Organização social do trabalho e o cenário atual: desemprego, subemprego e tempo livre

Saiba mais sobre como a organização social do trabalho influencia as dinâmicas e relações do dia-a-dia, e como o crescimento da tecnologia possibilitou profundas transformações nas relações de trabalho, gerando um novo cenário de desemprego e subempregos.

O trabalho, de uma forma ou de outra, está sempre presente na vida cotidiana.  Nesta aula, veremos como a organização social do trabalho é pensada pela Sociologia e como esta organização influencia a dinâmica da vida social e da relação entre os indivíduos. Com o desenvolvimento cada vez mais rápido da tecnologia, surgem novas configurações nas relações trabalhistas que podem acarretar o aumento de desempregos e subempregos.

Quando compramos e utilizamos um produto como uma simples calça jeans, por exemplo, nem sempre paramos para pensar em todo o processo de produção. Para produzi-la, foi necessário o cultivo do algodão nos campos e fazendas, sua transformação em um tecido, o corte e costura para transformá-lo em calça jeans, o transporte até as lojas para, finalmente, a roupa ser vendida para você. Quanto trabalho ​​envolvido numa única peça de roupa, não é mesmo? Hoje em dia, podemos até comprar essa peça de roupa via internet, o que requer outros tipos de trabalho ​​envolvidos até o produto chegar até você.

Quando pensamos na produção de um determinado produto, além do que cerca os trabalhos formais, no presente podemos verificar outras condições que derivam do processo de produção de bens materiais. Esse é o caso de subempregos, empregos informais ​​e desemprego​. Mas, será que as coisas sempre foram assim?

Em algumas sociedades antigas já havia a hierarquização entre os diferentes trabalhos​, que eram utilizados como forma de diferenciar e classificar as pessoas. O trabalho braçal​, por exemplo, era entendido como uma atividade repugnante e, muitas vezes, associado à servidão e escravidão. Enquanto isso, o trabalho intelectual era​ mais valorizado. A partir da chamada Idade Moderna, com o estabelecimento do capitalismo ​como principal forma de sistema de produção, a organização social​ do trabalho ​sofreu transformações profundas que ainda reverberam nos dias atuais.

Para o sociólogo alemão Max Weber, a explicação da transformação dos entendimentos acerca da ideia de trabalho ​– antes visto de forma negativa – está na ascensão do protestantismo, pois o movimento religioso considerava o trabalho como algo que dignifica o ser humano.

Conforme Weber afirma em seu famoso livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo​”, o protestantismo pregava que o caminho para a salvação espiritual era uma vida regrada e voltada para o trabalho​​. Além disso, a religião condenava a preguiça, o ócio e o luxo. Sendo assim, o sucesso no trabalho ​​era sinônimo de boa conduta e desenvolvimento espiritual e, portanto, de salvação. A ideologia protestante ainda indicava a acumulação dos frutos do trabalho no lugar do consumo, o que, para Weber, foi fundamental para o desenvolvimento do capitalismo​.

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Nos diferentes momentos históricos do processo de desenvolvimento do capitalismo, ​​é possível constatar a transformação das relações trabalhistas vigentes. Devemos considerar que as relações de trabalho ​​estabelecidas em um dado momento da história influenciam e determinam diretamente a vida cotidiana, assim como as relações sociais ​  existentes entre os indivíduos.

Importante destacar que é no âmbito da organização social do​ trabalho​ nas sociedades capitalistas​​ que podemos diferenciar as ideias de trabalho​ e emprego, sendo esse último entendido como a relação contratual estabelecida entre quem organiza o trabalho ​​e quem realiza o trabalho​. ​.

Para o alemão Karl Marx, é o modo de produção que determina a divisão entre os indivíduos de uma sociedade. Isso significa dizer que a organização social ​​em classes é definida pelo posicionamento dos indivíduos no processo de produção. Na sociedade capitalista, ​esta divisão é verificada entre os proprietários dos meios de produção (donos de fábricas e terras) e os não proprietários (trabalhadores e camponeses) chamados, respectivamente, de burgueses e proletários.

Para Marx, na sociedade capitalista ​​o trabalho ​​passa a servir para produzir uma mercadoria que gera o lucro para a burguesia em detrimento da exploração da força de trabalho ​do proletariado. Para o autor, a transformação de uma matéria​-prima por meio do trabalho ​​agrega valor a este produto.

O trabalho​​, por sua vez, pode ser visto como uma mercadoria – vendida pelo trabalhador e comprada pelo burguês. O valor pago por esta mercadoria, no entanto, não é adequado. A diferença entre a quantidade de trabalho ​​utilizada para produzi-la e o valor pago ao trabalhador é apropriada pelos donos dos meios de produção na forma de lucro.

A organização social do trabalho ​​na sociedade capitalista​​, portanto, teria por consequência a desigualdade social, já que o aumento da produtividade (e, portanto, o aumento do trabalho​) não garante melhores condições de vida ao trabalhador. Ao mesmo tempo, a dinâmica aumenta o lucro dos burgueses.

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A industrialização e a nova organização social do trabalho

O crescimento da industrialização e o aprimoramento da tecnologia não mudaram esse cenário. Ao mesmo tempo em que a tecnologia atual possibilita a produção de alimento suficiente para suprir toda a população mundial, por exemplo, pessoas ainda morrem de fome por não terem dinheiro para comprar o que comer. Enquanto isso, outros possuem tanto dinheiro que conseguem manter luxos exorbitantes.

Nos dias atuais, o forte desenvolvimento tecnológico e da robótica não apenas possibilitou aumentar a produtividade, como também originou problemas como a substituição da função do trabalhador. Essa mudança resultou em altos índices de desemprego​​. Ainda temos que considerar a alteração e a flexibilização das leis trabalhistas – a partir do crescimento de políticas neoliberais –, que acaba por favorecer a existência de subempregos ​e/ou trabalhos informais​.       ​.

Neste sentido, se antes o desemprego ​​ocorria em períodos de recessão econômica, hoje a questão deve ser analisada não apenas pela substituição do trabalhador por novas tecnologias como também pelo crescimento do processo de informalização do trabalho​. Esse é o caso de trabalhos temporários​​, subcontratados​, terceirizados ​           ​e/ou vinculados à economia informal que surgem como consequência direta de tais políticas.

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Por fim, é importante destacar como o crescimento e a popularização da tecnologia nas sociedades capitalistas também ​​influenciou na administração do tempo livre​ dos indivíduos. Dispositivos digitais alteraram a organização social do trabalho e possibilitaram que as pessoas estejam conectadas 24 horas por dia. Por isso, é criada a impressão de que os indivíduos estão sempre disponíveis para cumprir e responder a demandas de trabalho, ou até mesmo trabalhando “todo o tempo” em casa. Com isso, acaba restando pouco tempo​ livre​ para atividades como o lazer e o descanso.

Além disso, a ideia de ser produtivo o máximo possível e a necessidade de trabalhar cada vez mais para conseguir acumular e consumir/comprar num mundo cada vez mais individualizado e competitivo continua sendo sempre destacada e reforçada entre os indivíduos. Entende-se que “tempo é dinheiro” e, neste sentido, ter tempo livre​ nos dias atuais soa como luxo que poucos conseguem usufruir.

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Exercícios

 

Questão 01 – (UEG GO/2016)

Leia o texto a seguir.

O desenvolvimento do racionalismo econômico é parcialmente dependente da técnica e do direito racionais, mas é ao mesmo tempo determinado pela habilidade e disposição do homem em adotar certos tipos de conduta racional prática […]. As forças mágicas e religiosas e as ideias éticas de dever nelas baseadas têm estado sempre, no passado, entre as mais importantes influências formativas de conduta.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo.  São Paulo: Pioneira, 1981. p. 09.

Uma das mais conhecidas explicações sobre a origem do capitalismo é a do sociólogo alemão Max Weber, que postula a afinidade entre a ética religiosa e as práticas capitalistas. Essa relação se mostra claramente na ética do

a) Catolicismo romano, que por meio da cobrança de dízimos e vendas de indulgências estimulou a acumulação de capital.

b) Puritanismo calvinista, que concebe o sucesso econômico como indício da predestinação para a salvação.

c) Luteranismo alemão, que defendia que cada pessoa devia seguir a sua vocação profissional para conseguir a salvação.

d) Anglicanismo britânico, que, ao desestimular as esmolas, permitiu o incremento da poupança nas famílias burguesas.

e) Catolicismo Ortodoxo, que, ao abrir mão dos luxos nas construções arquitetônicas, canalizou capital para investimentos econômicos.

 

Questão 02 – (Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública/2017) 

A Consolidação das Leis do Trabalho, em 1º de maio de 1943, unificou toda a legislação trabalhista então existente no Brasil e foi um marco por inserir, de forma definitiva, os direitos trabalhistas na legislação brasileira. Seu objetivo principal é regulamentar as relações individuais e coletivas do trabalho, nela previstas, tendo sido instituída como uma necessidade constitucional, após a criação da Justiça do Trabalho.

Disponível em: <http://www.tst.jus.br/web/70-anos-clt/historia>. Acesso em 26 set. 2016. Adaptado.

O contexto histórico que produziu a CLT em 1943 e o contexto histórico das atuais discussões sobre modificações na legislação original diferenciam-se

a) nas estruturas sociais: sociedade predominantemente racista e extinção de comportamentos de discriminação racial, respectivamente.

b) nas políticas de inclusão social: combate à pobreza como política de Estado e política de inclusão rejeitada pelos sindicatos pelegos, respectivamente.

c) nas diretrizes da política externa: definição nazifascista nas relações com a Europa e isolamento das comunidades e das instituições pan-americanas, respectivamente.

d) nos contextos econômicos: expansão da industrialização e do mercado de trabalho e recessão econômica e avanço do desemprego, respectivamente.

e) nas organizações partidárias: pluripartidarismo e bipartidarismo, respectivamente.

 

Questão 03 – (UCB DF/2016) 

O termo capital era usado, em latim, como adjetivo. Na expressão pars capitalis debiti​, por exemplo, significava “a parte principal de um débito”. Com o tempo, a palavra passou a ser sinônimo de “conjunto de bens em comércio ou na produção”. No século 17, começou a ser usada como substantivo e sinônimo de “riqueza, valor; um cabedal, a maior expressão da riqueza do homem”.

COTRIM, Gilberto. História global: Brasil e geral.  Vol. 2. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2013, com adaptações.

Quanto ao modo de produção capitalista, assinale a alternativa correta.

a) Karl Marx (1818-1883) definiu o capitalismo como uma economia baseada no mercado, na compra e venda de mercadorias, independentemente da forma como se organiza a produção dos artigos comercializados.

b) A economia capitalista se caracteriza pela planificação. Segundo Karl Marx e Weber, isso evitará as injustiças sociais.

c) Para Max Weber (1864-1920), só existia capitalismo nas sociedades em que predominava o pagamento de um salário ao trabalhador.

d) Para Marx, a base de cada sociedade humana é o processo de trabalho, seres humanos cooperando entre si para fazer uso das forças da natureza e, portanto, para satisfazer suas necessidades.

e) Segundo Max Weber (1864-1920), o capitalismo teria se desenvolvido com a Revolução Industrial, a partir das últimas décadas do século 18.

 

Questão 04 – (UCB DF/2019) 

Karl Marx partiu da relação entre proprietários e não proprietários dos meios de produção para caracterizar a formação das classes sociais e da sociedade capitalista. Para ele, essa divisão social é a primeira forma de divisão do trabalho: a divisão entre aqueles que produzem e aqueles que se apropriam da produção.

MACHADO, I. J.; AMORIM, H.; BARROS, C. R. Sociologia hoje​ ​: ensino médio. 2. ed. São Paulo: Ática, 2016.

No que se refere à formação e à relação das classes sociais, considerando-se a concepção de Karl Marx, assinale a alternativa correta. 

a) A dinâmica social está centrada na propriedade coletiva.

b) Aqueles que possuem a posse dos meios de produção compram a força de trabalho dos que não possuem condições materiais de produzir a própria subsistência.

c) A sociedade capitalista organiza-se com base no interesse da classe proletariada.

d) As classes sociais expressam-se unicamente pela divisão econômica entre os indivíduos.

e) A sociedade é dividida em inúmeras classes ou em estratos sociais, de acordo com o poder econômico de cada indivíduo.

 

01- Gab:​ B

02- Gab​: D

03- Gab​: D

04- Gab​: B

Sobre o(a) autor(a):

O texto acima foi escrito por Natália Lima para o Curso Enem Gratuito. Natália é formada em Ciência Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina, e mestre em Sociologia Política pela mesma instituição. Atualmente, trabalha como professora de Sociologia na rede estadual de educação.

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