Características do relato pessoal como gênero textual

O relato pessoal é um gênero discursivo que tem uma narração sobre um fato específico da vida de uma pessoa. Aprenda a sua finalidade e suas principais características

O que é relato pessoal

Eu duvido que você, adorável estudante, nunca parou o que estava fazendo para contar alguma coisa a alguém. Como foi o primeiro dia de aula, o show daquela banda massa ou o último episódio da série que todo mundo está assistindo. São várias as circunstâncias em que fazemos um relato pessoal de um acontecimento para alguém.

Veja um exemplo de relato pessoal neste vídeo em que Ariano Suassuna, importante autor brasileiro, conta sobre  um jantar e arranca risos dos ouvintes.

Antes que você corra para o final desta revisão, já deixo avisado que eu também não sei o que é “Sound Boris Volcane”, portanto, essa resposta, não teremos aqui. Mas, sobre relato pessoal…

O vídeo que você acabou de ver traz o escritor Suassuna relatando algumas situações que ocorreram durante um bate-papo em um jantar. No começo, podemos até achar graça, porém, ao final, Ariano usou da situação – que parecia embaraçosa, segundo o relato – para nos deixar uma reflexão.

Relato pessoal, como o utilizado por Ariano, é um gênero discursivo no qual são apresentadas as informações básicas – os fatos – referentes a um acontecimento particular. A principal finalidade do relato, seja oral ou escrito, é narrar para o leitor/ouvinte uma sequência de acontecimentos. Sendo assim, os relatos têm como foco as ações.

Como principal finalidade dos relatos é trazer uma sequência de acontecimentos, a articulação dos fatos a serem contados é muito importante.

Mais interessante é pensar que esse é um gênero discursivo que acompanha o surgimento e a evolução da própria linguagem. Claro, pois sabemos que a necessidade que o ser humano tem de “contar as coisas” é diretamente ligada à interação entre as pessoas. Por isso, os relatos pessoais acontecem tanto de maneira oral como escrita.

Onde os relatos pessoais estão presentes

Bem diferente da maioria dos gêneros discursivos, os relatos podem ocorrer em muitos contextos bem distintos. Isso acontece porque é possível recorrer a esse gênero todas as vezes que alguém tem a necessidade de apresentar uma sequência específica de fatos, associados a uma situação específica.

E, não podemos nos esquecer dos famosos “causos”, em que as pessoas se reúnem para ouvir e fazer relatos. Muito comuns em pequenas cidades do interior, essas situações se caracterizam pela presença de alguns contadores de causos. São homens e mulheres que possuem uma grande habilidade em contar histórias.

Rolando Boldrin, ator, compositor e cantor, é, também, conhecido como um excelente contador de causo. Veja esse vídeo que, assim como muitos, ele exalta a inteligência do caipira.

Como na vida nem tudo são flores, também é muito comum encontrarmos trechos narrativos com características de relato pessoal associado a outros gêneros discursivos. Um exemplo, infelizmente muito corriqueiro em uma sociedade como a nossa, é o boletim de ocorrência, famoso B.O.

Cada vez que um crime acontece, os investigadores coletam o relato das vítimas, registrando, no boletim de ocorrência, tudo o que aconteceu sob a visão de quem relata.

Em algumas situações, em acidentes de carro, por exemplo, existem relatos pessoais conflitantes. Por isso, os policiais são obrigados a comparar versões e decidir, com base em outras informações (análise dos veículos e do local do acidente), qual reconstrução dos acontecimentos é verdadeira.

Nos romances e nos contos, é muito comum percebemos a presença de relatos pessoais. Isso ocorre porque ao recriar situações de interação entre pessoas, os narradores trazem personagens que, enquanto conversam, relatam fatos.

Persépolis - relato pessoal
Persépolis, livro de Marjane Satrapi,é um exemplo de obra literária em forma de relato pessoal.

Para quem se relata

Quando se trata de relatos pessoais orais, sempre terá um interlocutor específico para quem os fatos são relatados. É possível, então, fazer uma “imagem” mais precisa desse interlocutor – ou interlocutores. Assim, também é possível escolher melhor as informações para serem apresentadas e o nível de formalidade a ser adotado no uso da linguagem.

Um relato que faça parte de um boletim de ocorrência, por exemplo, como já citamos, contará com interlocutores de perfil muito específico. Serão os policiais que investigarão o ocorrido que deu origem ao relato.

Ficou fácil perceber que, nesses termos, os acontecimentos devem ser apresentados de maneira claro e coerente, para que os investigadores contem com os dados necessários para começarem a agir.

O uso da linguagem oral, no momento de fazer o relato, provavelmente será marcado por uma maior formalidade.

Uma situação completamente diferente seria a de um relato feito para amigos, concorda, estudante? Claro que grau de formalidade, nesse contexto, é sempre menor, porque sabemos bem o perfil dos nossos interlocutores por termos uma certa intimidade.

Se a opção for por um relato escrito, a imagem desse interlocutor específico é difícil de ser imaginada, pois dependerá muito do contexto em que o relato deva ocorrer.

Pense comigo: um relato voltado para um público que deseja saber sobre sua banda preferida deve ter uma escrita bem diferente de quem deseja saber sobre política ou finanças.

Como fazer um relato pessoal

Como outros gêneros do discurso, o relato não tem uma estrutura fixa. Mas para se produzir um relato pessoal é bem importante focar em alguns pontos, por exemplo:

  • Quem? (narrador que conta o relato).
  • O quê? (fato para ser contado; narrado),
  • Quando?
  • Onde? (lugar que aconteceu),
  • Como? (os detalhes dessa pequena trama)
  • Por quê? (o mote, a base, o conflito)

Passo a passo

Apesar de não existir uma forma fixa, podemos notar alguns pontos que se repetem de um relato para outro e tentar observá-los da seguinte forma.

Título

Não é necessário, mas os causos, por exemplo, geralmente recebem um.

Tema

É importante, claro, deixar evidente o assunto que será abordado no relato pessoal. Pode ser um evento que ocorreu, um acidente de moto, uma jantar com o crush ou aquela experiência de estudar com as aulas do Curso Enem Gratuito. (Ué? Você pode mandar um relato nas nossas redes.)

Corpo do texto

Um breve trecho em que aparecem as principais ideias que serão o mote do relato. É aqui que podemos perceber, mesmo que de maneira rasa, alguns elementos da narrativa, como personagens, tempo e espaço.

Desfecho

Logo após relatar o encadeamento dos fatos (ordem do ocorrido), é hora de pensar numa “conclusão” para seu relato. Pode ser um ponto que apareceu enquanto você escrevia, ou, como fez Ariano Suassuna, trazer uma pequena reflexão.

Pronto, amável estudante. Acabamos mais uma revisão sobre um gênero discursivo, beleza? Agora, você já sabe o que fazer, não é? Temos alguns exercícios aí pra você e, claro, uma videoaula sobre o assunto.

1- (ESPM/2020)

Lei de Abuso de Autoridade não ameaça qualquer prática jurisdicional

Em corpos diferenciados do funcionalismo público emerge, naturalmente, um corporativismo construído pelo elitismo do seu “espírito de corpo”. Trata-se, de fato, de um anel protetor do bom e do mau uso que seus membros podem fazer de suas prerrogativas. Um exemplo disso é a que o País assiste agora, perplexo: a reação à lei que combate os possíveis abusos de autoridade nos Três Poderes da República.

(…)

Eventuais dúvidas sobre julgamentos são analisadas com recurso a instâncias jurídicas superiores (colegiadas), porque só outros juízes podem avaliar a razoabilidade de outro juiz. O preparo da ação e o julgamento são influenciados por muitos fatores (inclusive a “visão de mundo” de cada um deles). O importante, entretanto, é que, se o paciente não se conformar com o resultado, há a possibilidade de recorrer a instâncias superiores que, eventualmente, terão a oportunidade de corrigi-lo. Esses parcos conhecimentos me levaram nos últimos 70 anos a aceitar tal mecanismo como satisfatório para minimizar os riscos do sistema.

É por isso que estou surpreso com a reação corporativista contra a Lei de Abuso de Autoridade, que, obviamente, não ameaça qualquer prática jurisdicional que obedeça ao espírito e à letra da Lei. Sobre o poder do Congresso de produzi-la e aprová-la, e o poder do presidente de sancioná-la ou vetá-la parcialmente, não há dúvidas. Entretanto, a palavra final sobre ela (pela rejeição de eventuais vetos) pertence ao Congresso. Mas há um problema lógico muito interessante, apontado pelo competente Elio Gaspari. No caso de eventual denúncia de abuso de autoridade, quem vai julgá-lo? O próprio Judiciário! Logo, se um funcionário da Receita, do Coaf, um promotor ou um juiz se julga ameaçado, porque será “controlado” pelo próprio Judiciário, é porque ele não acredita em nada do que foi dito acima! (…)

(Delfim Netto, revista Carta Capital, adaptado, 28 de agosto de 2019)

Segundo o texto:

a) funcionários públicos executaram um bom “lobby”, para se protegerem de possíveis falsas acusações relativas a exercício ilegal de poder.

b) Membros do funcionalismo público dos três poderes demonstraram divergências ideológicas quanto à Lei do Abuso de Autoridade.

c) O “espírito de corpo”, que é uma postura solidária de um determinado grupo, é conflitante com uma nova lei que trata de extrapolação de poder.

d) Tomados por certo elitismo, funcionários de instituição oficiais se manifestaram favoravelmente à lei que combate possíveis abusos de autoridade.

e) Usando o corporativismo como escudo, setores do funcionalismo público reagiram infensos à Lei de Abuso de Autoridade.

2- (UFT TO/2020)

Horácio não gostava de ser contestado, mas compreendeu não era bom tema de conversa. Voltou à literatura, aconselhando os outros a lerem Drummond de Andrade, na sua opinião o melhor poeta de língua portuguesa de sempre. Qual Camões, qual Pessoa, Drummond é que era, tudo estava nele, até a situação de Angola se podia inferir na sua poesia. Por isso vos digo, os portugueses passam a vida a querer-nos impingir a sua poesia, temos de a estudar na escola, e escondem-nos os brasileiros, nossos irmãos, poetas e prosadores sublimes, relatando os nossos problemas e numa linguagem bem mais próxima da que falamos nas cidades.

Quem não leu Drummond é um analfabeto. Os outros iam comendo, trocando de vez em quando olhares cúmplices. Até que Malongo e Vítor terminaram a refeição. Malongo despediu-se, levantando-se, um analfabeto vos saúda. Vítor e Furtado riram, Horácio fingiu que não ouviu. Agarrou no braço de Furtado e continuou a cultivá-lo com versos de Drummond e os seus próprios, dedicados ao grande brasileiro.

Fonte: PEPETELA. A geração da utopia.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 2000, p. 30-31 (fragmento).

No fragmento do romance do escritor angolano Pepetela, Horácio aconselha seus amigos Malongo, Vítor e Furtado a lerem o poeta Drummond de Andrade.

Analise as afirmativas a seguir.

I. A poesia de Drummond é melhor que a de Camões e de Pessoa.

II. Há uma aproximação entre a literatura de Drummond e a realidade angolana.

III. Nas escolas portuguesas se estuda a poesia de Drummond.

IV. A poesia de Drummond está sendo usada para alfabetizar nas escolas angolanas.

V. As obras dos literatos brasileiros possuem uma linguagem próxima a dos angolanos nas cidades.

Assinale a alternativa CORRETA.

a) Apenas as afirmativas II, IV e V estão corretas.

b) Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas.

c) Apenas as afirmativas I, II e V estão corretas.

d) Apenas as afirmativas I, III e V estão corretas.

3- (UNIFOR CE/2019)

Costuma-se acreditar que, quando se relatam dados da realidade, não pode haver nisso subjetividade alguma e que relatos desse tipo merecem toda a nossa confiança porque são reflexo da neutralidade do produtor do texto e de sua preocupação com a verdade objetiva dos fatos.

Mas não é bem assim. Mesmo relatando dados objetivos, o produtor do texto pode ser tendencioso e ele, mesmo sem estar mentindo, insinua seu julgamento pessoal pela seleção dos fatos que está reproduzindo ou pelo destaque maior que confere a certos pormenores.

A essa escolha dos fatos e à ênfase atribuída a certos tipos de pormenores dá-se o nome de viés.

(…)

Nas campanhas políticas, órgãos da imprensa, dizendo-se imparciais e comprometidos com a neutralidade da informação, não podem manifestar claramente suas preferências partidárias. Mas estes acabam encontrando maneiras veladas de fazer propaganda, como, por exemplo, a prática do viés.

(…)

Para não cair na ingenuidade e para não se deixar levar pela malícia do produtor do texto, o leitor atento deve procurar reconhecer todo tipo de viés, pois essa é uma das formas de manipular o texto, pela qual o escritor cria uma imagem positiva ou negativa de um certo dado da realidade, fingindo estar sendo neutro.

PLATÃO e FIORIN. Para entender o texto – leitura e redação. São Paulo: Ática, 1992 (fragmentos)

Considerando a natureza didática desse texto, os autores objetivam

a) fazer uma crítica à falta de informação do eleitorado brasileiro.

b) explanar uma estratégia de produção de texto.

c) denunciar a falta de neutralidade da imprensa.

d) chamar a atenção para o descuido com a leitura.

e) alertar os leitores sobre a malícia dos textos publicitários.

Gabarito:
  1. E
  2. C
  3. B

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.