Música no Enem – Como a MPB pode ser cobrada na prova de Linguagens

Nesse post você saberá um pouco sobre a presença comum de canções nas provas do Enem. A qualidade poética dos nossos compositores, reconhecida mundialmente, é um ponto importante de nossa literatura moderna.

A qualidade poética da música popular brasileira é presença garantida na prova de Linguagens do Enem! Falar em poesia brasileira nos últimos 100 anos implica rapidamente em citar a relação dessas obras com a música popular. A chamada MPB é reconhecida internacionalmente, e muitos livros e trabalhos acadêmicos já foram escritos sobre ela.

Mas de qual MBP estamos falando? Você deve se perguntar. Pois bem, é justamente sobre essa MPB dos livros e exames vestibulares que você saberá agora.

Contexto Histórico da MPB

No início dos anos 60, o Brasil saía do governo Juscelino Kubitschek, que foi um período de urbanização e modernização dos grandes centros do país, além da criação de outro, o mais moderno até então, a nova capital Brasília. O governo de JK conseguiu imprimir um acelerado desenvolvimento industrial em algumas áreas, mas não pôde resolver o problema da exclusão social na cidade e no campo.

Essas medidas de mudança social iriam compor a base das propostas do Governo de João Goulart. O estado brasileiro estava caminhando para resolver demandas há muito reprimidas, como a reforma agrária. Frente ao perigo que representava aos seus interesses econômicos e políticos, as classes dominantes mais uma vez orquestraram um golpe de Estado, com a deposição pelo exército de João Goulart, em 1964.

Durante os primeiros anos de ditadura militar, houve intensa militância e produção de obras de teor político, até serem violentamente reprimidas pelo AI 5 e a censura prévia, a partir de 68. A partir de então o que se veria era um cenário de perseguição e censura a tudo que fosse considerado contrário ao regime.

Era dos Festivais

É bom dizer que a MPB como a conhecemos hoje começou por volta dos anos 50 com o surgimento da Bossa Nova e da televisão. Mas foi nos anos 60, co a moda dos festivais de música televisionados, que a MPB viveria a sua era de ouro.  Iniciados na extinta TV Excelsior, os festivais passariam a ter verdadeiro destaque com os festivais da Record, a partir de 65, e depois com o Festival Internacional da Canção, na Globo.

Além dos festivais, na Record surgiram os programas Fino da Bossa, apresentado pela cantora Elis Regina, e Jovem Guarda, apresentado pelo cantor Roberto Carlos. A Jovem Guarda, primeiro movimento do Rock Nacional, de Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia, Jorge Ben Jor, Ronnie Von, Wanderléia e outros. Bossa Nova, movimento de renovação do Samba, de Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, Elis Regina, Tom Jobim e outros.

Essa polaridade acabou gerando uma disputa entre um grupo engajado politicamente – a nova geração ligada à Bossa Nova – e um grupo considerado alienado – a jovem guarda – pelo imperialismo cultural norte-americano.

Além desses, surgiram vários outros artistas, que pairavam por mais de um segmento e tendência. A mais significativa delas, o Tropicalismo, seria responsável por romper as fronteiras entre um grupo e outro, radicalizando o uso das tendências modernas e eruditas.

É bom salientar a qualidade poética das obras dessa época, que contavam, ainda, com a presença do poeta e compositor Vinícius de Moraes, um dos grandes nomes do modernismo da segunda geração. Seria o sintoma de uma fecunda reaproximação entre as música e literatura – que são mesmo, na origem, inseparáveis – no Brasil.

Música de protesto

Durante os Festivais da Música Brasileira, o acirramento entre a militância política e a ditadura militar tornou os festivais televisivos, transmitidos por todo o país, em palco de propaganda e disputa política.

O público desses festivais (verdadeiras torcidas organizadas) vaiava ou exaltava ferozmente as apresentações, dificultando a vida de autores e interpretes de canções consideradas “alienadas”, ou seja, que não tratassem da situação político-social do país. Devido à situação política, portanto, temas que não tratassem do contexto nacional não poderiam ficar de fora da temática de artistas que se apresentavam para todo o país.

Geraldo Vandré autor da canção de protesto mais icônica dessa geração – “Pra não dizer que não falei das flores”, foi um dos porta-vozes dessa classe artística engajada, que via por obrigação cívica usar a arte que faziam para realizar ato de resistência e protesto.

Tropicalismo

O Tropicalismo surgiu como movimento a partir de uma crônica feita Nelson Motta, que idealizava uma festa fictícia, chic e cafona,  onde estariam presentes todos os símbolos do nosso subdesenvolvimento. Contudo, foi durante o Festivais de 67, na Record, e o de 68, na Globo, que  Caetano Veloso, Tom Zé, Gilberto Gil, Gal Costa e Cia mostraram a feição musical e definitiva do movimento.

Pautados no Modernismo Nacional, os tropicalista visavam a radicalização da crítica, a carnavalização, a mistura indistinta entre os elementos da baixa e alta cultura brasileiras.

Além da música, o Tropicalismo ganhou adeptos nas artes plásticas – Hélio Oiticica – e na poesia, em publicações já ligadas à Poesia Marginal, como a “Navilouca”, de 1974. É bom notar que a partir desse período, muitos poetas encontraram na música uma forma de propagar a sua arte, acessar o mercado e o público.

A Poesia Marginal, que surgiria concomitante ao Tropicalismo também buscou o happening, experimentalismo das formas, inclusive de divulgação, e o envolvimento intermidiático entre com a indústria musical. Alguns dos seus autores também foram compositores de canções, muitas interpretadas pelos tropicalistas.

O Tropicalismo e a Bossa nova formaram aas bases da MPB atual, e alguns e seus artistas atuam até hoje, como Tom Zé, que em  lançou Tropicália Lixo-lógico”, baseado no movimento, segundo palavras do próprio compositor.

Confira também nossa videoaula sobre música no Enem!

Veja agora algumas questões do Enem envolvendo músicas:

(Enem -2016)
Querido diário

Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho
[…]
Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu
HOLANDA, C. B. Chico. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2013 (fragmento).
Uma característica do gênero diário que aparece na letra
da canção de Chico Buarque é o(a)

a) diálogo com interlocutores próximos.
b) recorrência de verbos no infinitivo
c) predominância de tom poético.
d) uso de rimas na composição.
e) narrativa autoreflexiva.

Resposta: alternativa “e”.

(Enem-2015)
Assum preto
Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil veiz a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

GONZAGA, L.; TEIXEIRA, H. Disponível em: www.luizgonzaga.mus.br.
2015

Cântico VI
Tu tens um medo de
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

MEIRELES, C. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 1963 (fragmento).

A poesia de Cecília Meireles revela concepções sobre o homem em seu aspecto existencial. Em Cântico VI, o eu lírico exorta seu interlocutor a perceber, como inerente à condição humana,

a) a sublimação espiritual graças ao poder de se
emocionar.
b) o desalento irremediável em face do cotidiano
repetitivo.
c) o questionamento cético sobre o rumo das atitudes
humanas.
d) a vontade inconsciente de perpetuar-se em estado
adolescente.
e) um receio ancestral de confrontar a imprevisibilidade
das coisas.

Resposta: alternativa “a”.

(Enem-2015)

Essa pequena
Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela
Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la
Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai
Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

CHICO BUARQUE. Disponível em: www.chicobuarque.com.br. Acesso em: 31 jun. 2012.

O texto Essa pequena registra a expressão subjetiva do enunciador, trabalhada em uma linguagem informal, comum na música popular. Observa-se, como marca da variedade coloquial da linguagem presente no texto, o uso de

a) palavras emprestadas de língua estrangeira, de uso
inusitado no português.
b) expressões populares, que reforçam a proximidade
entre o autor e o leitor.
c) palavras polissêmicas, que geram ambiguidade.
d) formas pronominais em primeira pessoa.

Resposta: Alternativa “b”.

(Enem -2015)

Carta ao Tom 74

Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade,
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo, só resta uma certeza,
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor

MORAES, V.; TOQUINHO. Bossa Nova, sua história, sua gente.
São Paulo: Universal; Philips,1975 (fragmento).
2015

Resposta: alternativa “b”.