O Movimento Literário do Classicismo e Luís de Camões

O Classicismo no Século XVI pinçou da cultura e da filosofia greco-romanas. O principal autor no idioma Português foi Luís de Camões, com Os Lusíadas

O nome “Classicismo” tem a ver com clássico. O movimento é cronologicamente próximo ao Renascimento, circunstância em que o ideal clássico greco-romano começa a reaparecer. E por que tinha ficado de lado?

Porque com a queda do Império Romano (476 d.C.), caem os valores clássicos, à medida em que o catolicismo cresce. Tal fenômeno de ressurgimento propicia a ocorrência, em Portugal, do Classicismo, cuja data inicial é 1527.

Introdução ao Classicismo

A data de 1527 marca o retorno do poeta português Sá de Miranda da Itália. Ele traz consigo uma aprendizagem: o dolce stil nuovo (doce estilo novo) ou a “medida nova”. Isto significa que, em língua portuguesa, começa a ser usado o verso decassílabo, ou seja, com dez sílabas poéticas. Esse verso é aplicado ao soneto. E que é um soneto?

O nome vem de sonetto (pequeno som), uma forma poética fixa, composta de quatro estrofes. Nessa forma, as duas primeiras estrofes têm quatro versos e as duas últimas, três. Esse jeito de escrever com quatorze versos surgiu, provavelmente, na Sicília, no século XIII. O criador foi Jácomo da Lentini, que, juntamente com nomes da chamada Escola Siciliana, como Jacomo Pugliesi, escrevia poemas amorosos.

Por falar em amor, o doce estilo novo foi bastante utilizado em poemas líricos, aqueles ligados à expressão de sentimentalismos.  Aliás, já que estamos falando de clássicos, os sonetos decassílabos traziam consigo uma valorização da ideia amorosa segundo Platão. Para o ele, o importante, no amor, não era o apelo sensual, mas moral, religioso, filosófico.

Daí vem a expressão “amor platônico”, que ocorre quando se tem qualquer tipo de relação afetuosa ou idealizada por alguém. Nessa situação em que o elemento sexual é excluído, cabem relações de amizade e amores não correspondidos.

Luís Vaz de Camões – o principal poeta do Classicismo

O mais importante poeta português do Classicismo, Luís Vaz de Camões (1524-80). Ele foi um dos adeptos do soneto em medida nova, carregada de neoplatonismo.

Vários elementos clássicos são vistos em seus textos, como a busca pela perfeição da forma (métrica e rima perfeita). Além disso, falar de sentimentos baseado em um filósofo grego é outro elemento clássico de sua obra. Por fim, podemos observar a presença da mitologia.

A seguir, leia um soneto lírico de Camões, que já foi questão do ENEM, para ilustrar o que estamos falando:

LXXVIII
Leda serenidade deleitosa,
que representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas, doce riso,
debaixo de ouro e neve, cor de rosa;
presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser fermosa;
fala de quem a morte e a vida pende,
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso nela alegre e comedido;
estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar-me da glória de rendido.

O tema do soneto é a figura feminina. O narrador, que na poesia pode se chamar “eu lírico”, descreve a mulher física e psicologicamente como sendo perfeita. Sem insinuar nada relativo à sensualidade ou sexualidade, considera-a como ser superior divino, de beleza incomparável.

O narrador enumera as virtudes da moça, em que sua beleza e seu comportamento estão ligados à moderação, ao equilíbrio. Em seguida, as duas últimas estrofes mostram um o sujeito que faz uma confissão. Ele não resiste aos encantos que descreve. Ou ainda: gosta de ser “rendido”.

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Dama com unicórnio (1506), de Rafael Sanzio. O quadro foi colocado em conjunto com o soneto LXXVIII, de Camões, em uma mesma questão do ENEM, no ano de 2012. Isto porque em ambas as obras há a idealização da mulher. Disponível em: https://virusdaarte.net. Acesso 06 abr. 2020.

Outro famoso soneto camoniano é aquele cujo primeiro verso diz: “O amor é fogo que arde sem se ver”. Este poema, diga-se de passagem, foi utilizado pela Legião Urbana na música “Monte Castelo”. Na verdade, ocorre na canção uma mescla de Camões com Bíblia (1 Coríntios 13:1). “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”.

Para realizar essa intertextualidade, a banda escolhe, então, dois textos antigos que tratam de amor. Paradoxalmente, o título se refere a um lugar da Itália onde a Força Expedicionária Brasileira lutou durante a Segunda Guerra.

Os Lusíadas

Além da poesia lírica, Camões tem um lado épico. E ele se resume a uma obra grandiosa: Os Lusíadas (1572), a principal do Classicismo.

Narrativa épica (ou epopeia) é aquela em que são contados os feitos de alguém ou de um povo. É justamente isso que o autor faz. Ele se propõe a escrever um canto de louvor ao povo de sua terra, os “lusíadas” (lusitanos, portugueses). Dessa forma, são mostradas a história e as grandes conquistas de Portugal. Tal nação se mostrou forte na virada do século XV para o XVI, por causa das navegações.

Entretanto, não é original o livro de Camões. Se a atitude do período era focar nos clássicos, o poeta embarca nessa. Para isso, observa que Homero havia enaltecido sua nação (Grécia), com Ilíada e Odisseia. Observa, também, que Virgílio havia falado das origens do povo romano, em A Eneida. Nasce em Camões, assim, o desejo de falar de seu próprio país.

Os Gêneros Literários e Os Lusíadas

A obra de Luís de Camões é um marco, um divisor de águas dentro da Literatura Portuguesa. Para você perceber a dimensão de  Camões e de Os Lusíadas veja um resumo da professora Camilla com a divisão dos gêneros literários e os grandes exemplos de cada um:

Viu que destaque tem Os Lusíadas, um grande épico. Têm mais aulas de literatura da professora Camila no canal do curso Enem Gratuito. Olha lá!

A jornada de Vasco da Gama às Índias

Para tanto, é narrada a viagem de Vasco da Gama às Índias. Essa foi uma jornada importantíssima para os portugueses, por ter inaugurado o lucrativo comércio com o Oriente.

Como pano de fundo, temos um contexto mitológico. Baco, o deus do vinho e senhor das Índias, rebela-se contra os navegadores. Em oposição a ele, se levanta Vênus, deusa do amor, que é afeiçoada pelos portugueses. Esse é o plano divinal da epopeia.

No plano terrenal, acontece a luta entre a frota de Vasco da Gama e os povos orientais da África e da Índia. Uma luta que, no plano religioso, lembra os enredos das medievais novelas de cavalaria, como A demanda do Santo Graal. Isso porque coloca em combate cristão contra muçulmanos.

E se nas aventuras de cavalaria o cristianismo saía sempre vencedor, em Os Lusíadas não será diferente. Depois de enfrentarem muitos perigos, impostos por Baco e pelos povos contrários, a bravura portuguesa tem êxito. Por isso, quando as embarcações estavam retornando à Europa, descobrem a “Ilha dos Amores”. Essa ilha Vênus lhe deu como prêmio pelos atos corajosos cometidos.

Para finalizar sua revisão, veja esta videoaula sobre Classicismo:

Resolva os exercícios sobre Classicismo:
01) (Mackenzie) Assinale a alternativa correta sobre Camões:

a) Além de usar metros mais populares, utilizou-se da medida nova, especialmente nas redondilhas que recriam, poeticamente, um quadro harmônico da vida e do mundo.

b) O tema do desconcerto do mundo é um dos aspectos característicos de sua poesia, presente, por exemplo, nos sonetos de inspiração petrarquiana.

c) Introduziu o estilo cultista em Portugal, em 1580, explorando antíteses e paradoxos nos poemas de temática religiosa.

d) Autor mais representativo da poesia medieval portuguesa, produziu, além de sonetos satíricos, a obra épica Os lusíadas.

e) Influenciado pelo Humanismo português, aderiu ao cânone clássico de composição poética, afastando-se, porém, das inovações métricas e dos modelos greco-romanos.

02) (EsPCEx/2019) Em relação ao Classicismo, que se desenvolveu durante o século XVI, marque a alternativa correta.

a) Esse movimento literário possibilita a expressão da condição individual, da riqueza interior do ser humano que se defronta com sua inadequação à realidade.

b) A poesia dessa época adota convenções do bucolismo como expressão de um sentimento de valorização do ser humano.

c) Os poetas pertencentes a esse período literário perseguiam uma expressão equilibrada, sóbria, capaz de transmitir o domínio que a razão exercia sobre a emoção individual, colocando o homem como centro de todas as coisas.

d) Os autores dessa estética literária procuraram retratar a vida como é e não como deveria ou poderia ser. Perseguem a precisão nas descrições, principalmente pela harmonização de detalhes que, somados, reforçam a impressão de realidade.

e) A poesia desse período passa a ser considerada um esforço de captação e fixação das sutis sensações produzidas pela investigação do mundo interior de cada um e de suas relações com o mundo exterior.

03) (Faceres/2018) Leia o trecho do samba-enredo da escola São Clemente, em 2018, e observe a imagem para responder a questão.

Vem ver! Convidei Debret
Pra pintar o desfile do meu carnaval
A arte neoclássica impera
No Brasil colonial
D. João! Em nobres traços vê inspiração
E faz um Rio à francesa
Erguendo os pilares do saber
Emoldurando… a exuberante natureza
Onde toda forma se mistura
Na mais perfeita arquitetura (…).

(Enredo: “Academicamente popular”. Compositores: Ricardo Góes, Flavinho Segal, Naldo, Serginho Machado, Fabiano Paiva, Igor Marinho e Gusttavo Clarão).

classicismo-pintura-jean-baptiste-debret

O estilo neoclássico, mencionado no terceiro verso, transpareceu na pintura de Debret. Esse estilo se caracterizava por:

a) Crítica das mazelas sociais do país, denunciadas por meio das pinturas enviadas à Europa.

b) Expressão do carnaval, pois o motivo principal das obras eram as escolas de samba.

c) Inspiração na pintura clássica greco-romana e idealização dos índios, com traços heroicos.

d) Inspiração egípcia, pois as figuras apareciam com a cabeça de perfil e o torso de frente.

e) Expressão do modernismo, que mesclava cultura local com vanguardas estrangeiras.

GABARITO: 01) B; 02) C; 03) C.

Sobre o(a) autor(a):

Alencar Schueroff é doutor em Literatura pela UFSC e professor em pré-concursos há 20 anos.

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