Interiorização do Brasil: expansão pecuária e drogas do sertão

Interiorização do Brasil foi o processo de ocupação do sertão do Nordeste e da região Norte por meio da expansão pecuária e extração de drogas do sertão. Entenda!

Você deve lembrar que, nos primeiros tempos da colonização, todas as áreas habitadas ficavam no litoral. Mas você sabe como e por que o sertão nordestino e a Amazônia foram ocupados pela primeira vez? Nesta aula você vai ver que a interiorização do Brasil só aconteceu por causa da expansão da pecuária e da exploração das drogas do sertão.

A atividade pecuária no Brasil colonial

No século XVII, a principal atividade econômica da colônia brasileira era a produção de açúcar. Para que os engenhos funcionassem, era necessária a utilização de bois, que movimentavam as moendas. Eles também eram utilizados para o transporte de cana-de-açúcar.

Dessa forma, a pecuária era uma atividade necessária à economia açucareira. Conforme os engenhos foram se espalhando pelo litoral, a pecuária também cresceu.  Além disso, o gado era utilizado para arar a terra em outras partes da colônia, como na capitania de São Vicente.

Como o gado começou a ser um recurso abundante, a carne, o leite e o couro também eram aproveitados. Assim, a pecuária foi se desenvolvendo para atender interesses internos da colônia. Era uma atividade econômica com objetivos diferentes da produção de açúcar, que era destinada à exportação.

Inicialmente, a atividade pecuária dividia espaço com a lavoura canavieira. No entanto, os senhores de engenho começaram a alegar que as pastagens ocupavam espaço que poderia ser destinado à plantação de cana-de-açúcar. Dessa maneira, em 1701, o Governo-geral atendeu ao pedido dos fazendeiros. Foi determinado que a criação de gado só poderia ocorrer a 10 léguas (cerca de 66 km) da costa – bem longe dos canaviais.

Engenho de açúcar - interiorização do Brasil
Representação de um engenho de açúcar com a utilização de bois. A pintura é de Benedito Calixto, de 1920.

A interiorização do Brasil

Foi dessa maneira que iniciou a interiorização do Brasil. Os criadores de gado foram avançando cada vez mais para oeste e ocupando territórios até então desconhecidos para os portugueses. Assim, as fronteiras da colônia foram sendo ampliadas.

Currais começaram a ser formados a partir do Recôncavo Baiano e seguiram pelas margens do rio São Francisco e de alguns afluentes. Mais tarde, os criadores de gado também começaram a se estabelecer ao longo do rio Parnaíba. De 1594 até 1640, o número de currais ao longo do rio São Francisco saltou de 47 para 2 mil.

Como a criação de gado não exigia investimentos altos da mesma forma que os engenhos e havia abundância de terras, a atividade era atrativa. No início do século XVIII, já havia cerca de 1,3 milhão de cabeças de gado do Nordeste brasileiro.

O crescimento se deu em boa parte por causa do desenvolvimento da atividade mineradora. O crescimento econômico e populacional das regiões auríferas exigia mais gado para alimentar a população e para transportar o ouro.

O movimento de interiorização do Brasil por meio da expansão da pecuária foi tão rápido que, no início do século XIX, todo o sertão nordestino estava ocupado.

Resistência indígena

Apesar da expansão da colonização, não é como se as terras estivessem livres e esperando para serem ocupadas. O interior era habitado por uma diversidade de povos indígenas que resistia à invasão dos colonos.

O Governo-geral e os fazendeiros passaram a contratar os bandeirantes paulistas para que combatessem e desalojassem os nativos. Essa atividade dos bandeirantes no Nordeste ficou conhecida como sertanismo de contrato.

Um dos maiores conflitos que aconteceram nesse contexto foi a Guerra dos Bárbaros, que foi de 1638 a 1713. Milhares de indígenas dos atuais estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte foram mortos e escravizados.

Um dos resultados da usurpação das terras foi a concentração fundiária. Poucas famílias tornaram-se proprietárias de fazendas enormes, por vezes maiores até do que Portugal.

Funcionamento das fazendas

Normalmente, as fazendas de gado tinham pequenas construções: uma casa de barro e um curral de pedra ou madeira. Algumas maiores possuíam locais para produção de farinha, fiação de algodão e tendas de ferreiros. Eram bem diferentes das fazendas açucareiras.

Os grandes proprietários não costumavam morar nas fazendas. Aqueles que eram donos de engenho permaneciam no litoral e deixavam as instalações sob a responsabilidade dos chamados vaqueiros.

Vaqueiro - Interiorização do Brasil
Representação de um vaqueiro. Ilustração de Charles Landseer.

As fazendas de gado contavam com trabalhadores livres, os chamados fábricas, e com negros e indígenas escravizados. Os trabalhadores livres lidavam com trabalho diretamente ligado ao gado. Enquanto isso, os escravos ficavam encarregados da fabricação de utensílios como celas, arreios, tecidos e objetos feitos de barro e ferro.

Ocupação da região Norte

Enquanto a interiorização do Brasil ocorreu pelo gado no Nordeste, no Norte a economia era movida pela busca das chamadas “drogas do sertão”. No final do século XVII, produtos como cacau, cravo, canela, castanha-do-pará, salsaparrilha, açaí, urucum e ervas medicinais começaram a ser enviados para a Europa.

No entanto, a colonização da região Norte já havia iniciado décadas antes. Durante o período da União Ibérica, a Coroa temeu que franceses e holandeses invadissem o território da Amazônia. Os espanhóis tinham interesse particular em defender a região porque ela poderia dar acesso às minas de prata localizadas no Peru.

Por isso, em 1616 fundaram o Forte do Presépio de Santa Maria de Belém, na foz do Amazonas. A região era estratégica, pois facilitava a defesa contra invasões estrangeiras. No entanto, a defesa militar não era suficiente para declarar posse do território.

Fundação de Belém - Interiorização do Brasil
Pintura feita em 1908 por Theodoro Braga. Ela representa a fundação de Belém. No centro, um açaizeiro, uma imbaubeira e uma seringueira, árvores típicas da região.

O povoamento foi incentivado, assim como o desenvolvimento de alguma atividade econômica. Assim, em torno do forte surgiu um núcleo urbano que se transformaria na cidade de Belém. Ao mesmo tempo, foi desenvolvida a atividade econômica da coleta de drogas do sertão.

Drogas do sertão

Para valorizar economicamente a região, foram enviadas ordens religiosas como franciscanos, carmelitas e, principalmente, jesuítas. Com suas atividades de catequização dos indígenas, os colonos puderam se apropriar dos conhecimentos nativos para desbravar a mata e encontrar potenciais produtos de exportação.

Como havia perdido boa parte de suas possessões para a Holanda e Inglaterra, Portugal não conseguia comercializar especiarias do Oriente. Por isso, viu potencial em produtos como o cacau, urucum e anil.

Dessa maneira, eram organizadas expedições para a coleta das drogas do sertão. Seus participantes permaneciam por várias semanas na selva. Sempre iam armados, pois encontravam as populações nativas pelo caminho. Aliás, estima-se que milhões de indígenas tenham morrido durante o processo de colonização do Norte.

Todavia, também havia indígenas que participavam da coleta. Eles orientavam os brancos sobre como percorrer a mata, indicavam produtos a serem aproveitados e faziam trabalhos braçais. Quando terminavam seus trabalhos, recebiam parte dos produtos como pagamento.

Na volta das expedições, os produtos eram entregues para comerciantes chamados de mascates. Então, eles enviavam as mercadorias pelo rio até Belém, de onde seguiam para a Europa.

Além da coleta, também se desenvolveram atividades como a pesca, coleta de ovos de tartaruga e extração de madeira.

Para aprofundar os seus conhecimentos sobre a interiorização do Brasil, veja esta videoaula e, em seguida, resolva os exercícios:

Exercícios:
1 – (Faculdade Guanambi BA/2018)    

A agromanufatura açucareira foi uma importante atividade econômica que predominou no Brasil colônia. Porém, a extração de drogas do sertão e a exploração da pecuária também representaram um papel de destaque no desenvolvimento da colônia, porque

01. utilizaram o sistema de exploração da mita, originário das colônias espanholas, que, posteriormente, permitiu a formação de uma mão de obra mais qualificada e assalariada.

02. absorveram um grande número de escravos africanos, principalmente para a pecuária, quando, a partir do século XVII, esta mão de obra foi transferida dos grandes engenhos em decadência.

03. determinaram o surgimento de um mercado interno autônomo em relação à metrópole, possibilitando a acumulação de capital dentro da colônia e um comércio livre do controle metropolitano.

04. contribuíram para o aumento da escravização do indígena, apoiada pela Igreja Católica, que se constituiu a mão de obra básica na exploração das atividades econômicas interioranas.

05. foram responsáveis pela interiorização territorial do Brasil, com a exploração das drogas do sertão no norte da colônia e da pecuária extensiva, ao longo do rio São Francisco.

2 – (IFGO/2013)   

O artigo mais importante do intercâmbio com as Minas era o gado bovino. Os currais baianos exportavam para as Gerais boiadas e mais boiadas. Esse negócio era muito vantajoso para os criadores que tinham currais ao longo do rio São Francisco.

ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII. 2° ed. São Paulo: Hucitec, 1990. p.72.

Assinale a alternativa correta:

a) O trecho demonstra o equívoco dos estudos históricos que apontavam o século XVIII como o “século do ouro” na economia colonial e que o grande produto comercializado nessa época era a carne bovina.

b) A aquisição de gado baiano mostra que a pecuária foi uma prática econômica importante para o desenvolvimento da mineração. Afinal, foi o trânsito do gado que impulsionou as primeiras descobertas de metais preciosos no território colonial.

c) O crescente comércio de gado destacado no trecho se relaciona com um dos efeitos da instalação da atividade mineradora. No caso, o rápido e volumoso incremento da população localizada no interior do território colonial.

d) O comércio de gado, apesar de volumoso, era uma atividade ilegal durante o período colonial. A Coroa Portuguesa exigia que esse tipo de mercadoria fosse exclusivamente importada da metrópole.

e) Muitos estudiosos colocam em dúvida a dimensão dada à criação bovina feita “ao longo do rio São Francisco”. Isso porque a região nordeste é historicamente conhecida por seus graves problemas ligados à seca.

3- (UFT TO/2013)    

“Sem o gentio, portanto, não se dava um passo. Era ele que remava, caçava, pescava, fazia as farinhas, lavrava a terra, guiava as expedições, passava as cachoeiras, indicava os perigos e os meios de escapar a eles, apontava os tipos de flora e da fauna, construía os povoados, fazia mil artefatos de que havia necessidade para que se pudesse prosseguir na campanha de fundação do Império Ocidental no ambiente exótico e hostil: ele era nervo e vida” (REIS, A. C. F. O processo histórico da economia amazonense. RJ: Imprensa Nacional, 1944).

O processo histórico de ocupação e colonização dos rios do vale amazônico resulta de um disputado processo político e, sobretudo, econômico visto a sua exuberância e riqueza natural. O texto acima expõe o fato de que na área amazônica do Brasil Colonial registrou-se, em termos econômicos, a adoção de uma mão de obra caracterizada pela:

a) aplicação dos nativos na exploração de metais preciosos

b) exploração intensiva do escravo negro na produção de cana de açúcar

c) produção de borracha para atender ao crescente mercado europeu

d) utilização dos indígenas na economia coletora florestal das “drogas do sertão”

e) exploração do indígena na criação de gado, aproveitando a rica hidrografia da região

Gabarito:

  1. 05
  2. C
  3. D

Sobre o(a) autor(a):

Ana Cristina Peron é formada em História pela Universidade Federal de Santa Catarina e é redatora do Curso Enem Gratuito.