Linguagem, língua e fala: a tríade da comunicação

Qual o conceito de linguagem? Existem várias formas de linguagem? A linguagem é um aspecto próprio do ser humano ou os animais também a possuem? O que é língua? Linguagem e língua são palavras sinônimas? Qual a definição mais precisa de fala? Veja as respostas para essas e outras perguntas no texto abaixo.

Nesta aula vamos definir, didaticamente, os conceitos de Linguagem, Língua e Fala, os quais constituem a tríade da comunicação. Ao longo da aula, buscaremos diferenciar tais conceitos, mas também frisar o caráter de interdependência existente entre os três. Além disso, faz-se necessária tal abordagem, uma vez que os vestibulares e a prova de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias do Enem sempre tematizam esse conteúdo em suas questões.

Como todos nós sabemos, a prova de Linguagens do Enem possui questões que fogem do formato padrão da maioria dos vestibulares brasileiros. São questões que requerem mais análise e interpretação do que a decoreba de conceitos gramaticais ou escolas literárias.

Como o próprio nome da prova já sugere – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – as questões não versarão apenas sobre uma linguagem ou um código específico.Isto é, elas não contemplarão apenas aspectos da nossa língua portuguesa, seja na modalidade oral ou escrita. Teremos questões das mais diversas, tematizando sobre várias linguagens, como a dança, a pintura, o cinema, o teatro, as histórias em quadrinhos, os poemas concretos, as canções, etc.

E é aí que surgem algumas dúvidas sobre o conteúdo referente à língua, linguagem/linguagens e fala. Dúvidas que precisam ser esclarecidas! Uma vez que vemos, anualmente, a prova de Linguagens do Enem mobilizando esses conceitos em suas questões, de maneira contextualizada e, muitas vezes, de maneira crítica também.

Primeiramente você deve saber que linguagem, língua e fala são três conceitos indissociáveis no processo comunicativo. Entretanto, individualmente, são conceitos diferenciáveis entre si. Vejamos agora as definições e alguns exemplos para cada uma dessas palavras a fim de entendermos suas diferenças, suas relações e a aplicabilidade de cada uma delas em determinados contextos de comunicação.

Linguagem

De maneira genérica, definimos linguagem como a capacidade humana de utilizar um sistema de signos (um signo é a associação convencionalizada de forma e conceito) com vistas à comunicação (transmissão e recepção de mensagens). Dito de outro modo, a linguagem é um sistema de sinais linguísticos usados na transmissão de uma mensagem. É a capacidade de comunicação de ideias, pensamentos, opiniões, sentimentos, experiências, desejos, informações…

Existem dois tipos de linguagem:

– A linguagem verbal, que recorre a palavras como forma de comunicação, manifestando-se por meio de palavras escritas ou faladas;

– E a linguagem não verbal, que utiliza outros meios comunicativos, como gestos, sons, imagens, sinais, cores, desenhos, expressões faciais, entre outros.

A linguagem também pode ser compreendida em um sentido mais amplo. Ela pode ser entendida como qualquer sistema de signos usados para comunicar e, por extensão, a capacidade para usar um sistema para fins comunicativos. Como exemplos temos a linguagem animal, linguagem computacional, música, dança, cinema, história em quadrinhos, teatro, etc.

Saiba mais sobre os mistérios da linguagem humana assistindo ao documentário As origens da linguagem humana. Uma aula para aprender Língua Portuguesa, Biologia, História e muito mais!

 

linguagem
A dança é uma forma de linguagem: ela possui um sistema próprio de signos, para fins específicos – emocionar, chocar, denunciar, deleitar…

Língua

A língua, por sua vez, é um conjunto de palavras organizadas por regras gramaticais específicas. Trata-se de uma noção que sugere que a capacidade de linguagem se realiza em um material concreto, disponível culturalmente, uma língua natural.

Em outras palavras, a língua é uma convenção que permite que a mensagem transmitida seja sempre compreensível para os indivíduos de um determinado grupo. Assim, tem um caráter social e cultural, sendo usada por uma comunidade específica: língua portuguesa, língua francesa, língua grega, língua russa, língua inglesa, língua chinesa, etc.

linguagem
A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), que foi tematizada na proposta de redação do Enem 2017, é uma língua com estrutura gramatical própria e não uma linguagem, sendo reconhecida, também, como língua oficial de sinais do Brasil desde 2002.
Como surgiram as línguas e os dialetos? Veja o depoimento do Prof. Agnaldo Martino, Doutor em Língua Portuguesa, e aprenda mais sobre os conceitos apresentados nesta aula

Fala

Já a fala é a forma pessoal de expressão de cada indivíduo, que possui uma organização própria de pensamentos, ideias e opiniões. A fala segue as regras gramaticais da língua, mas deixa margem para a criatividade e diferenciação na comunicação em função de quem fala.

Ela é influenciada pelo contexto, vivências, personalidade e conhecimentos linguísticos do falante, apresentando diversos níveis, desde o mais informal ou coloquial/popular, até o mais formal/culto. A fala também se manifesta nos níveis regional, vulgar, técnico ou profissional, literário ou artístico. Todos esses níveis constituem as variedades linguísticas da modalidade oral da língua, materializada através da fala.

A ciência que estuda os fatos da linguagem, bem como as diferentes línguas e linguagens, e até mesmo a fala, denomina-se Linguística.

Linguagem animal

A linguagem animal pode ser definida como o conjunto de sons (cantos, gritos, chamados, trinados, mugidos, etc.), expressões faciais, mudanças na pelagem ou plumagem, cor ou formato do corpo, usados por animais de uma mesma espécie para se comunicarem entre si. Caracteriza-se como uma “linguagem” pré-formal, pré-nominal ou pré-gramatical, usada para fins de acasalamento, proteção, demarcação territorial, organização social, alertas, entre muitos outros usos.

linguagem
A linguagem do amor: O pássaro-cetim (típico da Austrália) é uma ave que exibe um ritual de cortejamento complexo.

O termo é muito mais estudado e empregado pela Biologia. Por linguagem animal os biólogos referem-se, por exemplo, à comunicação de “estados de humor” (emoções) entre os macacos. Estudos sobre os chimpanzés identificaram mais de cem sinais (expressões faciais com ou sem vocalizações) para comportamentos de jogo, agressão, alarme, organização do bando, sexo, etc. O cientista Charles Darwin, no seu The Expression of the Emotions in Man and Animals (A expressão das emoções no homem e nos animais), ilustra as manifestações da linguagem em alguns primatas. Veja dois exemplos:

Cynopithecus niger com expressão plácida

 

Cynopithecus niger com expressão de satisfação ao ser acariciado

A comunicação entre os animais, e entre os animais e o homem, é um objeto de estudo fascinante e importante, sobretudo para a Biologia e para a Psicologia. Entretanto, sob o ponto de vista da Linguística, linguagem animal é um termo impróprio. Do mesmo modo como não podemos classificar as expressões faciais humanas (que certamente comunicam) ou a comunicação de um cão com seu dono de linguagem, também não podemos classificar a comunicação dos macacos entre si como linguagem.

Revise o conteúdo de Linguagem, Língua e Fala com esta videoaula:

 Exercícios:

Questão 1 (Enem-2010)

O Chat e sua linguagem virtual

“O significado da palavra chat vem do inglês e quer dizer “conversa”. Essa conversa acontece em tempo real, e, para isso, é necessário que duas ou mais pessoas estejam conectadas ao mesmo tempo, o que chamamos de comunicação síncrona. São muitos os sites que oferecem a opção de bate-papo na internet, basta escolher a sala que deseja “entrar”, salas são divididas por assuntos, como educação, cinema, esporte, música, sexo, entre outros. Para entrar, é necessário escolher um nick, uma espécie de apelido que identificará o participante durante a conversa. Algumas salas restringem a idade, mas não existe nenhum controle para verificar se a idade informada é realmente a idade de quem está acessando, facilitando que crianças e adolescentes acessem salas com conteúdos inadequados para sua faixa etária.”

Segundo o texto, o chat proporciona a ocorrência de diálogos instantâneos com linguagem específica, uma vez que nesses ambientes interativos faz-se uso de protocolos diferenciados de interação. O chat, nessa perspectiva, cria uma nova forma de comunicação porque:

a) possibilita que ocorra diálogo sem a exposição da identidade real dos indivíduos, que podem recorrer a apelidos fictícios sem comprometer o fluxo da comunicação em tempo real.

b) disponibiliza salas de bate-papo sobre diferentes assuntos com pessoas pré-selecionadas por meio de um sistema de busca monitorado e atualizado por autoridades no assunto.

c) seleciona previamente conteúdos adequados à faixa etária dos usuários que serão distribuídos nas faixas de idade organizadas pelo site que disponibiliza a ferramenta.

d) garante a gravação das conversas, o que possibilita que um diálogo permaneça aberto, independente da disposição de cada participante.

e) limita a quantidade de participantes conectados nas salas de bate-papo, a fim de garantir a qualidade e eficiência dos diálogos, evitando mal-entendidos.

 

Questão 2 (Enem-2010)

Resta saber o que ficou nas línguas indígenas no Português do Brasil. Serafim da Silva Neto afirma: “No Brasil não há, positivamente, influência das línguas africanas ou ameríndias”. Todavia, é difícil de aceitar que um longo período de bilinguismo de dois séculos não deixasse marcas no português do Brasil.

ELIA, S. Fundamentos Histórico-Linguísticos do Português do Brasil. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003 (adaptado).

No final do século XVIII, no norte do Egito, foi descoberta a Pedra de Roseta, que continha um texto escrito em egípcio antigo, uma versão desse texto chamada “demótico”, e o mesmo texto escrito em grego. Até então, a antiga escrita egípcia não estava decifrada. O inglês Thomas Young estudou o objeto e fez algumas descobertas como, por exemplo, a direção em que a leitura deveria ser feita. Mais tarde, o francês Jean-François Champollion voltou a estudá-la e conseguiu decifrar a antiga escrita egípcia a partir do grego, provando que, na verdade, o grego era a língua original do texto e que o egípcio era uma tradução.

Com base na leitura dos textos conclui-se, sobre as línguas, que:

a) cada língua é única e intraduzível.

b) elementos de uma língua são preservados, ainda que não haja mais falantes dessa língua.

c) a língua escrita de determinado grupo desaparece quando a sociedade que a produzia é extinta.

d) o egípcio antigo e o grego apresentam a mesma estrutura gramatical, assim como as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.

e) o egípcio e o grego apresentavam letras e palavras similares, o que possibilitou a comparação linguística, o mesmo que aconteceu com as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.

 

Questão 3 (Enem-2018)

 “Acuenda o Pajubá”, conheça o “dialeto secreto” utilizado por gays e travestis

Com origem no iorubá, linguagem foi adotada por travestis e ganhou a comunidade

“Nhaoí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué deixe de equê se não eu puxo teu pícumã!” Entendeu as palavras dessa frase? Se sim, é porque você manja alguma coisa de pajubá, o “dialeto secreto” dos gays e travestis.

Adepto do uso das expressões, mesmo nos ambientes mais formais, um advogado afirma: “É claro que eu não vou falar durante uma audiência ou numa reunião, mas na firma, com meus colegas de trabalho, eu falo de ‘acué’ o tempo inteiro”, brinca. “A gente tem que ter cuidado de falar outras palavras porque hoje o pessoal já entende, né? Tá na internet, tem até dicionário…”, comenta.

O dicionário a que ele se refere é o Aurélia, a dicionário da língua afiada, lançado no ano de 2006 e escrito pelo jornalista Angelo Vip e por Fred Libi. Na obra, há mais de 1 300 verbetes revelando o significado das palavras do pajubá.

Não se sabe ao certo quando essa linguagem surgiu, mas sabe-se que há claramente uma relação entre o pajubá e a cultura africana, numa costura iniciada ainda na época do Brasil colonial.

Disponível em www.midiamax.com.br. Acesso em 4 de abr. 2017 (adaptado).

Da perspectiva do usuário, o pajubá ganha status de dialeto, caracterizando-se como elemento de patrimônio linguístico, especialmente por:

a) ter mais de mil palavras conhecidas.

b) ter palavras diferentes de uma linguagem secreta.

c) ser consolidado por objetos formais de registro.

d) ser utilizado por advogados em situações formais.

e) ser comum em conversas no ambiente de trabalho.

 

GABARITO:

1 – A

1 – B

3 – C

Sobre o(a) autor(a):

Texto produzido pelo Professor João Paulo Prilla para o Curso Enem Gratuito. JP é licenciado em Letras- Português, Inglês e respectivas Literaturas (2010) pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ministra aulas de Literatura, Língua Portuguesa e Redação em escolas da Grande Florianópolis desde 2011.