanda do mercado consumidor criado na zona mineradora permitiu a conexão entre diferentes partes da Colônia que até então eram pouco integradas.

b) A partir da criação de rotas de comércio entre os campos do sul da Colônia e a região mineradora, Sorocaba e suas feiras perderam a relevância econômica adquirida no século XVII.

c) O desenvolvimento socioeconômico da região das minas e do centro-sul levou a Coroa a deslocar a capital da Colônia de Salvador para Ouro Preto em 1763.

d) Como o solo da região mineradora era infértil, durante todo o século XVIII sua população importava os produtos alimentares de Portugal ou de outras capitanias.

Gab: A

3- (UEFS BA/2017)    

Integralmente devotada à mineração, pelo menos em seus primórdios, a economia aurífera introduziu dois fenômenos novos e profundamente renovadores no quadro colonial.

(Antônio Barros de Castro. “Sete ensaios sobre a economia brasileira”,
1971. Apud Dea Ribeiro Fenelon (org). 50 textos de história do Brasil, 1986.)

Os “dois fenômenos” mencionados no texto foram:

a) a autonomia plena perante a metrópole e o desenvolvimento de uma agricultura de subsistência.

b) o equilíbrio social entre os grupos presentes na região e o estímulo ao desenvolvimento de novas formas de expressão artística.

c) a vida econômica voltada para o mercado e a população predominantemente distribuída por centros urbanos.

d) o predomínio da mão de obra assalariada sobre a escrava e a fácil obtenção de alforria pelos escravizados.

e) a comunicação fácil com as demais regiões da colônia e o surgimento de uma economia monetarizada.

4- (UECE/2015)    

A descoberta do ouro no interior de Minas deslocou parte da população colonial do litoral para o interior. A região das minas foi ocupada por centenas de novos habitantes que careciam de tudo: alimentos, roupas, gado, cavalos, produtos europeus e muitos escravos para trabalhar nas minas. Atente para o que se diz acerca dessa que ficou conhecida como a “sociedade do ouro”.

I. A base da sociedade mineira eram os africanos escravizados, que constituíam boa parcela dessa sociedade. E, embora não representasse a maioria da população, seu trabalho era fundamental.

II. A atividade mineradora também deu origem a uma camada da sociedade que era extremamente pobre e que tinha sido atraída pela ilusão do ouro; era formada por escravos libertos e brancos pobres.

III. Havia uma camada média, composta principalmente de brancos, que incluía pequenos comerciantes, tropeiros e pequenos produtores de gêneros agrícolas.

Está correto o que se afirma em

a) I, II e III.

b) I e II apenas.

c) II e III apenas.

d) I e III apenas.

Gabarito:

  1. B
  2. A
  3. C
  4. C
Bibliografia:

AZEVEDO, Gislane Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História em movimento. 2ºano. São Paulo: Ática, 2013.

BOULOS, Alfredo. História, sociedade & cidadania: 2º ano. São Paulo: FTD, 2013.

PRIORE, Mary del. Histórias da gente brasileira. Vol. 1: Colônia. São Paulo: LeYa, 2016.

SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: A pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro. Graal, 1982.

VAINFAS, Ronaldo [et al.]. História 2: ensino médio. São Paulo: Saraiva, 2016.

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.

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