Filosofia da Ciência

O que valida a ciência? Qual é papel da Filosofia em pleno século XXI? A Filosofia da Ciência é um dos campos da Filosofia mais recentes e discutidos tanto pelos cientistas quanto pelo Enem.

Antes de entendermos o que é a Filosofia da Ciência, é importante saber que a Filosofia e a Ciência são áreas que partilham muitas características em comum. É corriqueiro encontramos uma se fundamentando na outra. Isto é, usamos a Filosofia para fundamentar a Ciência e usamos a Ciência para pensar Filosofia.

Isto não é nada inédito. Ainda que o surgimento da Ciência Moderna seja algo recente, houve momentos anteriores à Modernidade em que uma relação simbiótica entre essas duas áreas veio a acontecer.

Aristóteles e o início da Ciência

Antes de tudo, vamos voltar um pouco no tempo. Em meados do século V a. C., meu camarada Aristóteles já se dedicava a estudar determinados assuntos com uma metodologia um tanto moderna. Ou seja, com uma metodologia que ganhou destaque durante a Modernidade e hoje se tornou um paradigma da Ciência.

Esse filósofo elaborou uma teoria acerca da origem da vida. Nela, Aristóteles pensava que era possível algo se tornar vivo a partir de algo inanimado, como se fosse possível criar vida a partir do barro. Essa teoria ficou conhecida como abiogênese e perdurou por um tempão. Inclusive, serviu de fundamentação e inspiração para criação dos dogmas do Cristianismo.

filosofia da ciência
Figura 1. Na tirinha de Carlos Ruas o protagonista se depara com uma escolha entre dois caminhos (representados por portas), um é a Ciência e o outro a Religião. Ao escolher o caminho da Ciência cada porta que ele abre leva a mais portas, até o empasse de um número absurdo de portas. Transtornado ele retorna ao principio e escolhe o caminho da Religião. Neste caminho há apenas um “deus” e, segundo ele, ele próprio é resposta para tudo.

Um outro exemplo dessa relação Filosófico-Cientifica envolvendo Aristóteles se deu na pioneira divisão e classificação do reino animal. Tal metodologia ainda hoje é utilizada nos estudos da Biologia.

A distante proximidade entre Filosofia e Ciência

Além das teorias de Aristóteles, existem diversas outras áreas da Ciência que têm suas origens na Filosofia. Elas contam com importantes filósofos como seus ilustres expoentes. Exemplos: Pitágoras e Tales e seus respectivos teoremas, René Descartes e seu plano cartesiano, além de muitos outros.

Sendo assim, toda essa introdução filosófica foi fundamental para o desenvolvimento científico. Todavia, é estranhamente comum ouvir pessoas dizendo que não existe relação entre Filosofia e Ciência. Ou então, chegando a discursos absurdos (até mesmo por partes de políticos) que afirmam que a Filosofia é uma perda tempo e devemos priorizar a engenharia ou a medicina.

O que essa galera megalomaníaca esquece é que não existiria a Ciência tal qual temos hoje sem a Filosofia. Ora, os feitos de Aristóteles evidenciam que certas áreas hoje categorizadas como Ciência foram, inicialmente, pensadas pela Filosofia. Podemos pegar a Física como outro exemplo. Antes, os assuntos tratados por esse ramo da Ciência eram enquadrados dentro da Filosofia Natural.

contribuição da filosofia para a ciência
Figura 2. Na imagem o mestre Splinter de TMNT (Tartarugas Ninja) ainda jovem representa a Filosofia, conduzindo as tartarugas ainda crianças representando a Ciência Moderna. Abaixo, a imagem se inverte, as tartarugas já adultas conduzem o mestre Splinter já velho.

A Filosofia também traz contribuições materiais

Os discursos que contrapõem Ciência a Filosofia parecem ser frutos de uma visão bastante limitada do mundo. Isso porque demonstram uma incapacidade de perceber os elementos que constituem a realidade a nossa volta.

Ainda assim, podemos compreender a origem desses discursos. Olhando superficialmente, há uma certa concretude na Ciência, mas não na Filosofia. Isso faz com que a Ciência pareça a única capaz de resolver os problemas do mundo real e a Filosofia, por outro lado, incapaz de tal proeza.

Porém, não é esse o caso, mesmo que, para cada problema mundano solucionado pela Filosofia, tenha-se criado uns dez outros. Sendo assim, devemos analisar esse pretenso dilema com mais consciência histórica e com uma visão mais profunda sobre o assunto.

Para aqueles que se iludem pensando que a Filosofia não possui nada material para acrescentar, olhe além do perceptível pelos seus sentidos. Olhe para as coisas que compõe aquilo que você consegue tocar. Quando a missão Cassini (que revolucionou os conhecimentos sobre Saturno) ocorreu, por exemplo, foram os escritos filosóficos de Albert Einstein que a tornaram possível.

Agora, se você ainda acha tudo isso pouco concreto, imagine que para seu smartphone funcionar, foi necessário um a criação de um programa. Esse, por sua vez, precisou de uma linguagem. E essa linguagem foi formulada a partir da Lógica, metodologia elaborada por Aristóteles.

Enfim, embora exista uma inexorável proximidade entre a Filosofia e a Ciência, há uma sensação de que existe uma oposição entre elas. Essa sensação é criada, geralmente, por forças que não fazem parte nem da Filosofia, nem da Ciência. Isso um antagonismo falacioso daquilo que deveria ser parte de um todo.

Filosofia da Ciência e suas contribuições

Extrapolando a análise das relações históricas entre a Filosofia e a Ciência, resta falar da Filosofia da Ciência e sua atuação. Durante a revolução industrial, foi necessário ampliar a nossa compreensão do mundo. Para isso acontecer, foi necessário compreender os limites daquilo que podemos conhecer.

Concomitante ao surgimento da Filosofia da Ciência, também emergiu a Teoria do Conhecimento. Essa área serviu de base para elaboração das teorias filosóficas que aplicamos ainda hoje na formulação de paradigmas e na comprovação de teorias científicas.

filosofia e ciência tirinha
Figura 3. Na imagem Rogério, um pato retratado como intelectual, dita uma série de enunciados científicos comprovados em provocação as ideias não cientificas, tais como: Astrologia é uma fraude / A homeopatia é placebo / Os desastres naturais não são castigos divinos / As vacinas não causam autismo / A evolução é real.

Essa validação das teorias científicas é um dos eixos centrais da Filosofia da Ciência. Isso porque, para formular-se uma teoria, é necessário uma metodologia. Além disso, é necessário a validação da própria metodologia. Por fim, nem sempre uma teoria científica pode levar à uma melhora na condição humana, tampouco ela pode ser validada a partir de uma pretensa melhora.

Método Indutivo na Ciência

Filósofos como o inglês Francis Bacon foram responsáveis por verdadeiras revoluções científicas. Sendo um dos principais expoentes da Filosofia da Ciência, Bacon foi responsável pela aplicação do Método Indutivo na Ciência.

O método indutivo é aquele que utiliza um conjunto de fatos particulares para deduzir uma conclusão universal. De maneira bem simplória, imagine que você está descobrindo uma nova criatura, o Saci por exemplo. Você passa dias observando e consegue ver alguns Sacis. Mesmo que você não tenha visto todos e nem saiba quantos existam, foi possível, a partir da amostragem observada, chegar a algumas conclusões.

Embora você não conheça todos os Sacis do mundo, é universalmente aceito, a partir das observações de alguns poucos Sacis em particular, que o Saci é um indivíduo negro, do gênero masculino, que possui apenas uma perna. Assim se configura, salvo a simplicidade do argumento, o método indutivo.

Dica: Além das contribuições metodológicas de Bacon, houveram também Descartes, Galileu Galilei, Isaac Newton e muitos outros filósofos.

Rejeição ao Método Indutivo

Talvez, o nome mais recente a abalar as fundamentações da Ciência e da Filosofia foi o austríaco Karl Popper. Meu camarada Popper foi um grande crítico do método indutivo. Ele alegava que este método não garantia a veracidade das coisas. Para isso, ele se baseou na impossibilidade de conhecimento de todos os particulares. Ou seja, e se houver um Saci albino, ou mesmo um Saci com ambas as pernas?

Além disso, nem mesmo a A.N.C.S. (Associação Nacional dos Criadores de Saci) é capaz de conhecer todos os Sacis que habitam esse planeta. Isto é, é impossível conhecer todos os particulares. Não podemos inferir então que todos sejam da maneira que os concebemos. Isso porque, havendo um só que seja diferente, nossa teoria científica ficaria arruinada.

filosofia da ciência - tirinha
Figura 4. Na tirinha, é dada a uma das personagens um cubo grande representando a Ciência, ela pega o cubo e passa-o por um funil reduzindo ela a um pequenino cubo, representando as crenças. * A Ciência – bem como a Filosofia – busca entender o mundo de maneira racional, ao passo que não é possível acreditar apenas no que se convém, visto que essas disciplinas não têm quaisquer vínculos com a crença, pelo contrário, a combatem.

Por fim, Popper falava que o papel da Ciência é falsear e não induzir. Ao contrário do proposto por Bacon, ele pensava que deveríamos partir dos universais e tentar falsear essas universalidades afim de verificar os particulares.

Proximidades entre Filosofia e Ciência

Portanto, a Filosofia da Ciência é a área da Filosofia responsável pelo questionamento, pela validação daquilo que a Ciência diz ser verdadeiro. Ao passo que a Ciência se ocupa das particularidades das coisas, a Filosofia se atém aos problemas mais gerais em relação a elas. Assim sendo, essas áreas, longe de serem contraditórias, são parte da mesma busca por uma só coisa: o conhecimento. Inclusive, Filosofia vem do Grego Sophos, Sabedoria e Ciência vem do Latim Scientia, Sabedoria.

Ah! Se você ficou curioso com a história do Saci, tenho um alento para sua curiosidade. O presidente da A.N.C.S. explica certinho essa parada de criar Saci nessa entrevista do Programa do Jô.

Por fim, para finalizar essa aula, veja a videoaula do professor Alan para o nosso canal no YouTube, o Curso Enem Gratuito:

Em seguida, resolva os exercícios abaixo separados para você:
01. (Unesp)

Se me mostrarem um único ser vivo que não tenha ancestral, minha teoria poderá ser enterrada.

(Charles Darwin)

Sobre essa frase, afirmou-se que:

I. Contrapõe-se ao criacionismo religioso.

II. Contrapõe-se ao essencialismo de Platão, segundo o qual todas as espécies têm uma essência fixa e eterna.

III. Sugere uma possibilidade que, se comprovada, poderia refutar a hipótese evolutiva darwiniana.

IV. Propõe que as espécies atuais evoluíram a partir da modificação de espécies ancestrais, não aparentadas entre si.

V. Nega a existência de espécies extintas, que não deixaram descendentes.

É correto o que se afirmar em

a) IV, apenas.

b) II e III, apenas.

c) III e IV, apenas.

d) I, II e III, apenas.

e) I, II, III, IV e V.

02. (Enem PPL 2012)

Assentado, portanto, que a Escritura, em muitas passagens, não apenas admite, mas necessita de exposições diferentes do significado aparente das palavras, parece-me que, nas discussões naturais, deveria ser deixada em último lugar.

GALILEI, G. Carta a Benedetto Castelli. In: Ciência e fé: cartas de Galileu sobre o acordo do sistema copernicano com a Bíblia. São Paulo: Unesp, 2009. (adaptado)

O texto, extraído da carta escrita por Galileu (1564-1642) cerca de trinta anos antes de sua condenação pelo Tribunal do Santo Oficio, discute a relação entre ciência e fé, problemática cara no século XVII. A declaração de Galileu defende que

a) a bíblia, por registrar literalmente a palavra divina, apresenta a verdade dos fatos naturais, tornando-se guia para a ciência.

b) o significado aparente daquilo que é lido acerca da natureza na bíblia constitui uma referência primeira.

c) as diferentes exposições quanto ao significado das palavras bíblicas devem evitar confrontos com os dogmas da Igreja.

d) a bíblia deve receber uma interpretação literal porque, desse modo, não será desviada a verdade natural.

e) os intérpretes precisam propor, para as passagens bíblicas, sentidos que ultrapassem o significado imediato das palavras.

03. (Ufsm 2015) Há diversos indícios empíricos da evolução das espécies. Alguns desses indícios são conhecidos desde Darwin, tais como o registro fóssil, as variações entre indivíduos de uma mesma espécie e a distribuição geográfica das espécies. Outros indícios provêm de estudos mais recentes, notadamente em genética. O conjunto desses indícios torna a teoria da evolução mais provavelmente verdadeira que qualquer outra hipótese alternativa. Essa inferência, em que se parte de indícios empíricos e se conclui com teorias ou enunciados gerais, é comumente chamada de inferência

a) lógica

b) dedutiva

c) analógica

d) indutiva

e) biológica

Gabarito: 1.D; 2. E; 3. D.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva

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