Formação das Monarquias Nacionais – Raízes do Absolutismo

Os reis, que durante boa parte da idade média não reinavam sobre toda a Europa, agora subjugam os outros nobres e a igreja ao seu poder. Saiba mais sobre essa guerra de tronos aqui no Curso Enem Gratuito.

Vamos começar falando sobre o cenário por trás da formação das Monarquias Nacionais: a Europa ocidental nos últimos séculos da idade média. A guerra, a fome e a peste provocaram uma expressiva diminuição da população do continente no século XIV.

Os feudos já não eram mais tão habitados como anos atrás. E o comércio já estava ganhando mais destaque que outras atividades. A burguesia, que na pirâmide social pertencia ao povo (pois não tinha título ou linhagem de nobreza), enriquecia com as rotas de comércio estabelecidas após as cruzadas e continuavam buscando mais poder.

Este cenário provocou uma mudança nas relações de poder, possibilitando surgir o que chamamos de Estados nacionais, Absolutismo monárquico e monarquias nacionais. A Europa que surgia para a modernidade tinha fronteiras bem diferentes das que conhecemos hoje. Vamos dar uma olhada:

mapa da idade media aula de monarquias nacionais
Figura 1: Mapa da idade média antes das monarquias nacionais. Retirado de: http://radiomaffei.blogspot.com/2017/05/mapas-da-idade-media-periodo-feudal.html Marcadores: Idade Média, Mapa, Reinos.

 

Podemos ver no mapa acima que o continente estava dividido entre os reis de descendência germânica que precisaram fazer alianças com as autoridades cristãs (bispos e papa) para ter maior capacidade de governar. Contudo, estes reis ainda não tinham controle absoluto sobre todo o seu território. Isso porque este território era disputado também por senhores feudais e outros nobres (príncipes, condes, duques, entre outros).

Os reis só irão ganhar proeminência sobre estas outras autoridades na última metade da idade média, quando irão estabelecer alianças com a burguesia, que como vimos, estava ascendendo vertiginosamente com o renascimento comercial urbano e as cruzadas.

Mas que tipo de aliança foi estabelecida entre eles para garantir as monarquias nacionais? O que os reis e a burguesia passariam a ganhar nesta parceria? A resposta é poder e lucro, respectivamente.

Aproveitando o desgaste dos senhores feudais após as cruzadas, os reis europeus aproveitaram para subjugar (dominar) os outros nobres que disputavam autoridade com eles. Porém, para botar em prática este plano, necessitavam de recursos para conseguir soldados e armá-los.

Nesta etapa do financiamento é que entra a burguesia. Estes comerciantes, que muitas vezes viajavam entre os domínios dos nobres, viam sua atividade limitada pelos diferentes impostos que tinham de pagar, pelos diferentes tipos de moeda e pelos diferentes tipos de pesos e medidas.

Tendo um território unificado com as monarquias nacionais não precisariam trocar de moedas, pagariam menos impostos e utilizariam os mesmos parâmetros para vender seus produtos. O rei também ganharia com maior arrecadação de impostos e mais homens e terras sobre seu poder.

Aprenda mais sobre a formação dos Estados Modernos nesta aula:

Com esta ampliação de poder, os monarcas precisavam justificar sua autoridade. Neste momento entram diferentes teorias para explicar tal dominação, dentre elas as de Thomas Hobbes, Nicolau Maquiavel e Jacques Bossuet e Jean Bodin.

Nicolau Maquiavel (1469-1527)

Antigo secretário da República Florentina, na península Itálica, Maquiavel é demitido, preso e torturado pelos Médici, após estes tomarem o poder de Florença. Como forma de tentar recuperar algum benefício em relação à nova autoridade, ele irá escrever um livro chamado “O Príncipe”, que dará a Lorenzo de Médici.

Esta obra é, basicamente, um manual sobre a melhor forma de um príncipe governar (ou se manter no poder), baseado na experiência de Maquiavel ao conviver com muitos governantes. Um de seus conselhos centrais nesta obra é melhor ser temido do que amado, mas nunca odiado pelos seus súditos.

Thomas Hobbes (1588-1679)

Nascido na Inglaterra irá justificar a existência do Estado, na obra Leviatã, como uma ferramenta que irá limitar o instinto de guerra que há entre os homens. Se deixados a sua vontade eles iriam destruir-se uns aos outros, o que é traduzido na sua expressão “o homem é o lobo do homem”.

Jacques Bossuet (1627-1704) e Jean Bodin (1530-1596):

Estes filósofos reforçam a teoria do direito divino dos reis. Esta doutrina justificava a autoridade dos reis por um argumento divino, afirmando que os monarcas eram representantes da vontade de Deus para o governo dos homens.

A partir desta ótica, desobedecer aos reis era desobedecer diretamente o criador. Em um tempo em que a igreja tinha poder político muito maior e que o pensamento religioso era muito mais influente nas pessoas, essa teoria era muito forte.

monarquias nacionais e rei sol
Detalhe do quadro que representa Luís XIV, o rei sol. Imagem retirada de: https://istoe.com.br/79767_NA+CAMA+COM+O+REI+SOL/ Marcadores: Estado nacional, Estado moderno, Absolutismo.

 

A monarquia passa, com os Estados nacionais, a ser absolutista. Isto significa que ninguém tem maior autoridade que o rei no mundo dos homens. A igreja sofrerá com perda de poderes e terras, principalmente em virtude das reformas religiosas, mas ainda é o papa quem irá chancelar o casamento entre monarcas. Aliás, o casamento será, para além das guerras, uma forma de manter e ampliar domínios.

Principais Monarquias Nacionais

Monarquia em Portugal

Portugal irá inaugurar a unificação do território e o surgimento dos Estados nacionais mais de cem anos antes da expulsão dos árabes na guerra de Reconquista, em 1139. Mas o absolutismo só veio de fato em 1383, com a Revolução de Avis, quando D. João, mestre da ordem de Avis, garantiu o trono com apoio da nobreza e da burguesia. Essa centralização do poder acabou guiando Portugal como pioneiro na expansão marítima.

Monarquia na Espanha

Na Espanha, a unificação territorial acontecerá através do casamento de Fernando de Aragão com Isabel de Castela. Esta união entre reinos irá acabar de vez com o controle árabe na península ibérica e garantirá a coroa espanhola os reinos de Leão, Navarra e Granada. Com esta centralização, a Espanha irá se lançar também ao mar em direção ao Oeste, diferentemente de Portugal, que irá dominar as rotas pelo litoral africano.

Monarquia na França

A França só irá poder consolidar seu Estado nacional quando saí vitoriosa da Guerra dos Cem Anos, contra a Inglaterra. É do auge do seu absolutismo que conhecemos a célebre frase de Luís XIV, o “rei sol”: “O Estado sou eu”.

Ele também ficará conhecido pela construção do Palácio de Versalhes, onde irá abrigar a nobreza que o cercava. Menos de um século após a morte do rei sol, a população francesa irá marchar até este mesmo palácio exigindo o retorno de Luís XVI à Paris para assinar a primeira constituição da França, acabando com o absolutismo.

Monarquia na Inglaterra

Na Inglaterra, após a Guerra dos Cem Anos, inicia-se a disputa pelo poder entre a nobreza derrotada. Instaura-se uma nova batalha, a Guerra das duas Rosas, entre os Lancaster e os York. Os primeiros tinham em seu brasão uma rosa vermelha, e os segundos uma rosa branca, o que dá origem ao nome do conflito.

Após sucessivas batalhas entre as famílias e seus aliados (nobres e burgueses), a guerra encontra fim com o casamento de Henrique Tudor, apoiado pelos Lancaster, com Elizabeth de York. Assim nasce o absolutismo inglês, que irá cair com a Revolução Gloriosa, em 1689, um século antes da Revolução Francesa.

Saiba mais sobre A Guerra das Duas Rosas nesta aula:

Para finalizar, sua revisão, que tal testar seus conhecimentos?

Questão 01 – (IFBA/2019)

A Idade Moderna entre os séculos XV e XVIII foi um período de intensas mudanças sociais, políticas, econômicas, geográficas e culturais entre outras mudanças, entre as quais podemos ressaltar:

a) Na Idade Moderna, em razão do absolutismo dos reis, foi desenvolvida e implantada a cultura da tolerância religiosa, sobretudo entre católicos e luteranos após 1517.

b) A sociedade de Antigo Regime da Idade Moderna tinha como característica a igualdade perante a lei, fruto da Sociedade de Corte.

c) A expansão marítima, comercial e militar organizada pelos países europeus desenvolveu na América uma sociedade com base no trabalho livre e na liberdade comercial.

d) A Revolução Industrial, no século XVI, constituiu uma sociedade dividida entre capital e trabalho.

e) A formação do Estado Moderno constituindo o território mais ou menos centralizado, como foi o caso de Portugal e da Espanha.

Gab: E

Questão 02 – (UNIPAR PR/2002)

“A Guerra das Duas Rosas (1455-85) representou para a aristocracia proprietária de terras, mais do que uma catástrofe natural, uma catástrofe social, um derramamento de sangue que muito a enfraqueceu…”

Uma das conseqüências da Guerra das Rosas na Inglaterra foi:

a) a ascensão da Dinastia Tudor que irá comandar o processo de formação da monarquia nacional centralizada submetendo a nobreza feudal enfraquecida diante do longo período de combates.

b) a disseminação da Peste Negra que foi facilitada pelas condições de pobreza ocasionadas pelas guerras e a desestruturação da produção agrícola.

c) a aproximação da Inglaterra com a Igreja Católica como único meio superar as divergências internas e a crise econômica.

d) o enfraquecimento do incipiente capitalismo inglês diante do colapso da produção de lã empobrecendo a classe dos proprietários e dos comerciantes.

e) a invasão estrangeira e o domínio de grande parte do território pelo Exército Real francês.

Gab: A

Questão 03 – (UNESP SP/2017)

Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se combater: uma, pelas leis, outra, pela força. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vezes a primeira não seja suficiente, é preciso recorrer à segunda. Ao príncipe torna-se necessário, porém, saber empregar convenientemente o animal e o homem. […] Nas ações de todos os homens, máxime dos príncipes, onde não há tribunal para que recorrer, o que importa é o êxito bom ou mau. Procure, pois, um príncipe, vencer e conservar o Estado.

(Nicolau Maquiavel. O príncipe, 1983.)

O texto, escrito por volta de 1513, em pleno período do Renascimento italiano, orienta o governante a

a) defender a fé e honrar os valores morais e sagrados.

b) valorizar e priorizar as ações armadas em detrimento do respeito às leis.

c) basear suas decisões na razão e nos princípios éticos.

d) comportar-se e tomar suas decisões conforme a circunstância política.

e) agir de forma a sempre proteger e beneficiar os governados.

Gab: D

 

Sobre o(a) autor(a):

Os textos acima foram preparados pelo professor Angelo Antônio de Aguiar. Angelo é graduado em história pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestrando em ensino de história na mesma instituição e dá aulas de história na Grande Florianópolis desde 2016.