Ato e potência na filosofia e Aristóteles

A teoria do ato e potência, criada por Aristóteles, afirma que as coisas existem enquanto Ato e que a Potência é a possibilidade de transformação. Venha descobrir como Aristóteles resolveu a cisma do “movimento”, assunto recorrente no ENEM.

Antes de mais nada, para compreender a teoria do ato e potência, é importante contextualizá-la. Por volta do século VI a.C. Aristóteles, o fundador da Escola Peripatética, se interessou por uma reflexão. Era a reflexão que seus predecessores Heráclito e Parmênides fizeram sobre o “movimento”. Essa reflexão girava em torno da possibilidade de existir a mudança nas coisas que compõe o mundo.

Parece estranho se indagar sobre o movimento, mas dá só uma olhada no que existe por trás dessa reflexão. Dessa forma, você vai entender melhor como é que se duvida da existência de algo tão óbvio a nós.

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Figura 1. Aristóteles foi o filósofo que criou a Teorias das Quarto Causas, que incluem os conceitos de Ato e Potência, na tentativa de explicar dentre outras coisas o movimento.

De Heráclito e Parmênides

Anteriormente aos estudos de Aristóteles, essa dupla de filósofos protagonizou um dos primeiros embates filosóficos da história. O problema em questão, que gerou toda a discussão, foi o “movimento”. Isto é, será que existe mudança? Você enquanto ser se altera ou é sempre idêntico a si?

Além de Aristóteles, esse debate também ganhou bastante fama nas teorias de Platão. Principalmente, quando ele criou seu mundo das Ideias.

As ideias de Heráclito sobre movimento

Do ponto de vista de Heráclito, a mudança ocorre a todo o momento. Tudo no mundo está em constante movimento, pois, tudo flui. Essa parada de fluidez ficou conhecida como Panta Rei e diz respeito à doutrina dos opostos, criada pelo filósofo.

De acordo com essa doutrina, tudo é movimento. Assim, coisa nenhuma pode permanecer parado – Panta Rei – exceto o movimento. Bom, embora a doutrina vá além disso, o que importa nesse momento é entender que para Heráclito a existência está em constante mudança.

Parmênides e suas ideias sobre movimento

Por outro lado, Parmênides, sujeito sossegado, dizia aos seus opositores que a mudança não existia. Ao contrário: o que havia era uma organização racional do cosmos que era imutável.

Desta maneira, a teoria de Parmênides defendia o que chamamos de imobilismo. Isto é, não existe movimento, as mudanças que conseguimos ver ao nosso redor não passam de aparências.

Essa dupla aqui apresentada faz parte de uma galera que chamamos de Pré-Socráticos.

Entenda a diferença entre as ideias desses dois filósofos

A “treta” se dava pois Heráclito opunha-se a um princípio defendido por Parmênides chamado princípio da não contradição. Nele, uma coisa só pode ser ela e nunca outra, expressada de maneira lógica, A=A e nunca A=B pois só B=B.

Dizia Parmênides ser absurdo que algo possa ser e não ser ao mesmo tempo, uma vez que uma maçã só pode ser uma maça e nunca um tomate. Contudo, para Heráclito propriedades contrárias podem subsistir e não subsistir no mesmo sujeito. Por exemplo, embora o tomate seja uma fruta, você não o coloca numa salada de frutas!

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Figura 2. Os filósofos pré-socráticos Parmênides (a esquerda) e Heráclito (a direita) foram os responsáveis por umas das primeiras “tretas” da Filosofia.

Ato e Potência: a teoria de Aristóteles

Na tentativa de resolver essa “treta” sobre o movimento, Aristóteles criou sua teoria do Ato e da Potência, que faz parte de um estudo maior, a Etiologia, também conhecida como “estudo das causas”. Para se aprofundar mais sobre o assunto, há aqui no CEG um post a respeito da Etiologia intitulado Metafísica, A Filosofia Primeira de Aristóteles.

A sacada de Aristóteles para resolver a querela do movimento foi, em um primeiro momento, juntar ambas as teorias conflitantes. Desta maneira, juntando algumas ideias de Heráclito e outras de Parmênides, foi possível a criação de uma nova proposta acerca do movimento.

Para Aristóteles as coisas existem enquanto Ato. Isto é, como aquilo que caracteriza algo em um determinado momento, ele é a concretização de um fim. Isto é, podemos entender Ato como qualquer coisa que exista ao nosso redor com uma finalidade. Uma caneta por exemplo, ou o dispositivo eletrônico usado para ler isso, ou até mesmo você!

Já a Potência é a possibilidade de transformação. Ou seja, Potência é a capacidade de algo atingir outro fim. Por exemplo: A caneta pode virar um canudinho para jogar bolinhas de papel nos seus amigos, o dispositivo usado para ler isso pode virar lixo eletrônico daqui a algum tempo e você pode se tornar um aprovado no ENEM. Potencialmente todas essas coisas podem acontecer.

Vamos refletir sobre a teoria do ato e potência?

Pois bem, as coisas estão em constante transformação, todavia, existe uma certa lógica nessa transformação. Ora, não podemos, ao menos por hora, supor que uma caneta se transforme em um avião, ou você se torne o Batman. Assim sendo, existe uma lógica que atua no cosmos de modo que A (Ato) se transforme (Potência) em B (Ato).

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Figura 3. Quando uma coisa se torna outra ela só pode fazê-lo pois antes era também uma coisa.

Aos aficionados pela Física cabe perguntar, o movimento não precisa de uma força para acontecer? Não dá para se mover do nada. Aristóteles também já sacava isso aí há muito tempo atrás. Em seus escritos ele teorizou a existência de um motor primeiro, algo que desse origem a todo o movimento para que as demais coisas começassem a se transformar.

Essa solução, embora nada elucidativa, pois ainda permanece a questão acerca do que criou o primeiro motor, serviu de base para diversos escritos religiosos posteriores que trataram de atrelar essa causa originária do movimento a um Deus, criador dos céus e da terra.

Conclusão: a importância da teoria do ato e potência

Em suma, na visão de Aristóteles o Cosmos se organiza de maneira lógica, partindo de um primeiro motor, desta maneira as coisas no universo existem enquanto Ato e possuem dentro delas a possibilidade de ter outra finalidade, a Potência, se tornando então outra coisa, um novo Ato.

Desta maneira, Aristóteles buscou juntar o Imobilismo de Parmênides com a Fluxo continuo proposto por Heráclito. Ora, embora as coisas possuam uma identidade elas potencialmente são capazes de assumir outras finalidades que não aquelas que já possuíam. Portanto, quando falamos em Ato nos referimos a forma das “paradas” e quando falamos em Potência nos referimos a mudança que pode acontecer com as coisas do mundo.

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Figura 4. A existência do movimento, embora obvia, levanta questões lógicas interessante sobre a Etiologia.

Por fim, Aristóteles conseguiu a partir dos conceitos de Ato e Potência preservar a unidade das coisas e ainda tornar admissível o movimento. Desta forma sua Metafisica, no que tange a Etiologia ganha um pano de fundo sólido para se estruturar.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula do canal Zophya

Agora é contigo, bora se mover e resolver as questões abaixo:
1. (Ufu 2012) Em primeiro lugar, é claro que, com a expressão “ser segundo a potência e o ato”, indicam-se dois modos de ser muito diferentes e, em certo sentido, opostos. Aristóteles, de fato, chama o ser da potência até mesmo de não-ser, no sentido de que, com relação ao ser-em-ato, o ser-em-potência é não-ser-em-ato.
REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Vol. II. Trad. de Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1994, p. 349.

A partir da leitura do trecho acima e em conformidade com a Teoria do Ato e Potência de Aristóteles, assinale a alternativa correta.

(A) Para Aristóteles, ser-em-ato é o ser em sua capacidade de se transformar em algo diferente dele mesmo, como, por exemplo, o mármore (ser-em-ato) em relação à estátua (ser-em-potência).
(B) Segundo Aristóteles, a teoria do ato e potência explica o movimento percebido no mundo sensível. Tudo o que possui matéria possui potencialidade (capacidade de assumir ou receber uma forma diferente de si), que tende a se atualizar (assumindo ou recebendo aquela forma).
(C) Para Aristóteles, a bem da verdade, existe apenas o ser-em-ato. Isto ocorre porque o movimento verificado no mundo material é apenas ilusório, e o que existe é sempre imutável e imóvel.
(D) Segundo Aristóteles, o ato é próprio do mundo sensível (das coisas materiais) e a potência se encontra tão-somente no mundo inteligível, apreendido apenas com o intelecto.

2. (UFU – 2008) Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C), apesar de ter sido discípulo de Platão, criou sua própria filosofia. Uma das diferenças marcantes entre os dois é a importância dada aos fenômenos naturais do chamado mundo sensível. No mundo sensível, a mudança é constante, característica que Aristóteles procura explicar a partir das concepções de matéria, forma, potência e ato.

Com base nos seus conhecimentos e no texto acima, assinale a alternativa que define corretamente a concepção aristotélica de ato e potência.

(A) A potência e o ato são conceitos que não se referem, de fato, às coisas materiais sujeitas à transformação.
(B) A potência é o momento presente, atual da matéria; ato é o que ela poderá vir a fazer.
(C) A potência e o ato não se relacionam com a matéria.
(D) A potência é o que a matéria virá a ser, seu devir, o princípio do movimento; ato é aquilo que ela é no presente.

3. (UEL – 2011) Leia os textos a seguir.

Aristóteles, no Livro IV da Metafísica, defende o sentido epistêmico do princípio de não contradição como o princípio primário, incondicionado e absolutamente verdadeiro da “ciência das causas primeiras”, ou melhor, o princípio que se apresenta como fundamento último (ou primeiro) de justificação para qualquer enunciado declarativo em sua pretensão de verdade.

“É impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo ao mesmo sujeito, e na mesma relação. […] Não é possível, com efeito, conceber alguma vez que a mesma coisa seja e não seja, como alguns acreditam que Heráclito disse […]. É por esta razão que toda demonstração se remete a esse princípio como a uma última verdade, pois ela é, por natureza, um ponto de partida, a mesma para os demais axiomas.

(ARISTÓTELES. Metafísica. Livro IV, 3, 1005b apud FARIA, Maria do Carmo B. de. Aristóteles: a plenitude como horizonte do ser. São Paulo: Moderna, 1994. p. 93.

Com base nos textos e nos conhecimentos sobre Aristóteles, é correto afirmar:

(A) Aqueles que sustentam, com Heráclito, conceber verdadeiramente que propriedades contrárias podem subsistir e não subsistir no mesmo sujeito opõem-se ao princípio de não contradição.

(B) Pelo princípio de não contradição, sustenta-se a tese heracliteana de que, numa enunciação verdadeira, se possa simultaneamente afirmar e negar um mesmo predicado de um mesmo sujeito, em um mesmo sentido.

(C) Nas demonstrações sobre as realidades suprassensíveis, é possível conceber que propriedades contrárias subsistam simultaneamente no mesmo sujeito, sem que isso incorra em contradição lógica, ontológica e epistêmica.

(D) Para que se possa fundamentar o estatuto axiomático do princípio de não contradição, exige-se que sua evidência, enquanto princípio primário, seja submetida à demonstração.

(E) Com o princípio de não contradição, torna-se possível conceber que, se existem duas coisas não idênticas, qualquer predicado que se aplicar a uma delas também poderá ser aplicado necessariamente à outra.

Gabarito: 1. B, 2. D, 3. A.

Sobre o(a) autor(a):

Os textos e exemplos acima foram preparados pelo professor Ernani Silva para o Blog do Enem. Ernani é formado em Filosofia pela Universidade Estadual Paulista. Ministra aulas de Filosofia em escolas da Grande Florianópolis. Facebook: https://www.facebook.com/ErnaniJrSilva