Técnica para a Redação: Como fazer a Tese e a Introdução por Cronologia

Aprenda como utilizar fatos cronológicos para construir sua argumentação na Redação Enem!

A introdução de uma dissertação através de uma tese que envolva elementos de cronologia é uma das formas mais comuns de se construir um texto. Isso porque ela permite estabelecer claramente relações de causa e consequência. O passado distante é causa do passado próximo; o passado próximo é causa do presente; o presente é causa do futuro. Então preste atenção nesta aula para aprender mais uma ótima técnica para redação!

Para você entender melhor, vou explicar esta técnica utilizando um exemplo de tema, beleza?  Proponho que pensemos em uma dissertação que aborde o tema “Misoginia: opressão de gênero”. A tese por cronologia seria excelente para embasar a construção de uma dissertação com este tema.

Poderíamos, por exemplo, trabalhar com uma tese que abordasse a exploração de gênero através da análise de momentos históricos diferentes, seguindo uma linha de raciocínio contínua, do passado mais distante até o presente.

Nossa tese – a ideia geral que você vai defender e que aparece na introdução – para este tema, poderia ser resumida na seguinte frase:

“A diferença hierárquica entre homens e mulheres na sociedade patriarcal foi construída historicamente, apresentando momentos importantes de resistência e luta.”

Para comprová-la, poderíamos trabalhar, por exemplo, com as três ondas históricas das teorias feministas.

No primeiro parágrafo do desenvolvimento, apresentaríamos a primeira onda do movimento feminista: o movimento sufragista. Mas não se esqueça: apesar dessa técnica utilizar primordialmente fatos históricos, só os acontecimentos não bastam. É preciso argumentar, ou seja, discutir a sua tese geral. Neste caso, seria preciso afirmar que o machismo é histórico, mas a luta feminista também.

Poderíamos começar o primeiro parágrafo assim:

“Apesar do senso comum de que a opressão de gênero teria fundamento biológico, podemos observar a sua formação histórica desde o século XIX, quando o movimento sufragista exigiu mudanças políticas, como o acesso de mulheres à educação e ao voto. As sufragistas norte americanas tiveram como marco o dia 08 de março de 1857, quando centenas de operárias de uma fábrica foram trancadas e queimadas (com apoio da polícia local) por exigirem jornadas de trabalho menores (elas chegavam até a 16 horas por dia) e licença-maternidade. Isso demonstra que a misoginia é socialmente construída e por isso, pode ser problematizada e desconstruída.”

Viu como usamos a técnica para redação já neste primeiro parágrafo? Trouxemos aqui um fato do passado que irá nos dar um encaminhamento para os próximos argumentos nos parágrafos que se seguem.

Já no segundo parágrafo, poderíamos trabalhar a segunda onda feminista: o movimento dos anos 60 e 70, o qual exigia pagamentos iguais a homens e mulheres, direitos sexuais e reprodutivos (como o uso da pílula) e luta contra a violência doméstica. Mais uma vez, é importante relacioná-lo à tese central: o machismo é construído historicamente e com o passar dos anos, muda suas lutas e formas de resistência.

Finalmente, no terceiro parágrafo do desenvolvimento da nossa redação, poderíamos abordar a terceira onda feminista: o feminismo interseccional, que discute além de gênero, opressões de classe, étnicas e até mesmo de sexualidade, como a  inclusão de mulheres transgênero ao movimento.

E como concluir esse texto? Reafirmando a tese central – a opressão de gênero é historicamente construída – e propondo medidas de intervenção, as quais poderiam ter como base as reivindicações de cada onda do movimento feminista, que apesar de ter conquistado inúmeros direitos civis, ainda encontra resistência e luta.
Você percebeu os eventos cronológicos permeando toda a linha de pensamento que encaminha essa redação até a conclusão? Legal, não é? Agora, para reforçar ainda mais esta técnica para redação, vamos ver como uma vestibulanda a utilizou:

Exemplo desta técnica para redação:

A evolução feminina
Em sua teoria das ideias, Platão reconheceu razão e capacidade às mulheres bem como o dever do Estado de formar e educar suas mulheres. Já seu principal discípulo, Aristóteles, sedimentou uma visão distorcida da mulher, que predominou durante toda a Idade Média.
Na Grécia, confinada ao gineceu, a situação da mulher era das mais insignificantes e obscuras. Já em Roma, as mulheres viviam no atrium e eram iguais em dignidade à seus maridos, porém não podiam exercer cargos públicos. Contrapondo-se a essas, a mulher egípcia gozava de mais honrarias e poderes do que as mulheres de toda a antiguidade: ocupava posição notória na hierarquia social, compartilhando com o chefe de família todos os privilégios, chegando a suceder-lhe no trono em muitas dinastias. Sua natureza fecundante era divinizada.

Mesmo com as conquistas das liberdades individuais na revolução Francesa, a situação da mulher continuou sendo de inferioridade e marginalização. Com o advento da Revolução Industrial e a consequente supressão do proletariado feminino, o mundo assistiu à guinada das mulheres perante as manifestações da vida social.

Em oito de março de 1857, centenas de operárias, reivindicavam o direito à licença-maternidade, a redução da jornada de trabalho, e salários iguais aos dos homens, quando muitas delas foram queimadas em uma fábrica têxtil de Nova Iorque. Tal data foi instituída pela Unesco, como o Dia Internacional da Mulher.

Hoje, apesar da participação da mulher na vida social e política e com a obtenção de direitos à cidadã, garantidos pela Constituição, ela ainda sofre com o apartheid feminino, ganhando menos que os homens e exercendo dupla função – casa e trabalho -.Visto que a evolução ocorreu, mas a visão aristotélica ainda perdura.

Análise da Redação

Como você pode ver, na introdução a autora contrapõe os conceitos de Platão e Aristóteles em relação à figura da mulher na sociedade. Fazendo isso, ela utiliza um fato cronológico para introduzir suas ideias e aplica esta importante técnica para redação.

Contudo, não deixa claro qual seria a sua tese em relação a esse posicionamento. Esse é o maior risco de teses cronológicas, não basta apresentar fatos históricos, é necessário ter um posicionamento crítico claro em relação a eles.

Já no segundo e terceiro parágrafos, há apenas a listagem de fatos históricos sem uma análise aprofundada ou defesa explícita de um ponto de vista. Seria interessante relacionar esses fatos ao cenário da mulher atual ou ao menos estabelecer uma relação mais coerente entre eles: qual é o objeto da listagem? O que se pretende defender? Dessa maneira, não basta apenas usar a técnica para redação, pois o avaliador espera uma comparação com o contexto atual.

Finalmente, no quarto parágrafo, é citado o dia internacional da mulher. Esse seria um excelente momento para comparar a situação profissional das mulheres hoje em relação a essa época. As mulheres negras e brancas possuem o mesmo acesso ao mercado de trabalho? A maternidade é encarada como parte do mercado de trabalho? Existem creches em empresas que possibilitem a presença de mães? É necessário atualizar a discussão. Como disse no início da nossa aula, não basta apenas citar fatos históricos, é preciso correlaciona-los com a atualidade.

Já na conclusão, é reafirmada a visão Aristotélica em relação à mulher, mas não é feita uma análise crítica, o que deixa o texto sem tese definida. Logo, a tese deve ser aliada aos argumentos históricos para gerar progressão da discussão e coerência interna, não apenas a soma de fatos. Lembre-se: é o autor do texto que deve direcionar o raciocínio do leitor. Isso também influencia na medida de intervenção, que devido à análise superficial, não aparece.

E aí, conseguiu entender melhor como usar a técnica para redação com os exemplos que te mostrei? Para compreender melhor, nada melhor do que tentar utilizá-la! Tente escrever sua redação a partir do tema proposto utilizando a tese por cronologia. Um dos segredos para escrever bem é treinar!

Para fixar o que você aprendeu desta técnica para redação, veja essas videoaulas:

 

 

Sobre o(a) autor(a):

Renato Luís de Castro é graduado em Letras/Francês pela Unesp-Araraquara, e mestrado em Estudos Literários também na Unesp, atualmente concluindo Licenciatura pela UFSC.