Bandeirantismo: quem eram os bandeirantes paulistas

Os bandeirantes eram paulistas que participavam de expedições em direção ao interior da colônia. Seu objetivo era o apresamento de indígenas para serem escravizados.

“Bandeirantes” é um termo que com certeza você conhece há muito tempo. É nome de cidade, de rodovia, de canal de televisão, de marcas, de monumentos e aparece até na sede do governo estadual de São Paulo. Mas o que foi que eles fizeram para receberem tantas homenagens?

Nesta aula, você vai entender quem foram os bandeirantes, que relação tinham com indígenas e jesuítas, e por que atualmente seu status de heróis é questionado.

O que é bandeirantismo

Até o fim do século XVI, o território da colônia portuguesa estava restrito ao Tratado de Tordesilhas. Os núcleos coloniais se concentravam ao longo da costa. Apesar de a Coroa já ter organizado expedições para avançar para o Oeste, as chamadas “entradas”, elas não foram bem-sucedidas. Os portugueses morreram de doenças desconhecidas e ataques indígenas.

A ocupação do interior iniciou com a introdução do gado no Nordeste. Depois, deu um passo importante com a criação do povoado de São Paulo de Piratininga, na capitania de São Vicente. Logo, o povoado foi elevado à vila, e foi lá que teve início o bandeirantismo.

As chamadas bandeiras foram expedições saídas de São Paulo para o interior da colônia. Elas iniciaram no final do século XVI e permaneceram até o início do XVIII. Seu objetivo principal era o apresamento de indígenas que seriam vendidos e escravizados.

Mas como as expedições avançaram cada vez mais para o interior, acabaram ampliando os limites da colônia. Os bandeirantes foram responsáveis por desbravar os territórios dos atuais estados de Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, e parte do Rio Grande do Sul e de São Paulo. Dessa forma, foram surgindo vilas e cidades nos territórios que desbravavam.

Mapa das principais expedições dos bandeirantes
Mapa das rotas das principais expedições dos bandeirantes e o nome de seus líderes.

Entradas e bandeiras

Você já deve ter ouvido essas expedições sendo chamadas de entradas. Contudo, há uma pequena diferença entres entradas e bandeiras. As entradas foram expedições organizadas pela Coroa e que partiram de diferentes partes da colônia.

Enquanto isso, o termo bandeiras se refere às expedições saídas de São Paulo e que eram financiadas por iniciativas privadas. No entanto, os objetivos e os membros dos dois tipos de expedições eram os mesmos.

Quem foram os bandeirantes

Os bandeirantes eram, em sua maioria, luso-brasileiros e os chamados mamelucos (filhos de portugueses com indígenas). Inicialmente, eram chamados de “paulistas” ou de “gente de São Paulo”. Mais tarde é que começaram a ser chamados de bandeirantes ou sertanistas, já que desbravavam o sertão da colônia.

O bandeirantismo surgiu associado a São Paulo por causa da natureza das atividades econômicas desenvolvidas ali. Como a capitania de São Vicente não tinha uma produção de açúcar expressiva, a população começou a investir em outras atividades. Entre elas estavam o cultivo de algodão, trigo, mandioca e a criação de gado.

No entanto, a capitania não participava do circuito do tráfico negreiro. Em vez disso, os colonos começaram a capturar nativos nas matas das proximidades para escravizá-los. Além disso, o comércio de indígenas escravizados era lucrativo. Assim, a atividade começou a crescer e as expedições começaram a ir cada vez mais longe.

Algumas voltavam com centenas e até milhares de cativos que eram chamados negros da terra. A expressão era utilizada para diferenciá-los dos negros escravizados vindos da África.

O bandeirantismo mobilizava toda a vila de São Paulo. Algumas expedições chegavam a contar com mais de mil homens. Em suas incursões, andavam quase sempre descalços e vestiam casacos de couro como defesa contra flechas.

Também utilizavam armas como arco e flecha, espadas, facões e armas de fogo. As técnicas para se locomoverem e se localizarem nas matas eram aprendidas com os próprios indígenas.

As bandeiras de apresamento

As incursões organizadas para a captura de indígenas eram chamadas de bandeiras de apresamento. Mais tarde surgiriam outros tipos de bandeiras, como as de prospecção – embora mesmo essas nunca deixavam de ter o apresamento indígena como objetivo.

Pintura de bandeirantes
Pintura “Ciclo da caça ao índio”, pintada por Henrique Bernardelli na ocasião do centenário da independência, em 1922. Fonte: https://bit.ly/3hXA7OI

As táticas utilizadas pelos bandeirantes para a captura dos futuros escravos se utilizavam de violência. No entanto, o apresamento não era viável através só do conflito. Foram necessárias alianças e estratégias diferentes, como o escambo.

Isso permitia que os próprios indígenas auxiliassem nas incursões, no fornecimento de cativos e que se tornassem mais amigáveis para seu possível apresamento no futuro.

Além disso, o número de apresados era maior do que a demanda. Isso porque muitos não suportavam o longo trajeto e outros acabavam morrendo por causa de doenças.

Enquanto isso, o posicionamento da Coroa sobre as bandeiras de apresamento era ambíguo. Ao mesmo tempo em que condenava a escravização dos indígenas, era conivente com as práticas dos paulistas que eram úteis aos seus interesses. A justificativa utilizada era a da “guerra justa”.

Foi assim com o auxílio no combate aos índios que estavam no caminho das fazendas de gado e da lavoura canavieira no Nordeste. Apesar de poderem ficar com os indígenas que capturassem, os bandeirantes foram responsáveis por estabelecerem um fluxo de cativos suficiente para abastecer a demanda de São Vicente.

Os bandeirantes nas missões jesuíticas

Se você já viu nossa aula sobre os jesuítas ou já estudou a atuação da Companhia de Jesus no Brasil, já deve saber que seus interesses não eram os mesmos dos bandeirantes. Os jesuítas criaram as chamadas “missões” com o objetivo de reunir vários povos indígenas para catequizá-los.

Os bandeirantes viam as missões como uma grande oportunidade de capturar os nativos e escravizá-los. Além disso, os indígenas aldeados eram obrigados a aprender atividades agrícolas e, por isso, eram mais valorizados como escravos.

Assim, os bandeirantes cercavam os aldeamentos e se utilizavam de ameaças e violência para levá-los para São Paulo. As missões que ofereciam resistência acabavam sendo incendiadas e seus moradores eram assassinados.

Dessa maneira, a maioria das missões jesuíticas foram destruídas pelos bandeirantes nas primeiras décadas do século XVII. Entre elas estavam as dos Sete Povos das Missões, que ficavam na parte espanhola da América. Por isso, no fim dó século XVII houve um conflito entre portugueses e espanhóis pela posse do território e só teve fim décadas depois.

A busca pelo ouro e as bandeiras de prospecção

Com o fim da União Ibérica em 1640, Portugal passou investir na busca por metais preciosos. Os paulistas aproveitaram a oportunidade e começaram a organizar expedições de financiamento privado que eram chamadas de bandeiras de prospecção. Seu objetivo era buscar por minas de ouro e de pedras preciosas.

No entanto, como o cativeiro indígena havia sido proibido pela Coroa, essas incursões também serviam como disfarce para continuar com o apresamento de indígenas.

Durante as bandeiras de prospecção, os paulistas começaram a ir para territórios que correspondem aos atuais estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Para conseguir chegar nessa última região, também começaram a usar os leitos dos rios para se locomoverem. Essas expedições fluviais eram chamadas de monções.

Eles utilizavam canoas e saíam de Porto Feliz, nas margens do Rio Tietê. As viagens iniciavam entre os meses de março e abril, pois é a época das cheias dos rios. Depois de cerca de cinco meses é que conseguiam chegar ao lugar onde hoje fica a cidade de Cuiabá.

Mas as primeiras minas de ouro foram encontradas em Minas Gerais entre os anos de 1693 e 1695. As minas ficavam próximas à atual cidade de Ouro Preto. Com a descoberta, cada vez mais pessoas do Brasil e de Portugal começaram a ir para a região. Foi então que iniciou o ciclo da mineração.

Sertanismo de contrato

Como os bandeirantes tinham experiência em andar pelas matas e atacar aldeias indígenas, passaram a ser contratados pelo Governo-geral e por particulares para destruir quilombos e combater grupos indígenas rebeldes. Essa atividade era chamada de sertanismo de contrato e foi mais um capítulo sangrento do bandeirantismo.

Domingos Jorge Velho
Domingos Jorge Velho, pintura de Benedito Calixto. A pintura foi encomendada por Visconde de Taunay como forma de enaltecer os bandeirantes em 1903. Fonte: https://bit.ly/3fWoWDM

Em 1675, os paulistas foram contratados para irem até o Nordeste para combater na chamada Guerra dos Bárbaros. O conflito ocorria entre luso-brasileiros que adentravam cada vez mais para o interior e indígenas que defendiam suas terras.

Mas o episódio de maior importância foi a destruição do famoso Quilombo dos Palmares. Liderados por Domingos Jorge Velho, os paulistas foram os principais responsáveis pela queda do quilombo em 1695.

Para aprofundar os seus conhecimentos sobre entradas e bandeiras, veja esta videoaula do canal Parabólica:

Ao chegar ao fim desta aula, é possível que você esteja se perguntando por que violentos caçadores de indígenas foram alçados ao status de heróis e receberam tantas homenagens. Para encontrar a resposta precisamos voltar ao final do século XVIII.

A construção do mito dos bandeirantes

Até então, os bandeirantes ou sertanistas não recebiam homenagens ou eram vistos com destaque na história do Brasil. Não existia nem mesmo o termo “bandeirantes”. Até o século XIX, eles eram chamados simplesmente de “paulistas” ou “homens que vão ao sertão”. Portanto, “bandeirantes” foi uma alcunha que surgiu décadas depois de o bandeirantismo ter sido encerrado.

O que aconteceu em 1894 foi a criação do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). A instituição tinha a incumbência de escrever a história da província de São Paulo. De acordo com a visão de história que se tinha na época, era necessário encontrar heróis que representassem a trajetória da região.

Dessa maneira, conseguiriam mais facilmente construir um passado de glórias e que justificasse uma posição de destaque no território nacional. Foi assim que se iniciou a exaltação da figura dos bandeirantes paulistas.

Toda a parte da captura e escravização indígena foi convenientemente colocada de lado. O que sobrou foi a figura de bravos desbravadores do sertão, que ampliaram os limites do que se tornaria o Brasil e descobriram minas de metais preciosos.

O centenário da independência
Monumento em homenagem aos bandeirantes
“Monumento às Bandeiras”, localizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo. São retratados portugueses, negros, mamelucos e índios puxando uma canoa de monções. A obra é de Victor Brecheret e foi encomendada pelo Governo de São Paulo em 1921. Foi inaugurada no IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1953. Fonte: https://bit.ly/2BzZCow.

Esse discurso positivo do bandeirantismo foi se fortalecendo com a expansão econômica de São Paulo no fim do século XIX e início do século XX. Essa visão foi espalhada com a escrita de romances e artigos e com a construção de monumentos que homenageavam os bandeirantes.

O mito do bandeirante foi se firmando ainda mais conforme chegava o centenário da independência. O Visconde de Taunay escreveu livros e encomendou obras de arte para enaltecer os bandeirantes. Ele foi muito importante na construção da ideia dos bandeirantes como grandes heróis nacionais que teriam ajudado no crescimento do Brasil.

A contestação do mito dos bandeirantes

Atualmente essa imagem positiva e exultante dos bandeirantes é contestada por historiadores, movimentos indígenas e pela sociedade civil. A população exige que ruas, cidades e locais que tenham nomes associados aos bandeirantes sejam renomeados. Até mesmo que monumentos sejam derrubados.

Essa discussão é importante porque demonstra que em diferentes épocas temos diferentes percepções sobre um fenômeno histórico. Essas percepções têm tudo a ver com o momento político e cultural em que surgem. Representam o que determinada sociedade valoriza e qual memória considera que deve permanecer registrada.

Para entender todo o debate sobre a troca de nome de ruas, cidades, escolas e a destruição de monumentos, assista à este vídeo da Rita von Hunty:

Exercícios:
1- (PUCCamp SP/2019)    

Sem dúvida, a construção do enredo regional paulista deu-se, no IHGSP, tendo como base aspectos seletivos de grave consequência. A identificação dos seus escritores com o passado não comportava a presença negra: sua ciência – literatura abria espaço, apenas, ao lendário mundo dos herdeiros da nobreza europeia, de braços dados com os seguidores de Peri-Tibiriçá.

(Ferreira, Antonio Celso. A epopeia bandeirante: letrados, instituições,
invenção histórica (1870-1940)
. São Paulo, Ed. UNESP, 2002, p. 147)

Na sociedade colonial portuguesa, e especialmente na região de São Paulo, os bandeirantes tiveram marcada presença ao

a) constituírem vilas e alimentarem o comércio local e regional com as práticas de apresamento de índios.

b) aliarem-se a jesuítas para promover a guerra justa contra o Cacique Tibiriçá e iniciarem as primeiras explorações de ouro.

c) representarem oficialmente a Coroa, por se tratarem de portugueses e descendentes diretos destes, assumindo o governo das capitanias da região sul e sudeste.

d) desbravarem o interior do território a partir de uma base estabelecida em São Paulo, expulsando os espanhóis, sobre os quais detinham incontestável primazia militar.

e) povoarem a região que até então era desabitada, por meio de casamentos com índias e oferta de proteção às missões jesuíticas.

2 – (IFMT/2019)    

De acordo com o historiador Ronaldo Vainfas: “Entradas e bandeiras são termos quase sinônimos. Entrada possui, por vezes, acepção mais genérica, referindo-se a expedições originadas de diversas partes do Brasil, formadas por iniciativas oficial ou particular, ao passo que bandeira se remete às expedições dos paulistas”.

(Fonte: Vainfas, Ronaldo (Org.). Dicionário
do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 64)

Sobre as bandeiras, assinale a alternativa CORRETA.

a) O processo de ocupação de Mato Grosso não pode ser relacionado ao movimento das entradas e bandeiras.

b) Seja para capturar os índios nativos para utilizá-los como mão de obra, ou para descobrir minas de metais e pedras preciosas, o chamado bandeirismo apresador e o prospector desempenharam papel relevante para a ampliação dos limites geográficos do Brasil colonial.

c) As denominadas bandeiras apresadoras tinham uma organização interna militarizada, que comportava, exclusivamente, homens brancos, chefiados por uma autoridade militar da Coroa.

d) Os bandeirantes eram autônomos e não se submetiam às ordens da Coroa Portuguesa, sendo considerados, por isso, inimigos da realeza.

e) Era possível fazer a viagem desde a capitania de São Paulo até as minas de Cuiabá somente através dos rios e os trajetos não ofereciam maiores perigos aos viajantes.

3 – (UNITAU SP/2016)

“[…] Lá se vão pelo tempo adentro

esses homens desgrenhados:

duro vestido de couro

enfrenta espinhos e galhos;

em sua cara curtida

não pousa vespa ou moscardo,

comem larvas, passarinhos,

palmitos e papagaios;

sua fome verdadeira

é de rios muito largos,

com franjas de prata e ouro,

de esmeraldas e topázios. […]”

MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência. 1983.

Sobre as expedições conhecidas como entradas e bandeiras, descritas no poema de Cecília Meireles e estimuladas pela Coroa portuguesa na segunda metade do século XVII, é CORRETO afirmar que

a) sempre que uma entrada ou uma bandeira se encaminhava para o sertão, ainda que seu objetivo imediato fosse a busca por metais e pedras preciosas, também havia apresamento de índios.

b) entradas e bandeiras eram expedições pelo interior do Brasil organizadas exclusivamente pela Coroa portuguesa com objetivos comuns para explorar o território à procura de minas.

c) enquanto as bandeiras, financiadas pela Coroa portuguesa, buscavam metais e pedras preciosas, as entradas, organizadas por particulares, dedicavam-se ao apresamento de índios.

d) entre as entradas e bandeiras e as missões jesuítas havia acordos de não agressão e trabalho em conjunto, para o apresamento de índios, que determinaram a consolidação da paz.

e) as entradas e bandeiras surgiram para sanar as precárias condições da capitania de São Vicente, com o desenvolvimento do comércio e, posteriormente, com a busca de metais.

Gabarito:
  1. A
  2. B
  3. A

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.