A questão da raça e da etnia

Saiba mais sobre os conceitos de etnia, de raça e como o problema ético-racial está inserido na sociedade!

A ideia de raça existe há muito tempo, desde o processo de neocolonização dos continentes africano e asiático, e serviu para estabelecer diferenças e hierarquias entre os grupos humanos a partir de suas características biológicas. A ideia de etnia, por sua vez, foi definida a partir das práticas sócio-culturais e históricas dos diferentes grupos, o que permite ressaltar e evidenciar a diversidade cultural.

Desde muito cedo, temos acesso e conhecemos a diversidade existente entre os seres humanos. Podemos notá-la andando pelas ruas e notando as diferenças entre as pessoas ou assistindo a filmes e programas na TV, lendo revistas, sites e redes sociais, por exemplo.

Notamos, assim, que entre as pessoas existem diferentes traços, formatos dos olhos, do nariz ou da boca, assim como diferentes cores de pele, cores e formatos de cabelo, além dos mais variados tipos de roupas e adereços, músicas, hábitos.

raça e etnia
Fonte: https://bit.ly/2mGZcVW

Essas diferenças podem ser notadas no contexto de uma mesma cidade ou país, mas ficam ainda mais evidentes quando pensamos nos diferentes países e os diferentes grupos culturais existentes ao redor do mundo. Mas você já parou para pensar que, além das diferenças entre as pessoas e culturas, existem também diversas formas de entender e tratar essas diferenças? Ou seja, as diferentes etnias e raças existentes no planeta são vistas, tratadas e valorizadas, de formas diferentes. Você já parou pra pensar por que isso acontece?

A ideia de raça

A crença de que alguns povos são superiores a outros existe desde a Antiguidade, mas sofreu transformações ao longo do tempo. Ideias como povos bárbaros x povos civilizados, por exemplo, já existem desde a Grécia Antiga, e é partir de ideias como essa que se elabora a perspectiva de alguns povos seriam “passíveis de dominação”.

Essa justificativa foi utilizada no período das Grandes Navegações, quando navegadores de alguns locais da Europa – principalmente Portugal e Espanha – iniciaram o processo de colonização de outras terras e continentes, sobretudo o continente americano.

A ideia de raça surgiu posteriormente, no século XIX, a partir da crença de que existiriam estruturas biológicas distintas entre “conquistadores” e “conquistados”. Ele serviu para justificar ações do passado, como a escravização de africanos, e outras que estavam em curso, como o imperialismo sobre os países africanos.

Sendo assim, os povos colonizados passaram a ser considerados “raças inferiores”, ao passo que os colonizadores se consideravam “raças superiores”. Neste sentido, podemos considerar que a ideia de raça surge para justificar e legitimar o processo de colonização e as relações dominação imposta aos chamados “povos conquistados”.

Muito do que vivemos hoje quanto à questão étnico-racial na nossa sociedade, tem relação direta com este processo iniciado há séculos atrás. Foi a partir de tais acontecimentos que a população mundial, os diferentes povos e culturas existentes, foram divididos e distribuídos em hierarquias de acordo com sua proximidade com as características das chamadas raças superiores. E na medida em que se diferenciavam deste modelo, eram vistos como inferiores.

Essa forma de ver e julgar os diversos grupos foi, pouco a pouco, sendo naturalizada a partir de diversos processos históricos, sociais e políticos, e permeia até hoje a visão da maioria das pessoas. As características físicas, os traços fenotípicos, assim como as manifestações e produções culturais e de conhecimento dos grupos que se diferenciam do padrão europeu, geralmente, são considerados inferiores.

Nesse sentido, muitos dos racismos, preconceitos e discriminações observadas em relação aos diferentes grupos têm relação com essa forma de ver o mundo e dividir os seres humanos iniciada com as colonizações.

raça
Fonte: https://bit.ly/2Ibp7db

O conceito de etnia

Atualmente, por outro lado, há a tentativa de reconhecer e ressaltar a diversidade humana. A partir disso, temos o conceito de etnia, que procura abordar a dinâmica da interação entre os diferentes grupos e povos que compõem a população mundial. Entende-se por etnia o conjunto de seres humanos que partilham diferentes aspectos culturais e sociais, como a linguagem e a religião, por exemplo.

Enquanto o conceito de raça parte da ideia de distinção entre os grupos a partir de diferentes origens biológicas, o conceito de etnia refere-se às práticas socioculturais e históricas dos diferentes grupos, o que permite deslocar a explicação biológica da questão.

Sendo assim, fazer parte de uma etnia diz respeito à consciência de pertencer a uma determinada comunidade com a qual possui identificação a partir da cultura e das interações socioespaciais vivenciadas naquele âmbito, que moldam a visão de mundo e a maneira de se enxergar e se relacionar neste mundo.

raça e etnia
Fonte: SILVA, Helvecio da. O menino marrom. Disponível em: https://bit.ly/2lcKNAr

Nesse sentido, podemos dizer que o termo etnia possibilitou combater a ideia equivocada de que existiriam “raças superiores” e “raças inferiores” já que, em vez de carregar o sentido biológico, o conceito de etnia enfatiza a cultura e a questão da diferença cultural, favorecendo e exaltando a diversidade cultural existente.

É importante ter em vista, no entanto, que ainda que os diferentes termos permitam este deslocamento de interpretação em torno da diferença e diversidade humana, não é difícil nos depararmos com manifestações racistas, xenofóbicas e etnocêntricas ainda nos dias atuais. Por outro lado, existe também uma maior preocupação em torno da preservação das diferentes culturas advindas das diferentes grupos e etnias.

No Brasil a diversidade étnica é enorme. São contabilizados, aproximadamente, 238 etnias indígenas, por exemplo, o que deixa evidente a enorme diversidade existente em nosso país. Além dos povos indígenas originários deste território, temos também as/os negras/os e brancas/os compondo a grande maioria da população brasileira, oriundos de diversos países, etnias e culturas, e que, em sua grande maioria, também são oriundos também do processo de colonização.

Em 1937 foi criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) com o objetivo de proteger os bens de natureza material e imaterial que fossem portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

A criação deste órgão é indicativo da mudança de perspectiva acerca da diversidade étnica e cultural do país e do reconhecimento desta como nosso patrimônio, que merece – e deve – ser preservado e transmitido. E, para fortalecer ainda mais este intuito, em 2010 foi promulgada a Lei nº 12343 que instituiu o Plano Nacional de Cultura, cujo objetivo é proteger e promover a diversidade cultural brasileira.

Agora assista à esta videoaula para estudar um pouco mais sobre a ideias de raça e etnia!

Exercícios:

Questão 01 – (UNIOESTE PR/2019)

FONTE 1:

Existe muita coisa que não te disseram na escola

Cota não é esmola!

Experimenta nascer preto na favela pra você ver!

O que rola com preto e pobre não aparece na TV

Opressão, humilhação, preconceito

A gente sabe como termina, quando começa desse jeito

Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais

Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais

Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé

Não tem dinheiro pro busão

Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão

E já que tá cansada quer carona no busão

Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!

[…]

O tempo foi passando e ela foi crescendo

Agora lá na rua ela é a preta do sovaco fedorento

Que alisa o cabelo pra se sentir aceita

Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita

Agora ela cresceu, quer muito estudar

Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular

E a boca seca, seca, nem um cuspe

Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não vai pra USP

Foi o que disse a professora que ensinava lá na escola

Que todos são iguais e que cota é esmola

Cansada de esmolas e sem o din da faculdade

Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro da cidade

Experimenta nascer preto, pobre na comunidade

Cê vai ver como são diferentes as oportunidades

E nem venha me dizer que isso é vitimismo

Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!

E nem venha me dizer que isso é vitimismo […]

FERREIRA, Bia. Cota não é esmola.
Disponível em: https://www.letras.
mus.br/bia-ferreira/cota-nao-esmola/

 

FONTE 2:

Os troncos, bacalhaus (chicotes) e outros instrumentos de tortura alimentam as fogueiras, em redor das quais os novos cidadãos entregam-se ao mais delirante batuque.

Charge de Agostini, publicada na “Revista
Ilustrada” em maio de 1888 In: http://novo.
mgquilombo.com.br/artigos/pesquisas-esco-
lares/abolicao-como-foi-a-libertacao-dos-es-
cravos-em-minha-cidade/ (sem data de pos-
tagem). Acesso em: 10 ago. 2018

Preste bastante atenção nas fontes 1 e 2. Na primeira, vemos um trecho de “Cota não é esmola”, música composta por Bia Ferreira e lançada em 2018. Na sequência, uma arte do famoso chargista, Agostini, de maio de 1888, em um contexto marcado pelo processo de abolição jurídica da escravatura (a chamada “Lei Áurea”, de 13 de maio).

A distância temporal entre a data de lançamento da música e de publicação da charge é imensa, cobrindo todo o período, o qual em nosso país se comemora o dia da “libertação” de negros e negras escravizadas. Ocorre, contudo, que tal distância não tem servido historicamente para que esses seres humanos deixem de ser alvos constantes de violência, criminalização e, particularmente, racismo. Pelo contrário, são séculos e séculos de opressão. Neste sentido, pouco (ou quase nada) temos a “comemorar”.

Tendo por referência as duas fontes acima e os problemas históricos que envolvem o tema da “abolição da escravatura” no Brasil, é CORRETO afirmar que

a) a alegria dos negros em roda, representada pela fonte 2, ilustrou perfeitamente a conquista definitiva da tão sonhada libertação, cujos reflexos são sentidos em nosso tempo presente através da eliminação do racismo.

b) o processo histórico, que chamamos de “abolição da escravatura” não pode ser reduzido simplesmente a uma data, a uma personagem ou à promulgação de uma lei jurídica, pois trata-se de uma luta histórica de negros e negras contra quaisquer formas de opressão, tanto no passado como no presente.

c) em “Cota não é esmola” (fonte 1), fica evidenciada na letra da canção uma posição firme e combativa em defesa das comunidades indígenas, como se pode constatar no verso “Experimenta nascer preto, pobre na comunidade / Cê vai ver como são diferentes as oportunidades”.

d) a distância temporal de 130 anos que separa a charge de Agostini (1888) da letra da canção de Bia Ferreira (2018) corresponde a um período histórico marcado por um conjunto expressivo de políticas educacionais voltadas à formação de gerações de jovens sem preconceitos ou discriminações raciais.

e) não há qualquer relação histórica entre as mensagens das fontes 1 e 2, na medida em que cada uma delas fala de um Brasil completamente diferente – ou seja, a alegria dos negros em roda na charge do século XIX em comemoração ao fim do racismo contrasta bastante com a crítica e a rebeldia da canção.

 

Questão 02 – (Mackenzie SP/2019)

“ A grande lavoura açucareira na colônia brasileira iniciou-se com o uso extensivo da mão de obra indígena (…) Do ponto de vista dos portugueses, no período de escravidão indígena, o sistema de relações de trabalho era algo que fora pormenorizadamente elaborado. Tal período foi também aquele em que o contato entre os europeus e o gentio começou a criar categorias e definições sociais e raciais que caracterizaram continuamente a experiência colonial.”

(Schwartz, Stuart B. Segredos Internos:
Engenhos e escravos na sociedade colonial
.
São Paulo: Cia das Letras, 2005, p. 57)

Sobre o trabalho escravo durante o período colonial é correto afirmar que

a) o uso da mão de obra indígena estendeu-se durante todo o período colonial. No primeiro momento, durante a extração do pau-brasil, os portugueses utilizavam o escambo. No segundo momento, a partir da produção canavieira, foi organizada a escravidão dos povos indígenas.

b) desde o primeiro contato com os portugueses, os indígenas foram submetidos ao trabalho escravo. Seja na extração do pau-brasil seja na grande lavoura canavieira, o sistema escravista baseado na mão de obra nativa predominou diante de outras formas de trabalho.

c) a partir da necessidade de mão de obra para a produção canavieira, os povos indígenas foram submetidos à escravidão. Porém, a partir da chegada dos primeiros grupos de africanos, a escravidão indígena foi paulatinamente abandonada até chegar ao fim em meados do século XVII.

d) a escravidão indígena foi implantada durante o chamado Período Pré-colonial e tinha como objetivo usar o máximo de mão de obra para a extração do pau-brasil. Com a implantação da grande lavoura e a chegada dos africanos, a escravidão indígena perdeu força e foi abandonada no século XVIII.

e) após utilizar o trabalho indígena com o escambo, os portugueses recorrem à sua escravização. Isso se deve à necessidade portuguesa de mão de obra para a grande lavoura e à indisposição indígena para o trabalho aos moldes europeus. No século XVII, é substituída definitivamente pela escravidão africana.

 

Questão 03 – (UFSC/2017)

As raças superiores têm um direito perante as raças inferiores. Há para elas um direito porque há um dever para elas. As raças superiores têm o dever de civilizar as inferiores […]. Vós podeis negar; qualquer um pode negar que há mais justiça, mais ordem material e moral, mais equidade, mais virtudes sociais na África do Norte desde que a França a conquistou?

FERRY, J. Discurso ao parlamento francês em 28 de julho de 1885. In: MESGRAVIS. L. A
colonização da África e da Ásia. São Paulo: Atual, 1994, p. 14.

Sobre o Imperialismo e o Neocolonialismo no continente africano no século XIX, é correto afirmar que:

01. os países europeus procuraram justificar a dominação de outros povos com base em uma interpretação equivocada das teorias de Charles Darwin, adotando o que se chamou de darwinismo social.

02. Leopoldo II, rei belga, constituiu uma sociedade privada comandada por ele para ocupar e administrar seus territórios na África. Isso se deu depois que o Parlamento da Bélgica não apoiou o desejo do rei de estabelecer um império colonial.

04. os europeus, por conhecerem pouco os recursos naturais e a geografia africana, sucumbiram muitas vezes na tentativa de ocupar o continente, o que explica terem levado quase todo o século XIX para consolidar seu projeto neocolonial.

08. estudos recentes têm levado em consideração o fato de que a resistência africana à invasão europeia no continente contribuiu para acelerar o processo de dominação através de intensas ações militares.

16. a Conferência de Berlim foi realizada na Alemanha, entre 1884 e 1885, com a presença de algumas lideranças de diferentes etnias africanas que concordavam com as ações das nações europeias.

32. muitas fronteiras foram criadas por meio de acordos diplomáticos entre os países europeus levando em consideração as divisões étnicas e culturais dos povos que ali viviam como estratégia para evitar possíveis conflitos entre os povos originários do continente.

 

Questão 04 – (FPS PE/2019)

A escravidão marcou socialmente o Brasil, fomentando preconceitos e desigualdades. Na atualidade, o Brasil:

a) conseguiu estabelecer a harmonia inter-racial e a diversidade cultural.

b) mecanizou sua produção e superou os problemas do passado.

c) democratizou a sociedade e garantiu condições iguais para os cidadãos.

d) fortaleceu os partidos políticos, os debates e as ideias polêmicas.

e) mantém uma desigualdade que é produtora de miséria e epidemias.

 

01 – Gabarito: B

02 – Gabarito: A

03 – Gabarito: 11

04 – Gabarito: E

Sobre o(a) autor(a):

O texto acima foi escrito por Natália Lima para o Curso Enem Gratuito. Natália é formada em Ciência Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina, e mestre em Sociologia Política pela mesma instituição. Atualmente, trabalha como professora de Sociologia na rede estadual de educação.

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