A Poesia da Segunda Fase do Modernismo Brasileiro

Revise o panorama histórico e o contexto de produção da poesia da Segunda Fase Modernista. Vale lembrar que é um período de poetas e poetisas brilhantes, como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. E nem precisamos dizer que é um dos conteúdos mais privilegiados no Enem: toda edição, a prova de Linguagens utiliza um desses escritores em suas questões! Bora estudar?

Nesta aula de Literatura você vai conhecer os principais aspectos referentes ao panorama histórico e ao contexto de produção da poesia modernista na sua Segunda fase (1930-1945). Trata-se de uma fase de fixação, aprofundamento e maturação das concepções teóricas e temáticas do Modernismo, onde o projeto ideológico estará sobreposto ao projeto estético. Como o referido período literário é muito rico, com muitos autores e obras, o presente texto tematizará somente a poesia produzida à época.

Contexto histórico da Poesia Modernista

A Quebra da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, provocou uma série de eventos econômicos e sociais conhecida como a Grande Depressão.

crise de 29
A crise ocasionada pela Quebra da Bolsa de Nova Iorque foi a maior de toda a história do país

Nas décadas seguintes, o mundo vivenciaria ainda a Segunda Guerra Mundial. Sendo a grande guerra mais um momento da história que alteraria, de forma definitiva, os paradigmas ideológicos, sociais e econômicos ao redor do globo. Junto a essa mudança de paradigmas, a ascensão de governos ditatoriais ao poder começou a vigorar em diversos países.

hitler e mussolini
Adolf Hitler e Benito Mussolini: governos totalitários e pivôs da Segunda Guerra Mundial

No Brasil, a Revolução de 1930 conduziu Getúlio Vargas ao governo nacional. Em sua gestão, então provisória, Vargas passou a incentivar a franca industrialização do país, alavancada pela gradativa substituição do subsídio inglês pelo dos Estados Unidos.

Marcada por medidas notavelmente autoritárias, a política Vargas provocou insatisfação em diversos grupos sociais. Os paulistas levaram esse descontentamento a termo, insurgindo-se contra o governo provisório de Getúlio em 1932. Ocorreu, então, a Revolução Constitucionalista de 9 de julho.

Na tentativa de evitar novas revoltas, Vargas promulgou a Constituição Brasileira de 1934. Tal feito foi acompanhado de sua eleição, por parte do Congresso, ao posto de presidente da República.

getúlio vargas e sua comitiva
Getúlio Vargas, no centro da imagem e no meio do povo, acompanhado de sua comitiva, em 1930

Em 1937, Vargas instaurou o Estado Novo, por meio de um Golpe de Estado, e passou a conduzir o país por regime totalitário. Em 1941, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, prestando apoio aos Estados Unidos da América.

soldados brasileiros na segunda guerra
Os soldados brasileiros, na Segunda Guerra Mundial, que ficaram conhecidos como “pracinhas”

No ano de 1945, que marcou o fim do conflito, Getúlio Vargas foi deposto pelas Forças Armadas. Seu governo ditatorial chegou ao fim com a eleição do general Eurico Gaspar Dutra para presidente da República.

Segunda fase Modernista

É nesse cenário que se desenvolveu a literatura da Segunda Fase Modernista no Brasil (1930-1945). Após o momento de explosão do ideário modernista proposto na década de 1920, houve a fixação e a maturação das concepções teóricas e temáticas do Modernismo.

A necessidade de pensar a terra natal, expressa pelos modernistas da Primeira Fase no resgate folclórico, por exemplo, agora é voltada à exploração de ambientes geográficos específicos do território nacional. Literatos e intelectuais dirigem suas atenções para o ambiente rural, marcado pelo êxodo gradativo de boa parte da população para as grandes cidades, em busca de melhores condições de vida, em decorrência das secas.

No mesmo sentido, nas diversas regiões do país serão feitos esforços para explorar o que houver de peculiar e distinto, sobretudo social e historicamente. O regionalismo torna-se, então, um dos núcleos temáticos mais caros a Segunda Fase do Modernismo.

Alguns historiadores da literatura entendem que essa fase concentra os esforços na tentativa de construção de novas estéticas e ideologias, em oposição às práticas iconoclastas da Primeira Geração. Para outros, o grupo de literatos da Segunda Fase do Modernismo será ainda chamado de Geração de 30.

Temas na poesia modernista

Abandonando o experimentalismo radical, a poesia modernista desse período não tem como intenção causar choque ou romper paradigmas. No entanto, a exploração da linguagem coloquial, do verso livre, das variantes linguísticas regionais e sociais, exaltada pelo Modernismo de 22, continuará em foco.

Inclusive, a reflexão sobre o fenômeno linguístico será uma das preocupações dos escritores da Segunda Fase do Modernismo Brasileiro. Surge daí uma série de poemas metalinguísticos, cuja matéria será o fazer poético em si, a língua, ou a poesia.

No âmbito temático, os poetas da Segunda Fase passaram a questionar a realidade, tanto psíquica quanto social, do indivíduo de seu tempo. Essa preocupação com o refletir a condição humana dará origem a duas vertentes poéticas centrais: uma mais existencialista, outra politizada.

Ao lado desses dois núcleos temáticos da poesia modernista, surge também uma poesia espiritualizada, muitas vezes marcadas por tendências religiosas. Trata-se, provavelmente, de uma reação à poesia materialista da Primeira Fase do Modernismo ou mesmo à brutalidade com que a realidade social imediata é representada no romance de 30.

A prosa do período é dotada de um enfoque acentuadamente documental. Seus autores procuraram tecer um retrato da realidade brasileira, sobretudo sob o aspecto social, ao focalizar a experiência de vida dos retirantes nordestinos. O êxodo rural e a decadência das fazendas, base da economia agrária, são refletidos na literatura do período.

Regiões distantes dos grandes centros urbanos da época tornaram-se o centro de atenção dos escritores. É o caso do Nordeste brasileiro, com a seca e os flagelos dela decorrentes dela decorrentes. No mesmo sentido, constituem motivo literário usual na época o interior da Bahia, com a decadência dos engenhos de cana-de-açúcar e das terras do cacau.

Principais autores da poesia modernista da Segunda Geração Brasileira:

Drummond e sua poesia modernista
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 

Cecília retrato e sua poesia modernista

Cecília Meireles (1901-1964)

Murilo Mendes retrato

Murilo Mendes (1901-1975)

Jorge de Lima modernista
Jorge de Lima (1893-1953)

 

Vinicius de Morais
Vinicius de Moraes (1913-1980)

 

Mario Quintana e sua poesia modernista
Mário Quintana (1906-1994)
Questões sobre a Poesia Modernista da Segunda Fase do Modernismo Brasileiro

Questão 1(Enem-2001)

Murilo Mendes, em um de seus poemas, dialoga com a carta de Pero Vaz de Caminha:

“A terra é mui graciosa,

Tão fértil eu nunca vi.

A gente vai passear,

No chão espeta um caniço,

No dia seguinte nasce

Bengala de castão de oiro.

Tem goiabas, melancias,

Banana que nem chuchu.

Quanto aos bichos, tem-nos muito,

De plumagens mui vistosas.

Tem macaco até demais

Diamantes tem à vontade

Esmeralda é para os trouxas.

Reforçai, Senhor, a arca,

Cruzados não faltarão,

Vossa perna encanareis,

Salvo o devido respeito.

Ficarei muito saudoso

Se for embora daqui”.

MENDES, Murilo. Murilo Mendes — poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Arcaísmos e termos coloquiais misturam-se nesse poema, criando um efeito de contraste, como ocorre em:

a) A terra é mui graciosa / Tem macaco até demais

b) Salvo o devido respeito / Reforçai, Senhor, a arca

c) A gente vai passear / Ficarei muito saudoso

d) De plumagens mui vistosas / Bengala de castão de oiro

e) No chão espeta um caniço / Diamantes tem à vontade

Resposta correta: A.

Questão 2 (Enem-2012)

Ai, palavras, ai, palavras

que estranha potência a vossa!

Todo o sentido da vida

principia a vossa porta:

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,

ai! Com letras se elabora…

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil, como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam…

MEIRELES, C. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985 (fragmento).

O fragmento destacado foi transcrito do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Centralizada no episódio histórico da Inconfidência Mineira, a obra, no entanto, elabora uma reflexão mais ampla sobre a seguinte relação entre o homem e a linguagem:

a) A força e a resistência humanas superam os danos provocados pelo poder corrosivo das palavras.

b) As relações humanas, em suas múltiplas esferas, têm seu equilíbrio vinculado ao significado das palavras.

c) O significado dos nomes não expressa de forma justa e completa a grandeza da luta do homem pela vida.

d) Renovando o significado das palavras, o tempo permite às gerações perpetuar seus valores e suas crenças.

e) Como produto da criatividade humana, a linguagem tem seu alcance limitado pelas intenções e gestos.

Resposta correta: b.

Questão 3 (Enem-2009)

Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.

Principalmente nasci em Itabira.

Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas.

E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,

vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,

é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:

esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,

este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;

este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;

este orgulho, esta cabeça baixa…

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.

Hoje sou funcionário público.

Itabira é apenas uma fotografia na parede.

Mas como dói!

ANDRADE, C. D. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

Carlos Drummond de Andrade é um dos expoentes do movimento modernista brasileiro. Com seus poemas, penetrou fundo na alma do Brasil e trabalhou poeticamente as inquietudes e os dilemas humanos. Sua poesia é feita de uma relação tensa entre o universal e o particular, como se percebe claramente na construção do poema Confidência do Itabirano. Tendo em vista os procedimentos de construção do texto literário e as concepções artísticas modernistas, conclui-se que o poema acima:

a) representa a fase heroica do modernismo, devido ao tom contestatório e à utilização de expressões e usos linguísticos típicos da oralidade.

b) apresenta uma característica importante do gênero lírico, que é a apresentação objetiva de fatos e dados históricos.

c) evidencia uma tensão histórica entre o “eu” e a sua comunidade, por intermédio de imagens que representam a forma como a sociedade e o mundo colaboram para a constituição do indivíduo.

d) critica, por meio de um discurso irônico, a posição de inutilidade do poeta e da poesia em comparação com as prendas resgatadas de Itabira.

e) apresenta influências românticas, uma vez que trata da individualidade, da saudade da infância e do amor pela terra natal, por meio de recursos retóricos pomposos.

Resposta correta: c.

Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.