O Romantismo em Portugal e seus principais autores

O Romantismo em Portugal foi um movimento literário que ocorreu durante o século XVIII e possuiu 3 momentos distintos. Conheça suas características e principais autores!

O início do Romantismo em Portugal

O Romantismo em Portugal teve início no século XVIII, num cenário em que as mudanças sócio-político-econômicas posteriores à Revolução Francesa propagavam-se pela Europa. O contexto português não era afetado somente pelas revoluções que ocorriam no continente europeu, mas também por particularidades próprias. Assim, destacamos os seguintes acontecimentos:

Características do Romantismo Português

Portanto, é nesse contexto que o pensamento romântico começa a emergir em território português. O início oficial seria em 1825, com o poema “Camões”, de Almeida Garret (1799-1854). A biografia de Camões combina com aquilo que se espera de um herói romântico, tendo em vista os sofrimentos do poeta, que foi exilado e perseguido pela sociedade. Além disso, morreu na miséria.

Camões - Romantismo em Portugal
Capa do livro “Camões”, de Almeida Garret.

A partir do referido poema, então, novos elementos passaram a caracterizar a produção literária e artística de Portugal no século XIX. Alguns exemplos são: o subjetivismo, o culto à saudade, o exílio, a melancolia e a solidão.

Tudo isso expresso por um “eu” bastante individualista, pouco preocupado com denúncias sociais. São as características principais, enfim, do Romantismo, movimento cuja origem está na Alemanha e na Inglaterra do século XVIII.

Além disso, um sentimento de nacionalismo passou a fazer parte dos textos literários. A partir de então, o indivíduo deixa de enxergar-se como súdito e passa a ser o cidadão de uma terra unida, a pátria.

Não à toa Camões será o pontapé inicial, sendo que sua obra-prima, Os Lusíadas (1572), faz justamente um enaltecimento do povo lusitano. O épico descreve a grandiosidade dos portugueses através da viagem de Vasco da Gama às Índias, pois as grandes navegações deram início a um período de grande prosperidade.

Autores do Primeiro Momento do Romantismo português

A partir de agora, falaremos um pouco sobre dois autores do Primeiro Momento do Romantismo em Portugal: Almeida Garret e Alexandre Herculano.

Almeida Garret

Almeida Garret faz parte daquilo que Massaud Moisés chama de 1º Momento do Romantismo em Portugal (ele divide em três momentos, na verdade). Os primeiros anos do movimento romântico são classificados dessa forma porque nesse momento ainda permanecem aspectos do Arcadismo. E, por falar em momentos, Moisés diz que a poesia de Garret poderia ser também dividida em fases.

Assim, a primeira consiste em “(…) uma permanente contensão racional ou intelectual”, o que “impede o desbordamento da emoção e do sentimento, e um indefectível senso de equilíbrio procura harmonizar a ordem com a aventura”. Em outras palavras, o racionalismo que predominou no século das luzes impede que o sentimentalismo seja externalizado completamente.

Na segunda, por outro lado, os temas medievais e quinhentistas são mais significativos. “O resultado é que a obra acabou sendo um atestado eloquente do espírito romântico em matéria de relação amorosa.” Aqui, então, o Romantismo realmente floresce.

Um ano depois de “Camões”, ainda no início de sua carreira poética, Garret publica um segundo poema de inspiração romântica: “Dona Branca”. Sua principal novidade consiste em desenvolver um tema medieval e utilizar o folclore nacional em lugar da mitologia clássica.

Entretanto, mesmo que Garret tenha ficado em evidência com o poema “Camões”, sua maturidade poética como autor romântico somente é alcançada com “Folhas Caídas” (1853).

A prosa de ficção do autor é representada por três romances: O arco de Sant’Ana, Viagens na minha terra ( o mais conhecido e considerado mais bem acabado) e Helena. Por fim, há o teatro de Garret, onde a evidência está na sua grande obra-prima: Frei Luís de Sousa.

Alexandre Herculano

Fazem parte do 1º Momento do Romantismo em Portugal, ainda, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875), autor de A noite do castelo e Os ciúmes do bardo, e o conhecido Alexandre Herculano (1810-1877). A obra mais comentada de Herculano é o romance histórico Eurico, o presbítero, de 1844.

No enredo, Eurico apaixona-se por Hermengarda, mas o pai da moça opõe-se ao casamento. Desgostoso, o rapaz se tornou presbítero, ou seja, padre. Com a invasão muçulmana na Península Ibérica, Eurico abandonou o hábito para tornar-se um militar.

Converteu-se, então, num misterioso Cavaleiro Negro, que anunciava suas façanhas militares pelas canções que fazia. Em meio às lutas, reencontra Hermengarda, que estava em poder dos árabes, e a salva.

Nesse reencontro, as chamas adormecidas do antigo amor reacendem, mas agora outra impossibilidade existe: o voto de castidade feito por Eurico em sua ordenação. Por isso, depois de uma conversa, os namorados decidem pela separação, e o Cavaleiro Negro, em desespero, atira-se em uma batalha suicida contra os árabes e morre. Como resultado, a moça fica aterrorizada e enlouquece.

Segundo Momento do Romantismo em Portugal

Já o 2º Momento, plenamente romântico, tem a presença de Soares de Passos (1826-1860) e de Camilo Castelo Branco (1825-1890). O segundo pode ser considerado um dos mais populares escritores românticos portugueses, pois Amor de perdição (1862) alcançou grande popularidade.

A narrativa é sobre um amor adolescente. As famílias de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, em decorrência de rixas familiares antigas, tentam de tudo para separar os dois. Por isso, o casal não consegue vencer esse impedimento e consumar a união. Como se vê, o enredo se assemelha à peça Romeu e Julieta, do inglês William Shakespeare.

A seguir, um trecho que fala do amor do rapaz pela jovem que, por sinal, morava na casa ao lado:

“Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto é que ele vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos”.

São de Camilo Castelo Branco, também, os romances Amor de salvação (1863) e A doida do Candal (1867).

Terceiro Momento do Romantismo em Portugal

Por fim, em relação ao em 3º Momento do Romantismo em Portugal, pode-se dizer que os escritores realizaram um Romantismo mais comedido. Aí estão João de Deus (1830-1896), autor de Campo de flores (1893), e Júlio Dinis (1839-1871), criador do famoso As pupilas do sr. reitor (1867), romance que tem como personagens principais as órfãs Clara e Guida.

O cenário é uma aldeia portuguesa do século XIX, ideal para que ocorra a delicada trama envolvendo o amor e os desencontros na vida das jovens. Trata-se de um espaço povoado de tipos humanos bondosos, à exceção das comadres fofoqueiras, com seu moralismo quase ingênuo.

As pupilas do sr. reitor, diga-se de passagem, foi adaptado para a televisão brasileira, pelo SBT, entre 6 de dezembro de 1994 a 8 de julho de 1995, em 185 capítulos.

As pupilas do sr. reitor - Romantismo em Portugal
Juca de Oliveira no set de gravação da novela As pupilas do sr. reitor. Fonte: https://rd1.com.br.

A adaptação foi feita por Lauro César Muniz, com colaboração de Ismael Fernandes e Bosco Brasil, sob direção geral de Nilton Travesso. Entre os autores do folhetim, estavam Juca de Oliveira, Débora Bloch, Luciana Braga e Eduardo Moscovis.

Logo após terminar esta aula, não esqueça de estudar também o Romantismo no Brasil!

Para finalizar sua revisão, veja a videoaula do professor Noslen e em seguida resolva os exercícios:

Exercícios
01) (UEL-PR)

Sobre Amor de perdição, do escritor português Camilo Castelo Branco, assinale a alternativa incorreta:

a) Amor de perdição é uma novela ultrarromântica, marcada pelo sentimento passional e pelo idealismo amoroso, confirmando, assim, duas das principais características do período, que foram o subjetivismo e a luta individual do herói.

b) Narrada em terceira pessoa, a novela segue as convenções tradicionais da narrativa de ficção, como a sequência temporal dos acontecimentos e a linearidade do enredo, apresentando também referências históricas e biográficas.

c) O ultrarromantismo da novela é quebrado por tendências realistas observadas no posicionamento da personagem Mariana e na forma pouco subjetiva como a realidade é tratada numa ficção documental.

d) Mariana é a principal agente de comunicação entre Simão e Teresa, figurando como personagem auxiliar que promove a união amorosa entre os dois adolescentes apaixonados, embora não possa dela participar.

e) A personagem Mariana, encarnando o amor romântico, com pureza e resignação, e a personagem Teresa, representando a mulher inacessível e idealizada, encontram na morte a plenitude do amor idealizado, nesta novela da segunda fase romântica da literatura portuguesa.

02) (UNIFESP/2012)

Leia o poema de Almeida Garrett.

Seus olhos

Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, elemo, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti…
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Da leitura do poema, depreende-se que se trata de obra do

a) Barroco, no qual se identifica o escapismo psicológico.

b) Arcadismo. no qual se identifica a contenção do sentimento.

c) Romantismo, no qual se identifica a idealização da mulher.

d) Realismo, no qual se identifica o pessimismo extremo.

e) Modernismo, no qual se identifica a busca pela liberdade.

03) (UEL PR/2015) 

O presbítero Eurico era o pastor da pobre paróquia de Carteia. Descendente de uma antiga família bárbara, gardingo na corte de Vítiza, depois de ter sido tiufado ou milenário do exército visigótico vivera os ligeiros dias da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso, gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da sua felicidade. Namorado de Hermengarda, filha de Favila, Duque de Cantábria, e irmã do valoroso e depois tão célebre Pelágio, o seu amor fora infeliz. O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos.Depois de mil provas de um afeto imenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas de sublime poesia a que o mundo deu o nome de imaginações desregradas, porque não é para o mundo entendê-las.

Desventurado, o seu coração de fogo queimou-lhe o viço da existência ao despertar dos sonhos do amor que o tinham embalado. A ingratidão de Hermengarda, que parecera ceder sem resistência à vontade de seu pai, e o orgulho insultuoso do velho prócer deram em terra com aquele ânimo, que o aspecto da morte não seria capaz de abater. A melancolia que o devorava, consumindo-lhe as forças, fê-lo cair em longa e perigosa enfermidade, e, quando a energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do túmulo, semelhante ao anjo rebelde, os toques belos e puros do seu gesto formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo fogo do céu.

(HERCULANO, A. Eurico, o presbítero.
2.ed. São Paulo: Martin Claret, 2014. p.26-27.)

Sobre o romance Eurico, o presbítero, considere as afirmativas a seguir.

I. A história das personagens se passa em meio às lutas pela defesa do território da Península Ibérica diante da tentativa de dominação pelos muçulmanos.

II. A guerra santa, que é pano de fundo do romance, diz respeito ao contexto da reforma protestante, em que católicos e reformistas se enfrentam em batalhas sangrentas.

III. Hermengarda escapa do clichê romântico e é a única personagem da obra cujo final é feliz, visto que consegue se casar com um soldado e dar à luz três filhos.

IV. Romance da primeira geração romântica, coloca a história de amor em segundo plano, na medida em que evidencia a questão histórica.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas I e II são corretas.

b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.

d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.

e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas

GABARITO:

01) C;

02) C;

03) B.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.

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