Ambiguidade e duplo sentido: significados, tipos e exemplos

A ambiguidade ocorre em casos em que frases ou expressões possuem mais de um sentido, mesmo estando gramaticalmente corretas. Aprenda mais nesta aula!

Duplo sentindo, ambiguidade, ironia, humor e crítica. Tudo isso é assunto dentro das Linguagens no Enem e nos vestibulares. Na Literatura, Machado de Assis é conhecido por sua ironia fina. Então vamos revisar agora alguns efeitos de sentido?

O que é ambiguidade

Quando o texto tem mais de um sentido sem que seja de maneira intencional, ocorre a ambiguidade.

Podemos definir, então, que ambiguidade é a indeterminação de sentido que certas palavras ou expressões nos trazem. Assim, o entendimento do enunciado se torna mais difícil.

Existe mais de um tipo de ambiguidade. Veja a seguir quais são.

Ambiguidade lexical

Veja um exemplo clássico de ambiguidade lexical:

Tirinha com ambiguidade
Tirinha do cartunista WillTirando. Fonte: http://www.willtirando.com.br/

E agora, estudante? Você já deve ter ouvido essa música, certo? Mas já se fez essa pergunta? Difícil saber quem criou a canção ou a traduziu pela primeira vez para o português – mas o assunto é outro.

Vamos entender onde mora a confusão. Uma “chuva forte” pode derrubar tanto uma aranha – substantivo feminino – quanto uma parede – substantivo feminino.

Quando a canção diz “veio a chuva forte / e a derrubou”, temos o pronome oblíquo a, que se refere a um substantivo feminino, correto? Pois é aí que mora a ambiguidade lexical.

Apesar da brincadeira, da forma que o verso da música foi escrito não é possível saber quem foi derrubada pela chuva forte. Depois, com a continuação da música, é que ficamos sabendo quem veio ao chão.

Ambiguidade estrutural

Às vezes, a frase está escrita gramaticalmente correta. No entanto, o posicionamento de alguma palavra pode causar a ambiguidade estrutural. E isso é que devemos evitar também.

Veja alguns exemplos de frases com ambiguidade estrutural:

  1. Proibido entrar na loja de boné.
  2. A moça viu o incêndio do prédio ao lado.
  3. O policial prendeu o ladrão em sua casa.

E aí? Conseguiu perceber a ambiguidade nos três exemplos? Então, vamos lá.

No primeiro exemplo, ou não se pode entrar numa loja que vende boné ou não se pode entrar na loja usando um boné. Uma das maneiras de corrigir é: “proibido entrar de boné na loja”.

No segundo exemplo de ambiguidade, a moça viu um incêndio estando no prédio ao lado ou presenciou um incêndio que ocorria no prédio ao lado. Para corrigir, podemos redigir assim:

  • A moça viu incêndio que aconteceu no prédio ao lado.
  • A moça estava no prédio ao lado e viu o incêndio.

Já na última frase com ambiguidade, não sabemos em que casa o policial fez a prisão, e isso se deve ao pronome possessivo sua. Vejamos como podemos corrigir essa ambiguidade:

  • O policial estava em casa e prendeu o ladrão.
  • O policial foi até a casa do ladrão e o prendeu.

Às vezes, não tem jeito, é preciso reescrever a frase e pôr algumas palavras em outro lugar para que o texto seja compreendido de forma correta, com a interpretação que se deseja.

O duplo sentido

Propaganda com duplo sentido
Fonte: Época, São Paulo: Globo, 264, 9 jun. 2003.

Calma! Foi isso mesmo que você leu, caro(a) estudante. Mas será que o contexto é o mesmo que comumente estamos habituados a entendê-lo? De onde vem esse estranhamento?

Você provavelmente estranharia o uso dessa expressão no cartaz porque ela é frequentemente utilizada com um sentido pejorativo, como um “palavrão”. Palavrão esse que, dentre os muitos significados, pode ser entendido como “pessoa desonesta, não confiável”.

A brincadeira reside aí mesmo: o anúncio pede para que quem lê seja um “filho da mãe”. Claro que, à primeira vista, o cartaz pode causar um desconforto.

Depois, com uma segunda leitura e um olhar mais atento, percebemos outro significado. A expressão foi escrita com o objetivo de que o leitor entenda a natureza como mãe, e participe de projetos para a preservação do meio ambiente.

Esse anúncio foi criado para divulgar o dia mundial do meio ambiente. Sendo assim, tem por objetivo despertar o interesse em ajudar na luta pela preservação da natureza. Como artifício, se utilizou do duplo sentido.

O que é duplo sentido

Em várias situações de interlocução, observamos que as pessoas fazem os mais variados usos de possibilidade das palavras ou expressões na hora de se comunicarem. É aí que entra o duplo sentido.

Dessa maneira, duplo sentido pode ser definido como a propriedade que certas palavras e expressões possuem de serem lidas e entendidas de duas maneiras diferentes.

Calma de novo!

Antes de continuarmos, vamos fazer um combinado, beleza? Só para facilitar ainda mais nossa revisão.

Por mais que duplo sentido e ambiguidade sejam “quase” sinônimos, vamos estabelecer uma pequena diferença aqui, tá bem? Ficamos assim acordados.

Duplo sentido será usado sempre que a possibilidade de mais de uma interpretação for proposital. Algo produzido por quem criou a sentença, o enunciado.

Por outro lado, a ambiguidade será usada sempre que a possibilidade de mais de uma interpretação for resultado de alguma construção linguística não intencional.

O duplo sentido serve para causar o riso

Isso mesmo. Geralmente, fazemos uso do duplo sentido para causar o riso, a curiosidade ou criar implícitos. Ora, como dominamos nosso idioma, devemos ser capazes de criar e reconhecer quando uma palavra ou expressão pode assumir mais de um sentido.

Duplo sentido e conotação

As propagandas são um grande exemplo para esse conteúdo. Sem contar que são muito comuns dentro do Enem e vestibulares. Uma dica: quando as propagandas aparecem no Enem e vestibulares, geralmente, tentam convencer o leitor a mudar ou adotar um comportamento.

Função da linguagem conativa ou apelativa

Assim como a propaganda que ilustra essa aula, os textos publicitários recorrem ao uso conotativo da linguagem a fim de convencer, persuadir quem os lê. Para saber mais sobre a linguagem utilizada na publicidade, veja nossa aula sobre funções da linguagem.

Propaganda
Fonte: Site Desencannes

A propaganda acima nunca existiu. Foi criada por um grupo de amigos publicitários chamado Desencannes. No entanto, de cunho exclusivamente humorístico, a ideia é clara.

A cola é tão boa que, como diz a propaganda, “cola tudo, até a tampa no tubo”. O duplo sentido está na expressão “cola tudo”, mas a quebra da expectativa vem a seguir com a informação até a tampa no tubo.

Uma cola que tem como característica “colar tudo” é muito útil, não é mesmo? Esse seria um excelente argumento – função conativa, persuasão – para a venda. Mas de que nos adiante se, depois de um primeiro uso, a tampa for colada ao frasco?

Ambiguidade e duplo sentido na redação

A ambiguidade ou o duplo sentido podem ser usados como recursos humorísticos ou com alguma crítica, mas é preciso levar em conta o público alvo e o contexto para que o objetivo seja alcançado.

Muitas vezes, em algumas redações, escrevemos os períodos, fechamos os parágrafos e não nos damos conta de que nosso texto ficou ambíguo ou com um duplo sentindo indesejado.

Por último, gostaria de lembrar que esses recursos devem ser evitados na redação do Enem e dos vestibulares – quando nos vestibulares se opta pela dissertação –, pois um dos critérios é a objetividade, que o texto seja sucinto.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula do canal Português Fácil: 

Exercícios:
Questão 01)    

Exercício sobre ambiguidade

HAGAR

A graça da tira decorre:

a) da existência de “ruído” na comunicação, efetuada por Hagar, sobre um relacionamento amoroso anterior ao atual.

b) de uma fala metafórica de Hagar que, ao dirigir-se diretamente à própria esposa, refere-se às qualidades de uma terceira pessoa.

c) da diferença do nível de linguagem usado pelo emissor para se dirigir aos interlocutores, fato que fez sugerir a existência de duas mulheres.

d) do não entendimento de um discurso ambíguo bastante comum, no qual se dirige a um interlocutor, referindo-se a ele como se fosse uma terceira pessoa.

e) da dificuldade de compreensão no discurso de Hagar, por parte do amigo Ed Sortudo, devido aos traços de formalidade da linguagem erudita.

Questão 02)    

Examine o cartum.

Exercício sobre ambiguidade
ITURRUSGARAI, Adão. A vida como ela yeah. Folha de S. Paulo, ago.2018.

O efeito de humor que se obtém no cartum decorre, principalmente,

a) da expressão facial da personagem.

b) do uso de uma ferramenta fora de contexto.

c) da situação rotineira exposta pela imagem.

d) da ambiguidade presente na expressão “quebre a cara”.

e) do emprego de linguagem popular.

Questão 03) (ESPM SP/2020)    

Exercício sobre ambiguidade 3

Observando o aviso acima, é possível constatar duas ocorrências linguísticas (uma ligada à transgressão gramatical e outra ligada à semântica). Essas ocorrências são respectivamente de:

a) concordância nominal e ambiguidade.

b) concordância verbal e ambiguidade.

c) flexão de gênero e polissemia.

d) ortografia e redundância.

e) regência verbal e léxico.

Gabarito:

  1. D
  2. D
  3. A

Sobre o(a) autor(a):

Anderson Rodrigo da Silva é professor formado em Letras Português pela UNIVALI de Itajaí. Leciona na rede particular de ensino da Grande Florianópolis.